Orgulho e preconceito na era vitoriana

Da série TV, livros, chá e broa de milho

Episódio 1 – North and South, de Elizabeth Gaskell

North and South

BBC North and South

Uma recomendação aqui e outra ali em blogs sobre séries e livros me levaram a North and South. A série de 2004 da BBC é uma adaptação em 4 partes do romance de Elizabeth Gaskell. Nunca tinha ouvido falar da autora… Enfim, pode-se gostar tanto de livros e continuar ignorante para sempre. Mas isso é até bom. Depois de já ter visto a série, não resisti e procurei numa livraria de onde saí sem desgrudar os olhos do livro.

Gaskell foi contemporânea e do mesmo círculo literário de Charles Dickens. Ela escreveu uma biografia de Charlotte Brontë. A admiração pela autora de Jane Eyre motivou homenagens como o nome Thornton (personagem masculino principal de North and South) que também nomeia a localidade em que Charlotte nasceu, em Yorkshire.

Há elementos evidentes de Orgulho e Preconceito em Norte e Sul. A sociedade inglesa mudara bastante desde os tempos de Jane Austen até a era vitoriana de Gaskell. Mas a dinâmica do romance de Austen marcado pelas primeiras impressões negativas entre uma dama e um cavalheiro, e que vão se resolver com o tempo, se renova em Gaskell. Dinâmica essa, aliás, eterna e recorrente na literaruta. A ascenção de uma nova classe de ricos industriais na região norte da Inglaterra modificou o cenário social do país e novas modalidades de orgulho e preconceito surgiram.

Tanto Austen quanto as irmãs Brontë e Gaskell foram filhas de párocos e refletiram em suas obras sobre questões de suas épocas, como a condição feminina e as distinções de classe. Mas Gaskell vivenciou em especial uma nova realidade inglesa. A autora viveu em Manchester para onde mudou-se depois do casamento com William Gaskell. A próspera metrópole industrial do norte da Inglaterra é retratada em Norte e Sul sob o nome fictício de Milton. O conflito cultural entre os ingleses do sul e do norte tempera a trama do livro, em que a heroína Margareth Hale muda-se com sua família da idílica aldeia Helstone para a cinzenta Milton. O pai, um ex-pároco da igreja anglicana renuncia ao cargo confortável para tentar a vida, em condições bem mais modestas, como tutor em Milton. Nesse cenário, os valores tradicionais da família Hale contrastam com os novos modos da ascendente classe de industriais ingleses. Para Margareth, criada entre a agrária Helstone e a aristocrática Londres, um industrial não passa de um novo comerciante.

North and South

Elizabeth Gaskell: Norte e Sul

Margareth é apresentada a John Thornton, aluno de seu pai e proprietário do moinho de algodão Marlborough. John é um empreendedor orgulhoso e agressivo, que construiu sua fábrica do zero e tornou-se um dos cidadãos mais ricos e respeitados de Milton. Além de ser um partidão. Mas sua mãe, a senhora Hannah Thornton (vivida na série pela ma-ra-vi-lho-sa Sinèad Cusak), não vai facilitar para qualquer sulista esnobe se tornar sua nora.

A outra face de Milton, que se opõe à da prosperidade de seus industriais, é a da miséria de seus operários (outra nova classe social). Gaskell transporta para o romance sua experiência como esposa de um pastor em Manchester, onde conviveu com membros de todas as classes da congregação local. As condições insalubres das fábricas e das habitações dos operários, as greves, a fome e as doenças. Tudo faz parte da nova vida de Margareth em Milton. E esse lado sombrio do norte alimenta a péssima impressão de Margareth em relação a Thornton. Como um cavalheiro pode aceitar esse estado de coisas?

