Variedade, versatilidade, inventividade

“Depois de atingirem o apogeu de vitalidade, as civilizações tendem a perder seu vigor cultural e declinam. Um elemento essencial nesse colapso cultural, segundo Toynbee, é a perda de flexibilidade. Quando estruturas sociais e padrões de comportamento tornam-se tão rígidos que a sociedade não pode mais adaptar-se a situações cambiantes, ela é incapaz de levar avante o processo criativo de evolução cultural. Entra em colapso e, finalmente, desintegra-se. Enquanto as civilizações em crescimento exibem uma variedade e uma versatilidade sem limites, as que estão em processo de desintegração mostram uniformidade e ausência de inventividade. A perda de flexibilidade numa sociedade em desintegração é acompanhada de uma perda geral de harmonia entre seus elementos, o que inevitavelmente leva ao desencadeamento de discórdias e à ruptura social.” – Fritjof Capra: O Ponto de Mutação

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adaptar-se a situações cambiantes

 

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Ao término de um período de decadência sobrevem o ponto de mutação. A luz poderosa que fora banida ressurge. Há movimento, mas este não é gerado pela força… O movimento é natural, surge espontaneamente. Por essa razão, a transformação do antigo torna-se fácil. O velho é descartado, e o novo ê introduzido. Ambas as medidas se harmonizam com o tempo, não resultando daí, portanto, nenhum dano. I Ching

Dolce far niente ou é preciso saber viver

Invenção e evolução humana

Invenção e evolução humana

ócio substantivo masculino 1 cessação do trabalho; folga, repouso, quietação, vagar 2 espaço de tempo em que se descansa 3 falta de ocupação; inação, ociosidade 4 falta de disposição física; preguiça, moleza, mandriice, ociosidade 5 fig. trabalho leve, agradável (Dicionário Houaiss)

Como é que diz o ditado popular mesmo? Mente vazia é oficina do diabo? E quem faz meditação? Não esvazia a mente? Minha formação metodista propiciou muitos valores que considero positivos. Um certo pragmatismo aqui, uma noção de meritocracia ali e uma certeza na realização pessoal e na liberdade conquistáveis através do trabalho. “A mulher virtuosa jamais come o pão da preguiça”, diz o rei Salomão no Eclesiastes… (ou seria nos Provérbios…). Mas também esse, digamos, modelo mental protestante-germânico/anglo-saxão-burguês me levou, quando xóvem, a detestar hare krishnas (*). Achava um bando de inúteis que arrecadavam dinheiro para poder ficar o resto do dia rezando e cantando no templo, sem acrescentar nada à coletividade. Enfim… uma noção originada na ignorância e no preconceito. O mesmo tipo de leviandade, acho eu, embora nunca tenha mirado minha idiotice nessa direção, move pessoas que acham que os índios brasileiros são preguiçosos e que herdamos a preguiça deles. O problema com modelos é esse. Precisamos de modelos para decodificar o mundo, mas eles nos limitam. Modelos são como veículos automotores, armas ou qualquer equipamento de alta ou baixa tecnologia: temos que usar com bom-senso.

A ociosidade é a estupidez do corpo e a estupidez é a ociosidade da mente. Johann G. Seume

Mas voltando ao dilema do honrado trabalho X maldito ócio. É um mito. Sinto muito. Passar oito horas por dia, cinco dias por semana em um escritório ou atrás de um balcão não garante jornadas de trabalho produtivo, de qualidade e que impulsione a inovação e a sobrevivência de um negócio. Nem a satisfação e crescimento de quem trabalha. No primeiro capítulo de Criatividade e Grupos Criativos, Domenico de Masi evoca o Gênesis para lembrar que até papai do céu descansou. Veja bem: o Criador trabalhou por seis dias e curtiu um bem merecido sabbath. Afinal, todo aquele trabalho tinha um propósito e ele contemplou sua obra. Acho que as sagradas escrituras, quem diria, base da fé de judeus, cristão e muçulmanos, mandam um recado bem claro sobre coisas simples e fundamentais para qualquer cultura. Precisamos agir (sair da inércia, trabalhar, empregar tempo e esforço) para construir coisas, solucionar problemas, criar, inventar. Mas esse agir tem um propósito. Portanto, precisamos contemplar, usufruir e compartilhar o que construímos. Até para entendermos se é necessário repetir a dose ou mudar de direção. E também é importante observar as consequências, a famosa dinâmica da vida (a fila anda, a Terra não gira  à sua volta, baby etc.). O ciclo se fundamenta em criar, usufruir e aprender.

