Doente de amor imaginário

amor narcisístico e imaginário

a velha neurose da mulher ideal

Às vezes, parece mais fácil imaginar as coisas. Inventar uma vida com amigos (ou namorados)  fantasiosos. Pensa só. Você pode inventar um novo marido a cada noite. Falar de mentirinha no telefone com um amante francês fake na frente de pessoas invejosas. Ler em voz alta seu livro favorito para uma platéia fictícia de admiradores. Será que é algo tão maluco assim? Será que dá pra fazer isso só um pouquinho, de vez em quando, para suprir um certo vazio, sem prejuízo para a sanidade mental?

Sei lá. Acho que foi uma meia catarse assistir a esse A Mulher Invisível. A história em si poderia surpreender um pouco mais e criar uma nova receita de comédia romântica. Em alguns momentos, pensei que ia seguir por uma alternativa diferente, mas não rolou. Todo aquele jogo sobre a neurose do amor romântico podia gerar, sem cinismo, um novo modelo de happy ending.

Adoro o Chicó, de O Alto da Compadecida. Gosto também de um curta com o Seu Jorge em que o personagem dele discute teorias sobre os filmes do Tarantino. Tem também uma atuação forte no difícil Lavoura Arcaica. Esses são alguns méritos da carreira do Selton Mello. Não acompanhei mais o que veio depois (Cheiro do ralo etc.). E ele está passando o rodo no cinema nacional.  Vai estrear em breve uma produção em que interpreta o trágico Jean Charles, brasileiro que foi morto pela policia de Londres, ao ser confundido com um terrorista. Mas ele tá ótimo nessa comédia divertida sobre a neurose de um homem que é largado pela esposa e inventa uma amante imaginária. Além da atuação do Selton, aplausos para a Fernanda de Torres, que levanta e muito a onda do filme.

Detalhe desagradável: alguns filmes nacionais têm essa coisa chata dos créditos iniciais cheios de logos de empresas e menções repetitivas das produtoras. Esse passou dos limites.

Terminator: Salvation

Terminator salvation

Terminator salvation

Enfim, mais um bom Exterminador. Desde a sequência em que acompanhamos John Connor dentro do helicóptero, perdendo altitude, caindo e rodopiando, percebi que ia ser um daqueles filmes que não brincam com adrenalina em serviço.

Terminator: Salvation é o quarto filme da série e traz o Christian Bale no papel do, agora adulto e enfrentando a barra pesada total do futuro, John Connor. Não sei explicar, mas gosto muuuito do Christian Bale. E acho que se saiu muito bem como o protagonista. Mesmo, eu sei, dividindo o foco da história com o tal do Sam Worthington, que faz um personagem-chave da nova história, o ambíguo Marcus Wright.

De novo, nada de James Cameron. Mas e daí? Depois do xaroposo Titanic, não faz mais falta. Se bem que esse diretor McG… sei não… O cara fez os filmes das Panteras… e produziu programas de TV como o das Pussy Cat Dolls… Estranho né? Mas, eis que em Terminator: Salvation ele não deu mole. Dá umas recaídas como o penteado e figurino da personagem Blair. Ela é a hot chick da história, vivida pela índia bonitona Moon Bloodgood (que fez Pathfinders) . E ficou meio chata aquela pieguice do final. Mas… passou raspando e o resultado geral foi bem satisfatório. Fiquei até meio triste quando acabou a sessão numa noite de domingo no cine Roxy. Podia ficar a semana toda combatendo robôs exterminadores de gente numa terra devastada.

Escapismos à parte, é um ótimo sci-fi, melhor que o T3. Faz referências boas ao T1 e T2. Tem a voz original da Sarah Connor (Linda Hamilton) nas gravações que ela deixa para o filho. Mostra o jovem Kyle Reese e até o Governator Schwarzeneger dá o ar digital da graça.

E  o cara meio humano meio exterminador, heim? Legal ele… Não me conformo. Ele bem que podia voltar, né? Com um cyberheart, quem sabe? Bom! Bom! Bom! 🙂

Star Trek: Origens

Star Trek origens

Star Trek origens rebeldes

Que bom que fizeram esse filme. Criaram uma juventude rebelde para o Capitão Kirk e uma origem muito simpática da amizade dele com o Spock. Tem uma coisa ligeiramente boba e exagerada no filme, que não esconde a preocupação em conquistar novas audiências. Isso poderia ter comprometido a adesão dos velhos fãs. Mas acho que a abordagem é nitidamente apaixonada pela série de tv e pelos filmes anteriores de Star Trek. E conheço gente que é fã e adorou, e outras pessoas que nem são fãs, mas se amarraram no filme.

