Os números de 2011

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.

Aqui está um resumo:

A sala de concertos da Ópera de Sydney tem uma capacidade de 2.700 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 18.000 vezes em 2011. Se fosse a sala de concertos, eram precisos 7 concertos egostados para sentar essas pessoas todas.

Clique aqui para ver o relatório completo

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One last disappointment

Histórias de espiões, assim como as de máfia, são quase sempre alimentadas por vinganças pessoais. James Bond só volta ao serviço de sua Majestade depois que vinga a morte de Vesper. Em Spooks, Sir Harry Pearce sempre tem uma bala na pistola ou um copinho de whisky envenenado para aqueles que causam a morte de um de seus espiões. Que o digam o chefe da FSB (antiga KGB) que foi responsável pela explosão do carro do agente Adam Carter ou o ex-secretário do Interior, que autorizou outra explosão que matou a ótima Ros Meyers. Quando o Harry aparecer de luvas num recinto, prepare-se. Uma vingança pode estar em andamento.

Spooks

Vingança é um prato que se come com luvas pretas

Parece que a vida necessariamente esquizofrênica dos espiões, pelo menos no universo ficcional, conta com compensações como essa. Ninguém nessa situção consegue ter uma vida pessoal livre das ameaças da vida profissional. E todos eles abrem mão desse privilégio para servirem seu país. Então a identidade do grupo e o senso corporativo falam mais alto. Eles têm que zelar uns pelos outros. Formam uma confraria e vingam a morte de seus companheiros.

A série da BBC chegou ao fim em 23 de outubro deste ano, quando foi ao ar o sexto e último episódio de sua décima temporada. Spooks (já comentada aqui)  foi marcada por desapontamentos. Não é que a série desaponte o tempo todo. É que as histórias têm reviravoltas e desfechos que podem causar frustração para quem assiste. Frustração, desapontamento, decepção como acontecem na vida. Os roteiristas não têm pudor algum ao matar os heróis da série com poucas linhas, economizando na emoção do texto. Mas ainda assim, a ação é suficiente para causar uma reação emocional no espectador. Para mim, a pior morte ou a mais difícil de aceitar é a do personagem Colin. A decepção é meio que uma marca da série. Tem episódios, inclusive, em que a BBC coloca um aviso na abertura com um texto do tipo “esse episódio poderá desapontar alguns telespectadores”.

Spooks

Ruth, Harry, Adam, Ros, Zafar e Jo na 6ª temporada de Spooks

Então, ao longo das dez temporadas, aprendemos a gostar (ou não) do Harry, do Tom, da Cloe, do Daniel, do Colin, do Malcolm, da Ruth, do Adam, da Ros, da Jo,  do Lucas, do Tariq, do Dmitri, entre outros. E vamos dizendo adeus a quase todos eles, ou porque morrem ou porque saem da história. Muitas vezes essas mortes são vingadas. Poucas saídas de personagens são razoavelmente “felizes”, como a da Chloe ou do Malcolm. O último capítulo de Spooks trouxe o desfecho de uma história dentro da história. Um final muito aguardado que, para não variar, resultou em um último desapontamento. E, mantendo a tradição até o fim, a vingança é a personagem mais aguardada da série.

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Guia Webdebee de Spooks

A série produzida pela Kudos para a BBC teve 10 temporadas e seu primeiro episódio foi ao ar em 2002. Em Portugal, a série se chama Dupla Identidade. No Brasil, que eu saiba, não passa em canal algum.

Spooks Temporada 1

Chloe, Tom, Tessa, Harry, Daniel e Helen. Equipe original

Spooks é uma gíria para denominar espiões. Na série da BBC eles são agentes do MI5, serviço de segurança e inteligência que é ligado ao gabinete do sercretário do interior e atua dentro do território inglês. Fora das terras britânicas, quem atua é o MI6, um outro órgão que também atua com o MI-5 e o Ministério da Defesa inglês. Dizem que os agentes do MI5, na verdade, passam a maior parte do tempo ouvindo escutas telefônicas, monitorando imagens de satélites e de câmeras de segurança e analisando todo esse material, chamado de “intel”. Então, na realidade, a inteligência da informação é a principal arma dos MI5. Mas, na ficção de Spooks, os agentes partem da inteligência para a ação em todos os episódios. Harry Pearce é o chefe da chamada Section D, divisão com foco principal na prevenção de ações terroristas. Harry é um veterano do serviço de espionagem inglês. Sobreviveu às transformações do mundo, desde o fim da Guerra Fria. É o único personagem permanente por toda série.

