Revendo o Cavaleiro das Trevas

Porque tão sério? Ora, porque sim.

Eu sabia que ia gostar mais quando visse de novo. Após um ano, o Cavaleiro das Trevas estreou na TV. Realmente, não é um filme divertido.

Como disse o Coringa, what doesn’t kill you makes you… stranger. As falas dele são as únicas situações para rir.

I’m not a monster! I’m just ahead of the curve...

Sim, e tem também o momento quando o Alfred conclui que uma determinada situação pedia que Bruce Wayne usasse o Lamborghini… Fora isso, o filme é muito sério. Tem mais ironia que propriamente humor.

Why so serious?

Mas é aí que tá. É sério, mas sem um pingo de melodrama. A violência é essencial, mas econômica. Tem muita ação e fisga firmemente a atenção até o fim. Só que o filme desfila uma sucessão de dilemas morais. Salvar Rachel ou Harvey? Explodir a barca de prisioneiros ou de cidadãos livres? Deixar matar seu filho ou sua filha? Entregar a advogada aos criminosos ou deixar sua mãe morrer no hospital? Quebrar o sigilo telefônico coletivo para salvar vidas ou manter-se ético? Cara ou coroa? Ai! Só pergunta difícil… Minha cabeça dói…

O herói morcego, os mafiosos, o policial, o político, o prisioneiro, o promotor, o pai, os passageiros da balsa, o cientista. Todos têm de tomar partido. Fazer escolhas difíceis baseadas em valores frágeis. E o doido é se perguntar: será que vale a pena ponderar suas escolhas ou lançar uma moeda como faz o Duas Caras? Acho estranhamente genial e perturbador.

The Dark Knight Returns, de Frank Miller

The Dark Knight Returns, de Frank Miller

E acabei relendo o Cavaleiro das Trevas  (The Dark Knight Returns), de Frank Miller, obra de 1986, que reinventou o personagem e inspirou outras séries de HQs, assim como os filmes. Tinha esquecido de muita coisa. Inclusive a esculhambada que o Miller dá no comportamento dos telejornais. As bobagens surreais dos repórteres e apresentadores. E a Kelly, a nova Robin, é tão maneirinha. Muito bom quando ela se refere ao Arqueiro Verde como aquele “matusa”. Ou quando pergunta ao Batman: “Chefe, você vai me contar qual é o plano? Você vai morrer ou algo assim?”. E o irônico Alfred. Suas últimas palavras  “quão oportuno…”. Foi bom rever o traço do Millier, que influenciou uma pá de gente. As passagens de um quadro a outro, onde os balões de texto invadem os quadros seguintes, desconstruindo a narrativa visual tradicional. Ou quando as cores da bandeira americana passam para o quadro seguinte e colorem o escudo do Superman. Continua bom mais de 20 anos depois.

Blake canta a inocência e a experiência

Tracy Chevalier é a escritora que eu gostaria de ser se o fosse.

Viva Chama, de Tracy Chevalier

A luz da inocência

O lançamento mais recente da autora no Brasil chama-se Viva Chama (no original, Shining Bright). O título faz referência a um poema de William Blake. Mais uma vez, Tracy parte de uma personagem histórica e de detalhes de sua época para criar um romance, que me aprisionou por alguns bons dias de férias.

Na época do William Blake, sabe… não tinha Criança Esperança. Eh… na Inglaterra do final do século 18, ninguém achava nada de mais em mandar os filhos menores de 10 anos para trabalhar em fábricas de mostarda, onde eles se intoxicavam com a poeira amarela do condimento e podiam ficar cegos ou com doenças mentais. Não se dava muita importância para os pequenos. Lógico que as crianças de famílias ricas não estavam incluídas nessa história triste. Parece que a humanidade só começou a amar suas crianças muito tempo depois. Esse valor dito universal de que as crianças são o futuro, símbolo da esperança de um mundo melhor só se estabeleceu de verdade após a segunda guerra. Ou seja, tem muito pouco tempo. E mesmo assim, todos sabemos que essa história triste não acabou. Basta caminhar alguns minutos pelas ruas de Copacabana para perceber que o Rio é, em muitos aspectos, como a Londres de Dickens: suja e habitada por crianças que ninguém quer.

Retrato de William Blake por Thomas Philip

Mas a época de William Blake, Byron, Jane Austen, Napoleão e Goya foi contraditoriamente iluminada e sombria. Era o final do século das Luzes. O crepúsculo da era de Voltaire e Rousseau, da independência dos EUA e da Revolução Francesa. Foi quando inventaram o povo. Só que esse povo vivia nas sombras tenebrosas dos quadros de Goya.

Existe alguma sintonia entre as artes de Goya e Blake. Imagens que se expressam como poemas. Blake era um artista sensibilizado pelas luzes da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. No romance Burning Bright,  Tracy Chevalier imaginou as circunstâncias da criação de Songs of Innocence and Experience. A obra de Blake reúne poemas e ilustrações que são historias alegóricas sobre as virtudes, a inocência, o amor, a coragem. Vivo escrevendo sobre crianças corajosas. E dessa vez temos Jem Kellaway e Maggie Buttefield. Eles são os pequenos condutores da história e personificam o que teria inspirado em Blake a idéia sobre inocência e experiência como virtudes da vida.

Jem é da família que sai de Dorset e chega a Londres para tentar a sorte com a ajuda de Philip Astley. O conceito moderno que temos hoje do Circo, com picadeiro, acrobacias e tudo o que tem direito, foi popularizado por Philip Astley, outro personagem histórico, que fazia os espetáculos itinerantes pela Inglaterra e França. Thomas Kellaway, pai de Jem, é um fabricante de cadeiras especializado no estilo Windsor. Ele é encorajado por Astley a mudar para Londres, a capital do império britânico, com suas ruas, pontes e becos enevoados e perigosos. A família Kellaway se torna vizinha de William Blake, poeta, gravurista, místico e, para muitos,  louco. Na chegada a Londres, Jem conhece a destemida Maggie, que tem a mesma idade que ele. Juntos, viverão pequenas aventuras pela cidade e aprenderão com perplexidade sobre os mistérios, as maravilhas e as dores da vida, estimulados pelo poeta Blake, que admira a curiosidade e o destemor das duas crianças.

Tracy Chevalier, capa de Songs of Innocence and of Experience, O Ancião dos Dias (gravura), cadeira Windsor e botões Dorset

Tracy Chevalier, capa de Songs of Innocence and of Experience, O Ancião dos Dias (gravura), cadeira Windsor e botões Dorset

Como sempre, Chevalier faz um retrato encantador e detalhado de época. É fascinante a descrição da complicada tarefa de impressão de gravuras, das técnicas de fabricação das cadeiras Windsor, dos graciosos botões Dorset feitos pelas mulheres da família Kellaway e do mundo do circo na época de Phiip Astley. Um cenário riquíssimo para uma história apaixonante e singela.

Tyger Tyger. burning bright,
In the forests of the night;
What immortal hand or eye,
Could frame thy fearful symmetry?

Trecho de The Tyger, de “Songs of Innocence and of Experience (copy A, 1795 – British Museum)”


Leitura paralela

William Blake

Songs of Innocence and Experience

História do Circo

Mais História do Circo

Cadeiras Windsor

Dorset Buttons

Remarkable Creatures: novo livro da autora