trabalhado e criatividade

trabalho como usina de ideias

(…) a organização cria barreiras à criatividade justamente agora, quando tem mais necessidade de ser criativa, voltando-se assim ao seu próprio insucesso. — Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 18 – Cultivar a Criatividade

Trabalhar, aprender e se divertir. Tudo ao mesmo tempo e no mesmo lugar. É uma proposta ousada, diriam alguns. Mas misturar trabalho, aprendizado e lazer não é exatamente uma “novidade”. Sempre teve gente que fez isso. Pessoas que construíam o novo, inventavam o futuro, que expandiam as fronteiras do saber, da técnica, dos mercados. Grupos como a Estação Zoológica de Nápolis, a escola Bauhaus ou o Círculo Matemático de Palermo, entre outros estudados por De Masi no mesmo livro. Nessa conjuntura, foi possível extrapolar paradigmas, transgredir modelos, derrubar as divisórias que separam  compartimentos tais como trabalho, estudo e lazer. Mas já não existe a prática de, em festas e jantares, misturando negócios e descontração, fechar acordos, vender ideias, conseguir investidores, criar sociedades? Claro que sim. O difícil é aceitar explicitamente essa receita, livrando-se da doutrina industrial marretada nas mentes humanas desde o século XIX. Difícil é focar no que realmente importa.

Selo do Círculo Matemático de Palermo e seu fundador Giovan Battista Guccia

Selo do Círculo Matemático de Palermo e seu fundador Giovan Battista Guccia

Seja no executivo de uma grande empresa, no governante, no pai ou mãe chefe de família ou mesmo em um jovem recém formado, podemos observar um modelo de comportamento que parece inevitável: foco em problemas do dia-a-dia (imediatos, que desperdiçam energia, tempo e talento) e não na invenção do futuro (criatividade, planos, imaginação, sonho, grandes mudanças, reflexões, a afetividade etc.). Mesmo quem está entre os privilegiados do planeta, que podem fazer três ou mais refeições ao dia, continua se comportando como nos tempos das sociedades pré-agrícolas, quando não podia se preocupar com mais nada, a não ser o agora. Conseguir alimento e não morrer tentando. É claro que não se pode esquecer de quem tem pouca ou nenhuma opção, a não ser, se esfolar para sobreviver. Mas isso indica o quanto é grave o desperdício de vida de quem tem esse privilégio. E não buscar essa mudança do modelo significa reduzir as perspectivas para todos.

Acquario Della Stazione Zoologica Di Napoli

Acquario Della Stazione Zoologica Di Napoli

A dor e o sacrifício continuam sendo valores ostentados por alguns (ou muitos acho eu) como se fossem a finalidade da vida. Isso vale tanto para a fantasia ideológica do bom trabalhador quanto para a neurose contemporânea do indivíduo cativo da mediocridade. Algumas vezes é mais fácil (ou talvez seja mais prazeroso) ser o tipo sofredor: reclamar que se mata de trabalhar, que vive apagando incêndios e não tem tempo para planejar nada… Tem duas historinhas genéricas que ilustram esse paradoxo. Sobre um executivo e sobre um aposentado. Uma mudança estratégica da empresa retirou da alçada de um executivo as atividades mais operacionais e repetitivas que faziam parte do dia-a-dia da área que ele gerenciava e transferiu-as para outro setor especializado ou terceirizou-as. Eram justamente essas rotinas que traziam mais dor de cabeça e consumiam mais tempo de trabalho do executivo. Ou seja, ele vai ter que focar nas atividades mais criativas, nas soluções e projetos que vão melhorar a empresa. Finalmente, ele vai ter tempo para pensar, planejar, criar, construir e fortalecer relacionamentos na empresa. Mas ele se pergunta: e agora? Nunca tive como fazer isso… Só era cobrado. Agora que minha missão exclusiva é essa, como é que se faz mesmo?

