Máquina do Rock

Em 2002, realizei um sonho de adolescente: assisti ao Rush no Maracanã. Estava lá entre milhares de fãs felizes, cujos gritos e pulos foram registrados no DVD Rush in Rio. Caraaaaaaaaaaaca! Lá estava o próprio monstro Neil Peart fazendo seu lendário solo de bateria. Lá estavam Geddy Lee e Alex Lifeson.

Mas não deu pra resistir de novo. Lá fui eu para a Apoteose no domingo. O som tava uma droga, como acontece frequentemente no local. Mas a qualidade da música venceu toda a adversidade.  Eles são impecáveis.

 

 

Foto: Bruna Prado/Futura Press publicada no Terra

Lenda do rock'n'roll Neil Peart, do Rush. Rio, outubro 2010.

 

Descobri o mundo basicamente com livros, filmes e discos. Me pergunto onde iria parar sem os versos de Fernando Pessoa, os filmes do George Lucas e as bandas de rock como Rush. Fly By Night, Moving Pictures, Signals, Permanent Waves, Hemispheres, Caress of Steel. Nem lembro de tudo que ouvi, pois conheci o Rush em meio a uma enxurrada de bandas como Pink Floyd, Yes, Genesis, Led Zeppelin, Deep Purple, Renaissance, Jethro Tull, Marillion, Iron Maiden, Black Sabbath, AC/DC, Scorpions, Dire Straits,The Police, Kiss, Def Leppard, The Who e um bocadão de muitas outras. Mas lembro claramente de acompanhar o som dos discos de vinil com os olhos fixos nas letras que vinham encartadas nos álbuns. As palavras de um inglês dificílimo de Moving PicturesSignalssobreviveram nas prateleiras empoeiradas da memória.

Naqueles tempos, as bandas ganhavam dinheiro vendendo discos. Discos de vinil e, depois, CDs. Shows? Só na Europa e America do Norte. Aos poucos, isso mudou, claro. Do primeiro Rock in Rio em 1985 até o cenário atual, muita água rolou.  Músicos não vendem mais discos. Ganham dinheiro com shows. Agora, o Brasil é mercado emergente de um monte de coisas. Inclusive de shows. A prova disso é que tive de escolher entre ver Rush ou Dave Matthews Band, que se apresentaram num mesmo dia no Rio.

 

Alex Lifeson e Geddy Lee

Os monstros Alex Lifeson e Geddy Lee, do Rush, Rio, Outubro 2010

 

Fico impressionada com a disposição do trio. Mandam ver com a mesma energia dos anos 70. São sofisticados pra burro. O som seriamente pesado, tem uma corzinha de jazz e folk. Ninguém soa como eles. É muito forte a idolatria pelos talentos individuais de Lee, Lifeson e Peart. Mas é clara a marca sonora da banda como um todo.

Para um repertório monstruoso como o do Rush, fica difícil tocar tudo que todos os fãs mais gostam. Não rolou New World Man nem Fly By Night. Mas, no geral, foi um set list justo. Gostei até das músicas novas, do álbum que ainda vai ser lançado depois da turnê. Enfim… Foi uma noite  feliz de domingo. Quero mais. Quero Robert Plant, David Gilmour e outros bons e velhos monstros de quem ninguém mais compra discos, mas que podem nos fazer felizes com shows como esse aqui mesmo no Rio.

 

Não tenho camisa oficial... Mas eu fui!

 

Meu devaneio favorito

 

Meu Malvado Favorito (Dispicable Me)

Meu Malvado Favorito

 

Tem meninas órfãs e carentes, mas não é desenho óbvio nem piegas. É só diferente, inteligente e engraçado. Um dos melhores exemplos de aproveitamento do 3D. As crianças gritavam e jogavam as mãos para o alto, tentando tocar objetos que “saltavam” da tela no cine Roxy. Vi dublado, portanto, sem Steve Carell. Mas a dublagem era de qualidade. As piadas funcionaram.

A originalidade do Meu Malvado Favorito fica por conta de coisas mirabolantes como o personagem principal. Gru é um super vilão, que comete crimes “terríveis” como roubar a estátua da liberdade de Las Vegas (uma pequena cópia do cartão postal de NY). Ou de tentar roubar nada mais que a lua. Parece até uma peça da Maria Clara Machado. E tem os fabulosos mínions. Um mundo deles. Criaturas cilíndricas e amarelas adoráveis que trabalham para Gru, que precisa roubar de outro vilão, Vetor, uma máquina de miniaturização para capturar a lua. Seu plano maluco para conseguir a máquina o leva a adotar 3 garotinhas órfãs. Elas ferram com o juízo do vilão maluco.

Com exceção de um mínion que bate no outro, e de um que joga um foguete no outro, não há demonstrações desnecessárias de violência. Porque isso é chato, né? Não estou negando a violência. Gosto de filmes e livros que têm lutas de espadas, machados, arcos, sabres de luz etc. Mas há contextos em que o barato é não ter armas ou socos. Só maluquices para rir e esquecer das balas perdidas e dos arrastões no túnel Rebouças.

Estou há dias tagarelando uma imitação dos sons incompreensíveis dos mínions. Algo tipo: tdabada. tbdabla. dbaa. E gosto de imitar também a Agnes, uma das 3 garotinhas, que adora unicórnios e grita com voz grossa “É TÃO FOFINHO!”, quando ganha um unicórnio gigante de pelúcia. Não passo de uma criançona gritando de mão pra cima no cinema. Só quero ter um milhão de amigos mínions.

