A transgenia dos sonhos

Inception (A Origem)

Inception (A Origem)

Da série de posts ridiculamente atrasados…

Como a vida, tudo começa numa medida pequena, invisível, imperceptível, insignificante. Um peteleco num cisco preso na lã do casaco ou uma piscada de olho de um piolho e voilà! Algo começa. As idéias podem estar dormindo como sementes microscópicas na memória. Mas quando ganham corpo, quem sabe até onde irão ou qual dimensão irão alcançar?

Esta semana fiquei lendo um daqueles adoráveis forros de bandeja do McDonald’s. Coisas simples como uma gota d’água dão origem a algo simplesmente fantástico como ondas no oceano. Achei uma das melhores campanhas da rede de fast-food. O ilustrador chama-se Hiro Kawahara. Tirando o item da ostra e o colar de pérolas (pois a ostra, sim é fantástica e não o colar), simplesmente adorei.

Simples e Simplesmente. Campanhad as bandejas do McDonald's

Simples e Simplesmente. Campanha das bandejas do McDonald's.

Christopher Nolan é conhecido por seus filmes quebra-cabeça, como Amnesia e The Prestige (O Grande Truque). Também, é claro, é o realizador dos dois filmes do Batman mais inteligentes já feitos. Então, depois de uma coisa como o Cavaleiro das Trevas, a expectativa em relação ao Inception (A Origem) era enorme.

Vejo a idéia central de Inception como um jogo que se passa no outro plano da vida. O plano que se dá nos sonhos.

Os sonhos ocupam boas horas de quem vive. Se vive nos sonhos. Há vida neles. Às vezes resolvo problemas num sonho, para acordar depois e perceber que não resolvi coisa alguma. Mas às vezes os sonhos realmente ajudam a resolver os problemas. Um sonho pode cansar. Como quando estudava dança e fazia exercícios na barra dos sonhos e acordava com a sensação de que não precisava ir à academia naquele dia. Podemos sonhar com algo que estamos esperando para acontecer e acordar achando que já fizemos, para depois descobrirmos que temos que fazer tudo de novo.

Inception

a anti-lógica dos sonhos

Minha irmã sonha frequentemente que pode voar. Eu sonho que posso flutuar. Que a gravidade é fraca e posso me desolcar sem precisar pisar no chão. Então, se nos sonhos podemos eliminar paradigmas como a gravidade, estaríamos falando de um lugar para testes? Seria o sonho um louco laboratório da vida desperta? Uma experiência alternativa da vida? Plantar uma idéia em um universo com outra lógica (ou sem ela) poderia ser um experimento controlável? Será que, como em Matrix, em que as personagens fazem download de habilidades, como pilotar helicópteros, podemos experimentar coisas ou aprendê-las sonhando? Será que veremos o dia da manipulação da vida sonhada? O surgimento da biotecnologia dos sonhos. Se, nos sonhos, podemos tudo, mas não podemos manipulá-lo, e se na vida acordada, não podemos tudo, mas temos mais chances de controlar o caminho, haveria um jeito de inverter os parâmetros? Imagino poder encomendar sonhos bons. Pego o cartão de crédito e pago por uma pílula dos sonhos programados.

Inception (A Origem)

Dream designers. Dream hackers.

Mas somos nós, os seres despertos, os mesmos que vivem nos próprios sonhos?

Tem um filme com a Demi Moore chamado Passion Mind (Paixões Paralelas), de Alain Berliner, em que ela vive uma vida desperta e outra dormindo. Acordada, ela é Marty, uma executiva solteira e rica de Nova York. Dormindo, é Marie, uma dona de casa viúva com filhos no interior da França. Ou pode ser o contrário. As duas Demi Moores anseiam pelo adormecer-despertar para a vida uma da outra. Não é grande coisa o filme, mas o conceito é interessante. Lembra um pouco o “A Dupla Vida de Veronique”, do Kieslowski. Mas este último não é exatamente sobre sonhos.