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Melhores temporadas

Assisti às 10 temporadas em ordem meio aleatória. Tentei manter um distanciamento crítico, mas ainda assim, foi uma coisa muito muito viciante.

Spooks Temporada 9

Revelando Lucas North

9ª temporada – 2010

Peguei o bonde de Spooks andando no início de 2011. Acho que foi porque na época eu assistia tudo que tivesse o Richard Armitage (na verdade, continuo fazendo isso… hehe) e falava-se muito da atuação dele em Spooks. Nessa nona temporada (que era, então, a mais recente) os Spooks tinham acabado de perder a valorosa Ros Meyers. Claro que, como era a primeira vez que assistia à série, não entendi coisa nenhuma. Mesmo assim, o primeiro capítulo da temporada já parte para a ação, introduzindo dois personagens novos (Dimitri e Beth) e a substituição da Ros pelo Lucas North (Armitage) no comando das operações da equipe em campo. São oito episódios muito tensos em que são revelados segredos (decepcionantes, é claro) sobre um dos principais personagens.

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Spooks Temporada 7

Adam meets Lucas

7ª temporada – 2008

Essa tem um fio condutor dos epsódios e começa com a chegada do personagem Lucas North e o adeus a Adam Carter logo no primeiro capítulo. Há uma conspiração envolvendo o serviço de espionagem russa, que tinha motivado a captura e tortura de North por longos 8 anos. A temporada avança desvendando a conspiração e tem um daqueles finais desesperadores. Ainda bem que já tinha a 8ª temporada pronta para assistir e não fiquei no suspense mortal dos britânicos, que tiveram de esperar até o outono de 2009 para saber o que tinha acontecido com o Harry. Destaque para a memorável cena do primeiro episódio, em que somos apresentados às tatuagens de Lucas…

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Spooks

Spooks Series 1

1ª temporada – 2002

Na ordem maluca em que assisti, essa foi a minha 2ª temporada de Spooks. Não tem uma apresentação, digamos, didática do contexto ou dos personagens. O espectador meio que cai no mundo dos espiões. Aliás devo admitir que, apesar de ter assistido à série numa frequencia diária e quase ininterrupta, não quer dizer que eu entendia tudo o que estava acontecendo. Tem momentos em que as reuniões de debrief no grid concentram tanta intel e tão rápido que eu me perdia facil. Ainda assim, é possível deixar rolar e entender o “todo” até o final do episódio. Na primeira temporada, a equipe é liderada por Tom Quinn (o bonitão Matthew MacFadyen, que faz o Mr. Darcy do filme Orgulho e Preconceito). E conhecemos também os outros agentes Chloe, Daniel, Malcolm e, claro, o chefe Harry Pearce. Num dos primeiros episódios da temporada, ocorre uma morte horrível de uma personagem, fato esse que gerou muitas reclamações de  telespectadores da BBC. Acho que é nessa 1ª temporada que o Hugh Laurie (House) aparece como um agente do MI-6. As participações dele são poucas, mas excelentes.

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Melhores personagens

Spooks - Harry Pearce

Sir Harry Pearce (Peter Firth)

Harry Pearce  – o chefe da Section D é uma velha raposa do serviço secreto inglês, tendo atuado durante a Guerra Fria, medindo forças, ao lado da CIA, com a KGB. Ganha o título de cavaleiro, tornando-se Sir Harry na sexta temporada (se não me engano). O humor “mal humorado” dele é uma das melhores coisas da série.

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Spooks - Ruth Evershed

Ruth Evershed (Nicola Walker)

Ruth Evershed  – a super nerd do grupo aparece a partir da 2ª temporada. Antes de chegar à section D, trabalhava no GCHQ (ver abaixo no glossário).  Ruth, em geral, é quem depeja toda “intel” sobre os casos nas reuniões de debrief. Tem uma história de amor semi-platônica com o Harry. Na quinta temporada, desaparece para retornar na oitava.