Inside the Bauhaus school of design, Staatliches Bauhaus, at the staircase, in Dessau, Germany. by ClockWithNoHands (Deviantart.com)

Inside the Bauhaus school of design, Staatliches Bauhaus, at the staircase, in Dessau, Germany.
by ClockWithNoHands (Deviantart.com)

E tem o aposentado, que trabalhava 12 horas por dia, comprou casa, carro, educou filhos até a faculdade. Agora, sem trabalho, viúvo, sem amigos (nunca teve tempo para fazer amizades nem com os próprios filhos), sem atividades de interesse (nenhum hobby, área de estudo ou nova profissão). E agora, zé? Vai contar as mesmas velhas piadas que ninguém quer ouvir? Não gostar de nada (de televisão, cinema ou futebol), pois nada mais é feito como antes e não tem ninguém com quem dividir o passado, as lembranças? Como é que se vive, mesmo? Trabalhar, se divertir e aprender são atividades que têm que caminhar juntas a vida toda. Nessa receita, cabe especificar ainda ingredientes importantes como cultivar as afetividades e a beleza, exercitar a criatividade e compartilhar conhecimento. Precisamos construir grupos criativos em casa, no trabalho, na escola, na faculdade. Pepinos do dia-a-dia são fatores relevantes e inevitáveis, mas não são as verdadeiras prioridades. Nas administrações públicas, precisamos de foco no que realmente importa: educação, saúde e segurança (e não nos escândalos, crises hídricas, energéticas e econômicas). Para que todos possam focar na vida. É simples assim. Mas só que na-ão!

(*) Que fique claro: acho muito legais hare krishnas, monges budistas ou católicos e qualquer comunidade que congregue trabalho, estudo e contemplação da vida material ou espiritual. Eu só era muito idiota quando xóvem para compreender isso  (não que eu não o seja mais… acho que sou um pouco menos…).

A criatividade que não se exerce nas coisas, mas nas pessoas

“Muitos, pensando na criatividade, dirigem a mente para a Mona Lisa de Leonardo da Vinci, os poemas de Milton, o Pensador de Rodin, o pára-raios, as lentes bifocais de Benjamin Franklin, a estufa, o telégrafo de Morse, o telefone de Alexander Graham Bell, a lâmpada elétrica e o fonógrafo de Edison. Nesses casos, a criatividade é associada a uma pintura, a uma escultura, a um soneto, a uma invenção, a um produto que é possível ver, estudar, empregar de forma útil.
“Mas existe ainda outro tipo de criatividade que poderemos chamar de invenção psicológica ou social e cujos produtos não são objetos tangíveis. É a criatividade que não se exerce nas coisas, mas nas pessoas, a criatividade nos relacionamentos humanos. É uma forma de criatividade que requer inteligência, acuidade de percepção, finura de sensibilidade, respeito ao homem como indivíduo e uma certa coragem pessoal para explicar o próprio ponto de vista e para manter as convicções sobre ele. A criatividade nos relacionamentos humanos exige a integridade do indivíduo e uma capacidade particular de operar com os outros. Encontramos exemplos históricos nas tentativas , exercidas no campo político e social, para a composição das divergências. A Magna Carta, o Bill of Rights, a proclamação da emancipação da população negra, as Constituições, os estatutos municipais e as suas emendas e os códigos e regulamentos urbanos representam, todos, exemplos de criatividade social.”

— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 14 – A Contribuição da Sociologia, citando Harold H. Anderson

Leonardo da Vinci: The Mona Lisa (or La Joconde, La Gioconda).

Leonardo da Vinci: The Mona Lisa (or La Joconde, La Gioconda).

um produto que é possível ver, estudar, empregar de forma útil

um produto que é possível ver, estudar, empregar de forma útil

Lei Áurea: A  criatividade nos relacionamentos humanos exige a integridade do indivíduo e uma capacidade particular  de operar com os outros

Lei Áurea: “A criatividade nos relacionamentos humanos exige a integridade do indivíduo e uma capacidade particular de operar com os outros”

 

Nova e grande estação de explorações e invenções

Nunca como hoje, portanto, as duas culturas estiveram tão próximas; e não porque as ciências humanas tenham finalmente conquistado os códigos da ordem previsível e da simplicidade inteligível que pretendiam, mas porque as ciências da natureza chegaram finalmente à consciência (e mesmo ao reconhecimento e à apreciação ) daquela desordem e daquela complexidade que desde sempre detestavam.
O que permitiu a cientistas como Prigogine e Stengers profetizar uma nova aliança foi a inédita circunstância pela qual – pela primeira vez na história da cultura – são as ciências exatas que permutam métodos e paradigmas da ciência humana, não o inverso. Essa circunstância comporta pelo menos aparentemente, uma extensão – mais do que uma restrição – da área da incerteza e da complexidade. Na verdade, cria as premissas para uma nova e grande estação de explorações e invenções.

— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 13 – A Contribuição da Epistemologia

exatidão e incerteza

exatidão e incerteza

Circuitos criativos

(…) cada indivíduo difere de todos os outros, mas ao mesmo tempo, todos trazem a sua origem de uma propriedade criativa comum a todo o gênero humano, porque cada um de nós é possuidor de circuitos cerebrais fundamentalmente iguais e elabora a informação que chega ao mundo exterior mediante os mesmos processos (…).

— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 10 – A Contribuição das Neurociências, citando Rita Levi-Montalcini

propriedade criativa comum a todo o gênero humano

propriedade criativa comum a todo o gênero humano

 

As pulsações do progresso

Hoje a ciência e a técnica desenvolvem-se segundo um ritmo mais uniformemente acelerado, mas não foi sempre assim. As carruagens nas quais os nossos bisavós viajavam tinham uma velocidade mais ou menos igual à das carroças assírias e das bigas romanas. Já os automóveis duplicaram de velocidade no decorrer de 70 anos. Os microprocessadores, fiéis à lei de Moore, dobraram de potência a cada 18 meses. E as fibras óticas, a cada nove meses.

– Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 9: O homem descobre a criatividade e inventa o futuro

carroça tração animal

carroça tração animal

28º Salão Internacional do Automóvel de São Paulo

28º Salão Internacional do Automóvel de São Paulo

E o cérebro enriqueceu-se

Do ponto de vista morfológico, o cérebro foi gradualmente enriquecendo-se. O sistema neo-mamífero reúne características do paleo-mamífero e do proto-réptil (se quisermos adotar a subdivisão proposta por MacLean). O proto-réptil limita-se a gerir os comportamentos estereotipados e predeterminados, que não exigem flexibilidade com respeito aos estímulos ambientais. O paleo-mamífero, que está na base das emoções e das sensações prazerosas ou desprazerosas, molda o comportamento humano a partir dos estímulos ambientais. O neo-mamífero é capaz de analisar e transformar os sinais, sistematizando-os em coordenadas espaço-temporais, elaborando conceitos e projetos e compondo sínteses entre a fantasia e a concretude, isto é, criando.

—  Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 2: O Homem Descobre a Imperfeição e Inventa a Palavra

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o cérebro foi gradualmente enriquecendo-se

 

 

A dádiva da criação

Creation

Creation

Creio em Deus Pai Todo Poderoso. Criador do Céu e da Terra. (1)

Outro dia no Bom Dia Brasil veio a notícia sobre a nova bactéria que “criaram” por manipulação genética. A Globo News fez uma edição do Espaço Aberto Ciência e Tecnologia com uma boa abordagem do assunto. Mas o que me deixou impressionada naquela semana foi que no Asahi Shimbun, um dos principais diários japoneses, estava estampada a pergunta “O que é a vida?”

Recentemente, quando comemorou-se o bicentenário de Charles Darwin (1809-1882), teve uma exposição aqui no Rio sobre a vida e obra do naturalista inglês. Não vi a exposição, mas tinha um cartão postal de divulgação circulando com a seguinte citação.

“Na história da humanidade (e dos animais também) aqueles que aprenderam a colaborar e improvisar foram os que prevaleceram.” Charles Darwin

Parece até um velhíssimo axioma, sei lá de Confúcio, de um pré-socrático ou da Cabala. Uma idéia anterior à civilização, mas que se mantém moderna e se aplica hoje à história das empresas, das organizações, dos governos, das nações. Adaptar-se para sobreviver. Darwin é meio que a própria ciência. Viveu a ciência. Se perguntou a vida toda. Observou e cutucou tudo à sua volta. Foi um pensador. Formulou conceitos que alcançaram esferas além da Biologia.

Em Creation, o ator Paul Bettany vive Charles Darwin na fase em que escreve sua obra mais relevante e até hoje controversa, A Origem das Espécies. Darwin já havia feito a viagem pelo Novo Mundo, do qual voltou sem a mesma saúde de antes. Já tinha uma imensa coleção de amostras, desenhos, fósseis e anotações sobre as espécies observadas. Suas idéias, suas inquietações e perplexidades diante de enigmas da natureza estavam cozinhando no fogo agitado de sua mente. A convivência com a filha mais velha, Anne, que morre muito jovem, marcou profundamente Darwin. O filme retrata com delicadeza a influência da experiência mais íntima e pessoal em sua obra. Casado com sua prima, Emma (no filme, vivida por Jennifer Connelly), a quem amava profundamente e com quem teve dez filhos, Darwin se perguntava se os problemas de saúde e as mortes prematuras de três desses filhos não seriam causados pelos laços consanguíneos do casal.

