Asas para andar de rastros

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Quem fez ao sapo o leito carmesim

De rosas desfolhadas à noitinha?

E quem vestiu de monja a andorinha,

E perfumou as sombras do jardim?

 

Quem cinzelou estrelas no jasmim?

Que deu esse cabelos de rainha

Ao girassol? Quem fez o mar? E a minha

Alma a sangrar? Quem me criou a mim?

 

Quem fez os homens e deu vida aos lobos?

Santa Teresa em místicos arroubos?

Os monstros? E os profetas? E o luar?

 

Quem nos deu asas para andar de rastros?

Quem nos deu olhos para ver os astros

– Sem nos dar braços para os alcançar?!…

 

–  Florbela Espanca: Charneca em Flor (Poesia de Florbela Espanca – Volume 2)

creation. by indiae DeviantArt.com

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Coração ardente

Coração ardente

A criatividade que não se exerce nas coisas, mas nas pessoas

“Muitos, pensando na criatividade, dirigem a mente para a Mona Lisa de Leonardo da Vinci, os poemas de Milton, o Pensador de Rodin, o pára-raios, as lentes bifocais de Benjamin Franklin, a estufa, o telégrafo de Morse, o telefone de Alexander Graham Bell, a lâmpada elétrica e o fonógrafo de Edison. Nesses casos, a criatividade é associada a uma pintura, a uma escultura, a um soneto, a uma invenção, a um produto que é possível ver, estudar, empregar de forma útil.
“Mas existe ainda outro tipo de criatividade que poderemos chamar de invenção psicológica ou social e cujos produtos não são objetos tangíveis. É a criatividade que não se exerce nas coisas, mas nas pessoas, a criatividade nos relacionamentos humanos. É uma forma de criatividade que requer inteligência, acuidade de percepção, finura de sensibilidade, respeito ao homem como indivíduo e uma certa coragem pessoal para explicar o próprio ponto de vista e para manter as convicções sobre ele. A criatividade nos relacionamentos humanos exige a integridade do indivíduo e uma capacidade particular de operar com os outros. Encontramos exemplos históricos nas tentativas , exercidas no campo político e social, para a composição das divergências. A Magna Carta, o Bill of Rights, a proclamação da emancipação da população negra, as Constituições, os estatutos municipais e as suas emendas e os códigos e regulamentos urbanos representam, todos, exemplos de criatividade social.”

— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 14 – A Contribuição da Sociologia, citando Harold H. Anderson

Leonardo da Vinci: The Mona Lisa (or La Joconde, La Gioconda).

Leonardo da Vinci: The Mona Lisa (or La Joconde, La Gioconda).

um produto que é possível ver, estudar, empregar de forma útil

um produto que é possível ver, estudar, empregar de forma útil

Lei Áurea: A  criatividade nos relacionamentos humanos exige a integridade do indivíduo e uma capacidade particular  de operar com os outros

Lei Áurea: “A criatividade nos relacionamentos humanos exige a integridade do indivíduo e uma capacidade particular de operar com os outros”

 

Emoção poética

O teatro de Atenas possuía 15.000 assentos, e a participação nas representações era obrigatória: nos únicos quatro dias das Grandes Dionísias, todos os cidadãos participavam da procissão dionisíaca, assistiam aos concursos líricos dos corais e escutavam pelo menos 20.000 versos das 15 ou 17 obras teatrais que o programa incluía. Um ateniense de quarenta anos já havia assistido a pelo menos 300 encenações teatrais de dramas e comédias de nível tão elevado, que são estudadas e recitadas até hoje no mundo inteiro. (A comoção dramática, a leveza de espírito e a emoção poética condizem com o ócio criativo.)
— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 6: O homem descobre a sabedoria e inventa o ócio

O Teatro de Dionísio em reconstituição do século XIX.

O Teatro de Dionísio em reconstituição do século XIX.

