Para dentro do tempo

“Em seu delírio, Shadow transformou-se na árvore. As raízes afundavam-se na argila da terra, para dentro do tempo, para as fontes escondidas. Ele sentiu a fonte da mulher chamada Urd, que quer dizer Passado. Ela era enorme, uma giganta, uma montanha subterrânea de mulher, e as águas que guardava eram as águas do tempo.” – Neil Gaiman: Deuses Americanos.

as águas que guardava eram as águas do tempo

as águas que guardava eram as águas do tempo

revisitando a jornada de shadow

revisitando a jornada de shadow

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Árvores da Vida

Desde que a história escrita teve início, a humanidade tenta compreender a relação entre a vastidão do cosmo, a criação e a vida na terra. Muitas tradições abraçaram o misticismo como uma forma de responder às questões cósmicas. A Cabala é um caminho para a verdade. A Árvore da Vida, a imagem cabalística fundamental, pode ser encontrada sob várias formas nas culturas de todo o mundo.

— Janet Berenson-Perkins: A Cabala Explicada

The Tree of Life

The Tree of Life

Tao Tree of Life

Tao Tree of Life

Tree of Life Chakras

Tree of Life Chakras

Cosmos e humanidade

Cosmos e humanidade

Onde toda a Criação se harmoniza

Se cada pequeno ato físico corresponde a um evento de natureza superior e cósmica, e se o homem tem consciência dessa correspondência e da simultaneidade entre as forças ativas nos diversos planos em troca constante, interferindo uns sobre os outros, dá-se a unificação dos mundos, onde toda a Criação se harmoniza, num importante passo em direção à restauração e ao retorno. A responsabilidade do homem, portanto, ultrapassa os limites de sua vida particular, estendendo-se ao destino de toda a humanidade, de forma que cada ser humano constitua uma peça de um gigantesco móbile, onde qualquer movimento estimula e agita toda a estrutura.

— Tova Sender: O que é Cabala Judaica

The Power of Aleph by David Friedman

The Power of Aleph by David Friedman

A palavra é dotada de poder criador

A palavra é dotada de poder criador

A cosmogonia da Terra Média

Ler O Silmarillion e Contos Inacabados não é para preguiçosos como eu. Não que seja difícil de entender ou que o texto seja rebuscado ou que a narrativa seja tediosa. Mas não pode ser feita uma leitura vaga e informal. Tem que se dedicar a formar um mapa mental do universo criado pelo autor. E tem que amar esse universo. Um mundo que se originou da música. Os sons produzidos por seres divinos e ancestrais nutriram as sementes que formaram o universo de Gandalf, Bilbo, Sauron, Aragorn e Galadriel.

O Silmarillion

Um universo nascido da música

Entretanto, quando eles entraram no Vazio, Ilúvatar lhes disse – Contemplem sua Música! – E lhes mostrou uma visão, dando-lhes uma imagem onde antes havia somente o som. E eles viram um novo Mundo tornar-se visível aos seus olhos; e ele formava um globo no meio do Vazio, e se mantinha ali, mas não pertencia ao Vazio.

Do Ainulindalë de O Silmarillion

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Já pensou se ninguém desse a mínima para o que Tolkien fazia? A vida toda colocando um tijolinho aqui e outro ornamento ali nas tramas da Terra Média. Desde as trincheiras da Primeira Guerra Mundial ao campus de Oxford, o exercício do filólogo e linguista se misturava ao  do ficcionista cheio de imaginação. A empreitada do autor para construir um universo autônomo, que inclui uma origem mítica, geografia (tem capítulo inteiro dedicado a descrever a geografia de um segmento da Terra Média, que acabara de nascer), botânica, geologia, astronomia, culturas, línguas (Sindarin, Telerin, Quenya, Westron etc.) e tudo o mais próprios, permaneceu parcialmente em seus sonhos.  A vida de John Ronald Reuel Tolkien não foi suficiente para elaborar todas as histórias que sonhou. Mas, que importa isso? Mesmo as lacunas e incoerências (algumas são comentadas nos livros pelo filho, Christopher Tolkien) não tiram o fascínio pela obra.

