mesmo quando já tiver me esquecido do seu rosto, do seu nome

E agora chega a noite. Ele diz que vou me lembrar para sempre daquela tarde, mesmo quando já tiver me esquecido do seu rosto, do seu nome. Pergunto se vou lembrar-me da casa. Ele diz: olhe-a bem. Olho. Digo que é igual a qualquer outra. Ele diz que é exatamente isso, como sempre.

— Marguerite Duras: O Amante

E agora chega a noite

E agora chega a noite

frágil mistério da feminilidade

frágil mistério da feminilidade

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Ai de mim, se for amor

Havia achado, sempre, que morrer de amor não era outra coisa além de uma licença poética. Naquela tarde, de regresso para casa outra vez, sem o gato e sem ela, comprovei que não apenas era possível, mas que eu mesmo, velho e sem ninguém, estava morrendo de amor. E também percebi que era válida a verdade contrária: não trocaria por nada neste mundo as delícias do meu desassossego. Havia perdido mais de quinze anos tratando de traduzir os cantos de Leopardi, e só naquela tarde os senti a fundo: Ai de mim, se for amor, como atormenta. — Gabriel García Márquez: Memória de Minhas Putas Tristes

estava morrendo de amor

estava morrendo de amor

Idades do amor

Idades do amor

the bench

PETER
(His furry and self-consciuousness have prossessed him) It doesn’t matter. (He is almost crying) GET AWAY FROM MY BENCH!

JERRY
Why? You have everything in the world you want; you’ve told me about your home, and your family, and your own little zoo. You have everything, and now you want this  bench. Are these the things men fight for? Tell me, Peter, is this bench, this iron and this wood, is this your honor? Is this thing in the world you’d fight for? Can you think of anything more absurd?

PETER
Absurd? Look, I’m not going to talk to you about honor, or even try to explain it to you. Besides, it isn’t a question of honor; but even if it were, you wouldn’t understand.

JERRY (Contemptuously)
You don’t even know what you’re saying, do you? This is probably the first time in your life you’ve had anything more trying to face than changing your cats’ toilet box. Stupid! Don’t you have any idea, not even the slightest, what other people need?

– Edward Albee: The Zoo Story

is this bench, this iron and this wood, is this your honor?

is this bench, this iron and this wood, is this your honor?

what other people need?

what other people need?

o absurdo do american way

a máscara absurda do american way

A fábula e a galhofa de todo o mundo

HARPAGON – E poderia eu saber, Mestre Joaquim, o que dizem de mim por aí?…

JOAQUIM – Talvez, patrão, se eu tivesse a certeza de que não se zangaria…

HARPAGON – Mas eu não me zangarei, Mestre Joaquim… Ao contrário… Terei um grande prazer em ouvir a opinião alheia a meu respeito…

JOAQUIM – Visto que insiste, eu direi francamente que o senhor é motivo para todos os deboches … Que ouvimos, em todos os lugares, mil pllhérias a seu respeito… Que mil e uma anedotas circulam sobre as suas atitudes íntimas… Um diz que o senhor faz imprimir, secretamente, falsos almanaques do ano, para dobrar dos dias de jejum e de vigília, afim de economizar na alimentação dos seus criados… Outro afirma que sempre que vai pagar ordenados ao pessoal doméstico o senhor faz chicana e prejudica nas contas… Este conta que certa vez o senhor processou um gato que roubou da cozinha um pedaço de carneiro… Este outro, que o senhor foi supreendido, uma noite, a roubar a aveia de suas próprias cavalariças e que o seu cocheiro nessa época, estando no escuro, não pôde reconhecer o ladrão e deu-lhe uma formidável surra… Que quer mais, patrão?… Não podemos entrar num fornecedor sem ouvir histórias… O senhor é a fábula e a galhofa de todo o mundo… E nunca falam do senhor sem empregar palavras duras: avarento, chicaneiro, ladrão…

HARPAGON  (agredindo-o) – E você é idiota, cretino, vagabundo, malcriado!…

Molière: O Avarento

 

E você é idiota, cretino, vagabundo, malcriado!

