Luz Interior

“Honor estava ansiosa pelo Culto, pois não comparecia a um desde que esteve na Filadélfia e sentia falta da sensação de paz que costumava ter. Em geral, a plateia dos Cultos costumava demorar um pouco para se acalmar e ficar em silêncio, como um lugar onde a poeira levantasse e precisasse baixar. As pessoas se mexiam em seus lugares até achar uma posição confortável, arrastavam os pés no chão e tossiam, aquela agitação refletia o que se passava na cabeça delas, ainda ativas com as preocupações do dia. Mas, uma por uma, elas deixavam de lado os problemas com trabalho, colheita, comida e se concentravam na Luz Interior que era a manifestação de Deus nelas. O Culto começava em silêncio, que ia se alterando até um momento em que o próprio ar parecia se adensar. Não havia qualquer sinal exterior, mas dava para perceber que o Culto começava a se concentrar em algo muito mais forte e profundo. Era então que Honor mergulhava em si mesma.  E quando chegava ao lugar que procurava, podia ficar por muito tempo e ver que os Amigos em volta também estavam lá.” –  Tracy Chevalier: A Última Fugitiva

Meeting for worship

Meeting for worship

 

construção em retalhos

liberdade e silêncio

Caçadoras de curiosidades

Os colecionadores têm uma lista de coisas que desejam e um armário de curiosidades para encher com o trabalho dos outros. De vez em quando, podem ir à praia e andar, franzindo  o cenho para os rochedos como se estivessem numa exposição de quadros sem graça. Não conseguem se concentrar, pois acham que todas as rochas são iguais; o quartzo lembra  o cristal; o xisto de bife,* ossos. Alguns acham pedaços de amonite e de belemnite quebrados e se consideram especialistas. Depois, compram dos caçadores de fósseis o que precisam para completar sua lista. Não têm muita noção do que colecionam, nem grande interesse. Sabem que fósseis estão na moda, e isso para eles é o suficiente.

— Tracy Chevalier: Seres Incríveis (tradução de Beatriz Horta)

* Assim chamado por parecer com as estrias de gordura nos bifes. (N.T.)

Jessica Bartram's illustration inspired by the life of Mary Anning and her most famous portrait.

Jessica Bartram’s illustration inspired by the life of Mary Anning and her most famous portrait.

catando curiosidades

catando curiosidades

Basta estar vivo

Tracy Chevalier: Falling Angels

Tracy Chevalier: Falling Angels

O mundo pirou de vez  mais ou menos depois que a rainha Vitória morreu. Com ela foi-se também, oficialmente, o século 19. A era da revolução industrial, que mudou radicalmente as sociedades, deu lugar ao tempo das vanguardas das artes, das grandes guerras que exterminavam em massa, do voto feminino, da “ascenção do proletariado”. Todas as coisas que causariam um ataque na rainha, deram as mãos e varreram o mundo.

Em 1901, a Inglaterra guardava ainda um clima de velório, um perfume mórbido do passado que dissipou-se lentamente. Tracy Chevalier recriou essa atmosfera no romance Anjos Caídos (Falling Angels) em que descreve o choque cultural entre duas famílias que se conhecem em um cemitério.

De um lado, Kitty e Richard Coleman e sua filha Maude formam uma família intelectualizada, moderna, curiosa e triste. De outro, estão os conservadores e saudosistas Waterhouse, a família da insuportável Lavínia, filha de Gertrude e Albert, e irmã da personagem mais intrigante:  Ivy May.

As famílias são arrastadas uma para a outra em função das meninas, que se conhecem brincando no cemitério entre as lápides, túmulos e esculturas de anjos. Elas juntam-se ainda a Simon, o menino coveiro, com quem selam uma inesperada amizade.

Pensei que seria um livro sobre as mudanças dos tempos afetando as famílias. Mas não é exatamente isso. Tem um retrato caprichado da época, com direito a menções a elixires e pastilhas da farmacopéia do início do século. Tem a passagem do cometa Halley, o movimento sufragista feminino inglês, a chegada do automóvel às ruas de Londres, além de um incrível manual de etiqueta do luto (!). Mas a história se concentra mesmo em alguns anos das vidas dessas famílias e sua forma de lidar com a vida e aceitar a morte, algumas alegrias e inevitáveis tragédias.

