Quem quer ser um pixel na obra de Vik Muniz?

Sempre tive uma leve implicância com esses artistas plásticos que são hype, sabe? Ah! Ele é o cara que fez a capa do disco de não sem quem ou o cenário do show de não sei mais quem lá. Mas saí encantada da exposição do Vik Muniz no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

 

vik muniz auto-retrato

vik muniz auto-retrato

 

A formação artística do Vik me surpreendeu. A mostra faz uma geral na produção dele, demonstrando que é um desenhista talentoso e que seguiu um caminho artístico original. Em direção às alturas e avante. Sua obra é a composição em si + a foto + a manipulação da foto. Um espelho que reflete outro espelho que espelha outra coisa. Uma visão dentro de outra visão, que pode ser uma vista aérea ou por lentes de aumento.

Pena que, em alguns casos, faltava espaço para recuar e se aproximar com mais desenvoltura dos painéis. E tinha gente pra burro disputando espaço nos corredores. Mas dava para experimentar as surpresas vistas de perto (detalhes bem humorados dos brinquedos que formam as composições) e de longe (as referências a obras de Monet feitas com picotes de revistas).

Os vídeos dos making ofs mostram que a realização dos painéis gigantes, feitos de lixo ou de escavações na terra, já é uma obra de arte em si. É quase um filme de animação.

Anúncios

Watchmen hq > filme = alpino chocolate > sorvete

Tem a história em quadrinho Watchmen e tem filme Watchmen.

Assim como tem chocolate Alpino e tem sorvete Alpino.

Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Vamos imaginar que Watchmen seja só uma idéia. Uma história ainda sem imagens e sons. Só uma idéia saindo das cabeças de Alan Moore (um dos artistas mais livres e francos do mundo) e Dave Gibbons. A partir dessa idéia, foi escrita e desenhada uma história em quadrinhos, ou, para ser mais chique, uma graphic novel, que tornou-se um marco na história do gênero.

watchmen chocolate

watchmen chocolate

 

 

Li Watchmen em 1989/90, que foi quando comecei a gostar de HQs. Antes, não curtia muito. Quando criança, até lia os gibis da turma da Mônica, Disney e o do Sítio do Picapau Amarelo (esse eu adorava!). Mas, já adulta, cursando a universidade, não sei porque, comecei a me interessar pelas HQs. Uma das primeiras foi “Elektra Saga”, de Frank Miller, depois veio o “Monstro do Pântano”, do Alan Moore. Quando li “O Cavaleiro das Trevas” (F. Miller) achei que era a coisa mais extraordinária já realizada em HQ. Daí, li “Electra Assassina” (F. Miller e Bill Sienkiewicz) e pensei que essa era a melhor de todas. Mas aí, chegaram às minhas mãos a “Orquídea Negra” e “Sandman” (Neil Gaiman) e aí… f#deu… Isso sim era o melhor que podia existir na face da Terra. E fiquei nessa devoção ao Gaiman sem conseguir dar o devido valor ao “Ronin” (F. Miller) e ao Watchmen, que li com grande interesse, mas estava contaminada pelo Sandman.

Só há uns 2 anos atrás voltei a ler o Watchmen e me dei conta do tamanho da empreitada de seus criadores. A obra de Alan Moore e Dave Gibbons, embora influenciada pelo contexto da época em que foi feita (no tempo da Guerra Fria, antes da “morte” das ideologias), proporciona uma experiência sem igual até hoje. Eles criaram personagens absolutamente originais e uma visão também única do universo dos super heróis. A sequência da morte do Comediante, as falas do Rorschach e do Dr. Manhatan e o recurso da história dentro da história do “Cargueiro Negro”, lida pelo moleque numa esquina de NY, são só alguns fatores que ilustram porque Watchmen dilatou as fronteiras da linguagem das HQs.

 

Watchmen sorvete

Watchmen sorvete

Mas o filme,baby… É uma OUTRA onda com o sabor de “chocolate alpino” original de Moore/Gibbons. O tal do Zack Snyder não repetiu a receita de “300”. E isso foi bom, porque ele fez cinema, e não uma transcrição da HQ para as telas. Não que o “300” seja ruim, mas é que, assim como o Robert Rodriguez fez em “Sin City”, Snyder reproduziu a arte de Frank Miler muito literalmente (vide cenas dos soldados persas caindo do penhasco ou o encontro do jovem Leônidas com o lobo). As pranchas do Miller ganharam vida e movimento, como aquelas fotos do Profeta Diário, do Harry Potter. Dessa vez, Snyder não se preocupou tanto com a semelhança visual total, mas sim com a oportunidade de pegar a onda Watchmen e surfar com ela pelas águas do cinema. Ele se arriscou e fez um filmaço. Surpreendente e ousado.

