Palavras são ventos

 “- Um leitor vive mil vidas antes de morrer – disse Jojen. – O homem que nunca lê vive apenas uma.” – A Dança dos Dragões (Ed. Leya) – Bran

“A reader lives a thousand lives before he dies,” said Jojen. “The man who never reads lives only one.” – Bran (III) – A Dance with Dragons

Quantas vidas vivem nos livros? Quantas alternativas se abrem através das narrativas, no momento da experiência e após ele? Cada vez em que a história é contada, uma nova história se forma. O momento vivido é outro a cada narração. Cada experiência com uma história é única. E esse momento passa. Como o vento.

A aventura das palavras

Aventura. Vento. Ventura. Na construção das narrativas, os personagens e as tramas ganham força e viajam a favor do vento, para em seguida interagirem com novas palavras e formarem novas histórias.

Trama. Tecido complexo de palavras. Linhas, fios de letras e sons. Redemoinhos de letras e sons. Palavras são ventos. São sopros. Qual a imagem do vento? Em “A Insustentável Leveza do Ser”, Milan Kundera concebe um personagem depois de passar dois capítulos perdido em devaneios sobre o tema do eterno retorno, de Nietsche.  Como se um redemoinho de ideias formassem a imagem de Tomas na janela.

Há muitos anos penso em Tomas. Mas é sob a luz dessas reflexões que o vi claramente pela primeira vez. Eu o vejo de pé, numa das janelas de seu apartamento, os olhos fixos, do outro lado do pátio, na parede do prédio defronte, sem saber o que fazer. – Milan Kundera: A Insustentável Leveza do Ser, Capítulo 3.

A aventura das letras, imagens e sons passa pelo estranhamento. Onde vai parar o sonho intrépido das palavras? Um hobbit diz que não há como prever até onde seus pés podem levá-lo depois que você pisa a estrada. Passo a passo na longa estrada. De batida em batida de asas pelo céu cinzento. De letra em letra. Som em som. Três dragões nascem sob a proteção de uma princesa de cabelos de prata e olhos cor de safira. Cidades magníficas se erguem nos dois lados de um mar chamado Estreito. Tudo é construído com palavras que cavalgam o vento. Povos falam línguas fantásticas e veneram deuses antropomórficos, forjados na dicotomia de luz e trevas ou com muitas caras.

Mother of Dragons

Mother Of Dragons, Daenerys Targarien
by a-hour

Desde os tempos da tradição oral as histórias nos ajudam a viver. Elas ensinam o que fazer e o que não fazer. Trazem possibilidades de vida. Reforçam costumes e crenças. Quando não havia escrita, as histórias eram repetidas sistematicamente. Contadas com música, dança, máscaras, mímica e outros recursos que tornavam fácil memorizar e retransmitir.

Múltiplos meios e narrativas paralelas

Numa época em que as narrativas apoiadas em multimeios está tão em voga, com interação e colaboração de quem narra e de quem segue, o projeto A Song of Ice and Fire (ASOIAF) de George R. R. Martin (GRRM) é um exemplo curioso. O modo de Martin contar histórias não nasceu na era das narrativas transmídia, das multiplataformas. Ele subiu a crista dessa onda meio sem querer, me parece. Foi uma trajetória natural. A saga vinha ali caminhando desde os anos 90. A obra de um mestre dos magos. Escritor de roteiros de TV. Mestre de D&D. Leitor de Tolkien e de outros clássicos da ficção de fantasia.

A PARTIR DAQUI, FIQUE ATENTO AOS SPOILERS

O que ganhamos com as narrativas transmídia de ASOIAF?

Quando assisti à cena brutal do Casamento Vermelho na TV, já tinha lido essa passagem do livro. Pior. Antes, tinha lido o verbete da Wiki of Ice and Fire. Mas não adiantou nada. Foi só uma volta a um pesadelo. Eu perdi o fôlego quando começou o massacre, porque não tinha Talisa no livro nem na wiki. E não tinha uma esposa grávida de Robb Stark no tal casamento. Não tinha barriga de grávida sendo esfaqueada barbaramente.