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Spooks - Ros Meyers

Ros Meyers (Hermione Norris)

Ros Meyers – aquele jeito da atriz Hermione Norris de quase não abrir a boca para falar confere um não-sei-que-lá de esnobismo e calma tão chiques. Adoro as frases dela como numa cena em que Ben e Lucas saem correndo para socorrê-la. Ela estava sozinha e desarmada com o  inimigo. Quando eles chegam e tudo se resolve ela sai do local, não sem antes dizer bem ácida “you should work out more”.

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Glossário Spooks

São tantas siglas e termos próprios de espionagem que demora um pouco para se acostumar. Aí vão alguns termos mais citados.

Alfa 1, do you copy? – Alfa 1, Alfa 2 etc. são os codinomes dos agentes líderes em uma operação de campo. Tem uma hierarquia de responsabilidades e comando. Se não me engano, Omega são os agentes da equipe de apoio que fica no Grid.

Alfa, Bravo, Charlie, Delta… – Alfabeto internacional fonético. Usado pelos agentes para informar senhas de acesso por telefone. Neste blog tem o alfabeto completo.

Black Op – Operação realizada por um agente sem autorização de seus superiores.

CCTV – Closed-circuit Television. É o circuito de câmeras de vigilância de locais públicos e privados. No mundo de Spooks, não há uma imagem registrada por essas câmeras que não possam ser facilmente acessadas pela equipe da Section D.

Debrief – Entrevisa ou reunião em que membros da equipe ficam a par das informações e discutem sua próxima missão.

FCO – Foreign & Commonwealth Office. Espécie de Ministério das Relações Exteriores, o FCO é um departamento do governo inglês responsável pela promoção dos interesses britânicos fora do território nacional.

FSB – Sigla nova da antiga KGB. É o serviço secreto russo.

GCHQ – Government Communications Headquarters. Outra agência de inteligência que coleta e arquiva informações para o governo e forças armadas britânicas. Colabora com outros órgãos de inteligência e segurança. Sua origem remonta à Primeira Guerra Mundial, quando decifrava códigos das comunicações dos inimigos.

Grid – Nome dado às instalações da equipe de Harry Pearce

Grosvenor Square – praça em Londres onde fica a embaixada americana. O nome é usado como um sinônimo da própria embaixada e, consequentemente, da filial da CIA na capital britânica.

Home Secretary – Cargo equivalente ao de Ministro do Interior. Trata de assuntos de ordem política, diplomática, econômica e de segurança interna do Reino Unido. O MI-5 está sob a pasta do secretário.

Intel –  Não, não é o fabricante de chips. É um termo que designa toda a informação coletada para apoiar as ações do serviço secreto. Tipo: escutas telefônicas, rastreamento de uso do cartão de crédito, imagens de câmeras de segurança e de satélites e por aí vai.

JIC – Joint Intelligence Committee. Enfim… é uma nação que valoriza a inteligência. Fazer o que? Mais uma entidade ligada à inteligência britânica. O JIC congrega todo esse pessoal do MI-5, MI-6, GCHQ e outros para decisões estratégicas de segurança nacional.

MI5 – De acordo com o site oficial do órgão, o MI-5 é o serviço de segurança responsável pela proteção do Reino Unido contra ameaças à sergurança nacional.

MI6 – Ou Secret Intelligent Service. Serviço de inteligência que atua para além das fronteiras da Inglaterra na defesa do país. É o órgão para o qual trabalha o mítico agente  James Bond, o 007.

MOD – Ministry of Defense. Ministério da defesa britânico.

PM – Prime Minister. Primeiro ministro britânico.

Rogue agent – Agent que opera fora do radar. Sem autorização do MI-5 ou outro órgão de inteligência.

Section D – Nome da divisão da equipe de Harry Pearce no MI5.

Thames House – Edifício em Londres onde funciona a sede do MI5.

Vauxhall  Cross – Sede do MI6 na outra margem do Tâmisa.