 

Alguns highlights…

A viagem da máscara do Rorschach se movendo é muito boa. Mas a voz dele não é como eu imaginva. Quando li a HQ, tive a impressão de uma voz monótona, enquanto que a do Ozymandias era afetada e irritante. Mas no filme, o Ozymandias tem fala monótona e o Rorschach soa super “creepie”, tipo Batman. Mas isso não tira o interesse pelo Rorschach e suas falas incomparáveis, como na cena na prisão, quando grita que os prisioneiros não estavam penando por ficar atrás das grades, mas por ficarem presos com ele. 

O Dr. Manhattan de Billy Crudup (+ um catatal de efeitos visuais) ficou mais do que aceitável. Aquela calma e racionalidade meio irritante… E o bilau azul? Hahahaha! É claro que tem que ser comentado. É maior do que o desenhado pelo Gibbons. Imagina se o Billy Crudup ia permitir uma, digamos, caracterização modesta do personagem. 

O cara que faz o Night Owl/Dan Dreiberg é outro que ficou perfeito. Por sinal, para mim, ele é a alma da história. Representa os pobres corações nerds e saudosistas dos leitores de Watchmen.

No mais… Comediante… 10. Silk Spectre … 10. Ozymandias… 10. Gato exótico do Ozymandias …. 9 (podia aparecer mais).

A música também é sensacional. Destaque para a abertura com “The Times They Are A-Changin'”, do Bob Dylan, e a sequência perto do final quando toca “All Along The Watchtower”, com Jimmy Hendrix. Inesperado e muito muito bom.

 

outras receitas watchmen muito fofas

outras receitas watchmen muito fofas

A culpa é do Fidel – Como a pequena Anna aprende e ensina os barbudos a serem adultos

Anna e a vida ridícula dos adultos

Anna e a vida ridícula dos adultos

Quem mais viu esse filme no mundo foram os brasileiros, dos quais, boa parte, são cariocas. Num circuito que não ultrapassou as fronteiras da zona sul do Rio, mais pessoas viram A Culpa é do Fidel do que em toda a França – país de origem do longa dirigido por Julie Gravas. Seu próximo filme já pode estrear no Festival do Rio com sucesso garantido. Chique, né? Eu acho.

Mas vamos à história da pequena menina revoltada com Fidel Castro. Assim como a Coraline do post abaixo, Anna é um exemplo de coragem. Crianças são mais firmemente corajosas, determinadas e responsáveis que adultos. E, em geral, sem precisar que os adultos cobrem isso delas. Pois é… Olha a enrascada que é ser mãe ou pai e ver-se diante de uma miniatura de si que é mais esperta e contorna obstáculos com mais desenvoltura que qualquer marmanjo.

Anna de La Mesa é uma garotinha francesa adorável de 9 anos. Estuda num colégio de freiras e tem uma babá cubana que odeia os “barbudos comunistas” de sua terra natal. Mas de uma hora para outra, sua família começa a se comportar de um jeito estranho. Mudam da casa onde viviam para um apartamento.  Resolvem suspender as aulas de catecismo de Anna. Tudo isso acontece porque se envolvem com a situação política da América Latina, apoiando Salvador Allende (a história se passa no início da década de 70), Castro e todo o supra-sumo da esquerda de então.

E é um tal de mudar de babá (porque a cubana não tolera comunistas e é substituída por uma grega, seguida de uma vietnamita), um entra e sai de “barbudôs” no apartamento, festa para comemorar a eleição do Allende, um pandemônio que angustia a pequena Ana e seu irmãozinho. 

 

Abaixo "Les Barboudaux"

Abaixo "Les Barboudaux"

 

No princípio, reage mal à mudança da babá por detestar sair da rotina. Ela gosta e leva a sério o banho depois da escola, os horários para comer, fazer a lição e dormir. Quase morre de vergonha por ser a única aluna a não assistir às aulas de catecismo, pois os pais decidiram que ela não deveria se expor aos “burguesismos” de uma doutrina cristã. 

Mas ela peita legal a família. Não hesita em protestar contra as mudanças. O negócio é que, apesar de parecer um enredo do tipo “crianças caretas e pais porras-loucas”, Ana é o ser mais coerente do filme. Mais madura que os adultos a sua volta. O que é assustador, porém um dos mais óbvios fatos da vida. As pessoas pequenas crescem,  perdem a inocência, deixam de ser “infantis”, acumulam medos e seguem uma trajetória torta até resgatarem a maturidade. Veja bem! Eu escrevi RESGATAR a maturidade. Porque só nos tornamos maduros na medida em que descascamos a crosta dos medos. É quando voltamos a ser crianças, descomplicando as coisas e aproveitando o melhor de tudo.

quem é o careta e quem é o porra-louca?

quem é o careta e quem é o porra-louca?