Duas rainhas do norte: Jane Westerling (© Cloudninja9), dos livros, e Talisa Maegyr (Oona Chaplin), da TV.

Duas rainhas do norte: Jane Westerling (© Cloudninja9), dos livros, e Talisa Maegyr (Oona Chaplin), da TV.

Esse é um dos casos em que a série enriquece a sopa do caldeirão narrativo de ASOIAF. Na TV, Varys guarda secretamente numa caixa o homem que o transformou em eunuco. Catelyn revela um momento de quase rendenção amorosa ao zelar pela sobrevivência do, então, bebê John Snow. Jeyne Westerling e Talisa Maegyr existem em alternativas diferentes de ASOIAF.  A vida sexual de Renly Baratheon é evidenciada na TV e quase secreta nos livros. A estrutura cronológica da saga é organizada de formas diferentes no livro e na série de TV.

Dizem até que GRRM já contou para os produtores da série da HBO qual é o plano geral da saga. Tipo: quem vai ganhar o jogo de tronos e qual a origem de John Snow. Mas será que algumas pistas da série de TV vão orientar a trama dos livros? O quanto uma coisa influenciou a outra? Sem falar nos games, que nem conheço. Será que os games também têm outras peças do quebra-cabeças?

A saga da saga de GRRM

Nada como criar histórias, mergulhado na plena liberdade para inventar. George R. R. Martin iniciou as Crônicas de Gelo e Fogo (ou A Song of Ice and Fire) para libertar seu monstro criativo. Para imaginar pessoas, cidades, batalhas, paisagens, bichos e monstros sem se preocupar com os orçamentos pobres e limitações técnicas que o afligiam como roteirista de TV. Neil Gaiman, outro imaginador de universos, conta, num vídeo extra do DVD do filme Stardust, que estava espantado com o cenário feito para o navio do capitão Shakespeare. Com um golpe bobo de pena, o escritor inventou em uma única linha de texto um enorme navio que atravessava nuvens e transportava caçadores de relâmpagos. Com milhares de dólares, toneladas de materiais e horas técnicas de profissionais, criou-se o navio para que os atores pudessem atuar e brincar com a imaginação dos expectadores.

E foi assim, fugindo das amarras da produção audiovisual, que Martin acabou criando um dos mais adorados universos de ficção do planeta. A altura de coisas como a Terra Média, de Tolkien, ou a saga Guerra nas Estrelas, de Lucas.  Coisas que dão sentido à vida de milhares de nerds malucos como eu. E anos depois, meio ironicamente, a TV resolveu materializar o mundo imaginário de Martin. Ainda que com algumas restrições técnicas e orçamentárias, a HBO produziu algo muito acima da média. Diante da escassez de ideias realmente originais e apaixonantes como as Crônicas de GRRM, a série Game of Thrones (GoT) se beneficia com uma visão bem mais madura de qualidade em entretenimento.

O Senhor dos Anéis e Guerra nas Estrelas: sagas de fantasia seminais

O Senhor dos Anéis e Guerra nas Estrelas: sagas de fantasia seminais

O jogo da vida: fundamentos na realidade e referências históricas

Quando tenho que explicar para alguém do que se trata Game of Thrones ou A Song of Ice and Fire, sempre me perguntam algo como “é um negócio que acontece na idade média, né?”. Não exatamente… Mas é, né? É uma Idade Média reimaginada. Com princesas, cavaleiros, castelos, senhores e vassalos, heráldica, justas, espadas e armaduras. Tem até dragões e gigantes. Tem elementos fantásticos, sobrenaturais, mas sem perder um aspecto bastante naturalista e pragmático de encarar a vida.

