Emoção poética

O teatro de Atenas possuía 15.000 assentos, e a participação nas representações era obrigatória: nos únicos quatro dias das Grandes Dionísias, todos os cidadãos participavam da procissão dionisíaca, assistiam aos concursos líricos dos corais e escutavam pelo menos 20.000 versos das 15 ou 17 obras teatrais que o programa incluía. Um ateniense de quarenta anos já havia assistido a pelo menos 300 encenações teatrais de dramas e comédias de nível tão elevado, que são estudadas e recitadas até hoje no mundo inteiro. (A comoção dramática, a leveza de espírito e a emoção poética condizem com o ócio criativo.)
— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 6: O homem descobre a sabedoria e inventa o ócio

O Teatro de Dionísio em reconstituição do século XIX.

O Teatro de Dionísio em reconstituição do século XIX.

O Teatro de Dioniso, visto do alto da Acrópole, com parte da moderna Atenas ao fundo

O Teatro de Dioniso, visto do alto da Acrópole, com parte da moderna Atenas ao fundo

As ruínas do Teatro de Mileto.

As ruínas do Teatro de Mileto.

 

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In the thundercloud of a common crisis

The bird that I hope to catch in the net of this play is not the solution of one man’s psychological problem. I’m trying to catch the true quality of experience in a group of people, that cloudy, flickering, evanescent – fiercely charged! – interplay of live human beings in the thundercloud of a common crisis. Some mystery should be left in the revelation of character in a play, just as great deal of mystery is always left in the revelation of character in life, even in one’s own character to himself. This does not absolve the playwright of his duty to observe and probe as clearly and deeply as he legimately can: but it should steer him alway from “pat” conclusions, facile definitions which make a play just a play, not a snare for the truth of human experience.

— Tennessee Williams: Cat on a Hot Tin Roof – Act Two [rubrica do autor]

Tommy Lee Jones and Jessica Lange in Cat on a Hot Tin Roof (1985)

Tommy Lee Jones and Jessica Lange in Cat on a Hot Tin Roof (1985)

Paul Newman and Elizabeth Taylor in Cat on a Hot Tin Roof (1958)

Paul Newman and Elizabeth Taylor in Cat on a Hot Tin Roof (1958)

exercício do conflito

exercício do conflito

Não quero amar; se o fizer que me enforquem.

BIRON

(…)

Pelo Senhor! Este amor é tão furioso quanto Ajax; mata carneiros, como me mata; logo, não passo de um carneiro. Mais uma boa conclusão. Não quero amar; se o fizer que me enforquem. Palavra de honra, não o quero. Ah! Mas aqueles olhos. Por esta luz, se não fossem os olhos, não a amaria. Sim, é só por causa daqueles dois olhos. O certo é que não faço outra coisa no mundo, se não mentir pelos gorgomilhos. Pelo céu, estou amando! E com isso aprendi a rimar e a ser melancólico; aqui está parte das rimas, e aqui a melancolia. Bem; a estas horas ela já está de posse de um dos meus sonetos; o bobo o levou, o louco o escreveu, a senhorita ficou com ele.

(…)

– William Shakespeare: Trabalhos de Amor Perdidos – Ato IV – Cena III

 

Pelo céu, estou amando! E com isso aprendi a rimar e a ser melancólico

Pelo céu, estou amando! E com isso aprendi a rimar e a ser melancólico

Virtudes do amor e do intelecto

Virtudes do amor e do intelecto

no hay plazo que no llegue ni deuda que no se pague

D. GONZALO.   Estos son nuestros manjares. No comes tú?

D. JUAN.            Comeré, si me dieses áspid y áspides cuantos el infierno tiene.

D. GONZALO.   También quiero que te canten.

CATALINÓN.   Qué vino beben acá?

D. GONZALO.   Pruébalo.

CATALINÓN.   Hiel y vinagre es este vino.

D. GONZALO.   Este vino exprimen nuestros lagares.

(Cantan.)            Adviertan los que de Dios jugan los castigos grandes, que no hay plazo que no llegue ni deuda que no se pague.

CATALINÓN.   Malo es esto, vive Cristo!, que he entendido este romance, y que con nosostros habla.

D. JUAN.            Un yelo el pecho me parte.

(Cantan.)            Mientras en el mundo viva, no es justo que diga nadie, “Qué largo me lo fiáis!”, siendo tan breve el cobrarse.