Nunca fui exatamente uma “treker”. Sempre estive mais para o time do “conselho jedi”. Mas assisti muito à série original de TV nos anos 70 e vi quase todos os filmes. Inclusive os da Nova Geração. Lembro até da versão em desenho animado! Pena que pouca gente lembra disso 😦 . Tinha um episódio inesquecível duns bichinhos fofinhos e peludinhos tipo gremlins que infestavam a Enterprise. Nossa, será possível que ninguém se lembra?

Mas o novo Star Trek, dirigido pelo J. J. Abrams (criador das séries Lost, Alias, Fringe e outras), vai fantasiando sobre as origens dos personagens. E é um barato ir reconhecendo os jovens James Kirk, Spock, Uhura, Chekov, Sulu, Scott. Também conta a destruição de Vulcano, planeta original do Spock (vivido pelo carinha que faz o Sylar da série Heroes). E ainda tem partcipação do velho Spock, Leonard Nimoy. E um irreconhecível Eric Bana faz Nero, um romulano vingativo, que odeia o Spock.

Só não gostei muito do Dr. McCoy. Que diabos é aquilo? É bobo e hipocondríaco. É isso mesmo? E o gato do Karl Urban (o cavaleiro rohirrim boladão Eomer, de “O Senhor dos Anéis – As Duas Torres”), porque ficou feio, gordo e velho do nada para fazer o McCoy? Desnecessário isso.

A Duquesa

Keira Knightly é a bela e triste Georgiana Spencer

Keira Knightly é a bela e triste Georgiana Spencer

Keira Knightly vive uma personagem real da história da Inglaterra.  Lady Georgiana Spencer, que veio a tornar-se a Duquesa de Devonshire, foi uma antepassada da Princesa Diana. E, como num presságio, também ditou a moda em sua época, assim como viveu um casamento muito infeliz.

O Duque, seu esposo, é interpretado perfeitamente por Ralph Fiennes. O típico aristocrata prisioneiro das convenções de sua classe, que tem paixão genuína pela caça e por seus cães e busca uma esposa com o melhor pedigree para gerar seu herdeiro.

Naquele pequeno mundo aristocrático da Inglaterra do século 18, uma história de casamento por e/ou com amor seria quase uma piada obscena. Assim como sua contemporânea Maria Antonieta, que na adolescência deixou a Áustria para se casar com o rei da França, a jovem Georgiana praticamente não hesitou diante da honra de ser pedida em casamento pelo Duque de Devonshire. E adentrou a vida de casada, com todas as ciladas sobre as quais sua mãe (a chiquérrima Charlotte Rampling) nunca a previniu.

Para sobreviver às decepções com um marido distante e mulherengo, que só quer saber de arrancar -lhe um herdeiro, e à solidão, Georgiana “faz uma limonada” e tira partido da admiração que conquista dos outros membros da nobreza, circulando pelos salões com suas roupas, perucas e arranjos de cabelo estravagantes. Ela é a própria “última palavra” em moda da sociedade local. Aproveita a fama também para apoiar as causas políticas que lhe agradam, e nessa vereda, conquista um amante. O futuro Primeiro Ministro da Grã-Bretanha, Charles Grey, que aparece no início do filme entre os amigos da Georgiana adolescente, torna-se o grande amor de sua vida.

Heroína é um misto de Maria Antonieta e Lady Di

Heroína é um misto de Maria Antonieta e Lady Di

Mas o amor e as frivolidades não a livram das obrigações com o Duque, que ainda por cima tem um caso escandaloso com a melhor amiga de Georgiana. Ela não tem muita escolha, a não ser se submeter. E entre locações, cenários e figurinos fabulosos, a triste sina dA Duquesa é contada. Keira Knightly está ótima. Mais madura e segura para interpretar sua conterrânea, cuja história assombra pelo aspecto premonitório. Uma revolução está para acontecer e mudará o mundo. Mas não impedirá que outra bela e amada princesa do povo tenha uma mesma sina triste e até mais trágica que a de Gerogiana.