“- Mas quantas léguas separam Edoras de Minas Tirith?”  “- Sr. Tolkien, como surgiram os beornings?”  “- Prof. Tolkien, que língua falavam os druedain?” O inventor da Terra Média, dos valar, das silmarills e dos anéis de poder, criou uma espécie de monstro gigante. Uma criatura incontrolável, imprevisível e insaciável feita de admiradores e estudiosos de sua obra, que não param de questionar até hoje a respeito dos personagens, histórias, paisagens , línguas, aspectos etnográficos dos povos, entre os mais diversos assuntos. Leitores, alunos e amigos enviavam cartas e interrogavam o autor, como se ele tivesse respostas para tudo. É como quando perguntamos a uma avó ou aos pais como era mesmo aquela história ou porque o personagem agiu assim. “- Mas vovó, o que o gigante, que morava no alto do pé de feijão plantado pelo João, comeu para ficar tão grande???”

É bom ler Contos Inacabados com O Silmarillion do lado. Tem muitos nomes e genealogias dos valar, elfos, anões e homens. Lá pelas tantas, perdi a noção de quem eram Manwë e Nienna, Gil-Galad, Tuor e Túrin ou de onde fica Dol Guldur. O glossário, os mapas e as genealogias no final de O Silmarillion ajudam e os apêndices do TLOTR também. Bom também seria ter um compêndio. Mas imagino que o melhor mesmo seria ler uma edição para tablet. A edição viria com um aplicativo trazendo referências ilustradas e fáceis de consultar, tipo um guia automático nas palavras-chaves. Uma sugestão de projeto coletivo para  os fãs de Tolkien.

Contos Inacabados

A historiografia das histórias. A arqueologia do processo criativo de Tolkien.

E certo dia, quando Tuor estava sentado à praia, ouviu a batida e o uivo de grandes asas, e, erguendo os olhos, viu sete cisnes brancos voando velozes para o sul, em formação de cunha. Quando passaram acima dele, porém, fizeram uma curva e mergulharam repentinamente, pousando com grande impacto e redemoinho na água.

Capítulo 1 – De Tuor e sua chegada a Gondolin – Primeira Parte: A Primeira Era – Contos Inacabados

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Alguns eventos, que ficam atiçando a imaginação após a leitura dos volumes de O Senhor dos Anéis, são explorados em Contos Inacabados. Entre eles, a história do Pântano dos mortos e a Guerra da última aliança (entre homens e elfos). Mas também tem alguns pontos sem nó na construção da obra, como a história de Galadriel e Celeborn – este último não é citado na despedida dos viajantes que seguem para o Oeste no final de O Retorno do Rei (ele fica para trás na Terra Média? Mas porque?) -, e o mistério do Necromante – que, pelo que entendi, é o próprio Sauron, que permaneceu disfarçado como membro do Conselho Branco num período que se situa entre algum momento após a perda do dedo que trazia o Um Anel e sua expulsão do conselho no final de O Hobbit (a narrativa do que acontece com Sauron fica diluída em poucas pistas espalhadas pela obra inacabada).

É tão rico o material descritivo da Terra Média, que fiquei pensando em temas para exploração, como artigos sobre os portos, as flores e árvores ou a astronomia da Terra Média. Mas é bem capaz de já terem escrito. Algumas das histórias e personagens mais legais são  A Música dos Ainur (o primeiro capítulo do Gênesis da Terra Média, em O Silmarillion), Melkor- o mentor de Sauron, Fëanor e a revolta dos noldor, a viagem de Tuor e seu encontro com Ulmo, Senhor das Águas, a tragédia de Túrin, o amargo anão Nîm, o dragão Glaurung, a vida de Galadriel, o romance de Beren e Lúthien, o desastre dos campos de Lis, Cirion e Eorl (a origem dos rohirrim), Isildur, Gandalf e os Istari (os magos branco, cinza, marrom e azul) e os curiosos Drúedain.