É o terceiro livro da autora, lançado depois de Azul da Virgem e Moça com brinco de pérola. Tracy faz um exercício literário diferente dos outros romances, ao estruturar a história em capítulos narrados pelos próprios personagens, como se escrevessem em um diário. Ouvimos os pontos de vista de cada um sobre os eventos que formam a trama. A morte lança sombras sobre os diálogos, os gestos e os sentimentos dos personagens, o tempo todo. Mesmo quando não estão no cemitério, que é o cenário mais detalhadamente descrito no livro, a morte é o fator de motivação e de letargia daquelas almas tão tristes. No cemitério, trabalha outro grupo de personagens centrais da história. Simon é o menino coveiro, filho de um coveiro e de uma parteira, que também faz abortos…

É… é muito papo caveira + capuz preto + foice… Mesmo assim é um livro belo sobre o que se pode fazer da vida.

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delícias e venenos

Lavínia é uma espécie de migucha pós-vitoriana. Se tivesse Twitter na época ia dar conselhos de etiqueta e ter uma legião de miguchas seguidoras.

A pequena Ivy May… cortou meu coração sabê-la assim tão calada e grave. Sua resposta para a mãe, quando esta pergunta porque é tão calada e diferente da irmã, é uma das melhores falas do livro: “quando eu falo, você me ouve.” Econômica e assertiva. Em oposição à irmã Lavínia, que chora, grita e desmaia por nada, o que leva os outros a não a levarem a sério.

Kitty Coleman é um ser simbólico. Tristonha na cama depois de uma noite de swing em 1901. Insatisfeitíssima. Vida e liberdade são duas amigas que se merecem sempre juntas.  A velha rainha Vitória morreu como a mulher mais poderosa de seu tempo. Teve suas satisfações, mas será que gozou tal liberdade?

Blake canta a inocência e a experiência

Tracy Chevalier é a escritora que eu gostaria de ser se o fosse.

Viva Chama, de Tracy Chevalier

A luz da inocência

O lançamento mais recente da autora no Brasil chama-se Viva Chama (no original, Shining Bright). O título faz referência a um poema de William Blake. Mais uma vez, Tracy parte de uma personagem histórica e de detalhes de sua época para criar um romance, que me aprisionou por alguns bons dias de férias.

Na época do William Blake, sabe… não tinha Criança Esperança. Eh… na Inglaterra do final do século 18, ninguém achava nada de mais em mandar os filhos menores de 10 anos para trabalhar em fábricas de mostarda, onde eles se intoxicavam com a poeira amarela do condimento e podiam ficar cegos ou com doenças mentais. Não se dava muita importância para os pequenos. Lógico que as crianças de famílias ricas não estavam incluídas nessa história triste. Parece que a humanidade só começou a amar suas crianças muito tempo depois. Esse valor dito universal de que as crianças são o futuro, símbolo da esperança de um mundo melhor só se estabeleceu de verdade após a segunda guerra. Ou seja, tem muito pouco tempo. E mesmo assim, todos sabemos que essa história triste não acabou. Basta caminhar alguns minutos pelas ruas de Copacabana para perceber que o Rio é, em muitos aspectos, como a Londres de Dickens: suja e habitada por crianças que ninguém quer.

Retrato de William Blake por Thomas Philip

Mas a época de William Blake, Byron, Jane Austen, Napoleão e Goya foi contraditoriamente iluminada e sombria. Era o final do século das Luzes. O crepúsculo da era de Voltaire e Rousseau, da independência dos EUA e da Revolução Francesa. Foi quando inventaram o povo. Só que esse povo vivia nas sombras tenebrosas dos quadros de Goya.

Existe alguma sintonia entre as artes de Goya e Blake. Imagens que se expressam como poemas. Blake era um artista sensibilizado pelas luzes da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. No romance Burning Bright,  Tracy Chevalier imaginou as circunstâncias da criação de Songs of Innocence and Experience. A obra de Blake reúne poemas e ilustrações que são historias alegóricas sobre as virtudes, a inocência, o amor, a coragem. Vivo escrevendo sobre crianças corajosas. E dessa vez temos Jem Kellaway e Maggie Buttefield. Eles são os pequenos condutores da história e personificam o que teria inspirado em Blake a idéia sobre inocência e experiência como virtudes da vida.