Burle Marx: ourives da paisagem

Suas plantas são obras de arte, tão belas e intrigantes quanto os jardins e parques em que resultaram. As formas que marcam na planta onde vão entrar árvores ou arbustos, os contornos dos gramados e bosques, as estampas coloridas que representam canteiros de flores ou mosaicos de pedra portuguesa parecem jóias.

jóias de paisagismo

jóias de paisagismo

A mostra “Roberto Burle Marx – 100 Anos – a Permanência do Instável”, que esteve em cartaz no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, comemorou o centenário de nascimento do artista. E o que mais me impressionou na exposição foi justamente essa beleza total, desde o desenho das plantas até o resultado visto nos jardins, parques e monumentos. A técnica/estética do blueprint influenciou e foi influenciada tanto pelas grandes paisagens como pelas pequenas sutilezas das flores retratadas nas telas e desenhos.

painéis de pintura sobre tecido na bela sala dos archeiros

painéis de pintura sobre tecido na bela sala dos archeiros

Projetos realizados em diversos países, numa produção riquíssima. Até cansava tentar acompanhar a cronologia que ocupava os vários salões da mostra junto com as pinturas, desenhos, tapeçarias, plantas, jóias, cenários, figurinos, fotos e projeções de vídeos.

pintura-paisagem

pintura-paisagem

Na entrada da exposição, uma foto de Marx com o rosto coberto por riscos que as luzes e sombras formavam no interior da estufa onde estava, também me fizeram imaginar que esse ambiente inspirou suas obras mais abstratas.

impressões de luz e sombra

impressões de luz e sombra

tapeçaria-paisagem

tapeçaria-paisagem

Fiquei espantada com toda aquela riqueza artística. Arquiteto, paisagista, artista plástico e o que mais ele quisesse fazer. Não tem ninguém como Burle Marx. Nunca mais serei capaz de caminhar pela Avenida Atlântica ou passear pelo Aterro do Flamengo sem pensar, com alento, que uma intervenção na paisagem do Rio de Janeiro ou de qualquer cidade pode ser um presente tão generoso. Preciso conhecer o sítio que ele deixou para nós em Guaratiba.

avenida atlântica

avenida atlântica

aterro do flamengo

aterro do flamengo

Rebobine, por favor

histórias em filme

blockbusters caseiros

Já trabalhei em locadora de vídeo. Era o tipo de emprego que estudantes de Comunicação Social gostam. Ou pelo menos, gostavam. Nós queríamos ver todos os clássicos e os mais renomados filmes de autor. Queríamos entender de cinema e éramos apaixonados pelo assunto. Cada um com seus diretores favoritos. Discutindo a iluminação do filme tal ou a fotografia em P&B de fulano. Entao estar atrás do balcão de uma locadora por meio período era bem conveniente.

Jack Black e Mos Def são dois malucos que trabalham numa locadora de vídeo e começam a fazer versões thrash dos filmes mais procurados, depois que Black acidentalmente desmagnetiza todo o acervo. Eles juntam algumas pessoas da comunidade para ajudá-los a recriar os filmes com zero de orçamento ou de quaisquer recursos. Desde Conduzindo Miss Daisy a Robocop, as versões caseiras viram um sucesso e os locatários querem mais e mais.

Enquanto isso, Danni Glover, dono da locadora, que não sabe o que está acontecendo, sai em busca de um formato novo para a locadora e estuda o mercado dominado pelas redes do tipo Blockbuster. O irônico é que os malucos acabaram inventando uma fórmula de sucesso, que atrai filas de gente. Mesmo num mundo preocupado com as questões de direitos intelectuais versus pirataria, torretns etc., e descontando o jeito pastelão do filme, é curioso pensar que as ondas de sucesso da produção de entretenimento popular podem surgir quando e onde menos se espera.

No Country for Old Men

Espasmo de brutalidade

Espasmo de brutalidade

Ouvi tantos comentários sobre a estupidez e violência do filme, que não me animei a ver no cinema. Pensei que devia deixar para ver com o estômago preparado, quando não estivesse estressada ou deprê. Só consegui assistir No Country for Old Men na TV (quando estreou no Telecine). Acho até bom o título brasileiro, Onde os Fracos Não Têm Vez. Parece de western.  Mas, no final das contas, nem achei esse horror todo. Acho que Fargo, dos mesmos realizadores, é bem mais angustiante.

Nesse filme dos irmãos Joel e Ethan Cohen, nada acontece como se espera de uma história de tiros, perseguições, automóveis, socos e sangue. Existe a tensão, o suspense, o enredo de assino atrás da vítima, mas os acontecimentos estranhamente não acontecem. O roteiro é subversivo. Como se agitasse um dedo indicador para o expectador e dissesse: “sou um filme de perseguições e tiros com muito sangue e era isso que você queria ver, portanto, não reclame!”