O Teatro de Dioniso, visto do alto da Acrópole, com parte da moderna Atenas ao fundo

O Teatro de Dioniso, visto do alto da Acrópole, com parte da moderna Atenas ao fundo

As ruínas do Teatro de Mileto.

As ruínas do Teatro de Mileto.

 

Vi as éguas da noite entre os escombros

Vi as éguas da noite galopando entre as vinhas
E buscando meus sonhos. Eram soberbas, altas.
Algumas tinham manchas azuladas
E o dorso reluzia igual à noite
E as manhãs morriam
Debaixo de suas patas encarnadas.

Vi-as sorvendo as uvas que pendiam
E os beiços eram negros e orvalhados.
Uníssonas, resfolegavam.

Vi as éguas da noite entre os escombros
Da paisagem que fui. Vi sombras, elfos e ciladas.
Laços de pedra e palha entre as alfombras
E vasto, um poço engolindo meu nome e meu retrato.

Vi-as tumultuadas. Intensas.
E numa delas, insone, a mim me vi.

—Hilda Hilst: Da Noite – I (Do Desejo)

Uníssionas, resfolegavam.

Uníssionas, resfolegavam.

E as manhãs morriam Debaixo de suas patas encarnadas.

E as manhãs morriam
Debaixo de suas patas encarnadas.

no coração da noite do desejo

no coração da noite do desejo

alguém me borda do avesso

´”Alguém joga xadrez com minha vida, alguém me borda do avesso, alguém maneja os cordéis. Mordo devagar o fruto desta inquietação.” – Lya Luft: Mulher no Palco

Tina Modotti. Hands of the Puppeteer, Mexico City, 1929. © The Estate of Tina Modotti 2012

Tina Modotti. Hands of the Puppeteer, Mexico City, 1929. © The Estate of Tina Modotti 2012

The Puppeteer Blues - created by ImmerVerloren

The Puppeteer Blues – created by ImmerVerloren

 

poesia visceral de lya

poesia visceral de lya

Julgou-se eterno… fez tanto alarde

“Aqui jaz um século
que se chamou moderno
e olhando presunçoso
o passado e o futuro
julgou-se eterno;
século que de si
fez tanto alarde
e, no entanto,
-já vai tarde.” – Affonso Romano de Sant’anna: Epitáfio para o século XX e outros poemas

 

já foi tarde

já foi tarde

Um século, um país, memória e amor

Um século, um país, um mundo de memória e amor

 

Pessoa

Pessoa

Pessoa

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

Que Pessoa levar para uma ilha deserta? Para sempre a sós com que Pessoa?

Com Pessoa, é claro. E com todas as Pessoas que se multiplicam nos versos dele.

Tenho somente meus sonhos

Equilibrium

Equilibrium

Had I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with the golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and half-light,
I would spread the cloths under your feet
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams beneath your feet;
Tread softly because you tread on my dreams…

Fossem meus os tecidos bordados dos céus,
Ornamentados com luz dourada e prateada,
Os azuis e negros e pálidos tecidos
Da noite, da luz e da meia-luz,
Os estenderia sob os teus pés.
Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos.
Eu estendi meus sonhos sob os teus pés
Caminha suavemente, pois caminhas sobre meus sonhos

William Butler Yeats
Poema “He Wishes for the Cloths of Heaven”

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Equilibrium é um filme que pesa (com trocadilho mesmo) dois elementos. Um de natureza profunda e bela sobre uma sociedade futurista condenada à privação dos sentimentos através de uma droga, o Prozium… Sem as emoções, a humanidade alcançaria um estado de grandeza civilizada, justa, harmoniosa, sem dor. Sem dor, daí… sem poesia, sem perfume, sem música, sem arte, sem paixão. O que restou, mesmo?

O outro lado de Equilibrium é interessante, mas me interessou menos. É um filme de ação, com um estilo de luta chamado Gun Kata e uma óbvia referência estética a Matrix.

