Careta no espelho

Black Swan

Black Swan

Não tenho certeza se acontece com muita gente, mas sempre faço caretas diante do espelho e depois  sempre saio achando que tem coisas muito estranhas por trás do reflexo daquele rosto.  Maluca… maluca… maluca….

Quando meu irmão era pequeno e brincava de encarar até não aguentar e rir, fiz uma experiência horrível. Ficamos nos encarando e me veio a idéia idiota de fingir uma expressão de raiva. Sustentei a cara de malvada e, por fim, ele parou de sorrir e fez uma cara de medo e tristeza. Crianças enxergam e acreditam naquilo que percebem atrás dos olhos. Será que fingi mesmo ou sou uma vaca má lá no fundo do poço da alma?

Acho que estamos sempre ao ponto de alguma coisa e ficamos por lá mesmo. A ponto de. Como se guardássemos uma multidão de almas penadas que de vez em quando escapam. É a porção de verdade nos mitos de guerreiros que devoram almas dos rivais. Quem somos eu?

Fiquei cismada se o filme do Aronofsky era sobre os bastidores de uma companhia de ballet, pois acho chatão isso. Mas, que bom, não é isso. Fiquei até com vontade de rever O Lago dos Cisnes, que sempre achei meio chato. É um clássico de repertório com todas as poses, saltos e giros que simbolizam o próprio ballet clássico. Só que é um tanto maçante ver a bailarina pra lá e pra cá dando passinhos curtos na ponta da unha do dedão e simulando as asas do cisne com os braços se agitando por uma eternidade.

A bailarina (Natalie Portman) ensaia diante do espelho. Faz sua maquiagem, piruetas, treina olhares e expressões. De repente, pode dar uma de Alice e invadir seu reflexo. Se refugiar nele e se ausentar da mãe super protetora (Barbara Hershey), fugir das garras do coreógrafo (Vincent Cassel). No reflexo, ela parece perfeita. Ela morde, cai na balada, se embriaga e passeia pelo bosque selvagem do sexo. A moça que é um cisne. Moça que se veste de rosa, mas não consegue escapar de sua metamorfose em um cisne branco e em um cisne preto. Me veio um frio na espinha aquele sangue no olho do cisne negro de Portman.

Até onde se aventura a alma da bailarina no espelho?

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EVA YERBABUENA. O arrebatamento em gestos mínimos

Eva Yerbabuena

Eva Yerbabuena

 

Dança flamenca pode ser uma parada extremamente cafona. Aqueles vestidos cheios de babados estampados de preto com bolinhas vermelhas ou branco com bolinhas laranjas… Minha viagem à Espanha em 98 teve uma baita frustração com a apresentação de um suposto espetáculo de flamenco numa casa de shows no Parque del Retiro, em Madri. O que assisti foi um horrendo show tipo “Plataforma”, com dançarinos atuando sobre um palco com linóleo e música pré-gravada. Enfim… falta uma viagem a Sevilha para ver flamenco de verdade. 

O fato é que se estabeleceu um clichê sobre o gênero no imaginário da humanidade. Tem um balé do grupo francês Montalvo-Hervieu que apresenta um quadro muito engraçado com uma bailarina de flamenco e um outro carinha tentando acompanhá-la. Ela sapateia com raiva gritando “- Baila, hombre! Baila Baila!” Como se no universo da dança, as bailarinas de flamenco representassem a mulher temperamental, sempre com a sombrancelha erguida, a testa franzida, esperneando de raiva.

Mas eu acho uma das formas de arte mais refinadas que uma civilização pode produzir. Para começar, é resultado de manifestações culturais de diversas etnias. E ainda aglutina outras modalidades artísticas, pois conta com o som dos cantantes, guitarristas, palmas… Aliás os bailarinos flamencos também são músicos. Não só dançam como também “fazem” a música com o próprio corpo. Uma amiga bailarina me disse uma vez que dançar é “ser” música. E no flamenco, isso é mais extremo que no balé clássico. O sujeito dança ao sabor da música (assim como nos silêncios também…) e ainda usa as palmas, estala os dedos, bate as castanholas e os pés para produzir música.

E ainda tem a arte da confecção do vestuário. Os vestidos (nem sempre com babados…), acessórios de cabeça, sapatos, tudo compõe a cultura flamenca.

“Lo mejor de la noche es el silencio, porque en él se descubre, o que la luz no tiene la importancia que creemos, o que en la oscuridad la vida es más intensa. ”

Essa frase, retirada do site de Eva Yerbabuena, é parte do texto que sumariza o espetáculo Santo y Seña, que sua companhia de dança apresentou no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em maio deste ano. Eva é uma artista arrebatadora. Com movimentos mínimos e sob um feixe suave de luz, despeja toda uma tradição de séculos da rica cultura espanhola. Uma linhagem ancestral de grandes bailarinos, coreógrafos e músicos “fala” através de cada gesto de Eva. Ela dança nos sons e nos silêncios. Como se ouvisse algo vindo de um outro mundo ou um outro tempo. Seu corpo é o veículo mágico que nos transporta, através de sombras elegantes e misteriosas, à totalidade, à profundidade de uma cultura.

 

Eva Yerbabuena. Mistério dos gestos no silêncio.

Eva Yerbabuena. Mistério dos gestos no silêncio.

 

No programa do espetáculo, há um texto que ressalta o mistério da origem do flamenco. De fato, é uma prática misteriosa. Um dia desses, vou tomar coragem e me matricular numa aula para aprender um pouco dessa arte. É que tenho um certo medo… Tenho a impressão de que, quando ouvir a guitarra e as palmas tomando conta do ambiente, algum antepassado vai querer baixar por aqui… sei lá… É uma dança que compactua com os batimentos cardíacos e com o ritmo da respiração, e, ao mesmo tempo, subverte a ordem interna e externa do corpo. 

 

 

 

*LINKS PARA SABER MAIS 

Site Oficial de Eva Yerbabuena 

Site da companhia de dança Montalvo-Hervieu

Sobre a arte flamenca

 

 

*RECOMENDAÇÕES TOP3

1 – Dança – Companhia de Ballet Flamenco Eva Yerbabuena (vamos torcer para ela voltar sempre ao Brasil)

2 – Filmes – Trilogia Flamenca do diretor Carlos Saura (Amor Brujo, Bodas de Sangue e Carmen) com dois ícones da arte: Antonio Gades e Cristina Hoyos

3 – Dança – Falta assistir à Sara Baras. Essa é outra poderosa que aguardo ansiosamente! Veja no Youtube e no site oficial.