E você é idiota, cretino, vagabundo, malcriado!

farsas, manipulações e outros clichês humanos

farsas, manipulações e outros clichês humanos

 

Vi as éguas da noite entre os escombros

Vi as éguas da noite galopando entre as vinhas
E buscando meus sonhos. Eram soberbas, altas.
Algumas tinham manchas azuladas
E o dorso reluzia igual à noite
E as manhãs morriam
Debaixo de suas patas encarnadas.

Vi-as sorvendo as uvas que pendiam
E os beiços eram negros e orvalhados.
Uníssonas, resfolegavam.

Vi as éguas da noite entre os escombros
Da paisagem que fui. Vi sombras, elfos e ciladas.
Laços de pedra e palha entre as alfombras
E vasto, um poço engolindo meu nome e meu retrato.

Vi-as tumultuadas. Intensas.
E numa delas, insone, a mim me vi.

—Hilda Hilst: Da Noite – I (Do Desejo)

Uníssionas, resfolegavam.

Uníssionas, resfolegavam.

E as manhãs morriam Debaixo de suas patas encarnadas.

E as manhãs morriam
Debaixo de suas patas encarnadas.

no coração da noite do desejo

no coração da noite do desejo

invejou-os por tudo o que ignoravam

“Aquela gente rústica, com suas vozes rudes e bem humoradas e suas maneiras despreocupadas, via uma Londres bem estranha! Uma Londres livre do pecado da noite e da fumaça do dia, uma cidade pálida e fantasmagórica, uma desolada metrópole de túmulos! Perguntou a si mesmo o que pensariam dela e se conheciam algo de seu esplendor e de sua vergonha, de suas alegrias violentas e coloridas, de sua horrível miséria, de todos os seus feitos e danos, desde a aurora até o cair da noite. É provável que para eles era simplesmente um mercado onde vendiam suas frutas e onde se detinham algumas horas, no máximo, deixando as ruas ainda silenciosas, as casas ainda adormecidas. Sentiu prazer em observá-los ao passar. Embora rudes, com seus pesados sapatos e seu andar desajeitado, traziam consigo um pouco da Arcádia. Sentiu que viviam com a Natureza e que esta lhes ensinara a paz. E invejou-os por tudo o que ignoravam.” — Oscar Wilde: O Crime de Lord Arthur Saville

sua horrível miséria, de todos os seus feitos e danos, desde a aurora até o cair da noite

uma cidade pálida e fantasmagórica

uma cidade pálida e fantasmagórica

ironias de Wilde

ironias de Wilde

 

Esse honesto mínimo de civilização

“Na terra tudo vive – e só o homem sente a dor e a desilusão da vida. E tanto mais as sente, quanto mais alarga e acumula a obra dessa inteligência que o torna homem, e que o separa da restante natureza, impensante e inerte. É no máximo de civilização que ele experimenta o máximo de tédio. A sapiência, portanto, está em recuar até esse honesto mínimo de civilização, que consiste em ter um teto de colmo, uma leira de terra e o grão para nela semear. Em resumo, para reaver a felicidade, é necessário regressar ao Paraíso – e ficar lá, quieto, na sua folha de vinha, inteiramente desguarnecido de civilização, contemplando o anho aos saltos entre o tomilho, e sem procurar, nem com o desejo, a árvore funesta da Ciência! Dixi!” — Eça de Queiroz: Civilização, em “Civilização e outros contos”.

É no máximo de civilização que ele experimenta o máximo de tédio.

É no máximo de civilização que ele experimenta o máximo de tédio.

Into The Wild

para reaver a felicidade, é necessário regressar ao Paraíso – e ficar lá,
quieto, na sua folha de vinha, inteiramente desguarnecido de civilização

Na terra tudo vive

Na terra tudo vive

O bode da perfeição e da civilização

O bode da perfeição e da civilização