A eternidade e os mistérios de Chanel

Coco Chanel clicada por Man Ray
Coco Chanel clicada por Man Ray

Marguerite Duras certa vez disse que estava preocupada com as mulheres. “Elas estão perdendo seu mistério”, disse a autora de “O Amante”, alguns anos antes de morrer. Um dos símbolos mais evidentes do mistério da feminilidade chama-se Gabrielle Chanel. Assim como Duras, Chanel era uma criadora, era francesa e representava o próprio século 20. O século que mudou as mulheres. Uma das maiores estilistas e criadoras da moda, Chanel inventou um universo próprio e o deu de presente quase em sua integridade para todo o mundo,  mulheres ou homens.

Pensando sob esse aspecto, sou obrigada a fazer uma exceção ao valor das biografias. Há uns bons anos atrás, ouvi do escritor Victor Giudice uma frase que nunca esqueci. “Não importa o Wagner. O que importa é o Parsifal.” Wagner podia ser o canalha, anti-semita, desleal que fosse. No final das contas, o que interessa à humanidade é sua música. O que fica é o Funeral de Ziegfried ou a “Morte de amor de Isolda” cantada pela Jessie Norman ou Gundula Janowitz. Presenciei também outra escritora, Adélia Prado, contando um episódio de sua vida doméstica que contribuiu mais ainda para essa idéia. Ela estava numa discussão tensa com a filha adolescente e esta de repente apontou para a contra-capa do livro que Adélia segurava e que tinha sua foto e disparou ” eu prefiro essa Adélia e não você!”. Ao que a mãe respondeu: “Graças a Deus!”. A escritora comentou algo como: ainda bem que o que escrevo é maior do que eu. Então é isso. De uma maneira geral, as criações são maiores, mias longevas e melhores que seus criadores. A diferença é que a vida de Chanel é uma grande obra inspiradora. Com todos as suas perfeições, imperfeições, mistérios e incertezas.
O mistério da criação, da capacidade de solucionar e inventar coisas, confunde-se com o próprio mistério da feminilidade X masculinidade. Acho que eram os pensadores gregos que diziam que, como o homem não podia parir filhos, começou a parir pensamentos.  Mas que tal  se pensarmos que a própria vida de um homem ou de uma mulher for não apenas produto da genética, da espiritualidade e do mundo em que nasceu e viveu, mas também uma misteriosa invenção de si mesmo?

O Livro

Olhar além do momento

Olhar além do momento

Na biografia “Chanel, a woman of her own”, de Axel Madsen, descobrimos que ela adorava mentir sobre seu passado. Mas ao mentir, talvez inventasse histórias “de pescador”. Versões melhores do que a “verdadeira”. Algumas coerentes com seu modo de ver o mundo, outras simples bobagens. Dizia que fora criada por tias muito sérias e rigorosas, ao invés de admitir que fora deixada num internato de freiras. O irônico é que a experiência da infância e da adolescência passadas com as freiras influenciou claramente seu senso de ordem, limpeza e economia. O que transparece em seu estilo limpo, simples quase monástico de idealizar a moda. A austeridade e o preto e branco dos hábitos das freiras, as roupas dos jóqueis, dos marinheiros da Normandia, os trajes desportivos usados pela elite inglesa quando vai à caça. Elementos com poucas chances de servir como inspiração a uma costureira no final do século 19, foram os materiais intelectuais de Chanel.

Ler sobre a trajetória de Chanel é como um passeio pela história do século 20. Começando pela cena da Belle Époque francesa com a incrível Misia, Colette (autora de “Chéri“, que virou filme de Stephen Frears, com Michelle Pfeiffer) e Marcel Proust, entre vários outros personagens que marcaram esse período. Mísia foi uma divina musa da época. Pianista, filha de artistas, ex-aluna de Gabriel Fauré, Misia Sert foi eternizada em retratos pintados por Toulouse Lautrec e Jean Renoir. Espero que sejam feitos muitos livros e filmes sobre essa mulher. Misia foi muito próxima de Chanel. Não sei dizer se eram amigas. Se admiravam e queriam bem uma a outra, creio. Mas tinham temperamentos explosivos e atitudes agressivas demais para conviverem.
A jovem Coco

A jovem Coco

Em seguida, vêm os loucos anos pós Primeira Guerra, quando vivia cercada por figuras como Cocteau, Picasso, Diaghilev, Stravinsky, Darius Milhaud, Poulenc, Dalí, os Surrealistas, os Cubistas e todos os istas possíveis e imagináveis. Chanel patrocinou produções de Sergei Diaghilev e seus Ballets Russes, além de ter criado figurinos para espetáculos da companhia. No cenário da moda, foi contemporânea e concorrente de Paul Poiret, Jeanne Lanvin, Madeleine Vionnet e aquela que era sua pedra no sapato, Elsa Schiaparelli, a designer italiana que se identificava com o  surrealistas. Chanel a chamava de “aquela artista italiana que faz roupas.