E afinal, um dos baratos da vida não é ter a porção sonhada compartilhando o corpo e a mente da porção consciente? Uma porção pode ajudar a outra, mas também podem destruir-se mutuamente?

cinema, literatura, imaginário dos sonhos

cinema, literatura, imaginário dos sonhos

Ontem, conversando com minha irmã sobre o rascunho deste post, ela mencionou um conto de Julio Cortázar que leu há muito tempo, sobre uma mulher que sonha com a vida de outra e as duas trocam de lugar. Acabamos encontrando o conto na coletânea Bestiário. Chama-se Lejana e é narrado em forma de diário escrito por Alina Reyes. Alina tem dificuldade para dormir e inventa anagramas e palíndromos para cair no sono. Mas sonhar significa viver como sua parte distante, la lejana: a outra mulher que vive mendigando pelas ruas geladas de Budapeste. Alina odeia a outra porque sente seu sofrimento, mas ao mesmo tempo, vê-se culpada e preocupada. Quando escreve no diário, usa a primeira pessoa, mas confunde-se entre o que acontece a ela e o que sofre a outra. Sonha com a outra ao dormir e também acordada enquanto ouve concertos de Fauré, Mozart e Chopin. Nesses momentos torna-se la lejana. E tem uma ponte sobre o Danúbio. A fronteira, o ponto de encontro entre as mulheres distantes. Alina é consciente dessa ponte em Budapeste, do frio e de sua porção  distante que deve encontrar lá. Deseja irresistivelmente chegar à ponte para o abraço com a outra. ” Ceñía a la mujer delgadísima, sintiéndola entera y absoluta dentro de su abrazo, con un crecer de felicidad igual a un himno, a un soltarse de palomas, al río cantando. “

Nos volumes da HQ Sandman, de Neil Gaiman, há uma exploração vastíssima do universo e das possibilidades e concepções do sonho. Lugares sonhados (como Fidler’s Green, o lugar-sonho). Guardiões de livros que só existem em sonhos. Pessos que sofrem de insônia ou que não conseguem acordar. Pesadelos. Gente que entra nos sonhos dos outros, que rouba sonhos, que não consegue sonhar, que controla sonhos alheios, que se refugia em sonhos, que aprisiona outros em sonhos. Além da antropomorfização do sonho. O sonho é um moreno esguio e alto, cujos olhos são como uma noite estrelada. Sonho (ou Sandman ou Morfeu) é irmão de Morte, de Destino, de Desejo, de Desespero, de Delírio e de Destruição. Quando Sonho é aprisionado por um bruxo (evento que acontece no primeiro volume da série, Prelúdios e Noturnos), a humanidade enfrenta anos de distúrbios e privações dos sonhos. O grande príncipe tecedor dos sonhos fica fora de combate por várias décadas até se libertar e iniciar a jornada de restauração de seu reino.

Inception (A Origem)

a arquitetura dos sonhos

Inception conta uma história um tanto apressada de pessoas que se infiltram em sonhos. E sobre as tecnologias e estratégias que as ajudam a invadir sonhos para alterar o curso “natural” da vida desperta. Alguns personagens criam lugares secretos nos sonhos para onde desejam voltar. Outros querem convencer pessoas a decidir por algo que irá trazer vantagens na vida acordada. Uns querem viver só nos sonhos. Outros podem matar outros nos sonhos. Morrer nos sonhos. Será possível?

Ariadne (Ellen Page) é uma arquiteta contratada por Cobb (Leonardo di Caprio), um dos dream hackers, para criar cenários dos sonhos. Como Teseu, que precisa de Ariadne para sair do labirinto, sem os designers de sonhos, fica difícil sair deles ou se proteger das armadilhas.  Exatamente como um jogo, mas em que as regras evoluem num universo de anti-lógica. Outro personagem interessante é Eames (Tom Hardy), o enganador, que se faz passar por outras pessoas nos sonhos para iludir os sonhadores. Como uma Mística (a mutante azul dos X-Men) do mundo dos sonhos.

Inception (A Origem)

a semente que gira invisível nos sonhos

Na vespera da estréia do filme nos cinemas, li esse texto muito bom da Ana Maria Bahiana. Mas não sei se ocorreu comigo o mesmo de quando vi O Cavaleiro das Trevas (do qual tive grandes expectativas, mas precisei ver de novo para apreciar como se deve), ou se realmente ficou faltando algo na história de Inception. Não é um conceito simples. Uma idéia tão grandiosa, que talvez tenha faltado sonhar mais com ela. Seria este um filme para completar a experiência sonhando? Uma semente para germinar no rascunho e na edição de um post? Food for thought? Food for Dreams?