Realmente tem um assassino completamente maluco e assustador (Javier Bardem),  e tem o sujeito (Josh Brolin) que ele persegue. Tem um policial (Tommy Lee Jones) no encalço dos dois. Tem uma inocente mocinha fugindo também. Mas tudo isso não compõe uma narrativa óbvia. E o surpreendente é que, apesar da sensação de desacontecimento e estranheza, há uma história sendo muito bem contada e a violência vira apenas um aspecto dramático meio banal.

Na terra dos durões, um penteado bizarro pode matar de susto. O matador de alguel de Javier “Beiçola” Bardem” entrou para a galeria dos vilões mais assustadores e esquisitos do cinema.

IN f@cking BRUGES

 

Assassinos cínicos e sombrios em Bruges

Humor negro em Bruges

Esse filme eu nem esperava que fosse tão bom. Em “In Bruges” (que também tem o horrível título brasileiro de Na Mira do Chefe), dois assassinos profissionais de Londres (Colin Farrell e Brendan Gleeson) são despachados por seu chefão (Ralph Fiennes) para Bruges, depois que o personagem de Farrel comete um “vacilo em serviço”.

Os dois se hospedam num simpático hotel e ficam aguardando instruções do chefe.  Gleeson curte o tempo todo, passeia pelas praças e monumentos feliz da vida. Enquanto que Farrell acha tudo um porre e não vê a hora de voltar, até que conhece uma bela moradora da cidade. Eles ficam nessa vida em que não acontece nada, até que Gleeson recebe uma missão inesperada do chefe. 

O filme é muito divertido e tem um roteiro muito original. Mas junto das muitas situações cômicas, vem um clima extremamente sombrio. Afinal, os protagonistas são assassinos. A própria ambientação em Bruges reforça esse aspecto. Embora seja uma das mais belas e bem preservadas cidades medievais da Europa, Bruges, ao mesmo tempo que parece um cenário de conto de fadas,  mostra seus traços góticos e esconde aqui e ali memórias sinistras. É a cidade natal de Hieronymus Bosch, autor daquelas pinturas bem assustadoras do Inferno, o Jardim das Delícias e a mais arrepiante de todas: O Triunfo da Morte.  Numa das sequências mais empolgantes, há um grupo de atores na praça vestidos como as criaturas dos quadros de Bosch. O tempo todo a trama envolve as situações hilárias ou até absurdas num clima sombrio. A doce hoteleira grávida que abriga matadores sanguinários, o diálogo entre Farrell e a moça, que entre cantadas e chistes tem que ouvir de um assassino alusões à fama de pedófilos dos belgas.

 

Brendan Gleeson e Colin Farrell são os assassinos escondidos em Bruges

Brendan Gleeson e Colin Farrell são os assassinos escondidos em Bruges

A palavra ‘fuck’ é empregada tão insistentemente no filme, a ponto dos extras do DVD trazerem uma pequena edição só com os palavrões emitidos pelos personagens. Os extras trazem várias outras coisas boas, como o passeio por Bruges (destaque para os cisnes cruzando o rio que corta a cidade), erros de filmagem, cenas excluídas e entrevistas com os atores.

A Guerra do Fogo

 

A Guerra do Fogo: viagem pela pré-história da humanidade

A Guerra do Fogo: viagem pela pré-história da humanidade

Enfim, consegui rever. Quase nem acreditei quando encontrei o DVD na prateleira do Macedônia. A primeira vez que assisti “A Guerra do Fogo“, de Jean-Jacques Annaud, foi numa aula de Antropologia Cultural quando fazia faculdade, lá pelo fim dos anos 80. 

Em 1981, o francês Jean-Jacques Annaud resolveu colocar em prática um projeto que vinha preparando há um bom tempo. O cineasta (que depois  dirigiu “O Nome da Rosa”, “O Amante” e “Círculo de Fogo”) passou cinco anos pesquisando tudo para recriar o universo da pré-história da humanidade.  “A Guerra do Fogo” (Quest for Fire) é  baseado em um romance de J.H. Rosny Sr. O filme narra a incrível aventura de um grupo de homo sapiens em busca da fonte de calor e sobrevivência, que, no estágio em que se encontram, ainda não foi possível fabricar. O fogo.

