Palácios da memória e da imaginação

Personagens internas

Personagens internas

O poeta grego Simônides, nascido seis séculos antes de Cristo, era famoso por sua fantástica capacidade de construir o que os retóricos chamam de “palácios de memória”. Foram esses os espaços-informação originais: as histórias convertiam-se em arquitetura, conceitos abstratos transformados em vastas – e meticulosamente decoradas – casas imaginárias. O estratagema de Simônides baseava-se numa peculiaridade humana: nossa memória visual é muito mais duradoura que a memória textual.

– Steven Johnson: Cultura da Interface – Capítulo 1 – Mapeamento de bits: uma introdução.

 

Divertidamente (ou Inside Out) é um dos exemplos mais belos e inteligentes da capacidade ilimitada da arte em criar narrativas e imagens simbólicas. O filme constrói um universo alegórico visual da psique, onde esferas coloridas são as memórias e as emoções e comportamentos são controlados por seres chamados Alegria, Raiva, Medo, Tristeza e Nojinho. Há também as ilhas de personalidade. Ilha da família, da honestidade, da bobeira. E o indispensável amigo imaginário. Além do abismo das memórias descartadas, o lixão das experiências esquecidas.

Alegria, Medo, Raiva, Nojinho e Tristeza.

Alegria, Medo, Raiva, Nojinho e Tristeza.

Riley está naquela fase meteórica da vida chamada adolescência. Quem comanda a sala de controle de seus sentimentos é Joy ou Alegria. Os outros sentimentos têm seu peso na personalidade e comportamento da menina e também são os zeladores de suas lembranças. A mãe de Riley tem a Tristeza como dominante e o pai, o Raiva. Mas isso não significa que a menina lida com uma mãe deprimida e um pai destemperado. São apenas traços dominantes das personalidades.

Riley e família

Riley e família

A família sai do meio-oeste americano e chega a São Francisco. Portanto, Riley e seus companheiros mentais têm de encarar as aventuras de uma mudança. Nova escola, nova vizinhança e a saudade dos amigos e da paisagem que ficou para trás. A Alegria faz de tudo para manter Riley com espírito elevado e evitar influência da Tristeza.

porque precisamos de alguma tristeza

porque precisamos de alguma tristeza

Mas as esferas douradas da alegria precisam, às vezes, de um verniz azul de tristeza. Precisamos dos momentos de dor para vivê-los, para entender a dor do outro e para redescobrir a alegria.

Luz sobre as cores das emoções

Luz sobre as cores das emoções

Recomendo a leitura da resenha da cientista cognitiva Janet Blatter.

 

 

In the thundercloud of a common crisis

The bird that I hope to catch in the net of this play is not the solution of one man’s psychological problem. I’m trying to catch the true quality of experience in a group of people, that cloudy, flickering, evanescent – fiercely charged! – interplay of live human beings in the thundercloud of a common crisis. Some mystery should be left in the revelation of character in a play, just as great deal of mystery is always left in the revelation of character in life, even in one’s own character to himself. This does not absolve the playwright of his duty to observe and probe as clearly and deeply as he legimately can: but it should steer him alway from “pat” conclusions, facile definitions which make a play just a play, not a snare for the truth of human experience.

— Tennessee Williams: Cat on a Hot Tin Roof – Act Two [rubrica do autor]

Tommy Lee Jones and Jessica Lange in Cat on a Hot Tin Roof (1985)

Tommy Lee Jones and Jessica Lange in Cat on a Hot Tin Roof (1985)

Paul Newman and Elizabeth Taylor in Cat on a Hot Tin Roof (1958)

Paul Newman and Elizabeth Taylor in Cat on a Hot Tin Roof (1958)

exercício do conflito

exercício do conflito

Memórias são ‘a coisa essencial’ para nós?