Geografia, história, línguas, culturas, instituições, crenças e bordões

Em Westeros, continente ocidental do mundo das Crônicas, as estações climáticas duram décadas. Após anos de verão, um longo inverno é aguardado, e ele despertará a humanidade de suas preocupações medíocres. Ao leste, do outro lado do mar, encontra-se Essos, onde ficam as cidades livres, com riquezas e culturas diversas. E ainda tem as ilhas de Verão ao sul e outras ilhas selvagens e geladas ao norte.

HBO Game of Thrones Viewer's Guide

HBO Game of Thrones Viewer’s Guide

Os diferentes povos encontram semelhança com culturas mediterrâneas, escandinavas, germânicas, africanas, do oriente médio e das estepes asiáticas.  Quem gosta de história ou de ficção com reconstituições de época, pode identificar referências à Roma antiga, à Itália renascentista, à Inglaterra do período da Guerra das Rosas e até ao caldeirão étnico dos grandes califados árabes.

Uma coisa legal sobre ASOIAF é que não tem calendário de Janeiro a Dezembro, nem dias da semana de Segunda a Domingo. Sei lá como se contam os tempos por lá, mas o que importa é o tempo eterno da leitura. Chato é quando o metrô chega à estação de destino e temos que parar de ler…  O fato é que esse universo ficcional das Crônicas é bem consistente. Tem idiomas e religiões diferentes para cada canto da terra.

Instituições religiosas (Septos [tipos de templo], Septões [tipos de sacerdotes] e deuses da Estrela de Sete Pontas), seculares (reis, príncipes, regentes e meisters [espécies de preceptores e administradores dos lordes]) e militares (guardas, cavaleiros, mercenários e companhias de guerra) compõem as forças que jogam pelo Trono de Ferro de Westeros. E muitas vezes precisam de financiamento de bancos das ricas cidades de Braavos e Penthos.

The Seven by guad (Deviantart.com)

Os Sete Deuses
The Seven by guad (Deviantart.com)

Personagens usam ditados e bordões que caracterizam sua cultura ou uma identidade familiar. Entre os mais populares estão O Inverno está chegando, Palavras são vento, Um Lannister sempre paga suas dívidas, A noite é escura e cheia de terroresValar morghulis – máxima do Alto Valiriano (idioma da Valíria) que significa Todo homem deve morrer e Valar dohaeris (Todo homem deve servir). Martin criou alguns rudimentos de línguas como o valiriano e o dothraki para o livro, mas a série da HBO expandiu esse recurso, contratando especialistas para criar os idiomas com suas gramáticas, pronúncia e tudo mais.

Animais da vida cotidiana estão lá. Cavalos, cães, gatos, leões, peixes e elefantes. Mas também temos dragões, tartarugas gigantes e mamutes. Corvos exercem a função de pombos no transporte de mensagens.

E ainda tem um jogo chamado Cyvasse, que parece xadrez mas que é jogado por dinheiro, como poker.

Cyvasse game

Cyvasse game

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Narrativas warg: entrando na pele dos personagens

“He has a song. He is the prince that was promised, and his is the song of ice and fire. There must be one more. The dragon has three heads.” – Rhaegar Targaryen [A Clash of Kings, Chapter 48, Daenerys.]

GRRM, nossa “Old Nan”, comanda o vôo do dragão em que embarcamos para sobrevoar florestas de wargs, wildlings, white walkers, desertos de gigantes e mamutes. Águas de tartarugas jurássicas, ilhas que escondem doentes de escamagris (que é tipo uma lepra).

Entes queridos e odiados: o ponto de vista de cada personagem.

A narrativa voa entre as civilizações e pousa fundo nos personagens.  Penetramos a pele de Bran e Cersei e mergulhamos na humanidade em cada um. Nas belezas, coragens, dores e crueldades. Vivenciamos as transformações. De um cavaleiro de caráter duvidoso que se vê aleijado da mão que maneja a espada. Do menino sonhador que não pode mais andar, mas que aprende certa forma de voar. Da rainha bela e loura, cruel e arrogante, solitária em sua redoma de poder e condenada a caminhar nua em praça pública.

