O livro é nosso escudo e arma, a inteligência

The Vikings are coming!

The Vikings are coming!

Para quem não foi da tribo, esse é um verso do hino do bom e velho Colégio Pedro II. Tradicional celeiro de nerds do Rio de Janeiro. Estive lá por quatro anos. Posso esquecer de muitas coisas que aprendi por lá, inclusive a letra completa do hino. Mas esse trecho é meio que… uma síntese do que o CPII significou pra mim. Minha identidade, meu lema nerd. O mantra da garota metida a sabidinha.
Sei lá porque diabos fico tão curiosa em relação a coisas como a vida na Idade Média. Mas não é só o encantamento com histórias de princesas, cavaleiros e dragões. O interesse progrediu ao ponto de eu assistir aos filmes de O Senhor dos Anéis e identificar os materiais dos escudos, o formato dos elmos e as táticas de estocar o inimigo com espada curta nos confrontos em que os guerreiros ficam muito próximos ou quando vão formar a parede de escudos. E outro interesse insistente é sobre a história da Inglaterra.
A formação da maioria dos povos é resultado da sobreposição de várias culturas. Praticamente não há como provar que um determinado povo é realmente autóctone, ou seja, originário daquele território que habita. Enfim.. talvez todos sejamos originários da África, pois a vida deve ter começado lá,  e ponto. Depois disso, o que veio foi um festival de migrar pra lá e pra cá. Nossos índios das Américas provavelmente vieram das estepes mongóis e siberianas. Os hebreus saíram de Ur, na Mesopotâmia, para ocupar a Terra Prometida por Deus ali nas vizinhanças da Siria, Líbano e Egito. A história da Inglaterra não é diferente. Mesmo os celtas, que podem ser a civilização mais antiga a ocupar a ilha, não eram naturais de lá. E sequer é correto dizer que eles são um único povo. O ponto de vista da cultura clássica considerava que tudo o que não era grego ou romano era bárbaro. E podiam denominar esses estrangeiros como celtas, godos, pictos ou vândalos com critérios hoje duvidosos. É aquela velha dúvida, né? Ver pelas lentes das culturas hegemônicas não exatamente é conhecer alguma coisa.
Uthred se torna o Cavaleiro da Morte

Uhtred se torna o Cavaleiro da Morte

Mas na minha jornada nérdica de menina que tirava boas notas em  história geral, cheguei ao Bernard Cornwell. Antes, passei pela Barbara Tuchman e o excelente livro “Um Espelho Distante”, sobre o século 14 e a Guerra dos Cem Anos, a Peste Negra, o Cisma Papal, Chaucer, Bocaccio, os Plantagenetas e tudo mais. E também a biografia do Alexandre, o Grande, do italiano Valerio Massimo Manfredi. Essas obras me ensinaram bastante sobre porque e como se fazem as guerras. As motivações, os interesses e a loucura. Foi com essas leituras que aprendi que nas batalhas se matava os cavalos. Nos filmes, isso quase não aparece né? Mas não tem essa não. Porque a infantaria não mataria os cavalos dos inimigos? E tudo é muito sujo de sangue, tripas, fezes e urina. Muito fedor de medo e de morte. Insultos e gritos de guerra proferidos com forte bafo de cerveja ou hidromel. São momentos de histeria completa. Porque só mergulhados num pesadelo histérico e anabolizado por bebidas alcoólicas  que os guerreiros incorporavam os cavaleiros do apocalipse.
Nas Crônicas Saxônicas, o inglês Bernard Cornwell conta a saga de Uhtred, de Bebbanburg. Um saxão que, ainda menino, perde seu pai e a terra da qual é herdeiro em uma batalha com os dinamarqueses. Uhtred é sequestrado pelos invasores pagãos e passa a infância com eles, assimilando seus valores e aceitando o dinamarquês Ragnar como seu pai adotivo. Carrega o martelo de Thor num cordão no pescoço e aprende que o destino é implacável. Não se ganha guerras com rezas, diz ele repetidas vezes. Uhtred vai servir ao rei Alfredo, o Grande, que lutará para livrar a Inglaterra dos invasores dinamarqueses.
As crônicas saxônicas são sobre essa época de Alfredo e seus descendentes, mas a narrativa é feita pelo próprio Uhtred e ele me lembra outro personagem de Cornwell, o Dervel, da trilogia Crônicas de Arthur. Os dois têm muitas diferenças, mas representam, digamos, a essência do povo inglês em estágios distintos de sua formação. Dervel é o anglo e sua história se passa cerca de 5 séculos antes do Uhtred. Era quando a ilha deixava de ser britânica ou celta e passava a ser germânica ou anglo-saxã. Aliás, anglo-saxão é uma forma genérica de denominar mais que dois povos da europa continental. Tinha os anglos, saxões, frísios, jutos etc. Já, Uhtred é o representante da cultura anglo-saxã, já estabelecida na ilha que chama de England, e que defendem sua terra de outros invasores, os escandinavos, principalmente dinamarqueses. Esses eram chamados também de vikings, mas esse termo é atribuído aos invasores que pilhavam, tomavam as terras, estupravam e matavam. Outros que apenas faziam comércio eram só dinamarqueses mesmo.
Minha parede de escudos!

Minha parede de escudos!

Mas Dervel e Uhtred carregam valores muito característicos do povo inglês. Quem nunca ouviu a comparação entre os ditados “Deus ajuda a quem cedo madruga” e “The early bird catches the worm”? Pois é… todo o pragmatismo, a assertividade, a verdade, a honestidade, o preto no branco, o sim ou não, o mérito pelo esforço, todos esses valores são personificados por Dervel e Uhtred.
Reproduzo dois trechos do livro 1, “O Último Reino”, onde Uhtred faz reflexões sobre a vida e o destino. Nesse pequeno devaneio, o narrador deixa subir à tona toda sua alma de anglo-saxão.
“(…) lembrei-me da harpa de minha infância e de como as cordas estremeciam caso apenas uma fosse tocada. (…) pareceu que minha vida era feita de cordas, que se eu tocasse uma, as outras, mesmo separadas, fariam seu som. (…)  E todas essas pessoas separadas faziam parte da minha vida, cordas tocadas na harpa de Uhtred, e mesmo estando separadas afetavam umas às outras e juntas fariam a música da minha vida.
Pensamentos bobos, disse a mim mesmo. A vida é só a vida. Vivemos, morremos, vamos para o castelo de cadáveres. Não há música, apenas acaso. O destino é implacável.”

“(…) mas eu queria ver um padrão nos fios da vida. No fim encontrei um, e não tinha nada a ver com qualquer deus, e sim com as pessoas. Com as pessoas que amamos. Meu harpista está certo quando canta que sou Uhtred, o Doador de Presentes, Uhtred, o Vingador ou Uhtred, o Fazedor de Viúvas, porque é velho e aprendeu o que eu aprendi, que na verdade sou Uhtred, o Solitário. Somos todos solitários e todos procuramos uma mão para nos segurar no escuro. Não é a harpa, e sim a mão que a toca. “
Estou começando o terceiro volume, “Os Senhores do Norte”. Depois, volto para comentar mais.

Leitura avançada

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