Arnie passa por uma determinada mudança – suas memórias são apagadas e novas colocadas em seu lugar. A afirmação Verhoeven-Schwarznegger é que esta é uma mudança essencial. A pessoa que Arnie era não existe mais; uma nova pessoa tomou seu lugar. É por isso que Arnie providencia sua tradicional alta contagem de cadáveres. Ele está literalmente lutando por sua sobrevivência. Ter as memórias antigas – as memórias de Hauser – restauradas iria literalmente terminar com a existência de Quaid, a pessoa em que ele se tornou. Então Verhoeven-Schwarznegger estão defendendo o que é comumente chamado de teoria da memória da identidade pessoal. Se eles estão certos, nossas memórias são a coisa essencial para nós: o que faz de cada um de nós a mesma pessoa todos os dias, e o que nos faz diferentes de todas as outras pessoas, é a nossa memória.

— Mark Rowlands: Scifi=Scifilo – A Filosofia Explicada pelos Filmes de Ficção Científica (Capítulo 4 – O Vingador do Futuro e O Sexto Dia)

O problema da identidade pessoal

O problema da identidade pessoal

Schwaznegger, Tom Cruise, Keanu Reeves e cia conectam o leitor com Platão, Nitsche, Descartes e cia.

Schwaznegger, Tom Cruise, Keanu Reeves e cia conectam o leitor com Platão, Nietzsche, Descartes e cia.

Adam and Eve

“This self-obsession, is a waste…
…of living!

It could be spent
on surviving things.

Appreciating nature, nurturing
kindness, and friendship…

and dancing!” – Eve /Tilda Swinton (Jim Jarmusch: Only Lovers Left Alive)

Tom Hiddleston, Tilda Swinton Jim Jarmusch: Only Lovers Left Alive

Tom Hiddleston, Tilda Swinton
Jim Jarmusch: Only Lovers Left Alive

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Tilda Swinton: Only Lovers Left Alive

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Tom Hiddleston: Only Lovers Left Alive

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Tom Hiddleston, Tilda Swinton: Only Lovers Left Alive

Goya: sombras, sonhos e monstros

André Malraux, ao escrever em 1957 um ensaio sobre Goya e sua arte, afirmou que o pintor “não se antecedeu a nenhum dos artistas de nossos dias – ele ofuscou toda a arte moderna.” – Janice Anderson: Vida e Obra de Goya

the dog

Un perro

Francisco de Goya y Lucientes: A Agonia no Jardim (Cristo no Monte das Oliveiras)

Francisco de Goya y Lucientes: A Agonia no Jardim (Cristo no Monte das Oliveiras)

 

O sonho da razão produz monstros

O sonho da razão produz monstros

 

Goya

Goya: Três de maio de 1808

 

Goya-Asmodea

Uma visão fantástica

 

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O Colosso

 

Goya

O Hospício

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Saturno devorando um de seus filhos

 

Janice Anderson: Vida e Obra de GOYA

Janice Anderson: Vida e Obra de GOYA

 

Goya por Carlos Saura

Goya por Milos Forman

Tradição, família e propriedade

Da série de posts ridiculamente atrasados…

O Ministério Fictício da Liberdade de Expressão adverte:

Esse post não pretende desrespeitar a opção sexual de ninguém. Seja hetero, homo, bi, tri ou multi-sexual. Não pretende afirmar que gays são caretas. Essa é apenas a expressão de uma rabugenta, que até entende a angústia da vida contemporânea cheia de escolhas, mas não se conforma com a noção de que sempre se acaba escolhendo as mesmas coisas.

The_Kids_Are_All_Right_(2010)

Is there any straight way to be gay?

Ai! Os clichês! As mesmas escolhas de sempre. Não importa a sua faixa etária, classe sócio-econômica, nível de escolaridade ou orientação sexual. Geral quer algo que dificilmente é o que se imagina: casar , ter filhos, ter família, um emprego estável, casa, carro, cachorro… Digo dificilmente porque não é o mesmo para todos e porque nem sempre é como se imagina. É bom para uma parte. Para a outra é só o que lhe restou. Ou é um estorvo. Estou falando sobre The Kids Are Alright  ou Minhas Mães e Meu Pai (???).