Sobre Túrin, pode-se escrever um post inteiro. É a demonstração de que, ao criar histórias cheias de força criativa, não dá para ser maniqueísta. Como poderia Tolkien viver a experiência da guerra e manter uma visão muito preta ou branca da vida? Pode ter sido inconsciente, mas já que, evidentemente, bebeu da fonte das sagas escandinavas e lendas germânicas, como poderia construir somente personagens de contornos perfeitos? Ainda em Fëanor, o noldor que cria as jóias das Silmarills, já havia uma sombra se insinuando. Mas é com Túrin, também chamado em certo trecho da vida Turambar, que Tolkien aprofunda a concepção complexa, intensa e plena de um personagem. A trajetória de Túrin é feita de sucessivos desencontros, que resultam em várias tragédias, com direito a  assassinatos, traições e até incesto. Destino sangrento e brutal como as vidas de deuses e heróis das tradições de diversos povos.

E tem Beren e Lúthien. A história mítica de amor de uma elfa e um homem que reencarnou em Aragorn e Arwen. Tolkien tem até na própria vida uma história romântica. Casou-se uma única vez e com a mulher por quem era ardentemente apaixonado. No túmulo da esposa, abaixo do nome Edith Tolkien está escrito Lúthien. Embora suas principais obras – O Hobbit e O Senhor dos Anéis – sejam romances com pouco espaço para personagens femininas ou histórias de amor, o autor reverenciava um dos aspectos clássicos das narrativas épicas: o amor cavalheiresco. O quase triângulo amoroso de Aragorn, Arwen e Eowyn deve ter alguma inspiração em Sir Walter Scott, pois lembra levemente o impasse de Ivanhoé entre Lady Rowena e a bela judia Rebecca.

Tolkien conta histórias e constrói imagens que têm a força de contos de fadas, passagens bíblicas, lendas, mitos, sonhos. Como quando Tuor encontra Ulmo, o Senhor das Águas. Conjurador de cisnes e gaivotas. A barba branca com as espumas das ondas. O coração do mar. Seu manto era como uma nuvem cinzenta de partículas da maré que se desfaz ao por do sol. Ou quando mais de uma vez descreve prados floridos que lembram céus estrelados. É belo sonhar assim.

Visite o Valinor e mergulhe no universo de J.R.R. Tolkien.

Para ouvir a pronúncia de Silmarillion, acesse o termo no Google Tradutor e clique no botão de áudio.

PS: pra quem não sabe, a banda inglesa Marillion tirou o nome de Silmarillion. Aliás, o fato do Fish não ter participado da trilha dos filmes do Peter Jackson é uma coisa que me frustrou um pouco. Sem falar na Kate Bush. Mas, não se pode ter tudo…

No imaginário vive o coração

Once Upon a Time

Once Upon a Time. O exílio dos contos de fada.

Na pequenina cidade de Storybrooke, Rumpelstiltskin (ou Mr. Gold) é o principal oponente da Madrasta Malvada (que é a prefeita Regina Mills). Já o cara que morava no “espelho, espelho meu” da Madrasta foi um dia o gênio da lâmpada. Chapeuzinho vermelho é uma garçonete sexy, enquanto o Grilo Falante é um psicanalista.

A série Once upon a Time foi anunciada como “dos mesmos roteiristas de Lost”. E é evidente a semelhança das estruturas narrativas que intercalam o presente e o “outro tempo” dos personagens. Então, já que eles perderam a desculpa do Lost para exercitar a criação de histórias, mergulharam de cabeça nos contos de fada. E estão fazendo algo genial. É bom ter de volta o que era mais interessante de Lost: as pequenas jornadas pessoais dos personagens perdidos na ilha. Pessoas retratadas como breves – porém complexas – histórias.

Fairy Tales Mashups

Fairy Tales Mashups

A Madrasta Malvada, que se tornou uma rainha e feiticeira poderosa, lança o apocalipse do mundo dos contos de fada. Ela decreta o fim dos finais felizes e do mundo de Branca de Neve, Cinderela, Pinoquio e Chapeuzinho Vermelho. Tudo implode, se fragmenta na poeira da memória do universo e ressurge na forma de uma cidade pequena cercada por uma floresta no estado do Maine, nos EUA. Lá, todos os personagens vivem vidinhas comuns e têm as lembranças da outra vida reprimidas… O passado/imaginário é a verdade. E o presente/real é um sonho sem graça.