Chanel foi amiga íntima de duas figuras que não podiam ser mais opostas: Jean Cocteau e Winston Churchill. Para Cocteau foi o lastro que o salvava das pirações com o ópio e os casos amoroso, para que pudesse escrever e encenar suas obras. Já Churchill, o grande estadista que liderou a Inglaterra na Segunda Guerra, tinha em Chanel uma confidente com quem partilhou momentos difíceis, como a crise em que o rei Eduardo VIII renunciou ao trono para casar-se com a norte-americana Wallis Simpson.
elegância simples

elegância simples

Essa biografia é tão densamente recheada de pequenas histórias de Chanel e de fatos marcantes das várias épocas históricas, que fica difícil se deter em um único tópico. Pode-se caminhar, por exemplo, guiado pelo tema dos homens da vida de Chanel. Começando por Etienne Balsan, o militar de família rica e tradicional, com quem aprendeu a amar cavalos e corridas e que talvez tenha iniciado Coco na vida sexual. Foi Balsan quem a apresentou aos artistas, intelectuais e ricaços, que se tornariam seus primeiros clientes.  E foi através de Balsan, que ela conheceu Boy Capel. O empresário inglês não chegou a se casar com Chanel, mas marcou sua vida, incentivando sua carreira e tornando-se o seu insubstituível grande amor. Mais tarde se envolveu com o Grão-Duque Dimitri, da Rússia, e quase tornou-se uma aristocrata ao manter um longo romance com Bendor, o Duque de Westminster, que lhe apresentou Churchill e o modo de vida da nobreza britânica, uma experiência que influenciou notadamente suas criações. E ainda passaram por sua vida o compositor Igor Stravinsky, o poeta Pierre Reverdy e o artista gráfico Paul Iribe. Cada um, co-adjuvante de um capítulo valoroso da vida de Chanel. Quando a França estava ocupada pelos nazistas, teve um caso com o oficial alemão Hans Gunther von Dincklage ou Spatz. Por mais que fosse justificado pelo fato que conhecia Spatz desde antes da guerra e, realmente, Chanel não dava a mínima para os rumos da política e das guerras mundiais, o romance colocou-a em uma posição ambígua para os franceses que aguentaram os anos de chumbo da ocupação. Tinha atitudes nada convencionais. Para o bem ou para o mal.

Chanel e suas pérolas

Chanel e suas pérolas

Outras figuras relevantes em sua trajetória são os irmãos Paul e Pierre Wertheimer, de quem foi sócia na construção da grande marca Chanel que nomeava roupas, acessórios e perfumes. Com o tempo, as relações de Chanel e os Wertheimer tornaram-se nada agradáveis. O livro aborda também a aventura de Chanel em Hollywood, as estrelas do cinema, princesas e celebridades que tornaram-se suas clientes. Além de sua relação com os grandes editores e críticos de moda das principais publicações especializadas, como Vogue e Elle. Numa de suas visitas a Nova York, conhece Helena Rubinstein e as duas passam horas sem fim conversando.  Enfim, são tantos acontecimentos num vida, que valeriam dezenas de posts.

Ficaram famosos seus aforismos publicados na revista Vogue. O meu favorito é: “Aos quarenta, as mulheres trocavam a juventude pela elegância, pela postura e pelo mistério.; uma evolução que as deixava incólumes. Agora elas medem forças com as jovens, usando defesas que só podem ser descritas como ridículas.”

Nos anos 30, o jovem Luchino Visconti frequentou sua casa em Roquebrune e cunhou o apelido de “La belle dame sans merci”. Não esqueceu de “seus sofrimentos, seu prazer em ferir, sua necessidade de punir, seu orgulho, seu rigor, seu sarcasmo, sua raiva destrutiva, seu gênio criativo, a franqueza de uma personalidade que passar rapidamente do ardor  à indiferença.”
O apartamento de Chanel e seus painéis de Coromandel

O apartamento de Chanel e seus painéis de Coromandel

Seu olhar estava apontado e ajustado para alcançar certas nuances que passavam despercebidas. Nas corridas de cavalos, uma de suas paixões, observava as linhas das trajetórias dos cavaleiros e via “elegantes arabescos.” Interessou-se pelo hinduísmo e conheceu o Bhagavad Gita, que Boy Capel lia para ela. “Gosto muito de tudo o que garanta que nada jamais desapareça.” Apesar de viver em meio ao furacão das superficialidades da moda, manteve sempre o que o autor da biografia chamou de uma “veia de puritanismo”. No fundo, Chanel desejava criar algo que fosse perene. “Não posso aceitar que se jogue fora uma roupa porque é primavera. Adoro as roupas porque, como os livros, posso sentí-las, tocá-las. As mulheres querem mudar; elas estão erradas. Sou a favor da felicidade, e a felicidade consiste em não mudar.”