O filme me incomodou, mas não porque achei que assume um tom moralista, tipo “olha só como os homossexuais têm valores tão importantes quanto os dos héteros.” O que incomoda é a naturalidade com que retrata que tanto gays quanto straights podem se agarrar a valores convencionais. E o filme, não necessariamente critica ou enaltece os personagens por isso. Apenas conta a história.

Mas o que eu esperava, também, tola que sou? Que os gays fossem retratados como os supra sumos do “prafrentex”, revolucionários, transgressores, líderes de uma nova ordem de comportamento social? Olha aí a minha expectativa-clichê se manifestando…

Mas porque é tão comum na ficção que um casal de lésbicas seja necessariamente formado por uma figura masculina e outra feminina? Uma mulher se sente atraída por outra porque é uma mulher que gosta de mulher ou porque assume um papel de homem? Pode ser tanto um quanto outro caso, né? Mas porque se retrata tanto o clichê, ou seja, “a mulher + a marida da relação”? Seria porque a maioria opta por fazer tudo com a mesma forma de pão? Será mesmo??? Sei não… Mas que tédio, heim?

Sexualidade é uma coisa complexa. Mesmo para os tidos como “tão normaizinhos”. Imagine que você tem um amigo de infância, que namorou a garota mais bonita da escola. Com uma história pitoresca do primeiro beijo, das técnicas mirabolantes para criar as cantadas. Que casou apaixonado pela mulher. Como é que você pode ter certeza de que ele não gosta que ela pratique dominação violenta com ele? Ou de que ele não pensa em convidar a sogra para um ménage com a mulher? Ou que ele, no fundo, só goste de ver a mulher em ação com outro cara ou com outra mulher ou de vê-la se satisfazendo sozinha? Não existem fatos sobre sexualidade, porque não é possível abarcar tudo o que é possível nela. Então alguém pensa:  meus pais são um casal “normal” formado por um homem e uma mulher. Mas quais são as fantasias deles? Pode ser um fato que alguém ouviu seus pais gemendo e rangendo as molas da cama do outro lado da parede, mas no que eles estavam pensando? Estavam vivendo plenamente a experiência física ou fantasiavam estar com outros parceiros, em outro lugar, com outra idade? As possibilidades são infinitas. Mas a capacidade das pessoas escolherem ou aceitarem as opções dos outros parece ridiculamente limitada.

Julianne Moore e Anette Benning formam um casal. Elas têm dois filhos concebidos por inseminação artificial. Não entendi bem se a Moore pariu os dois ou se cada uma deu à luz um filho diferente. A filha toma a iniciativa de procurar o pai biológico ou doador, que também é pai do irmão. Esse cara é o Mark Rufallo. Benning é a figura paterna da família. Médica ginecologista e obstetra, sustenta a casa e tem cabelos curtos. Moore é arquiteta e paisagista muito frustrada que optou por ficar em casa cuidando das crianças. As mães ficam incomodadas com o interesse dos filhos por conhecer o pai. E são duas chatas em relação ao filho, que suspeitam ser gay. É uma contradição. Mamãe e mamãe gostam de trepar assistindo filmes pornôs gays masculinos. As duas têm alta escolaridade. Mas tudo isso não impede que tenham dificuldade de conversar sobre sexo com o filho. Tudo se complica, porque Moore tem uma recaída hétero e pega Rufallo. Enfim, como um cônjuge convencional, Benning se desespera com a infidelidade da mulher. E todo o equilíbrio da família vai pro saco.

Você pode ler isso e pensar: “nossa, você odiou o filme.” Ou até estranhar e especular “mas esse roteiro é ridículo.” Não, pior que não. Não achei ruim. É bom e bem naturalista. É isso que acontece mesmo. O padrão que se observa na vida é justamente como a interpretação do Mark Rufallo. Ele faz com perfeição um personagem perdido na compreensão de papéis a desempenhar. Banalizando a própria liberdade. A mediocridade e a caretice estão à disposição de todos, de qualquer opção sexual.