Os capítulos são contados pelo ponto de cada personagem. Mas não são narrativas subjetivas. O autor conta o que o personagem vivencia. Então, o leitor testemunha quando eles aprendem e se transformam. Quando fazem escolhas amargas e têm inocências quebradas. Quando se ferram injustamente ou merecidamente. Ned, Jon, Bran, Arya, Tyrion, Daenerys e Sam. Acho que esses são meus favoritos. Mas com tanta intimidade com os personagens, dá até para entender as chatíssimas Sansa e Catelyn. O zé ruela do Theon. Ou mesmo os medonhos Jaime e Cersei. Ninguém é tão feio e chato nem tão bonito e justo de perto. Com exceção do Joffrey, é claro.

Elenco da série Game of Thrones

Elenco da série Game of Thrones

Agora vem o meu momento desabafo de telespectadora pirada de novela… Me perdoem pelas grosserias,  asneiras e o ataque de spoilers fatais. Se puder, pule essa parte. Mas não diga que não avisei. Finja que avistou sua vizinha chata e bêbada resmungando na sua direção e saia correndo para o tópico A Morte.

Sansa é uma sonsa, mas a onda errada vem da mãe, Catelyn. No início, “Sonsa” me dava urticária. Mas a verdade é que a personagem é uma espécie de Madame Bovary adolescente, tola e rica. Todas as ambições da Sansa em nada diferem das que são alimentadas por inúmeras garotas do século XXI do mundo real (esse nosso, não Westeros, sabe? Desculpe cortar o barato, mas infelizmente não vivemos em Winterfell ou King’s Landing). Ela quer príncipe encantado, romance, amor, bebês louros e rosados, pequeno pônei, arco íris, anjos e fadas. Tudo que Cazuza cantava no Blues da Piedade (“para quem não sabe amar / fica esperando alguém que caiba no Seu sonho / como varizes que vão aumentando / como insetos em volta da lâmpada”).  Sansa era um prato cheio, gostoso e calórico para o lobo mau partidor de corações. Ninguém da família Stark teve a atitude amorosa de prepará-la para o mundo onde havia mais alguém além dela mesma. Um mundo de pessoas com agendas que não incluem Smurfs, Barbies e Pequenas Sereias.  A maior qualidade da personagem Sansa é que vai aprender.

Catelyn, sua mãe, foi educada por preceptora e tudo mais. Treinada em cortesias e bordados. Mas se adaptou à crueza dos homens do norte e ficou até bem esperta e corajosa. Só não dividiu isso com a filha mais velha. E não tem a mínima generosidade para com Jon Snow, o dito bastardo de Ned.

HBO Game of Thrones

HBO Game of Thrones

Parei de sofrer por Ned…  Ao ver pela segunda vez a 1ª temporada da série de TV, tive o mesmo impacto com a execução de Ned Stark. É sempre difícil de assistir. Mas agora que li o livro…. Não me leve a mal, mas os Stark têm mais que se f@der mesmo. Fizeram um monte de merda, agora aguentem. Não é uma questão de justiça. É uma questão de pagar o preço pelas escolhas. Com ou sem honra, sempre existe um preço a pagar. Não adianta rezar para os deuses das árvores. Para honrar as leis, Stark cortou com as próprias mãos e sem hesitar diversas cabeças de desertores da Muralha. Mas quantas cabeças mereciam mesmo ser cortadas? Quantas execuções foram justas? Seria por ironia ou por justiça que a própria cabeça de Ned foi separada de seu corpo por ordem do jovem e escrotíssimo rei “Joffrey Lennister é o c@#*. Meu nome é Zé Calígola”?

