Promessa é dívida

Às vezes demoro a perceber o quanto  minha saúde e bom humor ficam abalados quando fico muito tempo sem beber e jogar conversa fora com amigos, sem ouvir música e sem blogar. Depois de um esporro básico de um dos meus 18 leitores (obrigada, Evandro), decidi tirar o atraso (!) e blogar loucamente ao som de John Mayer, Norah Jones e Fleetwood Mac, parando alguns momentos para bebericar uma bohemia e teclar com amigos no gtalk.

É isso aí. Surtei e vou saltar para o hyperespaço!

A Paixão segundo Teresa

Desejo e fé

Devoção e fé de corpo e alma

Tenho a maior curiosidade sobre a vida dos santos. Não sou católica e achava até estranho que dentro do cristianismo houvesse espaço para tantas “divindades”. Sempre me pareceu que os santos eram  janelas de descompressão para o paganismo dentro de todos nós. No final das contas, os deuses e orixás continuam conosco. Mas não estou aqui para tratar teologia com leviandade. Então, esquece e vamos seguir por outra estrada.

Quando estive em Assis e havia acabado de entrar na igreja de São Francisco, fiquei instantaneamente emocionada. É impossível explicar.  Mas tem alguma coisa poderosa nas vidas daqueles que mergulharam na mais pura redenção. Que abriram mão dos desejos.

Teresa de Ávila renunciou a uma vida de luxo e proteção para experimentar plenamente a paixão pela fé. Me parece muito delicado abordar a vida de alguns santos… A viagem mística de Teresa sempre inspirou imagens de apelo erótico. Como não erotizar a escultura de Bernini com o anjo que atravessa a santa com a seta de “divino amor”?

Bernini - O Êxtase de Santa Teresa

Bernini - O Êxtase de Santa Teresa

Mas, vamos com calma.

Teresa de Cepeda e Ahumada nasceu de uma família rica da Espanha. Viveu no século 16, a época austera e intolerante da Santa Inquisição.  Ainda muito jovem, decidiu seguir a vida religiosa, mas teve que contrariar  a família para conseguir o que queria. Chegou a fugir de casa e se esconder num convento. Mais tarde, já noviça, contraiu uma doença e quase morreu. Foi depois da recuperação que começou a ter as visões de Cristo, que aprofundaram sua vocação mística e inspiraram sua produção literária. Em 1562 fundou o convento das Carmelitas descalças,  que pretendia recuperar o carater de austeridade da ordem do Carmelo. E, a partir daí, ajudou a difundir a nova congregação por diversas cidades da Espanha. Morreu em 1582, aos 67 anos e foi canonizada em 1622. Em 1970, a Igreja concedeu à Santa o título de Doutora, por sua vasta obra teológica. Foi a primeira mulher a receber a homenagem e a figurar ao lado de São Tomás de Aquino, Santo Agostinho e outros mestres santos das letras.

O Filme

Pois é… tem esse filme Teresa – O Corpo de Cristo. Descobri por acaso no Cinemax, enquanto estava zapeando bobamente. É uma produção da Espanha, com uma concepção visual riquíssima e as inevitáveis cores eróticas (mas não é apelativo, é bem light). Trechos de obras de Teresa, vivida pela bonitona Paz Vega, sonorizam as belas imagens. O figurino é da ótima Eiko Ishioka, a mesma de Bram Stoker’s Dracula, do Francis Ford Copolla.

paixão arrebatadora

paixão arrebatadora

O filme é um bonito retrato da santa, sem grandes ambições. Se apóia nas palavras, na história, na profunda entrega de Teresa. Ela experimentou uma fé sem limites. Uma devoção quase insuportável para si mesma. Queria ardentemente e incessantemente alcançar um estado total de comunhão com Cristo. Incomodou os líderes religiosos de sua época só porque defendia um espaço para a prática dessa fé total.

a paixão de teresa

a paixão de teresa

Gosto dessa oração bem popular que começa por:

“Nada te perturbe. Nada te espante. Tudo passa.”

É um santo mantra de Teresa.

Feliz Páscoa!