Jem é da família que sai de Dorset e chega a Londres para tentar a sorte com a ajuda de Philip Astley. O conceito moderno que temos hoje do Circo, com picadeiro, acrobacias e tudo o que tem direito, foi popularizado por Philip Astley, outro personagem histórico, que fazia os espetáculos itinerantes pela Inglaterra e França. Thomas Kellaway, pai de Jem, é um fabricante de cadeiras especializado no estilo Windsor. Ele é encorajado por Astley a mudar para Londres, a capital do império britânico, com suas ruas, pontes e becos enevoados e perigosos. A família Kellaway se torna vizinha de William Blake, poeta, gravurista, místico e, para muitos,  louco. Na chegada a Londres, Jem conhece a destemida Maggie, que tem a mesma idade que ele. Juntos, viverão pequenas aventuras pela cidade e aprenderão com perplexidade sobre os mistérios, as maravilhas e as dores da vida, estimulados pelo poeta Blake, que admira a curiosidade e o destemor das duas crianças.

Tracy Chevalier, capa de Songs of Innocence and of Experience, O Ancião dos Dias (gravura), cadeira Windsor e botões Dorset

Tracy Chevalier, capa de Songs of Innocence and of Experience, O Ancião dos Dias (gravura), cadeira Windsor e botões Dorset

Como sempre, Chevalier faz um retrato encantador e detalhado de época. É fascinante a descrição da complicada tarefa de impressão de gravuras, das técnicas de fabricação das cadeiras Windsor, dos graciosos botões Dorset feitos pelas mulheres da família Kellaway e do mundo do circo na época de Phiip Astley. Um cenário riquíssimo para uma história apaixonante e singela.

Tyger Tyger. burning bright,
In the forests of the night;
What immortal hand or eye,
Could frame thy fearful symmetry?

Trecho de The Tyger, de “Songs of Innocence and of Experience (copy A, 1795 – British Museum)”


Leitura paralela

William Blake

Songs of Innocence and Experience

História do Circo

Mais História do Circo

Cadeiras Windsor

Dorset Buttons

Remarkable Creatures: novo livro da autora

Em 2008 – parte 4 – livros

Encerrando esse longo adeus a 2008…

Gosto de ficar parada olhando pros meus livros… São meus amigos imaginários. Acho que sou meus livros.

os livros me olham desconfiados da estante

os livros me olham desconfiados da estante

Numa daquelas descoberta casuais que a Internet nos proporciona, me surpreendi com esse ótimo blog do projeto Portaberta. Veja esse post com o poema O homem que foi soterrado pela biblioteca, de Fábio San Juan.

Tenho uma compulsão quase incontrolável por livros. Passar na porta da Saraiva ou da Livraria da Travessa é um perigo pra mim. O que acontece? Compro os livros como uma garantia de alimentação literária até a morte. Não dou conta de ler tudo o que compro e o que me emprestam. É uma vergonha. Já fiz até uma prateleira só dos livros interrompidos e outras dos que continuam aguardando na fila. Daí, mudo de apartamento, arrumo as estantes de qualquer jeito e misturo os lidos, meio lidos e nada lidos.

Em 2008 não li nada que estava na parada arrepiante de sucessos da veja. Não. Eu não li os livros dos vampiros da Stephanie Meyers, nem o novo do autor do Caçador de Pipas. Nada contra. Mas não sei dizer porque ou como escolho essas leituras. Tem a ver com os autores, que são os meus favoritos. Não tive muito tempo para ler o quanto gostaria, pois foi um ano de estudos em função de uma pós-graduação, então, tive que dar preferência às leituras que não entram nos assuntos do blog.

Mas até que foi produtivo.

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Tracy Chevalier: O Azul da Virgem e A Dama e O Unicórnio

Você pode nunca ter ouvido falar da autora, mas talvez conheça o filme “Moça com brinco de pérola“, baseado no livro homônimo, que tornou Chevalier conhecida em todo o mundo.

