Longa jornada pela Terra Média: O Senhor dos Anéis

Cheguei ao fim de uma viagem. Sem planejar, 2012 tornou-se o meu Ano Tolkien. Foram mais de 2.500 páginas desde a releitura de O Hobbit, passando pelas primeiras incursões por O Silmarillion e os Contos Inacabados, terminando com mais 2 meses de um novo mergulho na trilogia O Senhor dos Anéis, incluindo os Apêndices.

Na primeira vez em que li O Senhor dos Anéis, me impressionei com a imaginação do autor. Curti demais os personagens, a riqueza de descrição da Terra Média, a originalidade e até mesmo uma certa excentricidade de coisas como seres que têm pés peludos. Mas confesso que não gostei tanto do texto em si. Achei meio chato. Talvez seja por ser monumentalmente detalhado. Páginas e mais páginas para narrar o percurso da Torre Cirith Ungol até a Montanha da Perdição. Mas acontece que releituras podem ser experiências inéditas. Ainda mais depois da passagem de mais de 10 anos. Caminhar carregando um anel mágico de poder em uma terra sem sol ou lua, com vapores escuros e sufocantes, sem água ou comida, reflete um pouco a vida, quando enfrentamos, por exemplo, épocas de vacas magras. Sacrifícios, privações, desconfortos. Demora a passar, parece uma eternidade, mas depois descobrimos que trata-se de uma jornada de transformação. Cada um tem a sua. Acho que a compreensão dessas coisas enriquece a experiência com as histórias.

A Sociedade do Anel

A Sociedade do Anel

Diz-se muito sobre a coisa do Tolkien ser maniqueísta. Elfos são bons, orcs são maus e homens e anões se orientam de um lado ou outro da cerca. Mas não é possível ser totalmente maniqueísta. As tradições de contar histórias já mostraram isso. Sejam as lendas e mitos dos povos, os contos de fadas e fábulas, os escritos religiosos, os clássicos da literatura ou mesmo os filmes, séries e novelas. A magia que inspira pessoas a construir narrativas ou transmitir o que outro criou é um processo de ruptura, de transformação. Não somos mais os mesmos depois de atravessarmos a história. E quem escreve ou inventa uma história acaba mudando no processo. A trama e os personagens se inflam de uma vida própria e o autor não tem mais tanto controle. A narrativa acaba sendo resultado desse confronto entre a vontade de quem digita ou rabisca no caderno e o “monstro” que já foi inventado e se impõe. E quando essas criaturas se projetam para além da superfície do papel ou da tela, ficam sujeitas às forças dinâmicas da vida, onde o Bem e o Mal não conseguem ficar muito juntos ou separados, por muito tempo…

As Duas Torres

As Duas Torres

Imagine Tolkien nas trincheiras da 1ª Guerra. O que vivenciou para entender quando dizem sobre os pecados de guerra. Imagine um escritor passar tipo 10 anos escrevendo um romance. Convivendo com os conflitos e as provações dos personagens. Se fosse tão maniqueísta, não seria um livro tão orgânico, tangível nem tão belo e amado. Em outra ocasião, poderei escrever sobre Túrin, personagem cheio de contradições e um dos melhores de Tolkien.  Mas vou deixar para falar dele nos posts sobre O Silmarillion e os Contos Inacabados. Na trilogia do Anel, quase todos revelam fraquezas, pequenas crueldades, covardias e egoísmos.

Outra revisão foi a importância do mestre Samwise Gamgi. Tem uma verdade reconfortante na chatice e na ingenuidade compensadas pela coragem e integridade dele. Sabe que tem gente que coloca o chapéu do Sam? É. Tem sim. Faz toda a diferença na “dura caminhada pela estrada escura”.

O Retorno do Rei

O Retorno do Rei

Estou começando a relatar a viagem pelo trecho final (O Senhor dos Anéis). Para dizer a verdade, ter lido O Hobbit, O Silmarillion e os Contos Inacabados pavimentou a estrada com outras cores. E por isso, sei que o mestre Tolkien escrevia muito bem, se quer saber. Melhor a cada relida.

Agora, falta só uma nova passeada pelos filmes, para depois cair na estrada de O Hobbit em 3D a 48 quadros por segundo.

E daqui a alguns anos, quem sabe, vou reler tudo e ainda acrescentar As Aventuras de Tom Bombadil.

É bom sonhar com a Terra Média.

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tenho algo a fazer antes do fim

– Que devo fazer, que devo fazer? – disse ele. – Será que o acompanhei por todo esse longo caminho para nada? – Então lembrou-se de sua própria voz dizendo palavras que na ocasião lhe pareceram sem sentido, no início de sua jornada: Tenho algo a fazer antes do fim. Devo passar por isso, senhor, se o senhor me entende.

todo esse longo caminho para nada?

J. R .R. Tolkien: O Senhor dos Anéis – As Duas Torres – Livro IV

Capítulo 10 – As escolhas de Mestre Samwise

Tradução de Lenita Maria Rimoli Esteves e Almiro Pisetta

tecendo teias de sombra

Mas ela ainda estava lá, ela que chegara antes de Sauron, e antes da primeira pedra de Barad-dûr; nunca servia a ninguém a não ser a si própria, bebendo o sangue de elfos e homens, intumescida e gorda, remoendo sem cessar seus banquetes, tecendo teias de sombra; pois todos os seres vivos eram sua comida, e seu vômito a escuridão.

J. R .R. Tolkien: O Senhor dos Anéis – As Duas Torres – Livro IV

Capítulo 9 – A Toca de Laracna

Tradução de Lenita Maria Rimoli Esteves e Almiro Pisetta

um guincho dilacerante

A terra rosnou e da cidade veio um grito. Misturado a vozes roucas como as das aves de rapina, e ao relinchar agudo de cavalos alucinados de raiva e medo, veio um guincho dilacerante, que foi rapidamente aumentando num tom agudo, ultrapassando o alcance da audição.

J. R .R. Tolkien: O Senhor dos Anéis – As Duas Torres – Livro IV

Capítulo 8 – As escadarias de Cirith Ungol

Tradução de Lenita Maria Rimoli Esteves e Almiro Pisetta

podia ouvir-lhe a voz pedregosa subindo através do silêncio

Lá no fundo corria um riacho veloz: Frodo podia ouvir-lhe a voz pedregosa subindo através do silêncio, e no lado mais próximo dele uma estrada se desenhava como uma fita clara, descendo até a névoa cinzenta e fria que nenhum raio do pôr-do-sol conseguia atingir.

J. R .R. Tolkien: O Senhor dos Anéis – As Duas Torres – Livro IV

Capítulo 7 – Viagem até a Encruzilhada

Tradução de Lenita Maria Rimoli Esteves e Almiro Pisetta

a bela ithil

Pôr-da-lua sobre Gondor. A bela Ithil, quando parte da Terra-média, lança um olhar sobre os cachos brancos do velho Mindolluin.

J. R .R. Tolkien: O Senhor dos Anéis – As Duas Torres – Livro IV

Capítulo 6 –  O lago proibido

Tradução de Lenita Maria Rimoli Esteves e Almiro Pisetta

muitos nomes em diferentes lugares

Tenho muitos nomes em diferentes lugares, dizia ele. Mithrandir entre os elfos. Tharkûn para os anões; eu era Olórin em minha juventude no Ocidente que está esquecido; no sul, Incânus, no norte Gandalf; para o leste eu nunca vou.

J. R .R. Tolkien: O Senhor dos Anéis – As Duas Torres – Livro IV

Capítulo 5 – A janela sobre o oeste

Tradução de Lenita Maria Rimoli Esteves e Almiro Pisetta