Após uma vida tranquila em uma paróquia do campo por mais de vinte anos, Mr. Hale via algo de fascinante naquela energia que vencia dificuldades enormes com facilidade. O poder das máquinas de Milton, o poder dos homens de Milton, impressionavam-no  por sua grandeza, à qual ele se rendia, sem ter a preocupação de inquirir sobre os detalhes do seu funcionamento. Mas Margareth saía menos, não conhecia tanto sobre as máquinas e os homens, via menos daquele poder de uso público. Quando isso aconteceu, ficou impressionada com um ou dois que, além de atingirem multidões de pessoas, podiam sofrer intensamente pelo bem de muitos. A questão sempre é: será que fora feito todo o possível para minorar os sofrimentos daqueles poucos? Ou, no triunfo da multidão, seriam os fracos pisoteados , ao invés de serem gentilmente afastados do caminho do vencedor, a quem não tinham condições de acompanhar na sua marcha? Elizabeth Gaskell: Norte e Sul, capítulo 8, Saudade de Casa, página 56, edição bilíngue da Landmark.

Elizabeth Gaskell

Elizabeth Gaskell retratada por George Richmond (1851)

Além do diferente contexto histórico, as tendências artísticas de época também distanciam as obras de Jane Austen e Elizabeth Gaskell. Norte e Sul tem a marca do romantismo, tão forte nas décadas centrais do século 19. A experiência do leitor é um mergulho nas  emoções  mais íntimas e intensas dos personagens. Os sonhos delirantes de John Thornton com Margareth e quando ele observa fascinado a pulseira da moça escorregando do braço para o punho são leves sopros de erotismo entre as asperezas da história. E a rendenção do humano através das dores, renúncias, sacrifícios e atitudes heróicas expandem os ideais românticos da escritora. O tempo de Gaskell era um pouco mais favorável que o de Austen para uma mulher se revelar como escritora, apesar de Elizabeth ter assinado por muito tempo seus livros como “da Sra. Gaskell” (sempre é necessária a identidade de casada, ou seja, ser respaldada por um Sr. alguma coisa). Mas seu texto, assim como o de Austen, possui uma fluência muito livre e inteligente. Me deixou muito curiosa para algum dia ler George Ellliot (Middlemarch) e Charlotte Brontë (Jane Eyre).

E agora ouso expor uma idéia que alimento desde quando terminei de ler Norte e Sul. Não resisti ao projeto de construir esse quadro comparativo entre esses dois grandes romances. Desculpe a minha pretensão. Então, lá vai. Mas cuidado, pois tem spoilers!

Quadro comparativo de Orgulho e Preconceito X Norte e Sul

A série de TV faz uma reconstituição caprichada da época. As sequências no moinho de Malrborough foram filmadas em um museu da indústria textil. São belas imagens de teares e operários trabalhando envolvidos pelos flocos flutuantes de algodão. Numa cena em que Margareth escreve uma carta para a prima Edith, vemos o interior da fábrica e ouvimos a personagem confessar que tinha visto o inferno e ele era branco como a neve. As ruas de Milton são cenários, se não me engano, e reconstroem em detalhes o mobiliário urbano, becos, sujeira e barulhos de uma metrópole industrial vitoriana.

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BBC North and South 2004

O roteiro é de Sandy Welch, que também escreveu as adaptações de Jane Eyre (2006) e Emma (2009) para a BBC. Sandy inventa algumas situações que não constam no romance, mas são eficientes para condensar a trama em 4 partes de uma hora. A sequência em que Margareth conhece Thornton, quando este repreende violentamente um empregado do moinho, não existe na obra original, mas funciona como um choque fulminante de culturas. As liberdades da roteirista não ferem a bela história de Gaskell. E até contribuem com ornamentos sutis como a cena do adeus de Thornton na janela. A neve cai e ele mormura: “look back at me…”

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BBC North and South 2004

O elenco é excelente, com destaque para os belíssimos Daniela Denby-Ashe (Margareth) e Richard Armitage (John Thornton) – os dois protagonizam o que para mim é um dos beijos mais bonitos da história do audiovisual – , Sinèad Cusak (Sra. Thornton) e Brendan Coyle (Nicholas Higgins, o operário grevista). Existe uma edição em DVD lançada no Brasil pela LogOn e que pode ser encontrada no site da Livraria Cultura. Mas já vi em algumas livrarias no Rio.