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Em 2008 – parte 4 – livros

Encerrando esse longo adeus a 2008…

Gosto de ficar parada olhando pros meus livros… São meus amigos imaginários. Acho que sou meus livros.

os livros me olham desconfiados da estante

os livros me olham desconfiados da estante

Numa daquelas descoberta casuais que a Internet nos proporciona, me surpreendi com esse ótimo blog do projeto Portaberta. Veja esse post com o poema O homem que foi soterrado pela biblioteca, de Fábio San Juan.

Tenho uma compulsão quase incontrolável por livros. Passar na porta da Saraiva ou da Livraria da Travessa é um perigo pra mim. O que acontece? Compro os livros como uma garantia de alimentação literária até a morte. Não dou conta de ler tudo o que compro e o que me emprestam. É uma vergonha. Já fiz até uma prateleira só dos livros interrompidos e outras dos que continuam aguardando na fila. Daí, mudo de apartamento, arrumo as estantes de qualquer jeito e misturo os lidos, meio lidos e nada lidos.

Em 2008 não li nada que estava na parada arrepiante de sucessos da veja. Não. Eu não li os livros dos vampiros da Stephanie Meyers, nem o novo do autor do Caçador de Pipas. Nada contra. Mas não sei dizer porque ou como escolho essas leituras. Tem a ver com os autores, que são os meus favoritos. Não tive muito tempo para ler o quanto gostaria, pois foi um ano de estudos em função de uma pós-graduação, então, tive que dar preferência às leituras que não entram nos assuntos do blog.

Mas até que foi produtivo.

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Tracy Chevalier: O Azul da Virgem e A Dama e O Unicórnio

Você pode nunca ter ouvido falar da autora, mas talvez conheça o filme “Moça com brinco de pérola“, baseado no livro homônimo, que tornou Chevalier conhecida em todo o mundo.

O filme é muito bonito e realmente transmite o clima do livro. A Scarlett Johansson me parece uma Griet perfeita. A atriz que faz a Tanneke é a própria The Milkmaid (meu quadro favorito de Jan Vermeer). Tem cenas filmadas em Delft, onde Vermeer viveu. Até a estrela no chão da Praça do Mercado, onde Griet dá voltas, perdida em suas indecisões, está lá, meio desbotada, no filme.  Mas é no livro que a autora garante uma viagem extraordinária pelas sedas, pérolas, luzes e cores do imaginário de Vermeer (aliás, li aqui que se pronuncia “férmir”), e pelas sensações e transformações de uma jovem protestante holandesa, que trabalha como empregada na casa do artista, e se torna irremediavelmente presa dos mistérios da arte e das intrigas da família.

Tracy Chevalier nasceu nos Estados Unidos e vive na Inglaterra. Ela cria histórias sobre mulheres, que, geralmente, vivem em épocas passadas. Tracy possui um texto esplêndido, além de caprichar no que diz respeito à pesquisa e reconstituição de época.

O AZUL DA VIRGEM

O Azul da Virgem, de Tracy Chevalier

O Azul da Virgem, de Tracy Chevalier

Esse é o primeiro livro da Tracy. É sobre duas mulheres em tempos diferentes, que o leitor percebe aos poucos serem descendentes uma da outra.

A ruiva Isabelle du Moulin vive no século 16, na França. Sua família torna-se protestante e muda-se para a Suíça. Mas a força ancestral da Virgem ainda assombra o coração da jovem huguenote. E nos anos 90 vive a parteira americana Ella Turner, que muda-se para a França, onde o marido acaba de aceitar um emprego. Investigando as origens de sua família (os Turner ou Tournier) pelo interior da França, Ella vai aos poucos se aproximando da vida da antepassada Isabelle.

Ao alternar os capítulos entre Isabelle e Ella, Tracy coloca o leitor como o observador de um labirinto, em que as personagens caminham de entradas (e tempos) diferentes, atraídas para um mesmo ponto obscuro. Tracy desde o início já manda bem. É uma leitura vertiginosa. Daquelas para um feriado chuvoso de 3 dias, em que você não consegue parar de virar as páginas.

