Bons eram os velhos Titãs

Fúria de Titãs 2010

Fúria de Titãs 2010

Evito escrever sobre o que não gosto. Mas esse me deixou muito decepcionada. Tinha tudo para ser um filmaço, mas o novo Fúria de Titãs é chato pra burro. Desconfiei um pouco quando assisti ao trailer no cinema, mas caramba… que desperdício de talentos, dinheiro, energia, água, luz solar, oxigênio e paciência. Impressionante como conseguiram fazer um filme chato sobre uma aventura tão legal. O que é aquele Perseu? O Sam Worthington é um gato e tem uma voz sensacional, mas o carisma ali passou correndo e se benzendo.

E outra: escolheram fazer um herói sem mentor. Ou melhor (ou seria pior?), o mentor é a mocinha, que é a semi-deusa Io. Tudo bem que se subverta o modelo clássico da jornada do herói. Mas então que se apresente algo bom no lugar. A narrativa é muito mal elaborada. Sei lá, talvez exista alguma versão da lenda em que o Perseu fica com a Io. E deve ter exemplos do mentor ser a mocinha (Sheherazade, talvez?) . Aquele personagem do ator Mads Mikkelsen até se aproxima da figura de um mentor. Mas tudo é mal amarrado. Como um aperto de mão molenga e pegajoso. Enfim, esquece. O fato é que tinham um argumento bom e fizeram tudo ficar banal e enfadonho.

E o Pégaso? Lamentável. Numa época com as condições perfeitas para se criar um cavalo alado impressionante, belo como num sonho. A gente fica numa expectativa, mas tudo é sem graça e frustrante. Tão pobrinho o Pégaso, tadinho.

Não tem os presentes dos deuses, que, aliás, têm uma presença medíocre. Mais uma vez, se eles queriam inovar com um apelo de ódio e vingança dos humanos contra os deuses, muito legal, mas que fizessem algo realmente interessante. Por isso, é imperdoável a piada grosseira da cena em que Perseu acha a coruja mecânica do filme antigo. A mesma coruja que o antigo Perseu recebe de Atena. Só que o novo Perseu joga ela de volta no meio de uma tralha qualquer. Esse filme NÃO TEM DIREITO de desprezar um clássico, sendo a produção de merda que é.

Fúria de Titãs 2010

Perseu, o herói sem carisma de Fúria de Titãs 2010

E o pior de tudo é a desnecessária opção em 3D. Foi a primeira vez em que senti um pouco de dor de cabeça, provavelmente porque não estava me divertindo tanto quanto esperava. Tirava toda hora os óculos para ver se fazia diferença. E a verdade é que não fazia nenhuma. Só as legendas ficavam fora de registro. Não sei se havia algum problema na projeção. Diga-se de passagem, ninguém me convence de que aqueles óculos de 3D do Roxy, em Copacabana, sejam higienizados e esterilizados bla bla bla, como o cinema garante. Desculpe, mas têm sempre um aspecto sujo.

OK, vamos procurar com lupa o que se salva no filme. Basicamente, algum material visual é bem aproveitado.

Ralph Finnes é Hades. Acho ele foda e é muito bacana o efeito tipo fumaça preta de Lost que cerca o deus quando ele aparece. As Gréias parecem saídas dos filmes do Guillermo Del Toro. E o melhor é a Medusa . Ela é até uma criatura digital bonita. A risada é ótima. Aquele ser que lembra um djinn é bem curioso. Parece feito de fibras de lã, palha e vermes. Gosto de ouvir e de olhar para os lindões Liam Neeson, que faz o Zeus, e  Mads Mikkelsen (Draco).

Fúria de Titãs 2010

Ralph Finnes é Hades. O Valdemort dos subterrâneos.

O curioso djinn

Fúria de Titãs 2010

bonitão

Fúria de Titãs 2010

bonitão glitter

Fúria de Titãs 2010

Medusa rocks

Fúria de Titãs 2010

Gréia a la Guillermos del Toro

De resto, melhor esquecer e resgatar o bom e velho Fúria de Titãs de 1981. Isso mesmo. Aquele com efeitos especiais lo-tech. Da época de pérolas da sessão da tarde, como “Simbad contra o olho do Trigre”. Os monstros são bonecos bem toscões animados com técnica stop-and-motion. Não tinha computação gráfica ou câmeras digitais. Mas a história era melhor e mais divertida. E no modo caretão mesmo de contar uma lenda grega. Com o herói, os mentores, deuses glamurosos, monstros assustadores e a princesa como prêmio.

Zeus é por conta de Lawrence Olivier. Afrodite é a Úrsula Andrews. Hera é a Maggie Smith. Bons são os velhos titãs.