Richard Armitage, que vive John Thornton, tornou-se um novo mito da TV inglesa desde Colin Firth (este, para muitos, o Mr. Darcy definitivo). Quando North and South estreou, os acessos ao message board da série derrubaram o site da BBC. Uma multidão queria saber quem era aquele homem. Existe até um termo para a legião de fãs de do ator:  Armitage Army. Bom… se você aprecia belos seres humanos do gênero masculino e ainda não sabe quem é ele, poderá entender quando assistir North and South. Ou as temporadas 7, 8 e 9 de Spooks. Mas depois não diga que não te avisaram: vai se perder para sempre…

Outras séries da BBC sobre obras de Elizabeth Gaskell são “Wives and Daughters” (de 1999), com Keeley Hawes (a Zoe da série Spooks) e “Cranford” (de 2007 e 2009) com Judi Dench. Um dia, quem sabe, também aparecem por aqui dentro da série TV, livros, chá e broa de milho.

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+ Referências

Site da série na BBC.

Para saber mais sobre a autora e o romance.

Para ler North and South no Project Gutemberg

Site da Gaskell Society.

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Adendo 2012-12-14

Fico imaginando o que Lizzie Bennet responderia se estivesse à mesa do jantar da família Thorton (aquele da série de TV). Acho que se sairia melhor ao defender os menos afortunados. É mais ponderada do que indignada e daria o fora mais elegante do mundo. Ainda assim, acho que Margareth é daquelas criaturas que podem fazer as perguntas certas, sem medo. Franca e direta, mesmo sabendo do risco da humilhação.

lizzie e margareth e os jantares humilhantes

lizzie e margareth e os jantares humilhantes

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Reconstrução da aura

Copie Conforme

Cópia Fiel

“Mesmo a reprodução mais perfeita não possui o “aqui e agora da obra de arte”, sua existência única que contém em si a história da obra. Isso é a autenticidade que classifica o objeto como aquele objeto. A autenticidade escapa da reprodutibilidade.”  – Walter Benjamin, em “A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica”.)

Nos filmes americanos vê-se muitas personagens expressando coisas como: “quero algo real na minha vida” ou “pela primeira vez estou vivendo algo real”. Como se real mesmo fosse aquilo que é único, inédito e com algum frescor de experiência nova. Em Cópia Fiel (Copie Conforme), o iraniano Abbas Kiarostami descasca a superfície turva dessa noção e provoca um monte de perguntas. Então, desculpe pelo monte de perguntas espalhadas pelo post. É que o filme provoca isso. A culpa é do filme, que propõe um exercício sobre dicotomias entre conceitos difíceis de precisar. Real e imaginário. Autêntico ou cópia. Natural ou artificial. Verdadeiro ou falso.

A versão “natural” das pessoas é mais autêntica? Tem mais valor? Como é aquela boca sob o batom vermelho? Ela é mesmo morena ou loura? Fez escova marroquina? E aquele peito de silicone? Quantos mililitros turbinam o traseiro intrépido da popozuda? Que pele se esconde por baixo das tatuagens tribais?

William Shimell (aclamado cantor de opera inglês) interpreta James Miller, autor de um livro sobre autenticidade e falsificação de obras de arte. Elle é sua leitora e comparece a uma palestra do autor em uma cidade na Toscana. Ela se oferece para guiá-lo por um passeio pela região e os dois acabam passando um dia inteiro discutindo exaustivamente questões sobre arte e relações amorosas, e embaralhando identidades.

Elle, personagem de Juliette Binoche, se debate para não morrer nas águas agitadas – onde fez questão de mergulhar – que dividem sua vida original e a vida desejada. O que é mais original? Sua autêntica vida atordoada pela  dificuldade de diálogo com o filho e o marido ou a tarde na bela cidade de  Lucignano, onde quebra o pau em francês e inglês com o escritor? E aliás, será que somos mais verdadeiros quando nos expressamos em nossa própria língua?

CopieConforme

William Shimell e Juliette Binoche. Arte e vida real

As experiências com o real podem colidir de forma inesperada. O escritor conta um episódio que presenciou numa rua de Florença e que o inspirou a escrever o livro sobre a questão das cópias e os originais. Para sua surpresa e desconforto,  esse episódio é mais do que uma impressão da realidade. Ali, diante dele, estava a mulher (Elle) que, naquela outra ocasão, discutia com o filho na rua.