Vet – Todos os agentes e pessoas com quem eles se relacionam ou colaboram devem ser investigados e aprovados pelo MI-5.

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Links recomendados

Site Oficial na BBC  –  Tem guia dos episódios, elenco, vídeos etc. Entre em “see all series for spooks” para navegar por todas as temporadas.

Wikipedia – Verbete sobre a série é legal com dados de audiência e dá uma geral na história da série. Mas tem muitos spoilers!!!

Spooks Fan Blog – MI-5, not 9 to 5 – blog de uma fã australiana cheio de fotos e comentários sobre os episódios

MI-5: The Security Service – Site oficial do serviço secreto

Reconstrução da aura

Copie Conforme

Cópia Fiel

“Mesmo a reprodução mais perfeita não possui o “aqui e agora da obra de arte”, sua existência única que contém em si a história da obra. Isso é a autenticidade que classifica o objeto como aquele objeto. A autenticidade escapa da reprodutibilidade.”  – Walter Benjamin, em “A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica”.)

Nos filmes americanos vê-se muitas personagens expressando coisas como: “quero algo real na minha vida” ou “pela primeira vez estou vivendo algo real”. Como se real mesmo fosse aquilo que é único, inédito e com algum frescor de experiência nova. Em Cópia Fiel (Copie Conforme), o iraniano Abbas Kiarostami descasca a superfície turva dessa noção e provoca um monte de perguntas. Então, desculpe pelo monte de perguntas espalhadas pelo post. É que o filme provoca isso. A culpa é do filme, que propõe um exercício sobre dicotomias entre conceitos difíceis de precisar. Real e imaginário. Autêntico ou cópia. Natural ou artificial. Verdadeiro ou falso.

A versão “natural” das pessoas é mais autêntica? Tem mais valor? Como é aquela boca sob o batom vermelho? Ela é mesmo morena ou loura? Fez escova marroquina? E aquele peito de silicone? Quantos mililitros turbinam o traseiro intrépido da popozuda? Que pele se esconde por baixo das tatuagens tribais?

William Shimell (aclamado cantor de opera inglês) interpreta James Miller, autor de um livro sobre autenticidade e falsificação de obras de arte. Elle é sua leitora e comparece a uma palestra do autor em uma cidade na Toscana. Ela se oferece para guiá-lo por um passeio pela região e os dois acabam passando um dia inteiro discutindo exaustivamente questões sobre arte e relações amorosas, e embaralhando identidades.

Elle, personagem de Juliette Binoche, se debate para não morrer nas águas agitadas – onde fez questão de mergulhar – que dividem sua vida original e a vida desejada. O que é mais original? Sua autêntica vida atordoada pela  dificuldade de diálogo com o filho e o marido ou a tarde na bela cidade de  Lucignano, onde quebra o pau em francês e inglês com o escritor? E aliás, será que somos mais verdadeiros quando nos expressamos em nossa própria língua?

CopieConforme

William Shimell e Juliette Binoche. Arte e vida real

As experiências com o real podem colidir de forma inesperada. O escritor conta um episódio que presenciou numa rua de Florença e que o inspirou a escrever o livro sobre a questão das cópias e os originais. Para sua surpresa e desconforto,  esse episódio é mais do que uma impressão da realidade. Ali, diante dele, estava a mulher (Elle) que, naquela outra ocasão, discutia com o filho na rua.

Para Elle, a realidade muitas vezes é só sobre dor e sacrifício. O prazer e a alegria são sonhos. Sonhos não são reais. Por essa via, pais vivem o mundo real enquanto os filhos, com sua natural rebeldia, ainda não despertaram.

Vale arriscar e forçar uma conversa sobre coisas que sua vida frustrada não propiciou? Seria melhor flertar com o que gostaria que fosse o real do que com o que sei que é? E aí me pergunto: o que desejo viver?

Elle e o escritor passeiam aleatoriamente pela cidade, entrando e saindo de museus, igrejas, restaurantes e dos diferentes papéis que assumem, ora de estranhos no parque, ora de marido e mulher. A artificialidade esperada do comportamento dos personagens é quase nula.  São verdadeiros na realidade e na imaginação.