Teresa - O Corpo de Cristo

Teresa - O Corpo de Cristo

Leitura Paralela

Uma biografia

Escritos de Santa Teresa

Dia do ano: 15 de outubro

Wyrd biõ ful ãræd

Uhtred se manda pro norte

Armadilha à vista

O destino é inexorável. O terceiro volume das Crônicas Saxônicas tem uma armadilha do autor. Não havia a menor chance de eu dormir numa certa noite de terça-feira. Eu TINHA que ler e ler e ler até saber o que ia acontecer ao Uthred. Tem horas em que a melhor opção na vida é estar na Inglaterra do século 10, mesmo não estando lá. Eu não podia abandonar meu amigo Uthred naquele momento. É melhor não contar, mas… digamos que as fiandeiras do destino arrastam ele para a maior cilada de sua vida. Momentos angustiantes, dignos de um Ben-hur ou Jean Valjean.

Agora estou no volume 4 – A canção da Espada. Muito feliz fiquei hoje em saber que o 5º livro, Terra em Chamas, sai em maio no Brasil.

Outra coisa fundamental nos livros do Cornwell é o humor. Ainda não tinha lembrado de comentar isso. Tem várias situações, mas vou citar apenas uma passagem. Não pretendo estragar o prazer da leitura de alguém. É que é irresistível… Quando Uthred finalmente reencontra um de seus maiores inimigos tem um diálogo bem infame. Sempre rolam umas trocas de insultos entre guerreiros inimigos. Daí, o Uthred e o cara discutem alguma coisa sobre quem vai ficar com um cavalo e o cara responde: “quando eu te matar, vou esticar sua pele sobre a minha sela para ficar peidando em você o dia todo”. Tava eu lendo isso no metrô e tive que fazer um esforço dos diabos para não gargalhar sozinha.

A cybercoelhitude de Kac

Quando se trata de  arte, a gente muitas vezes ouve um papo sobre chocar, escandalizar, polemizar, incomodar. Artistas têm tipo uma obrigação de chegar com algo novo, nunca imaginado, jamais visto.

O Novo. Que pourra é essa de O Novo?

coelhoglifos

coelhoglifos

Quando eu e minha irmã entramos na sala do Oi Futuro, onde tem o painel grandão branco, verde e preto, tive a sensação do Novo e de um leve dejà-vu, ao mesmo tempo. Acho que é porque o novo sempre tem algo de “velho conhecido” da gente. Nem que seja lá no fundo do baú do inconsciente coletivo, onde a minha tataravó lá na Paraíba viu um corte de pano estampado, branco, verde e preto e se maravilhou por completo.

O Novo é manipular o DNA?

Mixar material genético de uma flor com um artista e gerar uma flor-poema?

É programar o algoritmo que combina aleatoriamente o movimento dos coelhoglifos verdes e pretos se aglutinando e se expelindo na projeção sobre a parede branca?

coelhatoriamente

coelhatoriamente

Mas da onde vem a emoção dO Novo? Seria O Novo o veículo mágico e quântico que transporta através do tempo-espaço os  sentimentos ancestrais?

Eduardo Kac dispara veloz como um cybercoelho contra as fronteiras da imaginação, e, às vezes, do bizarro, ao juntar as pontas da arte com a ciência & tecnologia. Tipo: a florEdunia (um híbrido de petúnia que traz o material genético do artista) ou o kit transgênico (instrumentos e materiais de laboratório com a devida aura de mistério de uma sala escura…). Kac ficou muito conhecido com a obra-coelha Alba, que, como produto de manipulação genética, emite luz verde. Coelhos se multiplicam louca e indiscriminadamente. Assim como as idéias do artista. O que me inquietou foi pensar nessa combinação misteriosa do aspecto aleatório com o manipulador da criação artística. Sob esse ponto de vista, a ciência e a arte caminham pela mesma estrada que atravessa a imaginação e a familiaridade .

lagoglifos, logo existo

lagoglifos, logo existo

Lá pelas tantas quando olhávamos os lagoglifos, um senhor se aproximou perguntando como tínhamos interpretado aquelas imagens. E emendou logo afirmando que não entendia aquilo tudo, mas achava que o barato era pensar sobre o que estava diante dele. Que apreciar arte é se fazer pensar…

Caraca! Foi uma das melhores coisas que já ouvi numa galeria de arte… Se não há propósito em definir o que é a arte ou porque a apreciamos, pelo menos esse atributo é definitivo: fazer pensar. Afinal, como disse bem a Lia Luft, pensar é transgredir.

Mais imagens da exposição Eduardo Kac: Lagoglifos, Biotopos e Obras Transgênicas.