Paraíso, trabalho e ócio

As figurações do paraíso, portanto, e a inexaurível criatividade que as coloriram constituem outras tantas fontes copiosas de informações sobre como o homem teria desejado viver sobre esta terra e sobre o que ele entendia por felicidade. Naquilo que nos diz respeito de forma específica, elas nos oferecem testemunhos indiretos originais para reconstruir não só as formas de criatividade que o homem produziu, mas também a relação ambígua de ódio e amor que ele manteve seja com o trabalho (em relação às suas causas, ao trabalho em seu conjunto, como fonte de sustento e de fadiga), seja com o ócio (suas causas, o ócio como um todo, como fonte de gozo e de vício).

— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 3: O Homem descobre os símbolos e inventa o além

"O Jardim das Delícias Terrenas" de Hieronymus Bosch (cerca de 1450–1516) - Museo del Prado, Madrid

“O Jardim das Delícias Terrenas” de Hieronymus Bosch (cerca de 1450–1516) – Museo del Prado, Madrid

 

IN f@cking BRUGES

 

Assassinos cínicos e sombrios em Bruges

Humor negro em Bruges

Esse filme eu nem esperava que fosse tão bom. Em “In Bruges” (que também tem o horrível título brasileiro de Na Mira do Chefe), dois assassinos profissionais de Londres (Colin Farrell e Brendan Gleeson) são despachados por seu chefão (Ralph Fiennes) para Bruges, depois que o personagem de Farrel comete um “vacilo em serviço”.

Os dois se hospedam num simpático hotel e ficam aguardando instruções do chefe.  Gleeson curte o tempo todo, passeia pelas praças e monumentos feliz da vida. Enquanto que Farrell acha tudo um porre e não vê a hora de voltar, até que conhece uma bela moradora da cidade. Eles ficam nessa vida em que não acontece nada, até que Gleeson recebe uma missão inesperada do chefe. 

O filme é muito divertido e tem um roteiro muito original. Mas junto das muitas situações cômicas, vem um clima extremamente sombrio. Afinal, os protagonistas são assassinos. A própria ambientação em Bruges reforça esse aspecto. Embora seja uma das mais belas e bem preservadas cidades medievais da Europa, Bruges, ao mesmo tempo que parece um cenário de conto de fadas,  mostra seus traços góticos e esconde aqui e ali memórias sinistras. É a cidade natal de Hieronymus Bosch, autor daquelas pinturas bem assustadoras do Inferno, o Jardim das Delícias e a mais arrepiante de todas: O Triunfo da Morte.  Numa das sequências mais empolgantes, há um grupo de atores na praça vestidos como as criaturas dos quadros de Bosch. O tempo todo a trama envolve as situações hilárias ou até absurdas num clima sombrio. A doce hoteleira grávida que abriga matadores sanguinários, o diálogo entre Farrell e a moça, que entre cantadas e chistes tem que ouvir de um assassino alusões à fama de pedófilos dos belgas.

 

Brendan Gleeson e Colin Farrell são os assassinos escondidos em Bruges

Brendan Gleeson e Colin Farrell são os assassinos escondidos em Bruges

A palavra ‘fuck’ é empregada tão insistentemente no filme, a ponto dos extras do DVD trazerem uma pequena edição só com os palavrões emitidos pelos personagens. Os extras trazem várias outras coisas boas, como o passeio por Bruges (destaque para os cisnes cruzando o rio que corta a cidade), erros de filmagem, cenas excluídas e entrevistas com os atores.