No passeio, os dois conhecem um casal de noivos posando para o álbum de casamento. Os rituais como o do casamento, com suas alianças, tradições e supertições simulam uma vida sonhada pelos noivos e pelas famílias, comunidade, amigos. A cópia ou o objeto simbólico que representa uma coisa pode ser a salvação de quem deseja essa coisa. Como os ex-votos depositados em santuários da Bahia como pagamento de promessa ou agradecimento por uma graça.

“Com sua propensão para criar símbolos, o homem transforma insconscientemente objetos ou formas em símbolos (conferindo-lhes assim enorme importância psicológia) e lhes dá exoressão, tanto na religião quanto nas artes visuais.” – Aniella Jaffé, em O Simbolismo nas artes plásticas, capítulo de O Homem e seus Símbolos (organização de Carl G. Jung).

Copie Conforme

Experiência e Identidade

E tem Marie, irmã de Elle. Esta pede ao escritor que autografe um exemplar do livro com dedicatória para Marie. Elle trabalha numa galeria de arte, mas despreza as cópias que comercializa de grandes obras de arte. Esse desprezo alimenta mais ainda as discussões com o escritor. Devemos desprezar os pássaros que pousam e cantam sobre as esculturas do jardim do Museu Rodin só porque elas são cópias? Porque será que incomoda e até frustra tanto saber que aquele objeto é uma cópia?

Na obra citada no início do post, Walter Benjamin examina o fenômeno da “destruição da aura”. Uma percepção de perda de valor que as obras de arte sofreram com o advento das técnicas industriais de reprodução ou representação do real, como a fotografia, o cinema e as modernas formas de impressão.

Nesse cenário, Marie é que é mulher de verdade. Com seu genuíno marido gago que tem um jeitinho todo seu de pronunciar o nome da esposa. Marie não tem a menor vaidade. Ou pelo menos não a de exigir somente coisas originais, autênticas. Ela se contenta com a cópia. Não conheceu o escritor pessoalmente, mas vai ficar feliz com o livro autografado. Marie é ignorante? Tá feliz na caverna de Platão assistindo Domingão do Faustão e sonhando com o carro chinês que tem 7 lugares mas é mais barato que um utilitário coreano ou um sedan francês?

Daí, vislumbro que cobiçar o que é exclusivo, único, original  pode ser um traço de elitismo. Uma pequena (ou grande) ilusão de grandeza. O sentido de posse exclusiva permeia os delírios de consumo. Vamos patentear a beleza! Registrar o domínio universal http://www.originalidade.com.

Soube que, recentemente, uma charmosa e tradicional grife italiana fechou suas fábricas na Ásia e voltou ao modelo de produção artesanal em sua cidade de origem. É isso. Afinal, ostentar um “made in Italy” confere muito mais valor.

Nesse filme-jogo, Abbas Kiarostami coloca uns espelhos aqui e ali. Estamos na cena principal, mas podemos espiar o que acontece do lado de fora. O ator diz sua fala, mas também reflete o que seu interlocutor está “dizendo” quando não  o vemos. Os sons são captados com detalhes que invadem os diálogos. E os silêncios, como em outros filmes do diretor, falam alto.

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Para ler Walter Benjamin: A obra de arte na era da usa repodutibilidade técnica

Mais sobe os ex-votos

Para ler Jung: O Homem e Seus Símbolos

De Abbas Kiarostami, recomendo “Através das Oliveiras” e “Gosto de Cereja.

TV, livros, chá e broa de milho

Vou começar uma série de posts sobre as séries e filmes de TV feitos a partir de livros. Tenho uma inveja mortal dos ingleses por causa da BBC. Pena que a gente não tenha nada comparável. Ok, ok. A TV brasileira tem seus méritos indiscutíveis de qualidade e quantidade de produções. Posso enumerar muitos exemplos. Mas não leve a mal quando digo que, quando se trata de adaptações literárias, não chegamos perto da riqueza das séries e filmes produzidos pelos ingleses. E eles ainda contam com a ITV, concorrente da BBC, que possui ótimas adaptações de livros. O Tempo e o Vento, Grande Sertão: Veredas, A Muralha, O Auto da Compadecida e Os Maias são alguns exemplos preciosos da TV Globo. Mas acho que devíamos nos permitir desejar uma produção muito maior nesse gênero.