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A DAMA E O UNICÓRNIO

Agora Tracy volta a falar de obras de arte e inventa uma história maravilhosa em torno do famoso conjunto de tapeçarias do final do século 15, que hoje encontra-se exposto no Museu da Idade Média, em Paris.  O pintor miniaturista e mulherengo Nicolas des Innocents recebe uma encomenda para a qual cria o motivo da Dama e o Unicórnio. Mas acaba sendo obrigado por seu cliente, Mr. Jean Le Viste, a partir de sua querida Paris rumo a Bruxelas, onde irá acompanhar a confecção da série de tapeçarias com o tema que criou.

A Dama e o Unicórnio, de Tracy Chevalier

A Dama e o Unicórnio, de Tracy Chevalier

E o romance segue com a trajetória e as motivações do artista, bem como as mulheres que o inspiraram. Há descrições detalhadíssimas das técnicas de tecelagem da época. Dos millefleurs. Confesso que às vezes me perdia tentando entender exatamente como os tecelões do século 15 manipulavam aqueles teares pesados e complicados, com suas manivelas, urdiduras, liças, cilindros etc. Sem falar na preparação dos fios e na dificuldade de obter a cor exata com os processos de tintura. Enfim… era um trabalho hercúleo, demorado e que quase esgotava física e financeiramente os artesãos.

Tracy cria uma trama envolvente e uma série de personagens apaixonantes. E, claro, desperta no leitor uma tremenda curiosidade de ver as tapeçarias de perto e imaginar essa e outras histórias para as pessoas que as criaram.

A Dama e o Unicórnio é o quarto livro da autora, posterior ao Moça com Brinco de Pérola. Ainda falta ler Anjos Caídos (2001) e Burning Bright (2007).

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Michael Crichton: Linha do Tempo

E o homem se foi. Mal tinha acabado de ler esse romance sobre viagem no tempo, física quântica, idade média e tal, quando soube que Michael Crichton tinha morrido vítima de câncer. Achei uma pena, pois fiquei muito interessada na obra dele e imaginava quantas idéias legais ainda iria abordar em novos livros.

o cientista da ficção

Michael Crichton: o cientista da ficção

Na semana em que partiu, foi exibido um episódio do seriado E.R. com uma introdução especial em que o ator Eric La Salle (o dr. Peter) fez uma homenagem super bonita ao Crichton. Ele foi o idealizador da série, que tomava emprestado um pouco da experiência do escritor quando foi médico da emergência de um hospital de Chicago. Aliás, sempre achei que aquele personagem do E.R., Dr. Carter, é meio que um alterego do Crichton. A história é em Chicago e ambos foram estagiários e residentes do setor de emergência. Ambos conheceram a África. Só que Michael Crichton, antes de estudar e fazer residência em medicina, era um antropólogo. Suas viagens à África, que inspiraram livros como Congo (que não li), ocorreram em função da Antropologia. Esse background do autor me interessou muito. Mais do que o sucesso de Jurassic Park.

Passei alguns anos na vontade de ler esse Linha do Tempo e o Devoradores de Mortos. Esse último, foi o que inspirou o filme O 130 Guerreiro, com o Antonio Banderas. Na verdade, o livro não é exatamente uma obra de ficção, mas sim o resultado de uma pesquisa de Crichton sobre um manuscrito de um sujeito do mundo árabe da idade média, que realmente existiu e registrou suas impressões de uma viagem pelas terras dos Vikings. São muito bacanas, tanto o livro quanto o filme.

Mas vamos ao Linha do Tempo. Conheci primeiramente o filme, que achei fraco e bobo. Aproveita muito pobremente um ótimo argumento sobre viagens no tempo. A presença de Gerard Butler dá até uma florida na parada, mas o Marek que ele interpreta é muito fraquinho em comparação com o do livro.

Pois bem. Nesse romance, o Crichton coloca em questão as possibilidades de viagem no tempo, respaldadas, se posso dizer assim, pela física quântica. Não vou entrar em detalhes sobre esse assunto, até porque, mesmo com as tentativas de explicar, da forma mais didática possível, os fenômenos de deslocamento no tempo-espaço (o autor até desenha, literalmente), fiquei de cuca fundida total. Deixa pra lá a parte científica da ficção….

