Caçadoras de curiosidades

Os colecionadores têm uma lista de coisas que desejam e um armário de curiosidades para encher com o trabalho dos outros. De vez em quando, podem ir à praia e andar, franzindo  o cenho para os rochedos como se estivessem numa exposição de quadros sem graça. Não conseguem se concentrar, pois acham que todas as rochas são iguais; o quartzo lembra  o cristal; o xisto de bife,* ossos. Alguns acham pedaços de amonite e de belemnite quebrados e se consideram especialistas. Depois, compram dos caçadores de fósseis o que precisam para completar sua lista. Não têm muita noção do que colecionam, nem grande interesse. Sabem que fósseis estão na moda, e isso para eles é o suficiente.

— Tracy Chevalier: Seres Incríveis (tradução de Beatriz Horta)

* Assim chamado por parecer com as estrias de gordura nos bifes. (N.T.)

Jessica Bartram's illustration inspired by the life of Mary Anning and her most famous portrait.

Jessica Bartram’s illustration inspired by the life of Mary Anning and her most famous portrait.

catando curiosidades

catando curiosidades

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A Dama de Cinza

Nin jamais havia visto um cavalo de verdade, só nas páginas dos livros de figuras, mas o cavalo branco que bateu os cascos pela rua até eles não era nada parecido com os cavalos que imaginava. Era maior, muito maior, com uma cara comprida e séria. Havia uma mulher montada no dorso em pelo do animal, usando um vestido cinza e longo que pendia e cintilava sob a lua de dezembro como teias de aranha no orvalho.

Ela chegou à praça, o cavalo parou e a mulher de cinza deslizou facilmente dele, colocando-se de pé na terra, de frente para todos, os vivos e os mortos.

Ela fez uma reverência.

E, como um só, eles se curvaram ou retribuíram a reverência, e a dança recomeçou.

“A Dama de Cinza agora irá

Pela Dança Macabra a todos levar.”

— Neil Gaiman: O Livro do Cemitério

 

A Dança da Morte - xilogravura de Alfred Rethel

A Dança da Morte – xilogravura de Alfred Rethel

Danse Macabre

Ghosts High

Ghosts High

Ideias emprestadas dos livros

Desde pequeno eu sempre pegava várias ideias emprestadas dos livros. Eles me ensinaram quase tudo que eu sabia sobre o que as pessoas faziam, sobre como me comportar. Eram meus professores e meus conselheiros.

— Neil Gaiman: O Oceano no Fim do Caminho

professores e conselheiros

professores e conselheiros

Memórias de sombras e afetos

Memórias de sombras e afetos

O poço de Urõr

Assim, Urõr, Verõandi e Skuld decidiriam nosso destino. Elas não são mulheres gentis, na verdade são bruxas monstruosas e malévolas, e a tesoura de Skuld é afiada. Quando aquelas lâminas cortam, causam lágrimas que enchem o poço de Urõr, ao lado da árvore do mundo, e o poço dá a água que mantém a Yggdrasil viva. Se a Yggdrasil morrer, o mundo morre, assim o poço deve ser mantido cheio, e para isso são necessárias lágrimas. Choramos para que o mundo viva.

— Bernard Cornwell: O Guerreiro Pagão (Crônicas Saxônicas – Livro 7)

Map of Yggdrasil (Nine Worlds) by solaroid (Deviantart.com)

Map of Yggdrasil (Nine Worlds) by solaroid (Deviantart.com)

Será que Uhtred finalmente vai dar linha… e voltar pra Bebbanburg?

Será que Uhtred finalmente vai dar linha… e voltar pra Bebbanburg?

O trovão da guerra

Os dinamarqueses estavam batendo suas lanças e espadas contra os escudos, fazendo o trovão da guerra, o barulho capaz de enfraquecer o coração dos homens, e era hora de apear e ocupar meu lugar na parede de escudos.

A parede de escudos.

Ela aterroriza. Não há lugar mais terrível que a parede de escudos. É o lugar onde morremos, onde conquistamos e ganhamos reputação. Toquei o martelo de Tor, rezei para Eduardo estar vindo e me preparei para lutar. 

Na parede de escudos.

— Bernard Cornwell: Morte dos Reis (Crônicas Saxônicas – Livro 6)

 

Shield Wall Large by Bifrost-and-beyond (Deviantart.com)

Shield Wall Large
by Bifrost-and-beyond (Deviantart.com)

De volta à parede de escudos

De volta à parede de escudos

Era uma gargalhada curiosa, distinta, formal, melancólica

Permaneci certo tempo no corredor comprido que separava os quartos da frente do terceiro andar dos que ficavam atrás. Era uma passagem de teto baixo, escura, com uma única janela na extremidade, e com suas duas fileiras de portas pretas de tamanho muito menor que o normal. Todas fechadas. Parecia mais um corredor do castelo do Barba Azul.

Enquanto eu caminhava com passos delicados, chegou aos meus ouvidos o último som que se esperava ouvir naquele lugar tão quieto – uma gargalhada. Era uma gargalhada curiosa, distinta, formal, melancólica. Parei. Apenas por um instante, o som cessou. Começou outra vez, mais alto, pois da primeira vez, embora audível, tinha sido baixo. Transformou-se num clamor estrondoso que pareceu despertar um eco em cada quarto solitário, embora saísse apenas de um, cuja porta eu podia identificar.

— Charlotte Brontë: Jane Eyre

o último som que se esperava ouvir naquele lugar tão quieto

 

e não é que não tem pieguice?

e não é que não tem pieguice?

a insignificância dos répteis humanos

“As Cobras dão palpite sobre tudo, mas prefiro as Cobras filosóficas, comentando a insignificância dos répteis – incluindo os répteis humanos – diante do universo.”

— Luis Fernando Verissimo: As Cobras – Antologia Definitiva

 

universo frio e indiferente

universo frio e indiferente

um universo que não entendemos

um universo que não entendemos

e a vida não tem sentido

e a vida não tem sentido

Cobras criadas de Veríssimo

Cobras criadas de Veríssimo