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Clássicos em Séries: A Muralha, O Tempo e o Vento, Grande Sertão e Os Maias

Acompanhei novelas desde a infância. As lembranças mais caras são das adaptações literárias como A MoreninhaA SenhoraEscrava IsauraHelenaA Sucessora.  Podíamos ter um projeto de transformar toda a obra de Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar, Bernardo Guimarães, Machado de Assis e por aí vai, em mini-séries ou longas-metragens de TV. Sem querer soar chatamente nacionalista, temos tantas ou mais obras literárias para explorar em audiovisual quanto os ingleses. Enfim.. it’s a long way… Mas agora que somos BRICS, desejados, imitados e líderes dos emergentes, quem sabe? Não é doido termos tão poucas adaptações do Machado e do Jorge Amado?

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Folhetins clássicos das seis da tarde: acima à esquerda, cena de A Morenina; à direita, Rubens de Falco e Lucélia Santos em A Escrava Isaura; e embaixo à esquerda, Carlos Marzo e Norma Bloom em A Senhora

Esses dias, notei um comercial de TV sobre os sistemas ferroviários do país, com um lema tipo: “o Brasil vai bem de trem.” É… mas nossa malha ferroviária é tão modestinha. Falta muuuito para se afirmar que temos algo substancial. O Brasil tem a cabeça no século 21, mas o pescoço, o tronco e as pernas estão esticados ao limite, pois os pés acabaram de pisar no século 19. Foi nessa época que países como Inglaterra e EUA começaram a acelerar sua industrialização e a construção de ferrovias por todo seu território. E é a época em que ambos  países, que estavam entre os mais ricos do mundo,  mesmo assim tinham níveis de pobreza altíssimos. Mais ou menos como o Brasil é hoje. No século 19, o gênero literário chamado romance se estabeleceu e se popularizou. Foi a era que viu surgirem Charles Dickens, Victor Hugo, Leon Tolstoi, Eça de Queiroz e Machado de Assis.

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Adaptações inglesas: South Riding, Zen, Lark Rise to Candleford e North and South.

Então… vamos à lista de alguns posts da série TV e Livros.
Não estão na ordem de publicação, porque não faço a mínima idéia de como ou quando vou escrevê-los. 🙂 E a lista deverá aumentar com o tempo. Por enquanto são só as produções inglesas, pois andei assistindo várias. Mas vou pensar nas séries nacionais para listar em breve.

South Riding – 2011, BBC. Mini-série com 3 episódios baseada em livro de Winifred Holtby.

Lark Rise to Candleford – 2088-2011, BBC. Série que teve 4 temporadas e uns 40 episódios, baseada na obra de Flora Thompson.

Downtown Abbey – 2010, ITV. Série já teve 7 episódios e continua este ano em nova temporada no segundo semestre. Autor:  Julian Fellowes.

The Turn of The Screw – 2099, BBC. Longa-metragem baseado no livro A Volta do Parafuso, de Henry James.

Zen – 2010-2011, BBC. Até agora, a BBC produziu 3 episódios dessa ótima série baseada nos livros de Michael Dibdin.

Sherlock – 2010, BBC. Uma visão mudernosa e curiosíssima do personagem de Arthur Conan Doyle. Até agora foram 3 episódios.

Cranford – 2007, BBC. Mini-série em 5 episódios + 2 (especiais de Natal), baseados em 3 livros de Elizabeth Gaskell.

North and South – 2004, BBC. Essa é das mais cultuadas. Quase alcança a fama de Orgulho e Preconceito de 1995. Também é inspirada por um romance de Elizabeth Gaskell.

Wives and Daughters – 1999, BBC. Mais uma série sobre obra de Elizabeth Gaskell. Tem 4 episódios.

The Ruby in The Smoke (2006) e The Shadow in The North (2007), BBC – Dois longas-metragens baseados em livros de Philip Pullman.