O filme é muito bonito e realmente transmite o clima do livro. A Scarlett Johansson me parece uma Griet perfeita. A atriz que faz a Tanneke é a própria The Milkmaid (meu quadro favorito de Jan Vermeer). Tem cenas filmadas em Delft, onde Vermeer viveu. Até a estrela no chão da Praça do Mercado, onde Griet dá voltas, perdida em suas indecisões, está lá, meio desbotada, no filme.  Mas é no livro que a autora garante uma viagem extraordinária pelas sedas, pérolas, luzes e cores do imaginário de Vermeer (aliás, li aqui que se pronuncia “férmir”), e pelas sensações e transformações de uma jovem protestante holandesa, que trabalha como empregada na casa do artista, e se torna irremediavelmente presa dos mistérios da arte e das intrigas da família.

Tracy Chevalier nasceu nos Estados Unidos e vive na Inglaterra. Ela cria histórias sobre mulheres, que, geralmente, vivem em épocas passadas. Tracy possui um texto esplêndido, além de caprichar no que diz respeito à pesquisa e reconstituição de época.

O AZUL DA VIRGEM

O Azul da Virgem, de Tracy Chevalier

O Azul da Virgem, de Tracy Chevalier

Esse é o primeiro livro da Tracy. É sobre duas mulheres em tempos diferentes, que o leitor percebe aos poucos serem descendentes uma da outra.

A ruiva Isabelle du Moulin vive no século 16, na França. Sua família torna-se protestante e muda-se para a Suíça. Mas a força ancestral da Virgem ainda assombra o coração da jovem huguenote. E nos anos 90 vive a parteira americana Ella Turner, que muda-se para a França, onde o marido acaba de aceitar um emprego. Investigando as origens de sua família (os Turner ou Tournier) pelo interior da França, Ella vai aos poucos se aproximando da vida da antepassada Isabelle.

Ao alternar os capítulos entre Isabelle e Ella, Tracy coloca o leitor como o observador de um labirinto, em que as personagens caminham de entradas (e tempos) diferentes, atraídas para um mesmo ponto obscuro. Tracy desde o início já manda bem. É uma leitura vertiginosa. Daquelas para um feriado chuvoso de 3 dias, em que você não consegue parar de virar as páginas.

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A DAMA E O UNICÓRNIO

Agora Tracy volta a falar de obras de arte e inventa uma história maravilhosa em torno do famoso conjunto de tapeçarias do final do século 15, que hoje encontra-se exposto no Museu da Idade Média, em Paris.  O pintor miniaturista e mulherengo Nicolas des Innocents recebe uma encomenda para a qual cria o motivo da Dama e o Unicórnio. Mas acaba sendo obrigado por seu cliente, Mr. Jean Le Viste, a partir de sua querida Paris rumo a Bruxelas, onde irá acompanhar a confecção da série de tapeçarias com o tema que criou.

A Dama e o Unicórnio, de Tracy Chevalier

A Dama e o Unicórnio, de Tracy Chevalier

E o romance segue com a trajetória e as motivações do artista, bem como as mulheres que o inspiraram. Há descrições detalhadíssimas das técnicas de tecelagem da época. Dos millefleurs. Confesso que às vezes me perdia tentando entender exatamente como os tecelões do século 15 manipulavam aqueles teares pesados e complicados, com suas manivelas, urdiduras, liças, cilindros etc. Sem falar na preparação dos fios e na dificuldade de obter a cor exata com os processos de tintura. Enfim… era um trabalho hercúleo, demorado e que quase esgotava física e financeiramente os artesãos.

Tracy cria uma trama envolvente e uma série de personagens apaixonantes. E, claro, desperta no leitor uma tremenda curiosidade de ver as tapeçarias de perto e imaginar essa e outras histórias para as pessoas que as criaram.

A Dama e o Unicórnio é o quarto livro da autora, posterior ao Moça com Brinco de Pérola. Ainda falta ler Anjos Caídos (2001) e Burning Bright (2007).