Caindo de pára-quedas no meio da Guerra de Cem Anos

Caindo de pára-quedas no meio da Guerra de Cem Anos

Os personagens principais do livro são cientistas, técnicos e pesquisadores de diversas formações. Uma equipe multidisciplinar, que inclui antropólogos, geólogos, botânicos, físicos e até um especialista em armas e combates na idade média, que fala inglês e francês antigos, occitano e outras línguas obscuras. Esse é o sensacional Marek. Que ainda é pegador e se dá bem nas aventuras…

Bom… Aí, esse povo todo está trabalhando para uma super corporação de tecnologia chamada TechGate, liderada por um empresário visionário chamado Robert Doninger, que, pela descrição de Crichton, é uma espécie de Bill Gates menos famoso, mas muito mais ambicioso e sem escrúpulos. A equipe atua para Doninger num projeto secreto que pretende viabilizar viagens no tempo como a nova fronteira da ciência, turismo e entretenimento. Os funcionários trabalham na escavação de um sítio arqueológico, onde no século 14 (um dos meus favoritos!!!) deu lugar a uma batalha sangrenta em meio à Guerra dos Cem Anos. O piloto do  “projeto” pretende levar as pessoas a um “passeio” por esse cenário histórico, de onde retornariam ilesas depois de viverem fortes emoções.

Tudo na teoria é bonito, mas você já pode imaginar que, na prática, ninguém voltaria totalmente ileso e as “emoções” de cair no meio do século 14, sem saber cavalgar ou usar espada e escudo, estão mais para uma roubada, mesmo. E os nossos heróis cientistas se metem nessa enrascada para salvar um dos membros da equipe que não conseguiu voltar ao século 20,  e vivem extraordinárias aventuras.

Mas além da viagem no tempo, tem vários detalhes interessantes no livro, com relação aos personagens e suas áreas de conhecimento. Tem uma arquiteta e historiadora, que explica para um bando de turistas como funcionava a fundação das cidades na idade média.  Os donos de terras no período medieval construíram muitas das cidades, que hoje achamos que se originaram da ocupação espontânea de um terreno próximo a um rio ou do mar. Mas esses senhores mandavam construir as cidades, às vezes, do nada, para depois explorar os habitantes com impostos, licenças etc.  Enfim… Não imaginava que a especulação imobiliária funcionasse nesses termos ardilosos há tanto tempo.

Último comentário nesse tópico que está longo até para um post individual…. E o tal congressista que construiu um castelo medieval enorme numa área rural de Minas? Inacreditável. Preciso de uma máquina de viajar no tempo. Quero saltar para antes da Revolução Francesa, porque nada mudou mesmo. Continuamos sustentando uma classe de aproveitadores. A diferença é que agora somos nós que escolhemos quem vai nos explorar.

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======  TEXTOS ATUALIZADOS EM 20/02/2010 ==================

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Neil Gaiman: Coisas Frágeis

Narrativas fortes

Narrativas fortes

Demorou mas lançaram no Brasil essa recente coletânea do criador de Sandman.

Destaque para o conto “O Monarca do Vale”, onde Gaiman resgata o personagem Shadow, de seu romance Deuses Americanos. Outro curioso é “O Problema de Susan”, em que o autor tenta exorcizar sua frustração com o destino de Susan em As Crônicas de Nárnia.

São 9 contos maravilhosos.

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Sandman: A Jornada dos Sonhos Completa

Houve uma lacuna gigantesca na minha leitura dos 10 volumes do Sandman. Lá pelo inicio dos anos 90 parei no meio do arco Estação das Brumas. Muitas areias do tempo depois, começou a ser lançada a série completa em volumes luxuosos de capa dura e papel couchê. Daí, tirei o atraso da experiência onírica. Quando terminei o décimo volume, Despertar, resolvi voltar ao início mais uma vez e reler todos os arcos do mestre Morpheus.

Neil Gaiman é fodaralhaço. E… sei lá…. Sandman não é só uma das melhores realizações das histórias em quadrinho. É um tesouro de imaginação artística.

Como não sonhar com a possibilidade de novas histórias do Sonhos e os outros Perpétuos? Teve aquele belo “Noites sem fim”, com novas histórias do Sandman e seus irmãos desenhadas por mestres como Milo Manara, Moebius,  Bill Sienkenvicz e outras feras. Mas ainda é pouco…

Casa de Bonecas, Prelúdios e Noturnos, Estação das Brumas e Um Jogo de Você podem ser meus volumes favoritos… Talvez… Mas a verdade é que tudo é bom. E ainda tem o livro com as histórias da irmã Morte.