Adotou tecidos pouco nobres, como jersey e a malha como materiais básicos de suas criações pret-a-porter. Historiadores da moda diziam que seu estilo “tem tudo a ver com a elegância, mas baseia-se em elementos alheios à elegância – como conforto, bem-estar e bom senso.”  Como afirma Axel Madsen, Coco havia criado a elegância funcional. “Ela rejeitava a arrogância da riqueza e ensinou os ricos a misturarem o verdadeiro com o falso.” O estilo hi-lo, tão adotado nos últimos anos, deve ser um reflexo dessa visão de Chanel. Karl Lagerfeld,  atual diretor criativo da Maison Chanel,  disse recentemente o seguinte sobre o legado da estilista:  “Nenhuma outra casa tem o logo, a camélia, as pérolas, o sapato com a ponta preta, as jóias. Eu brinco com os elementos como um músico brinca com as notas.”
Chanel por Karl Lagerfeld

Chanel por Karl Lagerfeld


Os filmes


Coco Avant Chanel

Coco Avant Chanel

Coco Avant Chanel

O retrato da mulher que se inventou
Alguns torceram o nariz para a interpretação da Audrey. Mas acho que ela construiu com sinceridade uma Chanel. Bem longe da doce Amelie Poulain, Tautou encarna a teimosia, o sonho e a acidez da jovem Coco.
O filme limita-se a uma parte incial da história de Chanel. Uma vida que comporta vários filmes, com certeza. Da infância no internato de freiras, aos anos com a tia-irmã Adrienne, com quem se apresentava em cafés na cidade de Moulin. Lá conhece Balsan, que vai apresentá-la ao mundo. E, por intermédio de Balsan, conhece Boy Capel. Com seu espírito forte e o impulso dado por alguns homens, Coco saltou para o penhasco desconhecido da vida
Numa cena exemplar do filme, Capel flagra Gabrielle de pijamas listrados, deitada em um sofá com um livro. Diz, num quase suspiro, “você é muito elegante.” Boy entendeu Chanel. Considerando tudo que veio depois,  só ele entendeu.
Chanel (Audrey de pretinho básico) e Boy Capel (Alessandro Nivola)

Chanel (Audrey de pretinho básico) e Boy Capel (Alessandro Nivola)

Inspiração nas roupas masculinas

Inspiração nas roupas masculinas

listras dos marinheiros e ousados chapéus de palha

listras dos marinheiros e ousados chapéus de palha

Coco Chanel 2008

Coco Chanel 2008

Coco Chanel (2008)

As lembranças luxuosas de Chanel
Com Shirley McLane no papel de Gabrielle Chanel, o filme é exibido de vez em quando no canal GNT. Assisti bem depois do Coco Avant Chanel. É meio parecido com esse último. Mas abrange mais tempo da vida de Chanel. É narrado pelas memórias da estilista nos anos 50. Não é grandes coisas, mas é interessante por explorar um pouco mais a vida de Chanel dentro do atelier e sua relaçao com as clientes.
O ator que faz o Boy Capel não é tão bonito quanto o do filme com a Audrey.
Em compensação, o Balsan é bem mais interessante nesse.
Chanel (Shirley McLane) criando sobre o modelo

Chanel (Shirley McLane) criando sobre o modelo

paixão pela cavalaria

Com Balsan (Sagamore Stévenin), a jovem Coco (Barbora Bobulova) adquire a paixão pela cavalaria

Coco Chanel et Igor Stravinsky

Coco Chanel et Igor Stravinsky

Coco Chanel & Igor Stravinsky

O Nº 5 e a Sagração da Primavera
Esse ainda está em cartaz nos cinemas e trata de um provável romance de dois grandes ícones do século 20.

Tem um momento do filme em que Igor explica a Coco sobre seu processo de compor. E ela, com expressão muito curiosa, observa: mas é como quando eu crio meus modelos, corto, costuro, bla bla bla. E Igor responde algo como: mas isso não é arte. Estou falando de arte. E Coco dá de ombros, tipo pensando: não estou falando de arte, sua mula, mas de criação, invenção.

