A vida sonhada de Chagall

Chagall: Les Maries Aux Trois Musici

Chagall: Les Maries Aux Trois Musici

Do jardim, eleva-se um perfume.

Jovens amantes flutuam sob um céu estrelado.

Cavalos verdes e azuis.

Bois e bezerros vermelhos.

Músicos , violinos.

Cores deslizam pela paisagem.

Tudo gravita dentro e fora das molduras.

Estava suspensa na poesia delirante de Marc Chagall, o andarilho dos sonhos.

No final de 2009, o Museu Nacional de Belas Artes no Rio recebeu  a mostra O Mundo Mágico de Marc Chagall — O Sonho e a Vida, reunindo pinturas e gravuras oriundas de coleções brasileiras e internacionais.

Marc Chagall construiu uma arte a serviço dos sonhos. Sonhos que o levaram para longe da paisagem cinzenta de onde nasceu, Viterbsky, na Bielo-Rússia. O frio e o medo dos pogroms  estavam lá sempre assombrando a infância do artista. Mas, apesar disso, ele abraçou a vida com as mais lúcidas cores. Viveu boa parte da vida entre as flores e perfumes do sul da França.

Nasceu Moishe Zakharovich Shagalov em uma família de judeus adeptos do movimento hassídico. Percebe-se nitidamente na obra do artista a força dessa vertente mística do judaísmo – onde “a relação com Deus se dá por meio de intensa alegria, à procura do êxtase.” (1).

Les Maries dans Le Ciel de Paris, Farmácia em Vitebsk, Village au Chevall Vert

Ser transportado para um mundo imaginário pode significar escapismo, uma forma de neurose. Mas, de fato, a vida nos demanda isso, mesmo. Fugir de vez em quando da realidade cinzenta. Afinal de contas, não exercitar a imaginação é o mesmo que não comer, não beber, emburrecer, definhar e morrer. A vida pede a transformação mágica através da radiação vibrante das cores ou da brisa fresca das palavras.

Depois de caminhar perdida nos sonhos de pinturas como “A carroça sobre a cidade” ou “Os noivos e os três músicos”, ainda tinha as salas dedicadas às gravuras. Cada módulo agrupava ilustrações para o romance As Almas Mortas de Gogol, As Fábulas de La Fontaine, A Bíblia e Dafne e Cloé do poeta grego Longus. Para variar, fui no último dia de exposição. Queria poder voltar várias vezes.

Almas Mortas (Gogol), O Lobo e a Cegonha (La Fontaine), Jacó e o Anjo (Bíblia) e Dafne e Cloé

Almas Mortas, O Lobo e a Cegonha, Jacó e o Anjo e Dafne e Cloé

E ainda havia um espaço que promovia a influência de Chagall sobre os artistas brasileiros. Sua obra encontra correspondência em Lasar Segall (que, aliás, é seu homônimo, já que Segall e Chagall são grafias diferentes do mesmo nome judaico-russo, com o significado aproximado de ‘anda’ ou ‘caminha’), Cícero Dias, Tomás Santa Rosa, mas principalmente em Ismael Nery.

Cícero Dias, Lasar Segall e Ismael Nery

Cícero Dias, Lasar Segall e Ismael Nery

(1) Cito o texto do curador da exposição, Fabio Magalhães.

A cybercoelhitude de Kac

Quando se trata de  arte, a gente muitas vezes ouve um papo sobre chocar, escandalizar, polemizar, incomodar. Artistas têm tipo uma obrigação de chegar com algo novo, nunca imaginado, jamais visto.

O Novo. Que pourra é essa de O Novo?

coelhoglifos

coelhoglifos

Quando eu e minha irmã entramos na sala do Oi Futuro, onde tem o painel grandão branco, verde e preto, tive a sensação do Novo e de um leve dejà-vu, ao mesmo tempo. Acho que é porque o novo sempre tem algo de “velho conhecido” da gente. Nem que seja lá no fundo do baú do inconsciente coletivo, onde a minha tataravó lá na Paraíba viu um corte de pano estampado, branco, verde e preto e se maravilhou por completo.

O Novo é manipular o DNA?

Mixar material genético de uma flor com um artista e gerar uma flor-poema?