Os irmãos Sonho e Morte

Sem falar nas capas do Dave Mckean e no trabalho dos diversos artistas que conceberam visualmente os personagens e ilustraram as histórias.

Sandman por Dave McKean

Sandman por Dave McKean

Acho que a sequencia que mais me marcou de todas as histórias foi a da despedida de Sandman, quando sai do inferno, depois de recuperar seu elmo num combate com um dos demônios de Lúcifer. O senhor do Inferno pergunta porque ele acha que poderá sair livremente de seus domínios. E o Lord Morpheus responde algo como “-Porque eu sou o Sonho. E o que seria dos habitantes do Inferno se não pudessem sonhar com o Céu.”

‘Stars shining bright above you.
Night breezes seem to whisper I love you.
Birds singing in a sycamore tree.
Dream a little dream of me.’

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Mais Gaiman em Violent Cases, Mistérios Divinos e Dias da Meia-Noite

Na gana irracional de ler tudo do autor, comecei a limpar o tacho com esses três, que consegui encontrar em edições locais.

Mas ainda falta Mr. Punch, Signal to Noise, The Day I Swept My Dad for Two Goldfish, Livros da Magia, The Graveyard Book e sei lá mais o que.

Casos Violentos de Gaiman e McKean

Casos Violentos de Gaiman e McKean

Violent Cases

Bela edição pela HQM Editora da graphic novel de 1987. Um dos primeiros trabalhos do Gaiman com a arte do fabuloso e maluco Dave McKeanMe lembrou o Electra Assassina do Frank Miller e Bill Sienkiewicz, lançado naquele época e que tem uma narrativa totalmente fragmentada e meio alucinada.
Gaiman tem uma identidade de escritor de terror e mistério. Violent Cases é um exemplo clássico e, dizem, revolucionário do gênero HQ.
Pouco tempo depois, os dois produzem a Orquídea Negra, uma das criações mais arrebatadoras da dupla.
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anjos e assassinato

anjos e assassinato

Mistérios Divinos

Tenho um fascínio pela figura do anjo caído. Difícil explicar, mas não se trata de uma adoração exotérica tipo anjos da guarda, Monica Buonfiglio (nada contra e nunca li seus livro) etc. Acho que é mais pela contradição meio humana dos anjos. Talvez o Wim Wenders tenha contribuído para essa minha noção dispersa e vaporosa feito nuvem. Pensei em tatuar um dos anjos caídos que o Gustave Doré criou para ilustrar o Paraíso Perdido, de John Milton. Mas é difícil escolher a imagem que retrata esse conceito quebrado da minha cabeça.
Lúcifer é o demo, né? Mas por muito tempo ele foi um anjo belo e admirado na cidade de prata, onde outros anjos viviam e auxiliavam Deus na criação do universo. Mistérios Divinos é originalmente um conto de Gaiman (se não me engano, faz parte da coletânea Fumaça e Espelhos) com uma trama meio policial sobre anjos, amor, assassinato e muitas emoções mais antigas que a humanidade. O artista P. Craig Russel adaptou e ilustrou o conto no formato HQ.
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3 historias raras

3 historias raras

Dias da Meia-Noite

Essa coleção é muito especial, pois reúne três personagens consagrados das histórias em quadrinho.
Em Sandman Teatro da Meia-Noite, o herói original da era de ouro dos HQs, Wesley Dodds, encontra o novo Mestre dos Sonhos concebido por Gaiman.
Jack in The Green conta com oMonstro do Pântano, que o autor já havia trazido para seu universo na série Orquídea Negra. Muito bom rever o grandalhão verde. Gosto muito da série que o Alan Moore escreveu com o personagem.
E ainda tem Me Abraça, com o incrível John Constantine, sempre envolvido numa história em alguma medida bizarra e arrepiante.
Os textos são de Neil Gaiman e Matt Wagner. E as ilustrações, deDave MacKean, John Totleben, Teddy Kristiansen e Steve Bissette.
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Marvels e Authority

Meu amigo nerd Bernardo é uma espécie de consultor para assuntos Marvel/DC. Ele me recomendou esses dois HQs de que gostei imensamente.