Os dois são grandes inventores da história recente da modernidade. Pode não ser arte o que Chanel fazia (ela mesma dizia que moda não se trata de arte, mas de negócio), mas Einstein também não era artista e seu poder de invenção não poderia ser colocado abaixo de Stravinsky.

O que acho curioso, e que, possivelmente é a fagulha que resultou no encontro de Chanel e Stravinsky, é a visão de dois estranhos ao mundo. Chanel até o fim da vida foi fiel ao princípio da simplicidade. No último instante, antes da modelo entrar no salão para desfilar uma de suas criações, Chanel intervinha e arrancava um detalhe, um ornamento ou acessório. Limpava os excessos sempre que possível. E de Stravinsky, outro ser econômico, dizem que ao final da vida cobrava sua música pela nota. Quanto vale um punhado de notas de Stravinsky ou meio metro quadrado de debruns de Chanel?

Além do caso com Igor, o filme também se preocupa em mostrar o modo de vida da estilista. O dia-a-dia da maison em Paris, a mansão no subúrbio, onde abrigou Stravinsky e sua família, jantares com artistas e intelectuais. Mostra também as viagens à Provence, onde ajudou a elaborar um de seus símbolos mais eternos: o perfume Chanel Nº 5. A atriz Anna Mouglalis vive a Chanel dos anos pós-Boy Capel, que encontra em Stravinsky (Mads Mikkelsen) uma fonte de adrenalina criativa. Chanel estava no Théatre Champs Elyseé, na tumultuada noite em que Stravinsky, Nijinsky, Diaghilev e os Ballets Russes, apresentaram pela primeira vez A Sagração da Primavera. Na temporada 89/90, Karl Lagerfeld lançou uma coleção em um desfile no mesmo Champs Elyseé, ao som da mesma Sagração. Foi considerada uma de suas melhores coleções.
Em busca do Nº 5

Em busca do Nº 5

Dois criadores

Dois criadores

A Sagração

A Sagração

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Guia Chanel, by Webdebee

A Belle Époque

Emilienne D'Alençon, Colette, Marcel Proust e Misia (por Renoir)

Emilienne D'Alençon, Colette, Marcel Proust e Misia (por Renoir)


Emilienne D’Alençon

Mísia

Colette

Marcel Proust

A Cena Fashion

Poiret, Lanvin, Vionnet e Schiaparelli

Poiret, Lanvin, Vionnet e Schiaparelli

Paul Poiret

Madeleine Vionnet

Elsa Schiaparelli

Maison Chanel

Os Clássicos de Chanel

pretinho, tailleur, Nº 5, sapato aberto atrás, camelha, bolsa matelassé com alça de corrente, pérolas, sapato bicolor

vestido pretinho básico, tailleur, Nº 5, sapato aberto atrás, camélia, bolsa de matelassé com alça de corrente metálica, colar de pérolas, sapato bicolor

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Sex and The City e a “Riqueza” das Escolhas

Sex and The City

Sex and The City

Só sei que, em matéria de se vestir bem, nada sei.

Acho bem humilhante não poder curtir uma devastadora decepção amorosa num resort paradisíaco. Não poder ficar triste usando um belo colar de pérolas sobre um Versace preto básico. Essa parte me cortou o coração. :))

De resto, é matar a saudade da Carrie, Samantha, Miranda, Charlotte e seus agregados.
E roupitchas! Muitos modelitos leeendos. Uma overdose de alucinógenos fashion.
Senti falta dos Manolo Blahniks e Jimmy Choos. Tinha mais roupa que sapatos dessa vez. Embora o sapato tivesse um papel importante, bem simbólico no “fato” principal do filme.
Mas tem bastante Louis Vuitton…
É um delicioso episódio grandalhão (quase 3 horas).  Tomara tomara tomara que façam mais filmes.
A trilha é excelente: Fergie para pular e rebolar feliz e Al Green para mais dignidade na dor de cotovelo.
 
Assisti às 6 temporadas de Sex and The City inteiras em DVD algum tempo depois da série ter acabado. Gosto das personagens a ponto de ter saudades, como se fossem velhas amigas.
Mas sabe… a Carrie me irrita de vez em quando. Aquela fase do Aidan… iaaaaaahrgh. O episódio em que ela grita de susto por causa do esquilo na casa de campo. iaaaaaaarhgh. Tira essa mulher daí. Sou filha de pau-de-arara e não aguento essas frescuras. Mas ela é a alma do seriado. Com alma quero dizer síntese. É a narradora e cicerone dos episódios. Uma personagem sem o conservadorismo da Charlotte, o rigor da Miranda e a transgressão total da Samantha.
 