E o panariço do Robert Baratheon? Isso que dá apoiar aquele mané para ser rei. Como irrita! Só porque ele queria pegar a irmã do Stark mas o Targeryan sacou a arma primeiro? Olha a merda que fizeram… E ainda deram mais lenha para alimentar a caldeira dos Lannister. Enfim, fizeram merda, esses Starks e Baratheons. É tipo assim que nem eu. Tenho dificuldade de dizer NÃO. Os Starks tinham que saber dizer mais NÃOS. “- Não, Robert. Você não leva jeito para ser rei. Vai fazer só merda. ”  “- Não, Lannisters, também não rola de trocar 6 por meia dúzia, ou seja, os dragões por leões.” “- Não, Robert. Não vou apoiar você depois que colocou esses Lannisters na jogada e permitiu que matassem as criancinhas Targeryan. Não. Tô fora. Vou voltar para a Bahia. Quer dizer, Winterfell (quem dera, fosse a Bahia…).”

Tudo isso que afirmo acima é pura traquinagem. Eu sei. Não tinha como os Starks simplesmente cagarem para tudo. Criei toda essa argumentação ridícula só para assimilar todo o merderê e, por fim, a morte do Ned. Agora, sofro bem menos. Não sinto mais pena dele. Martin é sábio.

Pergunta que não quer calar: por onde andam Benjen Stark, a loba Nymeria e a Old Nan? Tomara que voltem na Primavera. Sem mãos geladas e nem olhos azuis brilhantes.

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A morte

Pra não dizer que não falei de zumbis: O que está morto pode viver.

Os mortos vivos, os monstros são os piores inimigos? Nas histórias de fantasia muitas vezes são. Pior que o homem gigantesco que aleija, estupra e mata brutalmente. Que o guerreiro traiçoeiro com sua lança envenenada. Que o matador de rei e infanticida. Que o velho rei piromaníaco. Que o jovem rei sádico e covarde. Que o meister torturador que constrói abomináveis frankensteins. Que o lorde esfolador. Que o assassino de muitas faces ou o que uma sombra que mata. Isso tudo não é pior que os Outros, os caminhantes brancos ou a mulher vingativa que volta da morte e tem coração de pedra. Que os Outros levem Joffrey, Cersei, Gregor Clegane, Ilyn Payne e todos da lista de Arya ‘black mamba’ Stark.

White Walkers (by Casey Weeks)

White Walkers (by Casey Weeks)

Eu aprendi

A vida é um jogo

Cada um por si

E os deuses contra todos

Você vai morrer

E não vai pro céu

É bom aprender:

A vida é cruel.

Citando Titãs, “Homem Primata”, do álbum Cabeça Dinossauro

 

A noite é escura e cheia de terrores e chove sangue eternamente em Castemere.

Todos os elementos fantásticos da saga de Martin possuem um pé numa realidade dura e cruel. “O inverno está chegando”, dizem os senhores do norte de Westeros. Existe um pessimismo pungente batendo no coração da história. A morte é quase um personagem. Uma assombração que pode frustrar expectativas de leitores. Ou mesmo traumatizá-los.

Como muitos leitores de ASOIAF e telespectadores de GoT, sofri com a morte de Ned e muito mais ainda com o chamado Casamento Vermelho. Mas gostaria de encorajar quem ficou frustrado com a última temporada da série a seguir em frente. Tem muitas coisas boas por vir. Muitas surpresas que tiram o sono e fazem a gente pular capítulos para saber o que vai acontecer com Tyrion, Jon, Bran e Arya.

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Foi ao vento, perdeu o assento: domínio público e Fanfics

Rubies flew like drops of blood from the chest of a dying prince, and he sank to his knees in the water and with his last breath murmured a woman’s name”. – A Clash of Kings, pg. 706.