– Tirso de Molina: El Burlador de Sevilla

Mozart-Da Ponte: Don GiovanniThe Peabody Opera Theatre. Photo by Edward S. Davis

Mozart-Da Ponte: Don Giovanni. The Peabody Opera Theatre. Photo by Edward S. Davis

 

“Tan largo me lo fiáis”

“Tan largo me lo fiáis” 

por el momento no le preocupa

the bench

PETER
(His furry and self-consciuousness have prossessed him) It doesn’t matter. (He is almost crying) GET AWAY FROM MY BENCH!

JERRY
Why? You have everything in the world you want; you’ve told me about your home, and your family, and your own little zoo. You have everything, and now you want this  bench. Are these the things men fight for? Tell me, Peter, is this bench, this iron and this wood, is this your honor? Is this thing in the world you’d fight for? Can you think of anything more absurd?

PETER
Absurd? Look, I’m not going to talk to you about honor, or even try to explain it to you. Besides, it isn’t a question of honor; but even if it were, you wouldn’t understand.

JERRY (Contemptuously)
You don’t even know what you’re saying, do you? This is probably the first time in your life you’ve had anything more trying to face than changing your cats’ toilet box. Stupid! Don’t you have any idea, not even the slightest, what other people need?

– Edward Albee: The Zoo Story

is this bench, this iron and this wood, is this your honor?

is this bench, this iron and this wood, is this your honor?

what other people need?

what other people need?

o absurdo do american way

a máscara absurda do american way

A fábula e a galhofa de todo o mundo

HARPAGON – E poderia eu saber, Mestre Joaquim, o que dizem de mim por aí?…

JOAQUIM – Talvez, patrão, se eu tivesse a certeza de que não se zangaria…

HARPAGON – Mas eu não me zangarei, Mestre Joaquim… Ao contrário… Terei um grande prazer em ouvir a opinião alheia a meu respeito…

JOAQUIM – Visto que insiste, eu direi francamente que o senhor é motivo para todos os deboches … Que ouvimos, em todos os lugares, mil pllhérias a seu respeito… Que mil e uma anedotas circulam sobre as suas atitudes íntimas… Um diz que o senhor faz imprimir, secretamente, falsos almanaques do ano, para dobrar dos dias de jejum e de vigília, afim de economizar na alimentação dos seus criados… Outro afirma que sempre que vai pagar ordenados ao pessoal doméstico o senhor faz chicana e prejudica nas contas… Este conta que certa vez o senhor processou um gato que roubou da cozinha um pedaço de carneiro… Este outro, que o senhor foi supreendido, uma noite, a roubar a aveia de suas próprias cavalariças e que o seu cocheiro nessa época, estando no escuro, não pôde reconhecer o ladrão e deu-lhe uma formidável surra… Que quer mais, patrão?… Não podemos entrar num fornecedor sem ouvir histórias… O senhor é a fábula e a galhofa de todo o mundo… E nunca falam do senhor sem empregar palavras duras: avarento, chicaneiro, ladrão…

HARPAGON  (agredindo-o) – E você é idiota, cretino, vagabundo, malcriado!…

Molière: O Avarento

 

E você é idiota, cretino, vagabundo, malcriado!

E você é idiota, cretino, vagabundo, malcriado!

farsas, manipulações e outros clichês humanos

farsas, manipulações e outros clichês humanos

 

Mal pior que a desgraça

“Se há um mal pior que a desgraça, coube esse mal ao infeliz Édipo!” – Sófocles: Édipo Rei

Manda-me para fora deste país o mais depressa possível! Para um lugar onde ninguém me veja, nem possa dirigir a palavra a nenhum ser humano!

Manda-me para fora deste país o mais depressa possível! Para um lugar onde ninguém me veja, nem possa dirigir a palavra a nenhum ser humano!

 

“(…) tu somente és teu próprio inimigo.” – TIRÉSIAS, em Édipo Rei, de Sófocles

"tens os olhos abertos ã luz, mas não enxergas teus males"

“tens os olhos abertos ã luz, mas não
enxergas teus males”

“Tuas ambições, ergueste-as bem alto, e chegaste a possuir a mais promissora riqueza. Ó Júpiter! Só ele pôde vencer a horrenda Esfinge, de garras aduncas e de cantos enigmáticos e assim apresentou-se diante de nós como uma torre de defesa contra a morte. Desde então, ó Édipo, nós fizemos de ti nosso rei, e, consagrado pelas mais altas honrarias, foste o senhor supremo da poderosa Tebas.”  – CORO, em Édipo Rei, de Sófocles

Só ele pôde vencer a horrenda Esfinge, de garras aduncas e de cantos enigmáticos

Só ele pôde vencer a horrenda Esfinge, de garras aduncas e de cantos enigmáticos

 

Édipo Rei

O pequeno-grande mito ancestral das histórias trágicas