Come And Buy My Toys
(David Bowie)

Smiling girls and rosy boys
Come and buy my little toys
Monkeys made of gingerbread
And sugar horses painted red
Rich men’s children running past
Their fathers dressed in hose
Golden hair and mud of many acres on their shoes
Gazing eyes and running wild
Past the stocks and over stiles
Kiss the window merry child
But come and buy my toys
You’ve watched your father plough the field with a ram’s horn
Sowed it wide with peppercorn and furrowed with a bramble thorn
Reaped it with a sharpened scyth, threshed it with a quill
The miller told your father that he’d work it with the greatest will
Now your watching’s over you must play with girls and boys
Leave the parsley on the stalls
Come and buy my toys
You shall own a cambric shirt
You shall work your father’s land
But now you shall play in the market square
Till you’ll be a man
Smiling girls and rosy boys
Come and buy my little toys
Monkeys made of gingerbread
And sugar horses painted red

Na vertigem de Karenina

Anna Karenina

Karenina por Stoppard e Wright

A vida é um teatro de variedades. Intrigas, cortina que sobe e desce, divas que fazem entradas dramáticas, cenários que mudam, heróis ingênuos e vilões espertos, gente na  solidão dos holofotes, traições, platéia que observa e reage, ilusões, luzes que acendem e apagam, amores, figurinos que reforçam personalidades, vaias, maquiagens e máscaras, aplausos, risos e lágrimas. 

Não levava muita fé nesse filme porque achava a escolha de elenco equivocada. Pra falar a verdade, a implicância foi especificamente com o ator selecionado para fazer o Conde Vronski, já personificado por monumentos extraordinários da espécie humana tipo Sean Bean, Christopher Reeve e Kevin McKidd. Nessa produção, Vronski é defendido pelo moleque que fez o jovem  John Lennon em Nowhere Boy. Pensei: afff!

Mas, no final das contas, foi legal porque, como não dei bola para o filme, não li mais nada a respeito, e quando resolvi assistir, me surpreendi, pois é muito bom. E mesmo o Vronski ninfeto (Aaron Taylor-Johnson) acabou sendo consistente, porque a meninice e frescor do personagem pode ser algo que faltava na vida de Anna (Keira Knightley) ao lado de seu sério e caretão marido Karenin (Jude Law).

O roteiro é do Tom Stoppard (Shakespeare Apaixonado e Rosencrantz and Guildenstern Are Dead), que, junto com o diretor Joe Wright, criou um híbrido surpreendentemente interessante e original de teatro e cinema. A ambientação cenográfica é quase sempre em um teatro, com os atores circulando pelo palco, coxias, varandas. A história se desenvolve num ritmo meio delirante em que os personagens entram e saem de cena e os cenários mudam sem a proteção da cortina. Todos se movimentam quase o tempo todo e dançam coreografias complicadas sem perder a fluidez dos diálogos (dançam somente nas cenas de baile, não é um musical, ok?).  É meio doido e vertiginoso mesmo… Mas achei muito bom. 

Ana Karênina, de Leon Tolstói

Ana Karênina, de Leon Tolstói

O romance de Tolstoi sempre me pareceu mais sobre o personagem Levin (ou Lievin), do que sobre a protagonista. Lievin é uma espécie de âncora do autor. Um porto seguro de onde ele conjura a tempestade que arrasta Anna e Vronski.

“Quando se aproximaram as cantadeiras, Liêvin, deitado em cima da meda, julgou ver cair sobre ele uma alegre nuvem carregada de trovões. As medas, os carros, os prados, os campos distantes, tudo se lhe afigurou embalado ao ritmo dessa canção louca, acompanhada de assobios e de gritos estridentes. Essa alegria sã, essa bela alegria de viver causou-lhe inveja, pois ele nada podia fazer e tinha de limitar-se a continua ali deitado, contemplando e escutando. Quando os camponeses desapareceram no horizonte e deixou de ouví-los, tomou-o um sentimento de tristeza motivado pela solidão em que vivia, o ócio físico em que estava e a posição hostil que tinha para com o mundo.” (Ana Karênina, capítulo XII)

Anna e Lievin são forças opostas/complementares de uma visão da vida como produto da vontade (desejo, fé, personalidade, valores) e das circunstâncias (natureza, sociedade, cultura, política). O romance avassalador da esposa de um alto funcionário do império russo com um aristrocrático oficial do exército entrou para a coleção de grandes clássicos literários de heroínas adúlteras, como a Madame Bovary e Effi Briest.