Os atores Everett McGill, Ron Perlman e Nameer El-Kadi vivem os três aventureiros, que partem em uma jornada pela sobrevivência de seu grupo. No caminho, encontram uma mulher de outra tribo (Rae Dawn Chong), que já domina o fogo há muito tempo. Ela se junta aos três na trajetória que representa simbolicamente não só a descoberta do fogo, mas especula com grande riqueza de conceitos científicos e criatividade, o nascimento de instituições decorrentes do choque de culturas e da necessidade de sobrevivência, como a guerra, a tecnologia, a família, a propriedade, o amor,  os tabus (antropofagia) e até a evolução do sexo selvagem à modalidade papai-mamãe.

 

Ron "Hellboy" Perlman

Ron "Hellboy" Perlman

Rae Dawn Chong e Everett McGill

Dawn Chong e McGill

 

 

 

 

 

 

Sem falar na liguagem. A viagem pré-histórica é tão sofisticada, que as “línguas” faladas no filme foram criadas especialmente pelo escritor Anthony Burgess (autor de Laranja Mecânica). Os personagens principais têm apenas um arremedo de linguagem. Mal se entendem, que dirá quando a moça da outra tribo aparece. Além da contribuição de Burgess, o filme ainda conta com o estudo de gestos e linguagem corporal do zoólogo e etólogo Desmond Morris. E veja só que coisa. Mesmo sem diálogos propriamente verbais, eles contam uma incrível história.

O DVD tem extras muito bons. Destaque para o documentário “As Aventuras de A Guerra do Fogo”, com apresentação de Orson Welles. E o making-of composto por uma série de pequenos vídeos sobre a pesquisa de locações (foi filmado no Canadá, Escócia e Quênia. Annaud queria ter filmado também na Islândia, mas não deu certo), o story-board (o diretor passou quatro meses desenhando as sequências), os cenários, a Gaiola do Fogo (mostra como foi concebida uma espécie de gaiola usada para transportar e proteger o fogo),  o elenco, a maquiagem, os bastidores e as fotos da produção (Annaud é um tremendo fotógrafo), entre outros detalhes.

Persépolis: oriente, ocidente…

 

Friso de tijolos esmaltados, Palácio de Dario I (museu do Louvre, Paris)

Friso de tijolos esmaltados, Palácio de Dario I (museu do Louvre, Paris)

Ah… O reino da Pérsia. A arte, a ciência e a cultura dos tempos de Avicena. As belezas de Isfahan e Persépolis. A civilização dos jardins das delícias. Quando a gente pensa em cultura árabe, muitas vezes não sabe que está se referindo a contribuições persas. Dizem até que foram eles que inventaram as calças compridas e o beijo de língua. Já pensou? Viver sem beijo na boca??!!

O cinema iraniano hoje é muito renomado artisticamente. E acho que merece essa posição por causa de filmes como “Através das oliveiras”, “Gosto de cereja”, “Gabeh”, “Balão Branco”, “O Silêncio” ou “Filhos do Paraíso”. Diretores como  Abas Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf e Jafar Panahi. Infelizmente, poucas pessoas no mundo viram esses filmes, em comparação com as mega produções americanas. Então, as chances de o “mundo ocidental” continuar com a visão pobre do que é o Irã são grandes. Mas os realizadores do cinema iraniano continuam produzindo filmes vistos em todo o país e no exterior.

Retrato de Avicena. Médico e filósofo dos bons tempos da Pérsia.

Retrato de Avicena. Médico e filósofo dos bons tempos da Pérsia.

Agora, já que é uma indústria persistente, poderiam contar sua história e resgatar para si mesmos e para o mundo a beleza da Pérsia ou Irã. Tudo bem… Deve ser mesmo complicado, por causa do regime político-religioso. Mas porque ficaram putos com “300”? Não acharam que mostrava os persas como se fossem muito inferiores e bárbaros em comparação com os gregos? Uma indicação de desprezo do ocidente pelo oriente? Não estou nem muito interessada na época de deposição do Xá Reza Pahlavi nos anos 70 e na revolução dos aiatolás que veio em seguida etc. Queria mesmo era ver nas telas o Avicena, os artistas, cientistas, poetas, filósofos, astrônomos, príncipes, princesas, heróis e outras figuras dos grandes reinos islâmicos da idade média. As civilizações douradas e distantes das névoas cinzentas do ocidente.