E a exemplo do que a Carrie sempre faz no inicio de cada episódio, vou propor uma pergunta para esse post.
Casamento, emprego, filhos, casa própria, sapatos, bolsas, vestido de noiva…
Quais valores como esses fazem parte da sua vida?
 
Não faz muito tempo que as pessoas tinham poucas escolhas. Agora a gente tem o dilema eterno da escolha. Me disseram que a maior audiência na TV por assinatura é dos canais abertos (TV Globo, Record etc.). Ou seja, maluco paga uma nota pra ver TV que é de graça. O negócio é que são muitas opções na vida. Desde escolher a marca do sabonete, a profissão, viver na cidade onde você nasceu ou ser ilegal em Londres.
 
A previsibilidade costuma ser mais confortável. Tenho um amigo americano que morou muitos anos no Brasil e fez uma afirmação assim. QUe onde ele mora lá no interior da Califórnia as coisas são previsíveis, então não tem angústia da incerteza, sabe? O problema é que viver vidas previsíveis também podem levar aos Tiros em Columbine. Soa maluco mas é muito provável que alguém vivendo no mais absoluto tédio e previsibilidade, sem muitas opções na vida, acabe pirando e atirando em todo mundo.
 
Mas voltando ao tempo dos nossos pais, avós e demais antepassados, haviam poucas carreiras profissionais. Se o sujeito era filho de marceneiro, crescia aprendendo a ser marceneiro. Casava e tinha filhos marceneiros. A mulher e a filha do marceneiro, então, tinha menos opções ainda. Era mulher do marceneiro e mãe de marceneirinhos.
 
E agora? Podemos casar ou não casar. Estudar física ou marketing. Passar a vida inteira no Brasil ou ir ralar na Austrália. Ter filhos naturais, adotar ou não ter. Ter a mesma orientação sexual pra sempre ou mudar. Ter a mesma profissão pra sempre ou trocar aos 46 anos.
 
E a ordem dos fatores? Quem disse que tem que ser o velho trajeto de ser criança e brincar, adolescente e estudar e namorar, ir pra faculdade (se der, né?) e trabalhar, namorar firme e casar, ter filhos, ter carro e casa própria (se der, né?), cuidar da educação dos filhos, trabalhar muito, ver os filhos se encaminharem e aí se aposentar e tentar aproveitar o que resta. Esse roteiro pode ser outro também. Ser mãe adolescente, por exemplo. Largar o emprego burocrático que sempre te sustentou e virar advogado ou artesão aos 50 anos. Casar ao 70.
 
As escolhas e as expectativas.
A Carrie Bradshaw tem muitas escolhas e se entope de expectativas. Vive na cidade mais cosmopolita do mundo. Num país com infindáveis opções de consumo e meios de vida.
 
Se você não viu o filme, mas ainda quer vê… talvez seja melhor não lê o que segue abaixo.
O “fato” principal do filme é o casamento. Da Carrie com o Big. Uma sucessão de desencontros até chegarem ao casamento. E o desfecho é bonito. Eu acho, pelo menos.
 
Quero dizer o seguinte. Não tenho nada contra quem faz as escolhas mais comuns na vida. Mas vejo com perplexidade como a repetição dos padrões tem que ser reafirmada a todo momento. A Carrie quer casar com o Big. Quer que ele seja fiel. Quer comprar um apê com ele e mudar o nome para Carrie Bradshaw-Preston. Quer anel de diamante. Não quer viver sozinha. Não quer viver em Paris. Quer uma recepção de 500 mil pessoas e um vestido assinado por Vivian Westwood (lindo! mas o pássaro na cabeça era feião).
E daí que ela podia ter vivido um tempo em Paris? Ter casado e tido filhos com o Aidan? Ter parado de fumar pra sempre?
 
Talvez seja uma escolha ousada… aguardar o que a previsibilidade tem para oferecer… e garantir uma vida numa cidade com calçadas perfeitas para Jimmy Choos e Manolos Blahniks.
 
 
 

 

:: Links para saber mais
 
 
Jimmy Choo
 
 
 

 

* Recomendações Top3

1 – Sex and the city – o filme

2 – Sex and the city – a série (6 temporadas em DVD)
3 – New York – caminhada do Battery Park até o Central Park pela Broadway num dia ensolarado de Primavera