Chistian Bale é John Preston, um “sacerdote” (cleric), espécie de agente  policial que persegue e reprime atividades subversivas como possuir livros, obras de arte, maquiagem ou não tomar a droga supressora dos sentimentos. Tem também o bonitão Sean Bean como Errol Patridge, sacerdote como Preston, mas que descobre o outro lado da vida através da poesia. Taye Diggs é o parceiro de Preston, Andrew Brandt. E Emily Watson é Mary O’Brien, amante de Patridge, também convertida pelas emoções, e que vai contribuir para abalar o frágil equilibrium de Preston.

Christian Bale e Emily Watson

Christian Bale e Emily Watson: desequilíbrio emocional

Se tivesse que eleger uma sequência que representasse todo o filme, minha escolha seria a cena de Bale numa batida para apreender material proibido. Numa casa ficava escondida uma coleção de relíquias que incluíam quadros, roupas, livros, discos e um gramofone. O miserável agente da polícia anti-emoçoes é devastado por uma overdose. A Nona Sinfonia de Beethoven – mas podia ser também a bateria furiosa do Mestre Marcão do Salgueiro – explode da corneta do gramofone como uma bala de canhão gigante e certeira. Christian Bale se dobra, vencido por uma força que nunca experimentou.

Desequilíbrio Emocional

Miséria dos sonhos. Pobreza dos sentidos.

A vida pelos sentidos

Sean Bean: despertando os sentidos

Equilibrium teve uma distribuição e divulgação totalmente modestas. Mas acabou virando o que minha geração chamava de filme “cult”. No boca-a-boca, formou uma legião de fãs que alugou o DVD ou baixou nos “baía do pirata” da vida. Passa no Telecine e no Max. Este site de fãs tem bastante informação. O diretor Kurt Wimmer escreveu e dirigiu o filme. Criou também o Gun Kata, estilo de luta explorado em Equilibrium e em Ultra Violet (também escrito e dirigido por ele).

Gun Kata

Gun Kata

A sacralidade das palavras

Adélia Prado: A Duração do Dia

Adélia Prado: A Duração do Dia

Palavras. Imagens. Sons. Adélia Pado garimpa palavras e as congrega no que parece o passeio por uma galeria de arte. Lê-las é contemplá-las, respirá-las. Fico parada olhando uma serigrafia de Beatriz Milhazes ou dando voltas em torno de um mármore de Brecheret. Ali, naquela eternidade de contemplação, fico querendo apreender tudo. Querendo que aquelas cores, formas,  a textura da pedra, tudo se transforme em moléculas imaginárias e venha se fixar no meu corpo e na minha mente para sempre.

Assim são as páginas de “A Duração do Dia”. Porque ler poemas é assim. Não é sobre entender e decifrar coisa alguma. Não é identificar o sujeito, o objeto e os superlativos do texto. Tem que se submeter humildemente às palavras, aos sons e imagens que emanam delas. Um ritual que se quer eternizar, ficar suspenso no tempo e espaço abraçado com força à beleza. É como ter que parar de falar, andar e respirar só para ouvir aquele adágio de Mozart, que ocupa toda a existência daquele momento. Fechar os olhos e se submeter. Como num rito religioso. A submissão no sentido bom. No sentido de islã (que significa submissão a deus, não submissão à burrice).

Adélia é católica fervorosa e, ao se encher do gozo da fé, transborda palavras miraculosas. Não tenho um lugar certo no que se costuma chamar de fé, religião ou crenças. Sou exilada voluntária dessas coisas. Mas me submeto ao poder da poesia e da sacralidade das palavras.

Estrelas na escuridão são ícones potentes

Como oráculos bíblicos,

os paradoxos da física me confortam.

Trecho de “Pensamentos à Janela”, de Adélia Prado em “A Duração do Dia”.

A capa do livro foi concebida por Adélia Prado, com ilustração de René Magritte.