Para Elle, a realidade muitas vezes é só sobre dor e sacrifício. O prazer e a alegria são sonhos. Sonhos não são reais. Por essa via, pais vivem o mundo real enquanto os filhos, com sua natural rebeldia, ainda não despertaram.

Vale arriscar e forçar uma conversa sobre coisas que sua vida frustrada não propiciou? Seria melhor flertar com o que gostaria que fosse o real do que com o que sei que é? E aí me pergunto: o que desejo viver?

Elle e o escritor passeiam aleatoriamente pela cidade, entrando e saindo de museus, igrejas, restaurantes e dos diferentes papéis que assumem, ora de estranhos no parque, ora de marido e mulher. A artificialidade esperada do comportamento dos personagens é quase nula.  São verdadeiros na realidade e na imaginação.

No passeio, os dois conhecem um casal de noivos posando para o álbum de casamento. Os rituais como o do casamento, com suas alianças, tradições e supertições simulam uma vida sonhada pelos noivos e pelas famílias, comunidade, amigos. A cópia ou o objeto simbólico que representa uma coisa pode ser a salvação de quem deseja essa coisa. Como os ex-votos depositados em santuários da Bahia como pagamento de promessa ou agradecimento por uma graça.

“Com sua propensão para criar símbolos, o homem transforma insconscientemente objetos ou formas em símbolos (conferindo-lhes assim enorme importância psicológia) e lhes dá exoressão, tanto na religião quanto nas artes visuais.” – Aniella Jaffé, em O Simbolismo nas artes plásticas, capítulo de O Homem e seus Símbolos (organização de Carl G. Jung).

Copie Conforme

Experiência e Identidade

E tem Marie, irmã de Elle. Esta pede ao escritor que autografe um exemplar do livro com dedicatória para Marie. Elle trabalha numa galeria de arte, mas despreza as cópias que comercializa de grandes obras de arte. Esse desprezo alimenta mais ainda as discussões com o escritor. Devemos desprezar os pássaros que pousam e cantam sobre as esculturas do jardim do Museu Rodin só porque elas são cópias? Porque será que incomoda e até frustra tanto saber que aquele objeto é uma cópia?

Na obra citada no início do post, Walter Benjamin examina o fenômeno da “destruição da aura”. Uma percepção de perda de valor que as obras de arte sofreram com o advento das técnicas industriais de reprodução ou representação do real, como a fotografia, o cinema e as modernas formas de impressão.

Nesse cenário, Marie é que é mulher de verdade. Com seu genuíno marido gago que tem um jeitinho todo seu de pronunciar o nome da esposa. Marie não tem a menor vaidade. Ou pelo menos não a de exigir somente coisas originais, autênticas. Ela se contenta com a cópia. Não conheceu o escritor pessoalmente, mas vai ficar feliz com o livro autografado. Marie é ignorante? Tá feliz na caverna de Platão assistindo Domingão do Faustão e sonhando com o carro chinês que tem 7 lugares mas é mais barato que um utilitário coreano ou um sedan francês?

Daí, vislumbro que cobiçar o que é exclusivo, único, original  pode ser um traço de elitismo. Uma pequena (ou grande) ilusão de grandeza. O sentido de posse exclusiva permeia os delírios de consumo. Vamos patentear a beleza! Registrar o domínio universal http://www.originalidade.com.

Soube que, recentemente, uma charmosa e tradicional grife italiana fechou suas fábricas na Ásia e voltou ao modelo de produção artesanal em sua cidade de origem. É isso. Afinal, ostentar um “made in Italy” confere muito mais valor.

Nesse filme-jogo, Abbas Kiarostami coloca uns espelhos aqui e ali. Estamos na cena principal, mas podemos espiar o que acontece do lado de fora. O ator diz sua fala, mas também reflete o que seu interlocutor está “dizendo” quando não  o vemos. Os sons são captados com detalhes que invadem os diálogos. E os silêncios, como em outros filmes do diretor, falam alto.

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Para ler Walter Benjamin: A obra de arte na era da usa repodutibilidade técnica

Mais sobe os ex-votos

Para ler Jung: O Homem e Seus Símbolos

De Abbas Kiarostami, recomendo “Através das Oliveiras” e “Gosto de Cereja.