Além da realidade aparente

“Como expressão de pensamentos não-convencionais originados no subconsciente, o Surrealismo sempre existiu nas artes. Artistas como Hieronymous Bosch, o pintor holandês de fantasias, William Blake, o pintor e poeta visionário inglês, e o alemão Caspar David Friederich, com suas estranhas e misteriosas paisagens, todos exploraram mundo situados além da realidade aparente.”

– Edmund Swinglehurst: A Arte dos Surrealistas

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MONSTER BRAINS Hieronymus Bosch

William Blake: The Night of Enitharmon's Joy, 1795.

William Blake: The Night of Enitharmon’s Joy, 1795.

Caspar David Friedrich: The Ruins of Teplitz Castle

Caspar David Friedrich: The Ruins of Teplitz Castle

Yves Tanguy: Untitled, 1933

Yves Tanguy: Untitled, 1933

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Blake canta a inocência e a experiência

Tracy Chevalier é a escritora que eu gostaria de ser se o fosse.

Viva Chama, de Tracy Chevalier

A luz da inocência

O lançamento mais recente da autora no Brasil chama-se Viva Chama (no original, Shining Bright). O título faz referência a um poema de William Blake. Mais uma vez, Tracy parte de uma personagem histórica e de detalhes de sua época para criar um romance, que me aprisionou por alguns bons dias de férias.

Na época do William Blake, sabe… não tinha Criança Esperança. Eh… na Inglaterra do final do século 18, ninguém achava nada de mais em mandar os filhos menores de 10 anos para trabalhar em fábricas de mostarda, onde eles se intoxicavam com a poeira amarela do condimento e podiam ficar cegos ou com doenças mentais. Não se dava muita importância para os pequenos. Lógico que as crianças de famílias ricas não estavam incluídas nessa história triste. Parece que a humanidade só começou a amar suas crianças muito tempo depois. Esse valor dito universal de que as crianças são o futuro, símbolo da esperança de um mundo melhor só se estabeleceu de verdade após a segunda guerra. Ou seja, tem muito pouco tempo. E mesmo assim, todos sabemos que essa história triste não acabou. Basta caminhar alguns minutos pelas ruas de Copacabana para perceber que o Rio é, em muitos aspectos, como a Londres de Dickens: suja e habitada por crianças que ninguém quer.

Retrato de William Blake por Thomas Philip

Mas a época de William Blake, Byron, Jane Austen, Napoleão e Goya foi contraditoriamente iluminada e sombria. Era o final do século das Luzes. O crepúsculo da era de Voltaire e Rousseau, da independência dos EUA e da Revolução Francesa. Foi quando inventaram o povo. Só que esse povo vivia nas sombras tenebrosas dos quadros de Goya.

Existe alguma sintonia entre as artes de Goya e Blake. Imagens que se expressam como poemas. Blake era um artista sensibilizado pelas luzes da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. No romance Burning Bright,  Tracy Chevalier imaginou as circunstâncias da criação de Songs of Innocence and Experience. A obra de Blake reúne poemas e ilustrações que são historias alegóricas sobre as virtudes, a inocência, o amor, a coragem. Vivo escrevendo sobre crianças corajosas. E dessa vez temos Jem Kellaway e Maggie Buttefield. Eles são os pequenos condutores da história e personificam o que teria inspirado em Blake a idéia sobre inocência e experiência como virtudes da vida.

Jem é da família que sai de Dorset e chega a Londres para tentar a sorte com a ajuda de Philip Astley. O conceito moderno que temos hoje do Circo, com picadeiro, acrobacias e tudo o que tem direito, foi popularizado por Philip Astley, outro personagem histórico, que fazia os espetáculos itinerantes pela Inglaterra e França. Thomas Kellaway, pai de Jem, é um fabricante de cadeiras especializado no estilo Windsor. Ele é encorajado por Astley a mudar para Londres, a capital do império britânico, com suas ruas, pontes e becos enevoados e perigosos. A família Kellaway se torna vizinha de William Blake, poeta, gravurista, místico e, para muitos,  louco. Na chegada a Londres, Jem conhece a destemida Maggie, que tem a mesma idade que ele. Juntos, viverão pequenas aventuras pela cidade e aprenderão com perplexidade sobre os mistérios, as maravilhas e as dores da vida, estimulados pelo poeta Blake, que admira a curiosidade e o destemor das duas crianças.

Tracy Chevalier, capa de Songs of Innocence and of Experience, O Ancião dos Dias (gravura), cadeira Windsor e botões Dorset

Tracy Chevalier, capa de Songs of Innocence and of Experience, O Ancião dos Dias (gravura), cadeira Windsor e botões Dorset

Como sempre, Chevalier faz um retrato encantador e detalhado de época. É fascinante a descrição da complicada tarefa de impressão de gravuras, das técnicas de fabricação das cadeiras Windsor, dos graciosos botões Dorset feitos pelas mulheres da família Kellaway e do mundo do circo na época de Phiip Astley. Um cenário riquíssimo para uma história apaixonante e singela.

Tyger Tyger. burning bright,
In the forests of the night;
What immortal hand or eye,
Could frame thy fearful symmetry?

Trecho de The Tyger, de “Songs of Innocence and of Experience (copy A, 1795 – British Museum)”


Leitura paralela

William Blake

Songs of Innocence and Experience

História do Circo

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Cadeiras Windsor

Dorset Buttons

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