Lyanna Stark and Rhaegar Targaryen

Lyanna Stark and Rhaegar Targaryen

A viralidade dos spoilers e a viagem na empada das entrelinhas

Uma obra que perturba tanto os fãs, como ASOIAF, não escapa das especulações mais loucas, de inevitáveis spoilers e de uma apropriação incontrolável da história pelos leitores. Martin deixa os leitores roendo as unhas do pé na beira do abismo. Depois que lançou a bomba chamada A Storm of Swords (Tormenta de Espadas), onde acontece o Casamento Vermelho e outros surpreendentes turning points, o cara levou 5 anos para lançar A Feast of Crows (O Festim dos Corvos) e mais 6 anos para liberar o volume mais recente, A Dance with Dragons (A Dança dos Dragões). A HBO adaptou o primeiro livro A Game of Thrones para a primeira temporada da série de TV, que estreou em 2011 (16 anos após a primeira edição do livro nos EUA). É óbvio que fica muito difícil escapar dos spoilers que varrem a web.

A paixão por ASOIAF é tão grande quanto a que se sente pelo universo das obras de Tolkien ou dos filmes Star Wars. Inúmeros fóruns discutem absolutamente tudo sobre a Terra Média, os Elfos ou os Valar. Romances e histórias em quadrinho exploraram o vazio deixado pelo filme O Retorno de Jedi até outra onda se levantar com a trilogia iniciada com A Ameaça Fantasma. Os universos dos animês, mangás e os livros do bruxo Harry Potter são temas campeões dos fanfics ou fanfiction (pra quem não sabe, trata-se da produção de ficção feita por fãs inspirados por seus livros, séries, filmes, desenhos ou HQs favoritos). Tem fã que escreve contos de mistério passados em Hogwarts. Outros contam historinhas eróticas com vampiros famosos. Como ASOIAF poderia escapar disso? E a culpa é do que está nas entrelinhas. Das perguntas sem resposta. Dos pequenos relatos interrompidos ao longo dessa imensa e complexa narrativa de Martin.

A teoria perfeita ou cuidado com o que o leitor deseja…

Um dos mistérios que mais roubam sono dos leitores de ASOIAF gira em torno de dois personagens fundamentais da série: Jon Snow e Lyanna Stark. Se você ainda não conhece a famosa teoria que voa por aí, leia esse artigo do Game of Thrones Brasil. A solução para a origem de Jon Snow, vinda da inteligência coletiva dos fãs, é tão bela e perfeita, que, se o Martin não ceder a ela… vai cortar um dobrado para inventar algo melhor ou que os fãs recebam bem. Melhor ele aceitar e alegar que os fãs advinharam com perfeição o que ele pretendia contar.  Mó doideira, né não?

Os memes e virais de gelo e fogo

Outras palavras que se desprenderam das páginas e voaram foram as frases de sabedoria de Tyrion. O Mindinho também tem as dele. Assim como a impagável “Você não sabe nada, Jon Snow”, de Ygritte. Mas nada rendeu mais que Tyrion Lannister.

Tyrion meme

Tyrion meme

NELSON NED STARK

NELSON NED STARK

[Minha contribuição tipo Kibe Tosco. Há!]

Atualmente (fins de 2013) ocorre uma campanha ótima na web promovida pela HBO: #RoastJoffrey

Vamos juntos malhar esse desgraçado!

Malhe o Joffrey

Malhe o Joffrey

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Guia WebDebee de A Song of Ice and Fire

2013 foi meu ano ASOIAF. Este post serve para cristalizar algumas impressões deixadas pela leitura dos livros e pela série de TV. Meu objetivo é partilhar uma visão e sugerir alguns caminhos para expandir a experiência extraordinária de Uma Canção de Gelo e Fogo.

Glossário de Gelo e Fogo

As Crônicas de Gelo e Fogo. Título brasileiro (e português também) da série ASOIAF.

ASOIAF – A Song of Ice and Fire. Título original da série de livros de GRRM.

GoT – Game of Thrones. Nome da série de TV da HBO que adapta os livro ASOIAF.

GRRM – George R. R. Martin ou George Raymond Richard Martin. Autor dos livros ASOIAF.