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Michael Crichton: Linha do Tempo

E o homem se foi. Mal tinha acabado de ler esse romance sobre viagem no tempo, física quântica, idade média e tal, quando soube que Michael Crichton tinha morrido vítima de câncer. Achei uma pena, pois fiquei muito interessada na obra dele e imaginava quantas idéias legais ainda iria abordar em novos livros.

o cientista da ficção

Michael Crichton: o cientista da ficção

Na semana em que partiu, foi exibido um episódio do seriado E.R. com uma introdução especial em que o ator Eric La Salle (o dr. Peter) fez uma homenagem super bonita ao Crichton. Ele foi o idealizador da série, que tomava emprestado um pouco da experiência do escritor quando foi médico da emergência de um hospital de Chicago. Aliás, sempre achei que aquele personagem do E.R., Dr. Carter, é meio que um alterego do Crichton. A história é em Chicago e ambos foram estagiários e residentes do setor de emergência. Ambos conheceram a África. Só que Michael Crichton, antes de estudar e fazer residência em medicina, era um antropólogo. Suas viagens à África, que inspiraram livros como Congo (que não li), ocorreram em função da Antropologia. Esse background do autor me interessou muito. Mais do que o sucesso de Jurassic Park.

Passei alguns anos na vontade de ler esse Linha do Tempo e o Devoradores de Mortos. Esse último, foi o que inspirou o filme O 130 Guerreiro, com o Antonio Banderas. Na verdade, o livro não é exatamente uma obra de ficção, mas sim o resultado de uma pesquisa de Crichton sobre um manuscrito de um sujeito do mundo árabe da idade média, que realmente existiu e registrou suas impressões de uma viagem pelas terras dos Vikings. São muito bacanas, tanto o livro quanto o filme.

Mas vamos ao Linha do Tempo. Conheci primeiramente o filme, que achei fraco e bobo. Aproveita muito pobremente um ótimo argumento sobre viagens no tempo. A presença de Gerard Butler dá até uma florida na parada, mas o Marek que ele interpreta é muito fraquinho em comparação com o do livro.

Pois bem. Nesse romance, o Crichton coloca em questão as possibilidades de viagem no tempo, respaldadas, se posso dizer assim, pela física quântica. Não vou entrar em detalhes sobre esse assunto, até porque, mesmo com as tentativas de explicar, da forma mais didática possível, os fenômenos de deslocamento no tempo-espaço (o autor até desenha, literalmente), fiquei de cuca fundida total. Deixa pra lá a parte científica da ficção….

Caindo de pára-quedas no meio da Guerra de Cem Anos

Caindo de pára-quedas no meio da Guerra de Cem Anos

Os personagens principais do livro são cientistas, técnicos e pesquisadores de diversas formações. Uma equipe multidisciplinar, que inclui antropólogos, geólogos, botânicos, físicos e até um especialista em armas e combates na idade média, que fala inglês e francês antigos, occitano e outras línguas obscuras. Esse é o sensacional Marek. Que ainda é pegador e se dá bem nas aventuras…

Bom… Aí, esse povo todo está trabalhando para uma super corporação de tecnologia chamada TechGate, liderada por um empresário visionário chamado Robert Doninger, que, pela descrição de Crichton, é uma espécie de Bill Gates menos famoso, mas muito mais ambicioso e sem escrúpulos. A equipe atua para Doninger num projeto secreto que pretende viabilizar viagens no tempo como a nova fronteira da ciência, turismo e entretenimento. Os funcionários trabalham na escavação de um sítio arqueológico, onde no século 14 (um dos meus favoritos!!!) deu lugar a uma batalha sangrenta em meio à Guerra dos Cem Anos. O piloto do  “projeto” pretende levar as pessoas a um “passeio” por esse cenário histórico, de onde retornariam ilesas depois de viverem fortes emoções.

Tudo na teoria é bonito, mas você já pode imaginar que, na prática, ninguém voltaria totalmente ileso e as “emoções” de cair no meio do século 14, sem saber cavalgar ou usar espada e escudo, estão mais para uma roubada, mesmo. E os nossos heróis cientistas se metem nessa enrascada para salvar um dos membros da equipe que não conseguiu voltar ao século 20,  e vivem extraordinárias aventuras.