Creation

Crença e criação

E tem a inevitável questão da vida, Deus, a criação do mundo. Darwin quase se tornou clérigo quando estudava em Cambridge. Mas preferiu seguir outro curso de sua própria natureza e foi estudar plantas, insetos e geologia. Emma foi sua âncora mais forte quando esteve à deriva balançando entre os ventos da fé e da ciência. No filme, Jeremy Northam é o reverendo Innes, amigo da familia e outra referência espiritual na vida de Darwin.

Creation

Darwin e Anne

Creation

Duas criaturas

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Charles e Emma

Creation

Natureza X Humanidade?

De onde vem o dom da criação? Tudo não se transforma constantemente? Tudo tem que ter uma origem? Pensar conforme os ditames da ciência leva a todas as respostas? De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos? Queremos MESMO saber todas as respostas? O que é o bom senso? Desde quando ele é bom? Porque é bom? Deus é o oposto ou sinônimo do bom senso?

Natureza X Humanidade: a quantas vai o placar? Nós fazemos o aquecimento global? No que diz respeito à sobrevivência do planeta, somos melhores que as baratas? Não preciso que o Darwin e o Carl Sagan voltem do além para explicar que o desmatamento causa aquecimento gl0bal. Ou que tudo está integrado e que tudo que fazemos afeta os outros. A humanidade optou pelo caminho do determinismo técnico-científico. Nos orientamos pelos conselhos médicos e relatórios estatísticos. Mas passamos fome, levamos picada de mosquito, não sabemos onde enfiar o lixo.

Natural é ter dúvidas. Acredito em Deus e que o homem foi à Lua, mas humildemente me pergunto se los hay los hay.

(1) Cito o Credo Apostólico

A cybercoelhitude de Kac

Quando se trata de  arte, a gente muitas vezes ouve um papo sobre chocar, escandalizar, polemizar, incomodar. Artistas têm tipo uma obrigação de chegar com algo novo, nunca imaginado, jamais visto.

O Novo. Que pourra é essa de O Novo?

coelhoglifos

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Quando eu e minha irmã entramos na sala do Oi Futuro, onde tem o painel grandão branco, verde e preto, tive a sensação do Novo e de um leve dejà-vu, ao mesmo tempo. Acho que é porque o novo sempre tem algo de “velho conhecido” da gente. Nem que seja lá no fundo do baú do inconsciente coletivo, onde a minha tataravó lá na Paraíba viu um corte de pano estampado, branco, verde e preto e se maravilhou por completo.

O Novo é manipular o DNA?

Mixar material genético de uma flor com um artista e gerar uma flor-poema?

É programar o algoritmo que combina aleatoriamente o movimento dos coelhoglifos verdes e pretos se aglutinando e se expelindo na projeção sobre a parede branca?

coelhatoriamente

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Mas da onde vem a emoção dO Novo? Seria O Novo o veículo mágico e quântico que transporta através do tempo-espaço os  sentimentos ancestrais?

Eduardo Kac dispara veloz como um cybercoelho contra as fronteiras da imaginação, e, às vezes, do bizarro, ao juntar as pontas da arte com a ciência & tecnologia. Tipo: a florEdunia (um híbrido de petúnia que traz o material genético do artista) ou o kit transgênico (instrumentos e materiais de laboratório com a devida aura de mistério de uma sala escura…). Kac ficou muito conhecido com a obra-coelha Alba, que, como produto de manipulação genética, emite luz verde. Coelhos se multiplicam louca e indiscriminadamente. Assim como as idéias do artista. O que me inquietou foi pensar nessa combinação misteriosa do aspecto aleatório com o manipulador da criação artística. Sob esse ponto de vista, a ciência e a arte caminham pela mesma estrada que atravessa a imaginação e a familiaridade .

lagoglifos, logo existo

lagoglifos, logo existo

Lá pelas tantas quando olhávamos os lagoglifos, um senhor se aproximou perguntando como tínhamos interpretado aquelas imagens. E emendou logo afirmando que não entendia aquilo tudo, mas achava que o barato era pensar sobre o que estava diante dele. Que apreciar arte é se fazer pensar…

Caraca! Foi uma das melhores coisas que já ouvi numa galeria de arte… Se não há propósito em definir o que é a arte ou porque a apreciamos, pelo menos esse atributo é definitivo: fazer pensar. Afinal, como disse bem a Lia Luft, pensar é transgredir.

Mais imagens da exposição Eduardo Kac: Lagoglifos, Biotopos e Obras Transgênicas.