Além da realidade aparente

“Como expressão de pensamentos não-convencionais originados no subconsciente, o Surrealismo sempre existiu nas artes. Artistas como Hieronymous Bosch, o pintor holandês de fantasias, William Blake, o pintor e poeta visionário inglês, e o alemão Caspar David Friederich, com suas estranhas e misteriosas paisagens, todos exploraram mundo situados além da realidade aparente.”

– Edmund Swinglehurst: A Arte dos Surrealistas

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MONSTER BRAINS Hieronymus Bosch

William Blake: The Night of Enitharmon's Joy, 1795.

William Blake: The Night of Enitharmon’s Joy, 1795.

Caspar David Friedrich: The Ruins of Teplitz Castle

Caspar David Friedrich: The Ruins of Teplitz Castle

Yves Tanguy: Untitled, 1933

Yves Tanguy: Untitled, 1933

La Biblioteca

Está vendo essa foto da Biblioteca do El Escorial?

A Biblioteca

A Biblioteca

Já esteve lá? Pois eu fui ao Escorial, vi a basílica, os túmulos da família real, salões, capelas, jardim do claustro e vários ambientes. Mas a biblioteca ficou de fora da visita… sei lá porque… Foi como nunca ter ido lá. Definitivamente, nunca estive lá. Só lamento.

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Ir ao Escorial e não visitar a Biblioteca é como ir a Roma e não conhecer a Capela Cistina. Mas essa é outra história, outra viagem frustrada e outro livro.

“La importancia otorgada a la Biblioteca esta en correlación con la que también dio Flipe II al Seminario y al Colegio a partir de 1579 (…). Pero además se explica por el prestigio que adquiria la Corona con una Biblioteca Real , que fuere el resumen de todos los saberes y la “reserva preciosa” de los códices originales.

– Guia de Visita Monasterio de San Lorenzo El Real de El Escorial. José Luis Sancho

Ah! A biblioteca do El Escorial...

Ah! Mas a Biblioteca do El Escorial…

A armadilha do tempo e do espaço

“The inhabitants of these living-quarters would appear to be monks, adherents of some unknown sect. Perhaps is their ritual duty to climb those stairs for a few hours each day. It would seem that when they get tired they are allowed to turn about and go downstairs instead of up. Yet both directions, though not without meaning, are equally useless.”

M.C. Escher: The Graphic Work

M.C. Escher Ascending and Descending (litograph, 1960)

M.C. Escher Ascending and Descending (litograph, 1960)

“Que acharia o senhor, perguntou ele, “de um povo que não dispõe de nenhuma palavra para expressar ‘tempo’? Minha gente não tem nenhuma palavra que signifique ‘atrasado’ ou ‘esperar’. Eles não sabem o que é esperar ou chegar atrasado.”

Norbert Elias: Sobre o tempo – depoimento de um sioux relatado por Edward T. Hall

A construção da noção do tempo

 

POZZO: Dumb. He can’t even groan.

VLADIMIR: Dumb! Since when?

POZZO: (suddenly furious). Have you not done tormenting me with your accursed time! It’s abominable! When! When! One day, is that enough for you, one day I like another day, one day he went dumb, one day I went blind, one day we’ll go deaf, one day we were born, one day we shall die, the same day, the same second, is that not enough for you?

Samuel Beckett: Waiting for Godot – Act II

(...) But at this place, at this moment of time, all mankind is us, whether we like it or not. Let us make the most of it, before it is too late!

Tradição, família e propriedade

Da série de posts ridiculamente atrasados…

O Ministério Fictício da Liberdade de Expressão adverte:

Esse post não pretende desrespeitar a opção sexual de ninguém. Seja hetero, homo, bi, tri ou multi-sexual. Não pretende afirmar que gays são caretas. Essa é apenas a expressão de uma rabugenta, que até entende a angústia da vida contemporânea cheia de escolhas, mas não se conforma com a noção de que sempre se acaba escolhendo as mesmas coisas.

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Is there any straight way to be gay?

Ai! Os clichês! As mesmas escolhas de sempre. Não importa a sua faixa etária, classe sócio-econômica, nível de escolaridade ou orientação sexual. Geral quer algo que dificilmente é o que se imagina: casar , ter filhos, ter família, um emprego estável, casa, carro, cachorro… Digo dificilmente porque não é o mesmo para todos e porque nem sempre é como se imagina. É bom para uma parte. Para a outra é só o que lhe restou. Ou é um estorvo. Estou falando sobre The Kids Are Alright  ou Minhas Mães e Meu Pai (???).

O filme me incomodou, mas não porque achei que assume um tom moralista, tipo “olha só como os homossexuais têm valores tão importantes quanto os dos héteros.” O que incomoda é a naturalidade com que retrata que tanto gays quanto straights podem se agarrar a valores convencionais. E o filme, não necessariamente critica ou enaltece os personagens por isso. Apenas conta a história.