Mas além da viagem no tempo, tem vários detalhes interessantes no livro, com relação aos personagens e suas áreas de conhecimento. Tem uma arquiteta e historiadora, que explica para um bando de turistas como funcionava a fundação das cidades na idade média.  Os donos de terras no período medieval construíram muitas das cidades, que hoje achamos que se originaram da ocupação espontânea de um terreno próximo a um rio ou do mar. Mas esses senhores mandavam construir as cidades, às vezes, do nada, para depois explorar os habitantes com impostos, licenças etc.  Enfim… Não imaginava que a especulação imobiliária funcionasse nesses termos ardilosos há tanto tempo.

Último comentário nesse tópico que está longo até para um post individual…. E o tal congressista que construiu um castelo medieval enorme numa área rural de Minas? Inacreditável. Preciso de uma máquina de viajar no tempo. Quero saltar para antes da Revolução Francesa, porque nada mudou mesmo. Continuamos sustentando uma classe de aproveitadores. A diferença é que agora somos nós que escolhemos quem vai nos explorar.

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======  TEXTOS ATUALIZADOS EM 20/02/2010 ==================

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Neil Gaiman: Coisas Frágeis

Narrativas fortes

Narrativas fortes

Demorou mas lançaram no Brasil essa recente coletânea do criador de Sandman.

Destaque para o conto “O Monarca do Vale”, onde Gaiman resgata o personagem Shadow, de seu romance Deuses Americanos. Outro curioso é “O Problema de Susan”, em que o autor tenta exorcizar sua frustração com o destino de Susan em As Crônicas de Nárnia.

São 9 contos maravilhosos.

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Sandman: A Jornada dos Sonhos Completa

Houve uma lacuna gigantesca na minha leitura dos 10 volumes do Sandman. Lá pelo inicio dos anos 90 parei no meio do arco Estação das Brumas. Muitas areias do tempo depois, começou a ser lançada a série completa em volumes luxuosos de capa dura e papel couchê. Daí, tirei o atraso da experiência onírica. Quando terminei o décimo volume, Despertar, resolvi voltar ao início mais uma vez e reler todos os arcos do mestre Morpheus.

Neil Gaiman é fodaralhaço. E… sei lá…. Sandman não é só uma das melhores realizações das histórias em quadrinho. É um tesouro de imaginação artística.

Como não sonhar com a possibilidade de novas histórias do Sonhos e os outros Perpétuos? Teve aquele belo “Noites sem fim”, com novas histórias do Sandman e seus irmãos desenhadas por mestres como Milo Manara, Moebius,  Bill Sienkenvicz e outras feras. Mas ainda é pouco…

Casa de Bonecas, Prelúdios e Noturnos, Estação das Brumas e Um Jogo de Você podem ser meus volumes favoritos… Talvez… Mas a verdade é que tudo é bom. E ainda tem o livro com as histórias da irmã Morte.

Os irmãos Sonho e Morte

Sem falar nas capas do Dave Mckean e no trabalho dos diversos artistas que conceberam visualmente os personagens e ilustraram as histórias.

Sandman por Dave McKean

Sandman por Dave McKean

Acho que a sequencia que mais me marcou de todas as histórias foi a da despedida de Sandman, quando sai do inferno, depois de recuperar seu elmo num combate com um dos demônios de Lúcifer. O senhor do Inferno pergunta porque ele acha que poderá sair livremente de seus domínios. E o Lord Morpheus responde algo como “-Porque eu sou o Sonho. E o que seria dos habitantes do Inferno se não pudessem sonhar com o Céu.”

‘Stars shining bright above you.
Night breezes seem to whisper I love you.
Birds singing in a sycamore tree.
Dream a little dream of me.’

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Mais Gaiman em Violent Cases, Mistérios Divinos e Dias da Meia-Noite

Na gana irracional de ler tudo do autor, comecei a limpar o tacho com esses três, que consegui encontrar em edições locais.

Mas ainda falta Mr. Punch, Signal to Noise, The Day I Swept My Dad for Two Goldfish, Livros da Magia, The Graveyard Book e sei lá mais o que.