Antes de ler a Karenina, infelizmente li A insustentável leveza do ser. Digo infelizmente porque, além de não ter gostado da obra  de Milan Kundera, ela guarda um spoiler do livro de Tolstoi.  O romance faz referência à paranóia da Anna com trens… Enfim… Não que já não tivesse assistido adaptações da obra para o cinema e TV. Mas quando assisti ao filme com a Greta Garbo numa “sessão coruja”, faltou luz e não vi o final. E a minissérie da BBC também não consegui ver até o fim. Teve também um texto sobre linguística que li na universidade que tratava de metonímias e se referia à forma como Tolstoi narra uma passagem do livro do ponto de vista da bolsa de Anna, que balança para frente e para trás, como um pêndulo. Então, a Karenina até hoje tem presença  forte no imaginário e na curiosidade artística e intelectual e comporta até visões belas e estranhas como a desse filme.

Depois de ler o livro anos atrás, assisti ao filme com a Sophie Marceau (que é bonitona, mas um tanto preguiçosa como atriz). E agora assisti esse da Keira (não muito melhor que a Sophie). Ambos têm lá suas virtudes, mas não cheguei a uma conclusão de qual é melhor. Abaixo, segue uma lista de versões para cinema, TV e ballet. Quem sabe um dia consigo assistir tudo e escolher o melhor.

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Outras Kareninas

Tatyana Drubich (2009)

Anna Karenina., com Tatyana Dubrich

Anna Karenina., com Tatyana Dubrich

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Helen McCroy (2000)

Anna Karenina, com Helen McCroy (a mãe do Malfoy) e Kevin McKidd (o Dr. Hunt)

Anna Karenina, com Helen McCroy (a mãe do Malfoy) e Kevin McKidd (o Dr. Hunt)

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Sophie Marceau (1997)

Com Sophie Marceau e Sean Bean

Com Sophie Marceau e Sean Bean

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Jackeline Bisset (1985)

Anna Karenina, com Jacqueline Bisset e Christopher Reeve

Anna Karenina, com Jacqueline Bisset e Christopher Reeve

 

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Nicola Pagett (1977)

Anna Karenina (minissérie da BBC), com Nicola Pagett

Anna Karenina (minissérie da BBC), com Nicola Pagett

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Maya Plisetskaya (1976)

Anna Karenina, com Maya Plisetskaya e o Ballet Bolshoi

Anna Karenina, com Maya Plisetskaya e o Ballet Bolshoi

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Tatyana Samoylova (1967)

Anna Karenina com Tatyana Samoylova

Anna Karenina com Tatyana Samoylova

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Vivian Leigh (1948)

Anna Karenina com Vivian Leigh

Anna Karenina com Vivian Leigh

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Greta Garbo (1935)

Anna Karenina com Greta Garbo

Anna Karenina com Greta Garbo

O rap do caubói bléque

Django Unchained

que não é o samba do crazy nigger

Só o Tarantino mesmo para mixar faroeste espaguete com black exploitation. Só em um western desse cara para você ter certeza de que vai começar a tocar um rap a qualquer momento desde que a cena de tiroteio começou.  Podia ser uma ideia banal…. afinal, porque não colocar na tela de cinema um escravo fugido que vira pistoleiro e se vinga de brancos opressores em plena era pré Guerra de Secessão? Talvez porque poucos queiram mexer no modelo dos clássicos do gênero de John Wayne e Clint Eastwood. Tem herói negro policial e até superherói. Já os black cowboys passaram quase despercebidos para a história do cinema. E olha que Cowboys & Aliens, na minha super bocó opinião, é um clássico. Mas além de modelar sinistramente a figura emblemática do ex-escravo  afro-americano justiceiro, o diretor ainda junta um caçador de recompensas alemão que compra e liberta o escravo, cuja mulher, negra e escrava como ele, se chama Broomhilda (correspondente a Brünhilde, nome de personagem lendária germânica) e fala a língua de Goethe e Schiller.