Mas o que eu esperava, também, tola que sou? Que os gays fossem retratados como os supra sumos do “prafrentex”, revolucionários, transgressores, líderes de uma nova ordem de comportamento social? Olha aí a minha expectativa-clichê se manifestando…

Mas porque é tão comum na ficção que um casal de lésbicas seja necessariamente formado por uma figura masculina e outra feminina? Uma mulher se sente atraída por outra porque é uma mulher que gosta de mulher ou porque assume um papel de homem? Pode ser tanto um quanto outro caso, né? Mas porque se retrata tanto o clichê, ou seja, “a mulher + a marida da relação”? Seria porque a maioria opta por fazer tudo com a mesma forma de pão? Será mesmo??? Sei não… Mas que tédio, heim?

Sexualidade é uma coisa complexa. Mesmo para os tidos como “tão normaizinhos”. Imagine que você tem um amigo de infância, que namorou a garota mais bonita da escola. Com uma história pitoresca do primeiro beijo, das técnicas mirabolantes para criar as cantadas. Que casou apaixonado pela mulher. Como é que você pode ter certeza de que ele não gosta que ela pratique dominação violenta com ele? Ou de que ele não pensa em convidar a sogra para um ménage com a mulher? Ou que ele, no fundo, só goste de ver a mulher em ação com outro cara ou com outra mulher ou de vê-la se satisfazendo sozinha? Não existem fatos sobre sexualidade, porque não é possível abarcar tudo o que é possível nela. Então alguém pensa:  meus pais são um casal “normal” formado por um homem e uma mulher. Mas quais são as fantasias deles? Pode ser um fato que alguém ouviu seus pais gemendo e rangendo as molas da cama do outro lado da parede, mas no que eles estavam pensando? Estavam vivendo plenamente a experiência física ou fantasiavam estar com outros parceiros, em outro lugar, com outra idade? As possibilidades são infinitas. Mas a capacidade das pessoas escolherem ou aceitarem as opções dos outros parece ridiculamente limitada.

Julianne Moore e Anette Benning formam um casal. Elas têm dois filhos concebidos por inseminação artificial. Não entendi bem se a Moore pariu os dois ou se cada uma deu à luz um filho diferente. A filha toma a iniciativa de procurar o pai biológico ou doador, que também é pai do irmão. Esse cara é o Mark Rufallo. Benning é a figura paterna da família. Médica ginecologista e obstetra, sustenta a casa e tem cabelos curtos. Moore é arquiteta e paisagista muito frustrada que optou por ficar em casa cuidando das crianças. As mães ficam incomodadas com o interesse dos filhos por conhecer o pai. E são duas chatas em relação ao filho, que suspeitam ser gay. É uma contradição. Mamãe e mamãe gostam de trepar assistindo filmes pornôs gays masculinos. As duas têm alta escolaridade. Mas tudo isso não impede que tenham dificuldade de conversar sobre sexo com o filho. Tudo se complica, porque Moore tem uma recaída hétero e pega Rufallo. Enfim, como um cônjuge convencional, Benning se desespera com a infidelidade da mulher. E todo o equilíbrio da família vai pro saco.

Você pode ler isso e pensar: “nossa, você odiou o filme.” Ou até estranhar e especular “mas esse roteiro é ridículo.” Não, pior que não. Não achei ruim. É bom e bem naturalista. É isso que acontece mesmo. O padrão que se observa na vida é justamente como a interpretação do Mark Rufallo. Ele faz com perfeição um personagem perdido na compreensão de papéis a desempenhar. Banalizando a própria liberdade. A mediocridade e a caretice estão à disposição de todos, de qualquer opção sexual.

Come And Buy My Toys
(David Bowie)

Smiling girls and rosy boys
Come and buy my little toys
Monkeys made of gingerbread
And sugar horses painted red
Rich men’s children running past
Their fathers dressed in hose
Golden hair and mud of many acres on their shoes
Gazing eyes and running wild
Past the stocks and over stiles
Kiss the window merry child
But come and buy my toys
You’ve watched your father plough the field with a ram’s horn
Sowed it wide with peppercorn and furrowed with a bramble thorn
Reaped it with a sharpened scyth, threshed it with a quill
The miller told your father that he’d work it with the greatest will
Now your watching’s over you must play with girls and boys
Leave the parsley on the stalls
Come and buy my toys
You shall own a cambric shirt
You shall work your father’s land
But now you shall play in the market square
Till you’ll be a man
Smiling girls and rosy boys
Come and buy my little toys
Monkeys made of gingerbread
And sugar horses painted red