Podemos gerar alma em nós

Se o instinto criativo é dado a cada um de nós, e com ele, também, a sua modificação pela psique, não podemos mais manter cisões e fendas entre o homem e o gênio… Mesmo sem talento artístico, mesmo privado da força egóica da grande vontade, mesmo sem a boa sorte, pelo menos uma forma do criativo está continuamente disponível para cada um de nós: a criatividade psicológica. Criar alma: podemos gerar alma em nós. Ou, como diz Jung: “Mas quem, eventualmente, poeta não é, cria o quê? Se alguém não tem mesmo nada para criar, pode talvez criar a si mesmo.”
Também John Keats, a quem talvez devamos a mais bela definição de obra de arte, tinha escrito: “Aquilo que é criativo deve criar a si mesmo.”

— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 11 – A Contribuição da Psicanálise, citando James Hillman (que cita Jung) e Keats.

podemos gerar alma em nós

Carl Gustav Jung

Portrait of John Keats by William Hilton. National Portrait Gallery, London

Portrait of John Keats by William Hilton. National Portrait Gallery, London

 

O poeta, as cartas, as estrelas, as borboletas e as flores

Palavras de Amor

Palavras de Amor

O amor romântico é um transtorno de simples coisas melosas como as palavras do título acima. Uma renúncia à ordem e à convenção na forma de se expressar. Como pode o amor ser objeto da arte? Não pode. Não é.

Esse é um post tolo sobre o amor, sobre as palavras  e sobre um filme.

Um filme que já me hipnotizou com suas imagens iniciais. Uma mão empunhando uma agulha,  singra os mares de um pano de algodão bem branco, fazendo um pesponto na roupa. Ao fundo, o Adágio da Serenata para 13 instrumentos de Sopro, de Mozart, numa versão para vozes. Sublime.

Dirigido pela notável Jane Campion (O Piano), Bright Star viaja à Inglaterra do início do século 19 para retratar o romance de Fanny Brawne e John Keats. Uma história de amor que permaneceu em segredo por muitos anos.

Devo confessar que não conheço praticamente nada de poesia romântica inglesa. Com isso, quero dizer precisamente que nunca li os autores dessa época. Mas consigo situar o momento histórico vivido por Byron, Shelley e Keats. Gênios da poesia de seu tempo, nem sempre compreendidos. Só depois de morrer que John Keats obteve o reconhecimento como um dos grandes poetas da língua inglesa.

Fanny Brawne fazia suas próprias roupas e chapéus. Dizem que era um pouco excêntrica em suas criações, mas o design de moda era sua paixão. Até conhecer John Keats.

Num verão em Hampstead, subúrbio de Londres, em 1814, Fanny é apresentada ao solitário e triste John Keats, que tinha largado os estudos de medicina para seguir a trilha de sua poesia. Ele se vê atraído pelo jeito inesperadamente pouco convencional de Fanny (Abby Cornish, de Um Bom Ano e Elizabeth: The Golden Age). Enquanto ela fica intrigada com a figura meio distante de Keats (Ben Wishaw, de O Perfume e I’m Not There). Os dois vivem muito próximos, pois a família de Fanny ocupa a mesma casa que o Sr. Brown (amigo de Keats),divida em residências separadas. Essa proximidade satisfaz a curiosidade dos namorados, que, discretamente, depois de encontros e trocas de cartas apaixonadas, tornam-se noivos.

segredos de amor

segredos de amor

A mãe de Fanny (seu pai já havia morrido), a princípio, não concorda com a ligação da filha com o poeta, que não tem recursos nem para se manter. Mas a família Brawne acaba igualmente arrastada pelo amor por Keats. O noivado permaneceu vários anos longe do conhecimento público. Como outros poetas românticos, a estrela Keats brilhou intensamente, mas por pouco tempo. Fanny mergulhou num dolorido luto por um longo período e depois seguiu com a vida, se casou e teve filhos. Somente muitos anos depois, após a morte do pai, os filhos de Fanny revelaram o segredo das cartas-poemas deixadas pela mãe.

o amor através das flores e cartas

o amor através das flores e cartas

Ah! dearest love, sweet home of all my fears,
And hopes, and joys, and panting miseries, –
To-night, if I may guess, thy beauty wears
A smile of such delight,
As brillinat and as bright,
As when with reavished, aching, vassal eyes,
Lost in soft amaze,
I gaze, I gaze!

Trecho de Ode to Fanny, poema póstumo de John Keats (http://www.john-keats.com/)

Fanny Brawne & John Keats

Fanny Brawne & John Keats

John e Fanny pelo olhar amoroso de Campion

John e Fanny pelo olhar amoroso de Campion

Da diretora Jane Campion, adoro O Piano e esse Bright Star. Gostei menos de outros, como A Portrait of a Lady. Enquanto a americana Katherine Bigelow foi a primeira mulher a ganhar o Oscar de direção, a neozelandeza Campion foi a primeira a ganhar a Palma de Ouro em Cannes pela mesma categoria, com O Piano. Jane transforma o que vê em poesia. Todo bom cineasta é um pouco poeta. Os filmes nascem como uma fantasia na cabeça do criador e terminam como outra fantasia na imaginação de quem vê.

letras e borboletas

letras e borboletas

A filmografia de Jane Campion explora muito o universo multi-facetado feminino. Em Bright Star, a vida de John Keats encontra um porto de calor e afetividade no lar da família Brawne, quase toda de mulheres, com exceção do irmão mais novo de Fanny. Esse mundo entre bordados, suspiros e cartas de amor, inspirou algumas das imagens mais delirantemente belas do cinema. Como a cena das irmãs no quarto cheio de borboletas azuis. Tão real e onírico. Ou quando elas caminham e brincam num campo de bluebells (aquelas flores que parecem sininhos azuis). A singeleza voa alto quando Keats se deita como num sonho sobre a copa florida de uma árvore. E quando ele pergunta à pequena Toots (Margareth, irmã de Fanny): o que andou comendo, Toots? Botões de rosa? Como explica essas bochechas tão rosadas?

o poeta e o sonho

o poeta e o sonho

Tem dois sites oficiais do filme. Um mais convencional e outro que é o scrap book da diretora. Esse é um barato. Tem story boards, desenhos de produção, fotos das locações  e um monte de outras coisas belas e curiosas.

Bright Star

Bright Star

Bright star, would I were stedfast as thou art–
Not in lone splendour hung aloft the night
And watching, with eternal lids apart,
Like nature’s patient, sleepless Eremite,
The moving waters at their priestlike task
Of pure ablution round earth’s human shores,
Or gazing on the new soft-fallen mask
Of snow upon the mountains and the moors–
No–yet still stedfast, still unchangeable,
Pillow’d upon my fair love’s ripening breast,
To feel for ever its soft fall and swell,
Awake for ever in a sweet unrest,
Still, still to hear her tender-taken breath,
And so live ever–or else swoon to death.

(Bright Star, de John Keats)