Casos Violentos de Gaiman e McKean

Casos Violentos de Gaiman e McKean

Violent Cases

Bela edição pela HQM Editora da graphic novel de 1987. Um dos primeiros trabalhos do Gaiman com a arte do fabuloso e maluco Dave McKeanMe lembrou o Electra Assassina do Frank Miller e Bill Sienkiewicz, lançado naquele época e que tem uma narrativa totalmente fragmentada e meio alucinada.
Gaiman tem uma identidade de escritor de terror e mistério. Violent Cases é um exemplo clássico e, dizem, revolucionário do gênero HQ.
Pouco tempo depois, os dois produzem a Orquídea Negra, uma das criações mais arrebatadoras da dupla.
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anjos e assassinato

anjos e assassinato

Mistérios Divinos

Tenho um fascínio pela figura do anjo caído. Difícil explicar, mas não se trata de uma adoração exotérica tipo anjos da guarda, Monica Buonfiglio (nada contra e nunca li seus livro) etc. Acho que é mais pela contradição meio humana dos anjos. Talvez o Wim Wenders tenha contribuído para essa minha noção dispersa e vaporosa feito nuvem. Pensei em tatuar um dos anjos caídos que o Gustave Doré criou para ilustrar o Paraíso Perdido, de John Milton. Mas é difícil escolher a imagem que retrata esse conceito quebrado da minha cabeça.
Lúcifer é o demo, né? Mas por muito tempo ele foi um anjo belo e admirado na cidade de prata, onde outros anjos viviam e auxiliavam Deus na criação do universo. Mistérios Divinos é originalmente um conto de Gaiman (se não me engano, faz parte da coletânea Fumaça e Espelhos) com uma trama meio policial sobre anjos, amor, assassinato e muitas emoções mais antigas que a humanidade. O artista P. Craig Russel adaptou e ilustrou o conto no formato HQ.
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3 historias raras

3 historias raras

Dias da Meia-Noite

Essa coleção é muito especial, pois reúne três personagens consagrados das histórias em quadrinho.
Em Sandman Teatro da Meia-Noite, o herói original da era de ouro dos HQs, Wesley Dodds, encontra o novo Mestre dos Sonhos concebido por Gaiman.
Jack in The Green conta com oMonstro do Pântano, que o autor já havia trazido para seu universo na série Orquídea Negra. Muito bom rever o grandalhão verde. Gosto muito da série que o Alan Moore escreveu com o personagem.
E ainda tem Me Abraça, com o incrível John Constantine, sempre envolvido numa história em alguma medida bizarra e arrepiante.
Os textos são de Neil Gaiman e Matt Wagner. E as ilustrações, deDave MacKean, John Totleben, Teddy Kristiansen e Steve Bissette.
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Marvels e Authority

Meu amigo nerd Bernardo é uma espécie de consultor para assuntos Marvel/DC. Ele me recomendou esses dois HQs de que gostei imensamente.

MARVELS, de Kurt Busiek e Alex Ross
A visão dos não heróis

A visão dos não heróis

Nesses tempos de banalização da fama e da auto-afirmação de todo e qualquer ser humano, uma história contada do ponto de vista de quem não é herói é muito intrigante. Essa série em 4 volumes propõe justamente isso.

Já pensou achar os super-heróis um saco. Um bando de marrentos e pretenciosos? Ou interpretar os fatos de forma que parece que o encapuzado não fez nada, apesar de ter salvado a humanidade. Pode acontecer com qualquer um, inclusive com um herói. O circo da fama X anonimato e do heroísmo X mera mortalidade é bem cruel. Pobres maravilhas incompreendidas.
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AUTHORITY – SEM PERDÃO, de Warren Ellis e Bryan Hitch
heróis de novos tempos

heróis de novos tempos

Novas idéias oxigenam o mundo dos HQs como essa série onde os super-heróis partem mesmo para a ignorância e realizam o que qualquer mortal gostaria de fazer para resolver problemas, conseguir justiça e combater ameaças. Tudo num contexto do planeta globalizado (defender o mundo e não só o american way) e onde o comportamento politicamente correto é defendido e ignorado ao mesmo tempo.

É um time de heróis bem ousado esse Authority. Formado pela inglesa durona e fumante Jenny Sparks (a tal Espírito do Século 20), Jack Hawksmoor, Doutor Swift, a Engenheira e o que talvez seja o primeiro casal de super-heróis assumidamente gay: Apolo e Meia-Noite. Tem outros volumes como o Authority – Sob Nova Direção, que lerei e comentarei oportunamente.