Sobre rifles, esporas e tapa-olhos

Bravura Indômita

Bravura Indômita

Acho que aprendi a amar filmes por causa do meu pai. Por causa dele,  não gostava só de Disney e Trapalhões, mas curti Clint Eastwood, John Wayne e Steve McQueen. Lembro dos filmes que formei na cabeça quando papai contava partes – as que era possível contar – de “Um estranho no ninho” e “Excalibur”. Mas as lembranças mais caras são de assistir coisas épicas, de guerra e westerns, como “El Cid”, “A Ponte do Rio Kwai” e “Os Abutres têm fome”.

Devo ter assistido ao “Bravura Indômita” com John Wayne, embora não lembre direito. O filme que os irmãos Cohen levaram às telas tem algo de familiar. Assistí-lo foi meio como voltar  à sala de um apartamento da rua Barata Ribeiro e ficar com os olhos vidrados na TV ao lado de meu pai, que já tinha vista N vezes aquele clássico da sessão “bangue-bangue”.

É engraçado pensar nos westerns se estivermos fora do contexto. Numa visão bem distante. O que acontece com sujeitos de origem desconhecida que chegam a uma cidade pequena, no meio do nada. Será bandido ou mocinho? Vilão ou herói? Será que nos identificamos e vivemos a experiência simbólica do desconhecido, de gostar do estranho que tememos na vida real?

A jovem Mattie procura um paladino da justiça. Alguém que vai ajudá-la a conseguir sua vingança. Ela não é um marmanjo solitário e sujo, que chega montado num cavalo, vindo do nada. Carregado de rifle, revólver, esporas, chapéu empoeirado e dando cusparadas velozes. Ela é uma garota de 14 anos que quer castigar o homem que matou seu pai. Mas a figura que ela busca não é necessariamente um herói. Ela deseja algo implacável. A vingança acima dos meios para atingí-la. Uma garota encara os riscos e negocia os recursos de que precisa com homens durões, num fim de mundo.

True Grit foi meio que esnobado pelos principais prêmios de cinema. Mas, pelo que vi, foi a melhor realização do cinema americano dos últimos meses. Hailee Steinfeld podia ser mais uma pentelha atriz mirim, mas a personagem é uma chata tão facinante que nem se encaixa no estereótipo. E a direção dos Cohen confere um estranhamento bom para a história. A cena do “urso” chegando a cavalo é surreal!!!! As locações são maravilhosas e o elenco, o melhor possível. Jeff Bridges, que vive o xerife Rooster Cogburn (mesmo papel de John Wayne no filme dos anos 60, com o mesmo tapa-olho e tudo) está perfeito. Dá até saudade de ouvir a voz cheia de whisky. E Matt Damon, de quem não gosto muito, se sai muito bem como o Texas ranger Labeouf.

True Grit

Cogburn e Mattie

 

Essa relação pouco provável da menina com os brutos proporciona diálogos que enriquecem a enciclopédia das citações cinematográficas. Vou reproduzir abaixo duas amostras.

Depois de trucidarem bandidos num tiroteio Mattie e o xerife discutem sobre o sepultamento dos homens.

Rooster Cogburn: – We’ll sleep here and follow in the morning.

Mattie Ross: – But we promised to bury the poor soul inside!

Rooster Cogburn: – Ground’s too hard. Them men wanted a decent burial, they should have got themselves killed in summer.

True Grit

Jeff Bridges e Matt Damon: xerifes de True Grit


Em outra cena, Mattie acorda sendo observada por Labeouf com quem vive discutindo.

LaBoeuf: – You give out very little sugar with your pronouncements. While I sat there watchin’ I gave some thought to stealin’ a kiss… though you are very young, and sick… and unattractive to boot. But now I have a mind to give you five or six good licks with my belt.

Mattie Ross: One would be just as unpleasant as the other.

Jeff Bridges, em True Grit

Jeff Bridges, em True Grit

True Grit

Hailee Steinfeld em True Grit

Bom de ver numa tela bem grande, com som dolby. Isso é que chamo de cinema. Isso é que é gostar de filmes.

Mas, não deixe de ver mesmo que seja em DVD ou arquivo AVI.