 

Meu Malvado Favorito

máquina de encolher

 

 

Meu Malvado Favorito

se divertindo com o malvado

 

 

meu-malvado-favorito-0

Os mínions. - Bdatdanda pda? - Torpedo! - Badba pdanmadpa bda lda

 

Maldições e esperanças


Terra em Chamas, de Bernard Cornwell

Terra em Chamas, 5º volume das Crônicas Saxônicas, de Bernard Cornwell

Agora tem que esperar pelo menos um ano ou provavelmente mais… Li os 4 primeiros volumes, um atrás do outro, em dois ou três meses. O autor disse que a saga vai ter não menos que 6 e não mais que 12 livros. É um verdadeiro novelão capa e espada. Mal espero pelas cenas de batalhas, sangue e morte do próximo capítulo.
Uhtred ainda está longe de reconquistar Bebanburg. Cada passo para o Norte é reprimido por mais 10 passos de volta para Wessex e para o chato peidorrento do rei Alfredo. E agora, mais uma sucessão de roubadas com a rainha Atelflaed.
Li este 5º volume com um medo desgraçado porque já podia prever as tragédias que viriam e meu coração apertou. Meu medo foi tanto que achei até que os sofrimentos do Uhtred ficaram light. Perdeu seu grande amor, mas tudo sempre pode piorar para melhorar em seguida.
Entre muitas passagens e detalhes interessantes, quero destacar uma personagem. Ela é má. Muito má… Má mesmo. Mas adorei a Skad. Veja bem, ela faz coisas horríveis. Mas, na condição de vilã, é muito boa. Um sacerdotisa do mal, com cabelos e maldições da cor das penas de um corvo, bela, magérrima e sádica. Dava um bom nome de banda de death metal. E, com sinceridade, achei meio caído o final trágico-romântico dela. Logo a terrível Skad! Morrer assim,  numa cena de novela tipo Alexandre Dumas. Ela é bela, esperta e cruel feito aquela Lady malvadona dos Três Mosqueteiros. Mas, sei lá… Ela merecia mais. Acho que, no fim, Cornwell desprezou um pouco uma de suas melhores vilãs.

Basta estar vivo

Tracy Chevalier: Falling Angels

Tracy Chevalier: Falling Angels

O mundo pirou de vez  mais ou menos depois que a rainha Vitória morreu. Com ela foi-se também, oficialmente, o século 19. A era da revolução industrial, que mudou radicalmente as sociedades, deu lugar ao tempo das vanguardas das artes, das grandes guerras que exterminavam em massa, do voto feminino, da “ascenção do proletariado”. Todas as coisas que causariam um ataque na rainha, deram as mãos e varreram o mundo.

Em 1901, a Inglaterra guardava ainda um clima de velório, um perfume mórbido do passado que dissipou-se lentamente. Tracy Chevalier recriou essa atmosfera no romance Anjos Caídos (Falling Angels) em que descreve o choque cultural entre duas famílias que se conhecem em um cemitério.

De um lado, Kitty e Richard Coleman e sua filha Maude formam uma família intelectualizada, moderna, curiosa e triste. De outro, estão os conservadores e saudosistas Waterhouse, a família da insuportável Lavínia, filha de Gertrude e Albert, e irmã da personagem mais intrigante:  Ivy May.

As famílias são arrastadas uma para a outra em função das meninas, que se conhecem brincando no cemitério entre as lápides, túmulos e esculturas de anjos. Elas juntam-se ainda a Simon, o menino coveiro, com quem selam uma inesperada amizade.

Pensei que seria um livro sobre as mudanças dos tempos afetando as famílias. Mas não é exatamente isso. Tem um retrato caprichado da época, com direito a menções a elixires e pastilhas da farmacopéia do início do século. Tem a passagem do cometa Halley, o movimento sufragista feminino inglês, a chegada do automóvel às ruas de Londres, além de um incrível manual de etiqueta do luto (!). Mas a história se concentra mesmo em alguns anos das vidas dessas famílias e sua forma de lidar com a vida e aceitar a morte, algumas alegrias e inevitáveis tragédias.

É o terceiro livro da autora, lançado depois de Azul da Virgem e Moça com brinco de pérola. Tracy faz um exercício literário diferente dos outros romances, ao estruturar a história em capítulos narrados pelos próprios personagens, como se escrevessem em um diário. Ouvimos os pontos de vista de cada um sobre os eventos que formam a trama. A morte lança sombras sobre os diálogos, os gestos e os sentimentos dos personagens, o tempo todo. Mesmo quando não estão no cemitério, que é o cenário mais detalhadamente descrito no livro, a morte é o fator de motivação e de letargia daquelas almas tão tristes. No cemitério, trabalha outro grupo de personagens centrais da história. Simon é o menino coveiro, filho de um coveiro e de uma parteira, que também faz abortos…

É… é muito papo caveira + capuz preto + foice… Mesmo assim é um livro belo sobre o que se pode fazer da vida.

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delícias e venenos

Lavínia é uma espécie de migucha pós-vitoriana. Se tivesse Twitter na época ia dar conselhos de etiqueta e ter uma legião de miguchas seguidoras.

A pequena Ivy May… cortou meu coração sabê-la assim tão calada e grave. Sua resposta para a mãe, quando esta pergunta porque é tão calada e diferente da irmã, é uma das melhores falas do livro: “quando eu falo, você me ouve.” Econômica e assertiva. Em oposição à irmã Lavínia, que chora, grita e desmaia por nada, o que leva os outros a não a levarem a sério.

Kitty Coleman é um ser simbólico. Tristonha na cama depois de uma noite de swing em 1901. Insatisfeitíssima. Vida e liberdade são duas amigas que se merecem sempre juntas.  A velha rainha Vitória morreu como a mulher mais poderosa de seu tempo. Teve suas satisfações, mas será que gozou tal liberdade?