Outra boa sacada da série é transformar o que podia ser um ridículo samba do crioulo doido em ingredientes saborosos para as histórias. É um tal de juntar Branca de Neve com Cinderela ou Joãozinho e Mariazinha e mixar Rumpelstiltskin com a Bela e a Fera ou o homem do espelho com o gênio da lâmpada, mas tudo é combinado com segundas e ótimas intenções. No final, algum escritor pode se perguntar: porque nunca pensei nisso antes?

The Heart is a Lonely Hunter

O coração é um caçador solitário

O episódio mais bonito, dos que foram produzidos até agora, chama-se “The Heart is a Lonely Hunter“, em que é contada a história do xerife da cidade, que, na vida sonhada, era o caçador enviado pela Madrasta para matar Branca de Neve, arrancar-lhe o coração e trazê-lo em uma caixa. Pela tradição, sabemos o que acontece. Mas em Once Upon a Time, a jornada do caçador é muito mais cruel e profunda. Quem aprisiona histórias, aprisiona corações. E esse é o mais terrível dos segredos.

Já pedi a uma estrela cadente para que, tão cedo, não seja cancelada.

Site oficial da série

Reconstrução da aura

Copie Conforme

Cópia Fiel

“Mesmo a reprodução mais perfeita não possui o “aqui e agora da obra de arte”, sua existência única que contém em si a história da obra. Isso é a autenticidade que classifica o objeto como aquele objeto. A autenticidade escapa da reprodutibilidade.”  – Walter Benjamin, em “A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica”.)

Nos filmes americanos vê-se muitas personagens expressando coisas como: “quero algo real na minha vida” ou “pela primeira vez estou vivendo algo real”. Como se real mesmo fosse aquilo que é único, inédito e com algum frescor de experiência nova. Em Cópia Fiel (Copie Conforme), o iraniano Abbas Kiarostami descasca a superfície turva dessa noção e provoca um monte de perguntas. Então, desculpe pelo monte de perguntas espalhadas pelo post. É que o filme provoca isso. A culpa é do filme, que propõe um exercício sobre dicotomias entre conceitos difíceis de precisar. Real e imaginário. Autêntico ou cópia. Natural ou artificial. Verdadeiro ou falso.

A versão “natural” das pessoas é mais autêntica? Tem mais valor? Como é aquela boca sob o batom vermelho? Ela é mesmo morena ou loura? Fez escova marroquina? E aquele peito de silicone? Quantos mililitros turbinam o traseiro intrépido da popozuda? Que pele se esconde por baixo das tatuagens tribais?

William Shimell (aclamado cantor de opera inglês) interpreta James Miller, autor de um livro sobre autenticidade e falsificação de obras de arte. Elle é sua leitora e comparece a uma palestra do autor em uma cidade na Toscana. Ela se oferece para guiá-lo por um passeio pela região e os dois acabam passando um dia inteiro discutindo exaustivamente questões sobre arte e relações amorosas, e embaralhando identidades.

Elle, personagem de Juliette Binoche, se debate para não morrer nas águas agitadas – onde fez questão de mergulhar – que dividem sua vida original e a vida desejada. O que é mais original? Sua autêntica vida atordoada pela  dificuldade de diálogo com o filho e o marido ou a tarde na bela cidade de  Lucignano, onde quebra o pau em francês e inglês com o escritor? E aliás, será que somos mais verdadeiros quando nos expressamos em nossa própria língua?

CopieConforme

William Shimell e Juliette Binoche. Arte e vida real

As experiências com o real podem colidir de forma inesperada. O escritor conta um episódio que presenciou numa rua de Florença e que o inspirou a escrever o livro sobre a questão das cópias e os originais. Para sua surpresa e desconforto,  esse episódio é mais do que uma impressão da realidade. Ali, diante dele, estava a mulher (Elle) que, naquela outra ocasão, discutia com o filho na rua.

Para Elle, a realidade muitas vezes é só sobre dor e sacrifício. O prazer e a alegria são sonhos. Sonhos não são reais. Por essa via, pais vivem o mundo real enquanto os filhos, com sua natural rebeldia, ainda não despertaram.