MARVELS, de Kurt Busiek e Alex Ross
A visão dos não heróis

A visão dos não heróis

Nesses tempos de banalização da fama e da auto-afirmação de todo e qualquer ser humano, uma história contada do ponto de vista de quem não é herói é muito intrigante. Essa série em 4 volumes propõe justamente isso.

Já pensou achar os super-heróis um saco. Um bando de marrentos e pretenciosos? Ou interpretar os fatos de forma que parece que o encapuzado não fez nada, apesar de ter salvado a humanidade. Pode acontecer com qualquer um, inclusive com um herói. O circo da fama X anonimato e do heroísmo X mera mortalidade é bem cruel. Pobres maravilhas incompreendidas.
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AUTHORITY – SEM PERDÃO, de Warren Ellis e Bryan Hitch
heróis de novos tempos

heróis de novos tempos

Novas idéias oxigenam o mundo dos HQs como essa série onde os super-heróis partem mesmo para a ignorância e realizam o que qualquer mortal gostaria de fazer para resolver problemas, conseguir justiça e combater ameaças. Tudo num contexto do planeta globalizado (defender o mundo e não só o american way) e onde o comportamento politicamente correto é defendido e ignorado ao mesmo tempo.

É um time de heróis bem ousado esse Authority. Formado pela inglesa durona e fumante Jenny Sparks (a tal Espírito do Século 20), Jack Hawksmoor, Doutor Swift, a Engenheira e o que talvez seja o primeiro casal de super-heróis assumidamente gay: Apolo e Meia-Noite. Tem outros volumes como o Authority – Sob Nova Direção, que lerei e comentarei oportunamente.

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Edward Rutherfurd: Os Príncipes da Irlanda (Dublin Foundation)

A História da Ilha Esmeralda

A História da Ilha Esmeralda

Esse aí eu levei quase 2 anos para ler, mas consegui terminar antes do estouro dos fogos de 31/12 (2008).

Desse autor, Edward Rutherfurd, já tinha lido Londres, o romance, em que narra 2.000 anos da história da capital inglesa desde sua formação geológica até a década de 90. Cada capítulo detém-se num determinado período histórico, formando um fio condutor da história da própria Inglaterra. Passamos pela época da formação da aldeia celta de pescadores à beira do rio Tâmisa, os tempos de província romana, a chegada dos saxões, depois os vikings, o domínio dos normandos plantagenetas, a dinastia Tudor de Henrique VIII e Elizabeth, a Revolução Gloriosa, a Restauração, o louco rei George do século XVIII, a cultura cockney do tempo de Dickens, a formação das classes operárias da era vitoriana e por aí vai, até o governo de John Major (se não me engano).
Em um outro romance, Rutherfurd segue o mesmo modelo para contar 1000 anos de história de New Forrest. Este eu ainda não li. Está na prateleira-fila de espera. Mas o autor também manteve a receita em Os Príncipes da Irlanda, primeiro volume da obra A Saga de Dublin. No prólogo, chamado Sol Esmeralda, o autor vaga pelas origens míticas daquela terra cheia de lendas de reis gigantes. Depois, prossegue com a cultura celta medieval com seus guerreiros e druídas e avança pelos séculos até chegar ao ano de 1533, quando começam os problemas entre católicos e protestantes, que até hoje não se resolveu.
Outra marca do autor é a linha genealógica dos personagens. Um mercador retratado no século 15 pode ser descendente de algum druída do capítulo do século 5, ou de um imigrante viking do século 10. Sempre herdam um traço genético ou a corruptela do nome de seus antepassados. Um sujeito chamado MacGowan descende de um tal de MacGoignenn, e este de outro Goibnu. Todos separados por alguns séculos de histórias e acontecimentos extraordinários.
A Irlanda tem uma onda muito diferente da Inglaterra. Embora a influência escandinava seja forte, a primeira não foi invadida pelos anglos e saxões, e conseguiu manter sua raiz celta, marcada pelo idioma gaélico (semelhante aos dos escoceses e galeses) e por um certo sincretismo entre as crenças antigas e o cristianismo. Num capítulo sobre um homem que se torna monge, descendente de outro que se tornou druída, vemos como os dois mundos espirituais conseguiram se abraçar. A introspecção e contemplação da natureza nutridas pelos druídas encontrou eco na vida reclusa e de orações dos monges cristãos. Nesse episódio, faz-se menção ao lendário livro de Kells, um tesouro da cultura celta.
Cada capítulo com seu grupo de personagens deixa saudade quando termina. É um traço da obra de Rutherfurd, que é inglês, porém elegeu Dublin para viver há mais de dez anos. Seus livros sempre trazem mapas e a árvore genealógica dos personagens. A Saga de Dublin continua com o segundo volume The Rebels of Ireland (ou Ireland Awakening no mercado europeu), que ainda não foi lançado no Brasil. No site oficial do escritor ele divulga seu novo romance intitulado New York. Mais uma vez ele viaja pela história de uma cidade, recriando a Manhattan dos índios algonquins, os acentamentos de holandeses, depois os ingleses, até chegar ao século da tragédia do 11/9. Já estou morta de vontade de ler!
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J.K. Rowling: Os Contos do Bardo Beedle