Mas o propósito não é  falar de um filme iraniano. É sobre uma iraniana, que contou sua vida numa história em quadrinhos, que virou um filme de animação. Uma história apaixonante de busca da identidade e de amor. Que me fez ter mais certeza do quanto a distinção entre oriente e ocidente é ilusória.

Persepolis, o livro: Marjane conta sua história em quadrinhos

Persepolis, o livro: Marjane conta sua história em quadrinhos

Marjane Satrapi é a filha única de uma família intelectualizada da alta classe média de Teerã. Tão adorável quanto Coraline (do Neil Gaiman) e Anna  (de A culpa é do Fidel), Marjane acompanha, ainda na infância, as mudanças e turbulências históricas do país. A queda do Xá, a revolução islâmica, a guerra Irã x Iraque. Não entende porque o tio é preso, pessoas desaparecem. Mas percebe a seriedade das transformações políticas. Agora ela tem que usar véu para andar na rua, ir à escola. Não pode usar o pin do Michael Jackson, nem cantarolar os hits da Madonna. 

Marjane tem um amigo em Deus. Ele mesmo. O Deus de Abraão, Jesus e Mohamed. Ele é um gigante de barba branca que conforta e aconselha a pequena menina persa em seus momentos de angústia e perplexidade. Mas ela tem o amor da família. Os pais carinhosos, a avó que lhe dá conselhos e abraços quentes e perfumados que a acompanharam por toda a vida. Teve um tio também. Descendente de príncipes e encarcerado pelo regime do aiatolá. Seu último pedido antes de “sumir do mundo” foi encontrar a pequena Marjane e transmitir a ela o orgulho por sua corajem e fé. Todas essas pessoas marcaram a vida de Marjane e influenciaram sua percepção de valores como família, política e religião. Foram a âncora de seu coração persa.

 

Persepolis: auto-biografia de Marjane Satrapi

Persepolis: auto-biografia de Marjane Satrapi

Nossa heroina não tinha um temperamento qualquer. Desde criança, enlouquece todos ao seu redor com perguntas difíceis. Faz ponderações nada simples para as professoras-opressoras da nova era teocrática do Irã. Diante desse cenário estreito para uma mente tão expansiva, seus pais tomam uma difícil decisão. Ainda adolescente, Marjane é despachada para a Áustria, onde estuda numa escola francesa, faz e perde amizades, descobre o amor e tem seu coração partido. É claro que sofre com o estranhamento entre culturas. Alguns admiram a jovem que vinha da terra devastada por guerras e mortes. Mas permanece uma estranha. Uma garota morena e exótica do oriente médio. Por uma série de desventuras, sucumbe e acaba perdida pelas ruas de Viena, longe da opressão de seu país de origem, mas totalmente submersa na solidão, dúvida e saudade. Retorna ao Irã , onde nada tinha mudado. Lá se reconstrói e inicia a viagem da vida adulta com paradas nas estações obrigatórias da universidade, do casamento, do divórcio, além de mais conflitos e decepções com a estupidocracia do país.

 

Marjane Satrapi: parisiense, chique e fumante convicta

Marjane Satrapi: parisiense, chique e fumante convicta

Hoje, Marjane Strapi vive em Paris, onde atua como escritora e artista gráfica e publica obras inspiradas pelos mitos e a história da Pérsia. Sua auto-biográfica história em quadrinhos PERSEPOLIS conquistou leitores por toda a Europa e pode servir como uma chave alternativa para a compreensão de como os conceitos e valores culturais, espirituais e políticos ditos ocidentais são, no final das contas, universais. Ocidente e Oriente. Como diz um amiga, isso é uma “palaçada”. O Irã hoje pode não ser mais o brilhante farol da cultura, ciência e artes que um dia ofuscou o mundo conhecido. Mas ainda existe o sonho de uma Pérsia de beleza e inteligência ou uma Bagdá reconstruída e próspera. Assim como parisienses, londrinos e novaiorquinos sonham com a eterna garantia de suas liberdades individuais. E nós, cariocas, sonhamos com um Rio de Janeiro só de paz, amor, belezas e delícias. 

filme de animação PERSEPOLIS, com direção e arte da própria Marjan, junto com Vincent Paronnaud, e vozes de Chiara Mastroiani e Catherine Deneuve, segue o mesmo argumento e a mesma concepção visual do livro-hq. Ganhou uma série de prêmios e pode ser visto em DVD.

As histórias perpetuam os sonhos. Abrem as portas para o melhor que um indivíduo ou um povo pode oferecer. Seja à esquerda ou à direita do globo terrestre.