 

Os livros

  • Vol. 1 – A Game of Thrones (Guerra dos Tronos)
  • Vol. 2 – A Clash of Kings (Fúria de Reis)
  • Vol. 3 – A Storm of Swords (A Tormenta de Espadas)
  • Vol. 4 – A Feast for Crows (O Festim dos Corvos)
  • Vol. 5 – A Dance with Dragons (A Dança dos Dragões)
  • Vol. 6 – The Winds of Winter – aguardado para 2014. Leia um capítulo no site do GRRM.
  • Vol. 7 – A Dream of Spring – sabe-se lá quando…
Livros são vidas que aguardam na estante. Experiências velhas e novas que esperam na prateleira do tempo. Ler é viver mil vidas.

Livros são vidas que aguardam na estante. Experiências velhas e novas que esperam na prateleira do tempo. Ler é viver mil vidas.

Acho que o grande barato dos livros é que a imensa variedade e complexidade das tramas e dos personagens não representam um problema. Podia ser que o autor e o leitor se perdessem diante de tantas personalidades, reinos e histórias paralelas. Até se perdem, mesmo, mas todos os elementos são tão interessantes que fazem a leitura das mais de 1400 páginas fluírem aceleradas.

Os capítulos mais bonitos, para mim, são os do Bran. O autor capricha quando descreve a jornada de um de seus “cripples, bastards and other broken things” favoritos.

Bran was relieved… but disappointed too. So long as there was magic, anything could happen. Ghosts could walk, trees could talk, and broken boys could grow up to be knights. “But there isn’t,” he said aloud in the darkness of his bed.  “There’s no magic, and the stories are just stories.” And he would never walk, nor fly, nor be a knight.

Bran Stark byTeIku (Deviantart.com)

Bran Stark byTeIku (Deviantart.com)

Li os três primeiros volumes em inglês. Mas a transição para os dois outros volumes, traduzidos por Jorge Candeias, foi suave e não percebi perdas na beleza do texto.

A série de TV

  • Game of Thrones – 1ª Temporada (Abril 2011)
  • Game of Thrones – 2ª Temporada (Abril 2012)
  • Game of Thrones – 3ª Temporada (Março 2013)
  • Game of Thrones – 4ª Temporada (2014 – data de estréia ainda não anunciada)
HBO Game of Thrones (poster da primeira temporada)

HBO Game of Thrones (poster da primeira temporada)

Dizem que GoT é tipo “Os Sopranos na Terra Média”. Eu chamaria de algo como Roma e O Poderoso Chefão encontram Tolkien e Janete Clair. A série apela para alguma nudez e sexo quase explícito como em Roma e The Tudors. Tem o estado da arte da violência, paixão, conspirações complexas e vinganças operísticas de The Godfather e Os Borgias. Permite a fuga para um universo imaginário como O Senhor dos Anéis ou Star Wars. E deixa o expectador em estado de desespero pelo próximo capítulo como as novelas de Janete e os episódios de Lost.

Comecei a ler os livros em janeiro de 2013. Depois de já ter visto as duas primeiras temporadas da série. Então só consigo conceber o Tyrion Lannister encarnado por Peter Dinklage. Felizmente as personificações para a TV são, em sua maior parte, irrepreensíveis. Por questões legais, o elenco escolhido para os principais personagens jovens é adulto. Nos livros, Daenerys, Jon Snow e Robb Stark têm tipo 14 anos. São moleques que não tiveram muita escolha, a não ser brigar para se impor em um mundo de adultos. Enquanto isso, na HBO, para a nudez e pegação rolarem soltas na telinha (no livro, é tudo bastante modesto), eles precisam ser vividos por atores um tanto mais velhos.

A produção é de primeira. Apesar de pegar leve nas cenas de batalhas para não custar muito caro. O elenco e as locações são bacanas, assim como os cenários, figurinos (tirando aquela festa em Qarth que parecia um baile de Jornada nas Estrelas) e as caracterizações dos personagens (tirando as perucas dos Targaryen).