 

Fui aluna de um grande professor de Usabilidade e Acessibilidade na Web. Ele contou uma vez que existem executivos (e profissionais em geral)  fazendo treinamentos especiais, em que “brincam de ser criança”. É uma tentativa de resgatar uma confiança perdida. Uma coragem e espontaneidade que foram tolhidas pela educação escolar e os dogmas de comportamento familiar/social. Vale tentar visualizar uma criança e um sujeito na faixa dos 50 anos experimentando manusear um mouse de computador pela primeira vez. Quem ficou cheio de medo, o moleque ou o cinquentão?

Muito bem. Mas voltando à Anna, toda essa situação a deixa numa posição frágil, mas privilegiada. Frágil porque fica desamparada. Os adultos perderam seu respeito com suas atitudes infantis. Como diabos Anna vai adquirir sua noção de integridade, honestidade e ética? Por outro lado, ela cresce e aprende com as mudanças e os conflitos. Observa incrédula as contradições do pai, que, apesar de ser filho de uma família aristocrata espanhola, apóia Allende, mas briga com a mulher quando esta defende o direito ao aborto para as mulheres. Anna não entende bem porque isso acontece, mas sabe que algo vai errado. Rejeita as novas babás, mas depois cria laços de respeito ao ouvir suas lendas e histórias. Anna sofre com as perdas e reviravoltas, mas, com elas, encontra o caminho para construir sua identidade.

A família medrosa de Ana

A família medrosa de Ana

 

 

Já os avós... É nós!

Já os avós... É nós!

 

 

Trailer do filme

Coragem é com Coraline

O estranho mundo de Coraline 

 

O estranho mundo de Coraline

 

Muito esperto transformarem o livro Coraline em filme de animação.

Quando soube que o livro ia virar filme, comecei a imaginar os arrepiantes olhos de botões da mãe da Coraline no universo paralelo. Já ouvia o barulho da unha batendo no olho. O circo dos ratinnhos, a passagem secreta para o outro mundo, o teatro com a platéia de cachorros, o gato que acompanha a Coraline. Tudo se realizou de um jeito quase idêntico ao que havia imaginado.

 

A jornada da brava Coraline

Cuidado com o que deseja: começa a jornada assustadora da brava Coraline

É engraçado dar voz e imagem aos livros. Tudo bem que, no caso de Coraline, trata-se de um livro ilustrado (maravilhosamente pelo Dave Mckean). Então já tinha lá os olhos de botões e os ratinhos. Acho, então, que é o som conferido aos personagens que causa esse estranhamento. A voz de Coraline é feita pela Dakota Fanning, mas na versão brasileira ficou a cargo da ótima atriz que dubla a Katara, do desenho Avatar.

 

O filme é do mesmo diretor de O Estranho Mundo de Jack, Henry Selick. E ele segue a mesma técnica de stop and motion, porém com recursos mais avançados de edição e acabamento. Essa opção caiu como uma luva para dar movimento à história fantástica de Coraline.

 

Livro de Gaiman é uma de suas melhores criações e tem ilustrações do genial Dave Mackean

Livro de Gaiman é uma de suas melhores criações e tem ilustrações do genial Dave Mackean

O autor do livro, Neil Gaiman, se inpirou em sua filha para criar a história de uma menina, que se muda com a família para uma casa longe da cidade, e onde encontra uma passagem secreta para um universo paralelo. Lá, existe uma mãe da Coraline e um pai da Coraline, absolutamente estranhos. Que deixam ela comer o que quer, mas não querem que ela volte para o mundo original.

É um bocado assustador. Na sessão do cinema, tinha criança choramingando e pedindo para ir embora. Acho que não é para crianças com menos de 10 anos. Sei lá… Mas é uma bela lição de coragem para pessoas de qualquer idade. Coragem que só seres pequenos como Coraline podem ensinar.

A aventura entre o mundo original e o paralelo é vivida com medo, mas também com determinação. E a pequena Coraline aprende lições e se transforma, descobrindo uma nova forma de ver seu mundo original, com seus pais originais e a casa misteriosa onde dá o primeiro passo na direção da vida adulta.

 

Coraline e a casa esquisita

Coraline e a casa esquisita

 

 

Avance com:

Site Oficial do filme Coraline

Vídeos no canal oficial no Youtube