Todo filme do Tarantino tem uma história assim: que começa sem dar a mínima ideia de como poderá terminar (ou que usa truques para nos enganar sobre o fim). Mas, para nossa garantia de diversão, alguns ingredientes que são marca das jornadas cinematográficas do cineasta sempre voltam. Como se fossem objetos valiosos deixados em penhor pelo caminho. A trilha sonora, por exemplo. É sair da sala de cinema e correr para baixar no iTunes imediatamente. Temas familiares do mestre Ennio Morricone (de filmes como “Os Abutres Têm Fome”)  se juntam a John Legend, que canta “Who Did That to You?”, e Jim Croce, com seu country manjado “I Got a Name”. E ainda mixaram James Brown com 2Pac. Enfim… muito f*d@!

Tem os longos e mirabolantes discursos de mentores e vilões, desta vez pelas vozes de Christopher Waltz (o caçador de recompensas que inicia Django na atividade) e Leonardo DiCaprio (o senhor de escravos em defesa de ridículas teorias novecentista sobre anatomias dos crânios). E tem a fagulha de genialidade que surge de estalo tanto nos heróis quanto nos vilões ou em quem não é uma coisa nem outra e faz a gente adorar cada segundo de realização da vingança: a personagem principal.

Uma sequência para não esquecer jamais: quando Django (Jamie Foxx) e Dr. Schultz (Christopher Waltz) chegam à propriedade de Calvin Candie (Leonardo DiCapprio), e são recebidos pelo olhar fuzilante do velho Stephen (Samuel L. Jackson, que demorei vários segundos para reconhecer). Tipo: Uncle Ben é o c@#****!!!! Pai Tomás vai se f*#@#!!!

 

Voltando à jornada de Bilbo

Como disse antes, comecei a jornada de leituras de Tolkien em 2012 com a revisita ao O Hobbit. Pareceu até que nunca tinha lido antes. E, a princípio, até achei melhor escrito do que O Senhor dos Anéis. Talvez porque tenha sido pensado como um volume único. Sem maiores pretensões para o anel que faz Bilbo desaparecer ou para o universo complexo da Terra Média. É realmente um livro mais enxuto. Mas alguns meses depois, reli a trilogia e mudei de ideia. Gosto dos dois de maneiras distintas.

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Para além das montanhas nebulosas, frias,

Adentrando cavernas, calabouços perdidos

Devemos partir antes de o sol surgir,

Buscando tesouros há muito esquecidos.

Capítulo I – Uma festa inesperada – J.R.R. Tolkien: O Hobbit

Tradução: Lenita Maria Rímoli Esteves e Almiro Pisetta

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O Hobbit

O Hobbit: a aventura que antecedeu outra

Achei estranho como o filho, Christopher Tolkien, quase não cita O Hobbit como referência em seus comentários sobre as narrativas inacabadas do pai. Fiquei com a impressão de que O Hobbit não era muito levado a sério dentro do contexto das obras sobre a Terra Média. Dizem que Tolkien criou o livro para seus filhos, mas acho que tem passagens um tanto sombrias e não deveria ser tratado especificamente como infantil ou ser considerado  menor que os outros livros do autor. Sim, há muitos recursos formais que direcionam a narrativa para crianças, tipo: “Aranhoca, aranhoca, você é uma boboca! ” Mas, ainda assim, o herói Bilbo enfrenta umas barras bem pesadas e toma decisões difíceis e maduras para manter o grupo de 13 anões na trilha da aventura. Sua malandragem também vai ajudar em planos complicados e negociações entre elfos, homens e anões, o que o torna um espião bem astuto. Sem falar no super marrento anão Thorin, Escudo de Carvalho, e o tormento que divide seu coração entre o desejo ardente de reconquistar o reino perdido e o dever de liderar o grupo.

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– Fui olhar à frente – disse ele.

– E o que o trouxe de volta bem na hora?