Os DVDs têm extras bem legais, incluindo mini vídeos com histórias e tradições de Westeros narradas por atores da série. Os vídeos contam sobre os 7 deuses, a história da Muralha, os primeiros Homens de Westeros etc.

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Sites, Wikis e Artigos Online

Atenção para as fontes mais nutritivas de informações sobre os livros e a série de TV.

George R. R. Martin – Site official do autor que acompanha as atividades de Martin e onde ele interage com fãs. Bom ficar ligado no blog chamado “Not a Blog”.

Game of Thrones BR – Site mantido por brasileiros, super atualizado com notícias, vídeos, artigos e fórum.

Westeros – The A Song of Ice and Fire Domain – Portal completão que trata de tudo sobre ASOIAF e GoT.

A Wiki of Ice and Fire – Wiki mais completa sobre o assunto. Tem verbetes depersonagens, lugares, fatos históricos etc. Faz parte das atrações do Westeros (descrito acima).

Game of Thrones Wiki – Wiki muito boa também.

HBO Game of Thrones – Site official da série de TV.

Making Game of Thrones – HBO Official Production Diary. Bom para acompanhar as filmagens da nova temporada.

HBO Game of Thrones Viewer’s Guide – Guia para telespectadores da série. Traz informações sobre as temporadas e seus elencos, locações, além de mapas, fotos, vídeos, dados sobre personagens e suas casas, linhagens, histórias etc.

Tower of The Hand – Outra referência legal sobre os livros e a série com lista de personagens, cronologia, árvores genealógicas, artigos, imagens etc.

Winter is Coming.net – Esse é atualizado com notícias e rumores sobre GoT.

The Guardian Game of Thrones Beginners GuideEssa material do jornal ingle é bem interessante para quem começa a se aventurar pela série.

Quotes A Song of Ice and Fire – Encontre sua citação favorita de Tyrion, Mindinho, Melissandre e companhia.

Nyah! Fanfiction Game of Thrones – Fãs inventam suas próprias narrativas baseadas no mundo de GRRM.

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PS: You know nothing, WebDebee

Não sabia nada de ASOIAF ou GRRM até ver o anúncio de GOT na HBO em 2011. Pronto. Confessei.

Sor Kevan

— Morto. Está morto.

— Não. — A voz do eunuco pareceu mais grave. — Está aqui.

Kevan Lannister by cabins

Kevan Lannister
by cabins

George R. R. Martin: A Dança dos Dragões – Epílogo

Khal Jhaqo

Enquanto o céu ocidental ficava da cor de uma nódoa negra, ouviu o som de cavalos que se aproximavam.

Daenerys Targaryen and her dragon Drogon, as Khal Jhaqo found them. © Feliche

Daenerys Targaryen and her dragon Drogon, as Khal Jhaqo found them. © Feliche

George R. R. Martin: A Dança dos Dragões – Daenerys (X)

Então escolheram a guerra

Assim seja. Sor  Barristan sentiu‐se estranhamente aliviado. A guerra era algo que compreendia.

Barristan Selmy - GoT by thegryph

Barristan Selmy – GoT
by thegryph

George R. R. Martin: A Dança dos Dragões – A Mão da Rainha

Punhais na noite

Quando o terceiro punhal o atingiu entre as omoplatas, soltou um grunhido e caiu de cara na neve. Não chegou a sentir a quarta faca.

Depiction of The Stabbing of Jon Snow by Conor Campbell©

Depiction of The Stabbing of Jon Snow by Conor Campbell©

George R. R. Martin: A Dança dos Dragões – Jon (XIII)

Rhaegal

Quando ergueu o chicote, viu que estava a arder.

Rhaegal fatally burnt Prince Quentyn Martell in the dragon pit - by Marc Fishman ©

Rhaegal fatally burnt Prince Quentyn Martell in the dragon pit – by Marc Fishman ©

George R. R. Martin: A Dança dos Dragões – O domador de dragões