Vale arriscar e forçar uma conversa sobre coisas que sua vida frustrada não propiciou? Seria melhor flertar com o que gostaria que fosse o real do que com o que sei que é? E aí me pergunto: o que desejo viver?

Elle e o escritor passeiam aleatoriamente pela cidade, entrando e saindo de museus, igrejas, restaurantes e dos diferentes papéis que assumem, ora de estranhos no parque, ora de marido e mulher. A artificialidade esperada do comportamento dos personagens é quase nula.  São verdadeiros na realidade e na imaginação.

No passeio, os dois conhecem um casal de noivos posando para o álbum de casamento. Os rituais como o do casamento, com suas alianças, tradições e supertições simulam uma vida sonhada pelos noivos e pelas famílias, comunidade, amigos. A cópia ou o objeto simbólico que representa uma coisa pode ser a salvação de quem deseja essa coisa. Como os ex-votos depositados em santuários da Bahia como pagamento de promessa ou agradecimento por uma graça.

“Com sua propensão para criar símbolos, o homem transforma insconscientemente objetos ou formas em símbolos (conferindo-lhes assim enorme importância psicológia) e lhes dá exoressão, tanto na religião quanto nas artes visuais.” – Aniella Jaffé, em O Simbolismo nas artes plásticas, capítulo de O Homem e seus Símbolos (organização de Carl G. Jung).

Copie Conforme

Experiência e Identidade

E tem Marie, irmã de Elle. Esta pede ao escritor que autografe um exemplar do livro com dedicatória para Marie. Elle trabalha numa galeria de arte, mas despreza as cópias que comercializa de grandes obras de arte. Esse desprezo alimenta mais ainda as discussões com o escritor. Devemos desprezar os pássaros que pousam e cantam sobre as esculturas do jardim do Museu Rodin só porque elas são cópias? Porque será que incomoda e até frustra tanto saber que aquele objeto é uma cópia?

Na obra citada no início do post, Walter Benjamin examina o fenômeno da “destruição da aura”. Uma percepção de perda de valor que as obras de arte sofreram com o advento das técnicas industriais de reprodução ou representação do real, como a fotografia, o cinema e as modernas formas de impressão.

Nesse cenário, Marie é que é mulher de verdade. Com seu genuíno marido gago que tem um jeitinho todo seu de pronunciar o nome da esposa. Marie não tem a menor vaidade. Ou pelo menos não a de exigir somente coisas originais, autênticas. Ela se contenta com a cópia. Não conheceu o escritor pessoalmente, mas vai ficar feliz com o livro autografado. Marie é ignorante? Tá feliz na caverna de Platão assistindo Domingão do Faustão e sonhando com o carro chinês que tem 7 lugares mas é mais barato que um utilitário coreano ou um sedan francês?

Daí, vislumbro que cobiçar o que é exclusivo, único, original  pode ser um traço de elitismo. Uma pequena (ou grande) ilusão de grandeza. O sentido de posse exclusiva permeia os delírios de consumo. Vamos patentear a beleza! Registrar o domínio universal http://www.originalidade.com.

Soube que, recentemente, uma charmosa e tradicional grife italiana fechou suas fábricas na Ásia e voltou ao modelo de produção artesanal em sua cidade de origem. É isso. Afinal, ostentar um “made in Italy” confere muito mais valor.

Nesse filme-jogo, Abbas Kiarostami coloca uns espelhos aqui e ali. Estamos na cena principal, mas podemos espiar o que acontece do lado de fora. O ator diz sua fala, mas também reflete o que seu interlocutor está “dizendo” quando não  o vemos. Os sons são captados com detalhes que invadem os diálogos. E os silêncios, como em outros filmes do diretor, falam alto.

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Para ler Walter Benjamin: A obra de arte na era da usa repodutibilidade técnica

Mais sobe os ex-votos

Para ler Jung: O Homem e Seus Símbolos

De Abbas Kiarostami, recomendo “Através das Oliveiras” e “Gosto de Cereja.

A transgenia dos sonhos

Inception (A Origem)

Inception (A Origem)

Da série de posts ridiculamente atrasados…

Como a vida, tudo começa numa medida pequena, invisível, imperceptível, insignificante. Um peteleco num cisco preso na lã do casaco ou uma piscada de olho de um piolho e voilà! Algo começa. As idéias podem estar dormindo como sementes microscópicas na memória. Mas quando ganham corpo, quem sabe até onde irão ou qual dimensão irão alcançar?