Fúria de Titãs 1982

Bubo, a coruja desastrada. Presente de Atena para Perseu em Fúria de Titãs 1982

Fúria de Titãs 1981

Fúria de Titãs 1981. Do tempo em que os cartazes de filmes podiam ser ilustrações

Fúria de Titãs 1981

Fúria de Titãs 1981

Fúria de Titãs 1981

Release the Kraken!!!! 1981

Fúria de Titãs 1981

Medusa, versão 1981

Fúria de Titãs 1981

Perseu de 1981

Fúria de Titãs 1981

Zeus (Lawrence Olivier) brincando com os destinos

Imagens do velho Fúria com áudio do novo

Bom! Comparação do velho e o novo

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A Duquesa

Keira Knightly é a bela e triste Georgiana Spencer

Keira Knightly é a bela e triste Georgiana Spencer

Keira Knightly vive uma personagem real da história da Inglaterra.  Lady Georgiana Spencer, que veio a tornar-se a Duquesa de Devonshire, foi uma antepassada da Princesa Diana. E, como num presságio, também ditou a moda em sua época, assim como viveu um casamento muito infeliz.

O Duque, seu esposo, é interpretado perfeitamente por Ralph Fiennes. O típico aristocrata prisioneiro das convenções de sua classe, que tem paixão genuína pela caça e por seus cães e busca uma esposa com o melhor pedigree para gerar seu herdeiro.

Naquele pequeno mundo aristocrático da Inglaterra do século 18, uma história de casamento por e/ou com amor seria quase uma piada obscena. Assim como sua contemporânea Maria Antonieta, que na adolescência deixou a Áustria para se casar com o rei da França, a jovem Georgiana praticamente não hesitou diante da honra de ser pedida em casamento pelo Duque de Devonshire. E adentrou a vida de casada, com todas as ciladas sobre as quais sua mãe (a chiquérrima Charlotte Rampling) nunca a previniu.

Para sobreviver às decepções com um marido distante e mulherengo, que só quer saber de arrancar -lhe um herdeiro, e à solidão, Georgiana “faz uma limonada” e tira partido da admiração que conquista dos outros membros da nobreza, circulando pelos salões com suas roupas, perucas e arranjos de cabelo estravagantes. Ela é a própria “última palavra” em moda da sociedade local. Aproveita a fama também para apoiar as causas políticas que lhe agradam, e nessa vereda, conquista um amante. O futuro Primeiro Ministro da Grã-Bretanha, Charles Grey, que aparece no início do filme entre os amigos da Georgiana adolescente, torna-se o grande amor de sua vida.

Heroína é um misto de Maria Antonieta e Lady Di

Heroína é um misto de Maria Antonieta e Lady Di

Mas o amor e as frivolidades não a livram das obrigações com o Duque, que ainda por cima tem um caso escandaloso com a melhor amiga de Georgiana. Ela não tem muita escolha, a não ser se submeter. E entre locações, cenários e figurinos fabulosos, a triste sina dA Duquesa é contada. Keira Knightly está ótima. Mais madura e segura para interpretar sua conterrânea, cuja história assombra pelo aspecto premonitório. Uma revolução está para acontecer e mudará o mundo. Mas não impedirá que outra bela e amada princesa do povo tenha uma mesma sina triste e até mais trágica que a de Gerogiana.

IN f@cking BRUGES

 

Assassinos cínicos e sombrios em Bruges

Humor negro em Bruges

Esse filme eu nem esperava que fosse tão bom. Em “In Bruges” (que também tem o horrível título brasileiro de Na Mira do Chefe), dois assassinos profissionais de Londres (Colin Farrell e Brendan Gleeson) são despachados por seu chefão (Ralph Fiennes) para Bruges, depois que o personagem de Farrel comete um “vacilo em serviço”.

Os dois se hospedam num simpático hotel e ficam aguardando instruções do chefe.  Gleeson curte o tempo todo, passeia pelas praças e monumentos feliz da vida. Enquanto que Farrell acha tudo um porre e não vê a hora de voltar, até que conhece uma bela moradora da cidade. Eles ficam nessa vida em que não acontece nada, até que Gleeson recebe uma missão inesperada do chefe. 

O filme é muito divertido e tem um roteiro muito original. Mas junto das muitas situações cômicas, vem um clima extremamente sombrio. Afinal, os protagonistas são assassinos. A própria ambientação em Bruges reforça esse aspecto. Embora seja uma das mais belas e bem preservadas cidades medievais da Europa, Bruges, ao mesmo tempo que parece um cenário de conto de fadas,  mostra seus traços góticos e esconde aqui e ali memórias sinistras. É a cidade natal de Hieronymus Bosch, autor daquelas pinturas bem assustadoras do Inferno, o Jardim das Delícias e a mais arrepiante de todas: O Triunfo da Morte.  Numa das sequências mais empolgantes, há um grupo de atores na praça vestidos como as criaturas dos quadros de Bosch. O tempo todo a trama envolve as situações hilárias ou até absurdas num clima sombrio. A doce hoteleira grávida que abriga matadores sanguinários, o diálogo entre Farrell e a moça, que entre cantadas e chistes tem que ouvir de um assassino alusões à fama de pedófilos dos belgas.

 

Brendan Gleeson e Colin Farrell são os assassinos escondidos em Bruges

Brendan Gleeson e Colin Farrell são os assassinos escondidos em Bruges

A palavra ‘fuck’ é empregada tão insistentemente no filme, a ponto dos extras do DVD trazerem uma pequena edição só com os palavrões emitidos pelos personagens. Os extras trazem várias outras coisas boas, como o passeio por Bruges (destaque para os cisnes cruzando o rio que corta a cidade), erros de filmagem, cenas excluídas e entrevistas com os atores.