É programar o algoritmo que combina aleatoriamente o movimento dos coelhoglifos verdes e pretos se aglutinando e se expelindo na projeção sobre a parede branca?

coelhatoriamente

coelhatoriamente

Mas da onde vem a emoção dO Novo? Seria O Novo o veículo mágico e quântico que transporta através do tempo-espaço os  sentimentos ancestrais?

Eduardo Kac dispara veloz como um cybercoelho contra as fronteiras da imaginação, e, às vezes, do bizarro, ao juntar as pontas da arte com a ciência & tecnologia. Tipo: a florEdunia (um híbrido de petúnia que traz o material genético do artista) ou o kit transgênico (instrumentos e materiais de laboratório com a devida aura de mistério de uma sala escura…). Kac ficou muito conhecido com a obra-coelha Alba, que, como produto de manipulação genética, emite luz verde. Coelhos se multiplicam louca e indiscriminadamente. Assim como as idéias do artista. O que me inquietou foi pensar nessa combinação misteriosa do aspecto aleatório com o manipulador da criação artística. Sob esse ponto de vista, a ciência e a arte caminham pela mesma estrada que atravessa a imaginação e a familiaridade .

lagoglifos, logo existo

lagoglifos, logo existo

Lá pelas tantas quando olhávamos os lagoglifos, um senhor se aproximou perguntando como tínhamos interpretado aquelas imagens. E emendou logo afirmando que não entendia aquilo tudo, mas achava que o barato era pensar sobre o que estava diante dele. Que apreciar arte é se fazer pensar…

Caraca! Foi uma das melhores coisas que já ouvi numa galeria de arte… Se não há propósito em definir o que é a arte ou porque a apreciamos, pelo menos esse atributo é definitivo: fazer pensar. Afinal, como disse bem a Lia Luft, pensar é transgredir.

Mais imagens da exposição Eduardo Kac: Lagoglifos, Biotopos e Obras Transgênicas.

Burle Marx: ourives da paisagem

Suas plantas são obras de arte, tão belas e intrigantes quanto os jardins e parques em que resultaram. As formas que marcam na planta onde vão entrar árvores ou arbustos, os contornos dos gramados e bosques, as estampas coloridas que representam canteiros de flores ou mosaicos de pedra portuguesa parecem jóias.

jóias de paisagismo

jóias de paisagismo

A mostra “Roberto Burle Marx – 100 Anos – a Permanência do Instável”, que esteve em cartaz no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, comemorou o centenário de nascimento do artista. E o que mais me impressionou na exposição foi justamente essa beleza total, desde o desenho das plantas até o resultado visto nos jardins, parques e monumentos. A técnica/estética do blueprint influenciou e foi influenciada tanto pelas grandes paisagens como pelas pequenas sutilezas das flores retratadas nas telas e desenhos.

painéis de pintura sobre tecido na bela sala dos archeiros

painéis de pintura sobre tecido na bela sala dos archeiros

Projetos realizados em diversos países, numa produção riquíssima. Até cansava tentar acompanhar a cronologia que ocupava os vários salões da mostra junto com as pinturas, desenhos, tapeçarias, plantas, jóias, cenários, figurinos, fotos e projeções de vídeos.

pintura-paisagem

pintura-paisagem

Na entrada da exposição, uma foto de Marx com o rosto coberto por riscos que as luzes e sombras formavam no interior da estufa onde estava, também me fizeram imaginar que esse ambiente inspirou suas obras mais abstratas.

impressões de luz e sombra

impressões de luz e sombra

tapeçaria-paisagem

tapeçaria-paisagem

Fiquei espantada com toda aquela riqueza artística. Arquiteto, paisagista, artista plástico e o que mais ele quisesse fazer. Não tem ninguém como Burle Marx. Nunca mais serei capaz de caminhar pela Avenida Atlântica ou passear pelo Aterro do Flamengo sem pensar, com alento, que uma intervenção na paisagem do Rio de Janeiro ou de qualquer cidade pode ser um presente tão generoso. Preciso conhecer o sítio que ele deixou para nós em Guaratiba.

avenida atlântica

avenida atlântica

aterro do flamengo

aterro do flamengo