Contos de Bruxos

Contos de Bruxos

Já escrevi que Harry Potter é uma cachaça. E a autor, J. K. Rowling, ofereceu mais essa pequenina dose.

Parecem contos de fadas, mas são contos de bruxos cheios de boas lições, que a Hermione lê sem parar em Harry Potter e as Relíquias da Morte. Cada história tem comentários do Professor Dumbledore. The Warlock’s Hairy Heart é o meu preferido. Bom para trouxas felizes!

Sobre a Cegueira – parte 1

Vivi três experiências numa mesma semana, que se embaralharam e formaram uma idéia apavorante.

 

Julianne Moore guia os cegos pela terra do medo

Julianne Moore guia os cegos pela terra do medo

Primeiro fui ver o Ensaio sobre a cegueira, do Fernando Meirelles, sobre o livro do José Saramago. Bonito e angustiante do início ao fim. Saí do cinema enxergando e pensando tudo por uma lente branca leitosa de medo. Para quem conhece a obra do Neil Gaiman, autor da série Sandman, o filme parece um retrato de Desespero. Uma mulher é “rainha” na terra dos cegos. Julianne Moore é a mulher do oftalmologista. Ele é um estudioso da visão. Ela confunde radicais gregos e latinos. Mas e daí? Ela vai ser a única a enxergar sobre a face da terra dos cegos.  

Enfim… você já deve ter lido ou visto na TV algo sobre o enredo. A população mundial começa a ficar cega e ninguém sabe explicar ou conseguir a cura. A cegueira vira uma epidemia e os “infectados” vão sendo trancafiados e tratados literalmente como dejetos da civilização. Como em qualquer outra prisão, no mundo de horror dos cegos, estabelecem-se novos códigos sociais, com suas próprias leis, organização política, divisão de classes e valores morais-monetários. A mulher do oftalmologista esconde que não é cega ou finge que o é para ficar ao lado do marido. Acaba se tornando uma espécie de “anjo da guarda” dos cegos. Cuidando de todos, mas longe da “vista” deles. São muitas ironias e analogias ao comportamento coletivo da humanidade conflitante sobre suas crenças, preconceitos, transgressões, valores intelectuais. 
Assisti à entrevista do Meirelles com a Marília Gabriela. Ele contou que o Saramago chorou ao final da projeção e que confessou sentir a mesma emoção de quando terminou de escrever o romance. Eu acho que o filme/livro é sobre inícios. Uma alegoria do horror diante das rupturas e das reviravoltas de muitas coisas.
Bom… Daí…. vou cair o nível da conversa para o filme do Bruce Willis Duro de Matar 4.0. Desculpe. É que o contexto justifica eu ter jogado o blockbuster americano na mesma panela. Ocorreu que o meu pavor reacendeu com mais essa fábula premonitória da guerra entre os hackers maus e os hackers bons. E a gente se f#*endo. Mas deixa essa para o próximo post.
 
 
Mais sobre…
 


  
Recomendações Top3
      
1) Filme Ensaio sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles. Com Julianne Moore, Mark Rufallo, Alice Braga, Danny Glover, Gael Garcia Bernal. Inspirado no livro de José Saramago.
 
2) Livro/HQ “15 Retratos de Desespero”, da coletânea Sandman: Noites Sem Fim. Autor Neil Gaiman, artistas Barron Sorey e Dave McKean.
 
3) Filme Duro de Matar 4.0. Juro que pra mim fez sentido…