– O olhar para trás – disse ele.

Capítulo II – Carneiro assado – J.R.R. Tolkien: O Hobbit

Tradução: Lenita Maria Rímoli Esteves e Almito Pisetta

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Reler O Hobbit também foi bom para rever o papel dos 13 anões. Mais um elemento de identificação com narrativas infantis. E é uma das coisas que tornam o livro um clássico. É… São muitos anões. E muitos tipos.  Thorin é o líder durão. Balin, o mais velho e experiente. Fili e Kili são os jovens encrenqueiros, como Merry e Pippin de O Senhor dos Anéis. Mas vou destacar o fofíssimo Bombur, que sonha com comida e sofre ao despertar para a jornada de fome que o grupo enfrenta em muitos momentos.

The Hobbit (ilustração de Sam Bosma)

The Hobbit (ilustração de Sam Bosma)

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Ali no fundo, na beira da água escura, vivia o velho Gollum, uma pequena criatura viscosa. Não sei de onde veio, nem quem ou o que ele era. Era um Gollum – escuro como a escuridão, exceto por dois grandes olhos redondos e pálidos no rosto magro.

Capítulo V – Advinhas no escuro – J.R.R. Tolkien: O Hobbit

Tradução: Lenita Maria Rímoli Esteves e Almiro Pisetta

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O Hobbit é uma pílula ultra concentrada de aventuras. Acontece tanta coisa que a gente até se esquece. Relembrando a história ao assistir a primeira parte da trilogia do Peter Jackson, fiquei pensando no tantão de encrenca que ainda vai rolar. O salão de Beorn, a fuga nos barris, a Cidade do Lago, o Dragão Smaug e a Batalha dos Cinco Exércitos.

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As águias desceram rápidas para o topo da rocha, uma a uma, e apearam seus passageiros.

– Boa viagem! – gritaram elas -, por onde quer que viajem antes que seus ninhos os recebam no fim do caminho! – É a coisa educada que se deve dizer entre águias.

– Que o vento sob suas asas possa levá-las para onde o sol navega e a lua caminha – respondeu Gandalf, que sabia a resposta correta.

Capítulo VII – Estranhos alojamentos – J.R.R. Tolkien: O Hobbit

Tradução: Lenita Maria Rímoli Esteves e Almiro Pisetta

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O filme

É meio que um chavão dizer que assistir ao filme é como voltar para um lugar que se ama. Mas, fazer o que? É isso mesmo. Logo que começam a exibir as vinhetas dos estúdios produtores ao som do tema de Howard Shore, você lembra porque ama aquilo tudo. E pode-se amar tanto que nem incomoda as licenças artísticas. O Radagast e seus bichinhos bizarros tem algo de Guillermo Del Toro, que colaborou no roteiro. Aquela narrativa da queda de Erebor também parece cheia de impressões digitais do cineasta mexicano. Mesmo espremendo para a tela personagens e situações que não aparecem no livro (Galadriel, Elrond e outros), continuo achando que o filme reverencia a obra mais do que exagera nas “viagens”.

Primeira parte da jornada

Primeira parte da jornada

Não estranhei os 48 quadros por segundo. Só me causou a impressão de estar diante de uma tela gigantesca de TV HD. Mas a textura me pareceu mais para vídeo do que película.  Realmente a alta definição da imagem possibilita uma riqueza maior de detalhes que revelam mais de um filme acontecendo em planos diferentes. Na cena da perseguição dos goblins aos anões, que buscam a entrada para Valfenda, isso fica bem evidente. Cada warg era um personagem único, com movimentos e trejeitos próprios.

Ainda não sei dizer se foi uma boa escolha contar tudo em 3 partes e não 2. Mas, concordo que é um filme feito mais para fãs de Tolkien e da trilogia anterior do que para quem não é muito ligado no universo da Terra Média. Acho que os fãs irão curtir melhor as quase 3 horas de projeção e aguardar as próximas partes da aventura com mais ansiedade. Vem aí Beorn, o troca-peles. E a sensacional conversa de Bilbo com Smaug.