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Edward Rutherfurd: Os Príncipes da Irlanda (Dublin Foundation)

A História da Ilha Esmeralda

A História da Ilha Esmeralda

Esse aí eu levei quase 2 anos para ler, mas consegui terminar antes do estouro dos fogos de 31/12 (2008).

Desse autor, Edward Rutherfurd, já tinha lido Londres, o romance, em que narra 2.000 anos da história da capital inglesa desde sua formação geológica até a década de 90. Cada capítulo detém-se num determinado período histórico, formando um fio condutor da história da própria Inglaterra. Passamos pela época da formação da aldeia celta de pescadores à beira do rio Tâmisa, os tempos de província romana, a chegada dos saxões, depois os vikings, o domínio dos normandos plantagenetas, a dinastia Tudor de Henrique VIII e Elizabeth, a Revolução Gloriosa, a Restauração, o louco rei George do século XVIII, a cultura cockney do tempo de Dickens, a formação das classes operárias da era vitoriana e por aí vai, até o governo de John Major (se não me engano).
Em um outro romance, Rutherfurd segue o mesmo modelo para contar 1000 anos de história de New Forrest. Este eu ainda não li. Está na prateleira-fila de espera. Mas o autor também manteve a receita em Os Príncipes da Irlanda, primeiro volume da obra A Saga de Dublin. No prólogo, chamado Sol Esmeralda, o autor vaga pelas origens míticas daquela terra cheia de lendas de reis gigantes. Depois, prossegue com a cultura celta medieval com seus guerreiros e druídas e avança pelos séculos até chegar ao ano de 1533, quando começam os problemas entre católicos e protestantes, que até hoje não se resolveu.
Outra marca do autor é a linha genealógica dos personagens. Um mercador retratado no século 15 pode ser descendente de algum druída do capítulo do século 5, ou de um imigrante viking do século 10. Sempre herdam um traço genético ou a corruptela do nome de seus antepassados. Um sujeito chamado MacGowan descende de um tal de MacGoignenn, e este de outro Goibnu. Todos separados por alguns séculos de histórias e acontecimentos extraordinários.
A Irlanda tem uma onda muito diferente da Inglaterra. Embora a influência escandinava seja forte, a primeira não foi invadida pelos anglos e saxões, e conseguiu manter sua raiz celta, marcada pelo idioma gaélico (semelhante aos dos escoceses e galeses) e por um certo sincretismo entre as crenças antigas e o cristianismo. Num capítulo sobre um homem que se torna monge, descendente de outro que se tornou druída, vemos como os dois mundos espirituais conseguiram se abraçar. A introspecção e contemplação da natureza nutridas pelos druídas encontrou eco na vida reclusa e de orações dos monges cristãos. Nesse episódio, faz-se menção ao lendário livro de Kells, um tesouro da cultura celta.
Cada capítulo com seu grupo de personagens deixa saudade quando termina. É um traço da obra de Rutherfurd, que é inglês, porém elegeu Dublin para viver há mais de dez anos. Seus livros sempre trazem mapas e a árvore genealógica dos personagens. A Saga de Dublin continua com o segundo volume The Rebels of Ireland (ou Ireland Awakening no mercado europeu), que ainda não foi lançado no Brasil. No site oficial do escritor ele divulga seu novo romance intitulado New York. Mais uma vez ele viaja pela história de uma cidade, recriando a Manhattan dos índios algonquins, os acentamentos de holandeses, depois os ingleses, até chegar ao século da tragédia do 11/9. Já estou morta de vontade de ler!
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J.K. Rowling: Os Contos do Bardo Beedle

Contos de Bruxos

Contos de Bruxos

Já escrevi que Harry Potter é uma cachaça. E a autor, J. K. Rowling, ofereceu mais essa pequenina dose.

Parecem contos de fadas, mas são contos de bruxos cheios de boas lições, que a Hermione lê sem parar em Harry Potter e as Relíquias da Morte. Cada história tem comentários do Professor Dumbledore. The Warlock’s Hairy Heart é o meu preferido. Bom para trouxas felizes!