Esta semana fiquei lendo um daqueles adoráveis forros de bandeja do McDonald’s. Coisas simples como uma gota d’água dão origem a algo simplesmente fantástico como ondas no oceano. Achei uma das melhores campanhas da rede de fast-food. O ilustrador chama-se Hiro Kawahara. Tirando o item da ostra e o colar de pérolas (pois a ostra, sim é fantástica e não o colar), simplesmente adorei.

Simples e Simplesmente. Campanhad as bandejas do McDonald's

Simples e Simplesmente. Campanha das bandejas do McDonald's.

Christopher Nolan é conhecido por seus filmes quebra-cabeça, como Amnesia e The Prestige (O Grande Truque). Também, é claro, é o realizador dos dois filmes do Batman mais inteligentes já feitos. Então, depois de uma coisa como o Cavaleiro das Trevas, a expectativa em relação ao Inception (A Origem) era enorme.

Vejo a idéia central de Inception como um jogo que se passa no outro plano da vida. O plano que se dá nos sonhos.

Os sonhos ocupam boas horas de quem vive. Se vive nos sonhos. Há vida neles. Às vezes resolvo problemas num sonho, para acordar depois e perceber que não resolvi coisa alguma. Mas às vezes os sonhos realmente ajudam a resolver os problemas. Um sonho pode cansar. Como quando estudava dança e fazia exercícios na barra dos sonhos e acordava com a sensação de que não precisava ir à academia naquele dia. Podemos sonhar com algo que estamos esperando para acontecer e acordar achando que já fizemos, para depois descobrirmos que temos que fazer tudo de novo.

Inception

a anti-lógica dos sonhos

Minha irmã sonha frequentemente que pode voar. Eu sonho que posso flutuar. Que a gravidade é fraca e posso me desolcar sem precisar pisar no chão. Então, se nos sonhos podemos eliminar paradigmas como a gravidade, estaríamos falando de um lugar para testes? Seria o sonho um louco laboratório da vida desperta? Uma experiência alternativa da vida? Plantar uma idéia em um universo com outra lógica (ou sem ela) poderia ser um experimento controlável? Será que, como em Matrix, em que as personagens fazem download de habilidades, como pilotar helicópteros, podemos experimentar coisas ou aprendê-las sonhando? Será que veremos o dia da manipulação da vida sonhada? O surgimento da biotecnologia dos sonhos. Se, nos sonhos, podemos tudo, mas não podemos manipulá-lo, e se na vida acordada, não podemos tudo, mas temos mais chances de controlar o caminho, haveria um jeito de inverter os parâmetros? Imagino poder encomendar sonhos bons. Pego o cartão de crédito e pago por uma pílula dos sonhos programados.

Inception (A Origem)

Dream designers. Dream hackers.

Mas somos nós, os seres despertos, os mesmos que vivem nos próprios sonhos?

Tem um filme com a Demi Moore chamado Passion Mind (Paixões Paralelas), de Alain Berliner, em que ela vive uma vida desperta e outra dormindo. Acordada, ela é Marty, uma executiva solteira e rica de Nova York. Dormindo, é Marie, uma dona de casa viúva com filhos no interior da França. Ou pode ser o contrário. As duas Demi Moores anseiam pelo adormecer-despertar para a vida uma da outra. Não é grande coisa o filme, mas o conceito é interessante. Lembra um pouco o “A Dupla Vida de Veronique”, do Kieslowski. Mas este último não é exatamente sobre sonhos.

E afinal, um dos baratos da vida não é ter a porção sonhada compartilhando o corpo e a mente da porção consciente? Uma porção pode ajudar a outra, mas também podem destruir-se mutuamente?

cinema, literatura, imaginário dos sonhos

cinema, literatura, imaginário dos sonhos

Ontem, conversando com minha irmã sobre o rascunho deste post, ela mencionou um conto de Julio Cortázar que leu há muito tempo, sobre uma mulher que sonha com a vida de outra e as duas trocam de lugar. Acabamos encontrando o conto na coletânea Bestiário. Chama-se Lejana e é narrado em forma de diário escrito por Alina Reyes. Alina tem dificuldade para dormir e inventa anagramas e palíndromos para cair no sono. Mas sonhar significa viver como sua parte distante, la lejana: a outra mulher que vive mendigando pelas ruas geladas de Budapeste. Alina odeia a outra porque sente seu sofrimento, mas ao mesmo tempo, vê-se culpada e preocupada. Quando escreve no diário, usa a primeira pessoa, mas confunde-se entre o que acontece a ela e o que sofre a outra. Sonha com a outra ao dormir e também acordada enquanto ouve concertos de Fauré, Mozart e Chopin. Nesses momentos torna-se la lejana. E tem uma ponte sobre o Danúbio. A fronteira, o ponto de encontro entre as mulheres distantes. Alina é consciente dessa ponte em Budapeste, do frio e de sua porção  distante que deve encontrar lá. Deseja irresistivelmente chegar à ponte para o abraço com a outra. ” Ceñía a la mujer delgadísima, sintiéndola entera y absoluta dentro de su abrazo, con un crecer de felicidad igual a un himno, a un soltarse de palomas, al río cantando. “

Nos volumes da HQ Sandman, de Neil Gaiman, há uma exploração vastíssima do universo e das possibilidades e concepções do sonho. Lugares sonhados (como Fidler’s Green, o lugar-sonho). Guardiões de livros que só existem em sonhos. Pessos que sofrem de insônia ou que não conseguem acordar. Pesadelos. Gente que entra nos sonhos dos outros, que rouba sonhos, que não consegue sonhar, que controla sonhos alheios, que se refugia em sonhos, que aprisiona outros em sonhos. Além da antropomorfização do sonho. O sonho é um moreno esguio e alto, cujos olhos são como uma noite estrelada. Sonho (ou Sandman ou Morfeu) é irmão de Morte, de Destino, de Desejo, de Desespero, de Delírio e de Destruição. Quando Sonho é aprisionado por um bruxo (evento que acontece no primeiro volume da série, Prelúdios e Noturnos), a humanidade enfrenta anos de distúrbios e privações dos sonhos. O grande príncipe tecedor dos sonhos fica fora de combate por várias décadas até se libertar e iniciar a jornada de restauração de seu reino.

Inception (A Origem)

a arquitetura dos sonhos

Inception conta uma história um tanto apressada de pessoas que se infiltram em sonhos. E sobre as tecnologias e estratégias que as ajudam a invadir sonhos para alterar o curso “natural” da vida desperta. Alguns personagens criam lugares secretos nos sonhos para onde desejam voltar. Outros querem convencer pessoas a decidir por algo que irá trazer vantagens na vida acordada. Uns querem viver só nos sonhos. Outros podem matar outros nos sonhos. Morrer nos sonhos. Será possível?

Ariadne (Ellen Page) é uma arquiteta contratada por Cobb (Leonardo di Caprio), um dos dream hackers, para criar cenários dos sonhos. Como Teseu, que precisa de Ariadne para sair do labirinto, sem os designers de sonhos, fica difícil sair deles ou se proteger das armadilhas.  Exatamente como um jogo, mas em que as regras evoluem num universo de anti-lógica. Outro personagem interessante é Eames (Tom Hardy), o enganador, que se faz passar por outras pessoas nos sonhos para iludir os sonhadores. Como uma Mística (a mutante azul dos X-Men) do mundo dos sonhos.

Inception (A Origem)

a semente que gira invisível nos sonhos

Na vespera da estréia do filme nos cinemas, li esse texto muito bom da Ana Maria Bahiana. Mas não sei se ocorreu comigo o mesmo de quando vi O Cavaleiro das Trevas (do qual tive grandes expectativas, mas precisei ver de novo para apreciar como se deve), ou se realmente ficou faltando algo na história de Inception. Não é um conceito simples. Uma idéia tão grandiosa, que talvez tenha faltado sonhar mais com ela. Seria este um filme para completar a experiência sonhando? Uma semente para germinar no rascunho e na edição de um post? Food for thought? Food for Dreams?

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