A história alternativa

Philip K. Dick: O Homem do Castelo Alto

Philip K. Dick: O Homem do Castelo Alto

Quando terminei de ler O Homem do Castelo Alto, pensei: é isso mesmo? Não entendi nada? E tive que recapitular vários trechos para prestar atenção nas chaves escondidas que abriam portas secretas. Engraçado como estava com as idéias do post anterior sobre sonhos e realidades na cabeça, mas não entrei na onda do livro. Parecia somente um romance que imagina o mundo em 1962, tendo as forças do Eixo ganhado a Segunda Guerra Mundial. E imersa nessa idéia – que combinei comigo mesma e mais ninguém –  li todo o livro, mas derrapei nas implicações metafísicas plantadas ao longo das páginas.  Pois não é somente isso. Não apenas sobre possíveis desdobramentos históricos. É um tanto mais profundo e ousado.

Pesquisando por aí, descobri que o autor, Philip K. Dick, inspirou-se em diversas fontes clássicas para construir o romance. Inclusive um livro que imagina como seriam os EUA se os Confederados do sul tivessem vencido a Guerra Civil Americana. Mas o que me deixou curiosa é que o escritor não costuma ser comparado a nenhum outro autor do gênero ficção científica, embora eu tenha lembrado um pouco de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, em algumas passagens. O legal é que tanto Dick quanto Huxley foram escritores apaixonados por literatura, mas não somente ou especificamente a da tradição de Julio Verne. Dick lia Joyce, Kafka, Steinbeck, Proust, Dos Passos e Ibsen.

James Joyce é uma referência bem evidente em O Homem do Castelo Alto. Parte da narrativa do romance de Dick transcorre no universo íntimo de cada personagem, como os acontecimentos da vida de Stephen Dedalus, em Retrato do Artista Quando Jovem. Os conflitos extremamente profundos entre o mundo real e os valores pessoais, vividos por Robert Childan,  Mr. Tagomi, Frank Frink e Juliana Frink, estão em coerência com a trama complexa e cheia de jogos de ilusões, falsificações, disfarces, duplas identidades, em meio ao  terrível cenário distópico criado pelo autor.

Outras capas de The Man in The High Castle

Outras capas de The Man in The High Castle

Então,  o mundo em 1962 é dominado pelos alemães e japoneses, que são os grandes vencedores da Segunda Guerra Mundial. Os italianos não são muito expressivos em sua partilha da vitória sobre os aliados, mas dominam territórios do norte da África e oriente médio. O regime nazista exterminou praticamente todos os judeus da face da terra e promoveu o massacre da população africana também quase por completo. Os poucos africanos que sobreviveram foram submetidos à condição de escravos. Outro tanto de judeus conseguiu escapar dos campos de extermínio vivendo sob disfarce. A cultura norte-americana foi subjugada. Estrelas de Hollywood deram lugar aos astros dos estudios da UFA. A bomba de hidrogênio foi uma conquista alemã, assim como as viagens espaciais e a colonização de outros planetas. O mar Mediterrâneo foi drenado e transformado em campos agrícolas. O território norte-americano foi dividido em Estados Unidos (de influência alemã), Estados Americanos do Pacífico (território onde se passa o romance inclui toda a costa oeste americana e é dominado pelos japoneses) e a zona neutra das Montanhas Rochosas.

mapa alternativo

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Mais capas

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E tem o livro dentro do livro. The Grasshopper Lies Heavy (O Gafanhoto pousa pesado) é uma obra proibida pelos alemães, porém tolerada nos territórios do império nipônico. O livro, lido por alguns personagens, conta outra história alternativa do mundo em que os Aliados (Inglaterra, EUA, França e Rússia) ganham a guerra. Mas, de acordo com o livro, essa também não é uma alternativa, digamos, exatamente feliz… O autor do livro é Hawthorne Abendsen, o tal homem do castelo alto.

A destruição das culturas dos povos subjugados e a delirante noção de superioridade nipo-germânica conduzem a uma sensação generalizada de paranóia. Os personagens vivem dilemas constantes sobre sua própria identidade, seu lugar no mundo, seu destino. Mas é como se essa dicotomia fosse uma idéia frágil, ilusória. Os próprios nazistas hesitam em acreditar em Hitler, Goebbels ou Göring. Alguns personagens recorrem ao I Ching ou O Livro das Transmutações para decidir que rumo tomar na vida. E esse Oráculo da sabedoria milenar chinesa vai revelar muito mais que o futuro ou o destino daquela realidade.

e mais capas

e mais capas

Acho que caí na armadilha virtual de Philip K. Dick. Li o livro sem decifrar direito as charadas do I Ching, as entrelinhas de The Grasshopper lies heavy ou os diálogos enigmáticos entre Mr Childan e Mr. Kassoura. Passei pelas páginas como os personagens do livro. Com um olhar iludido por uma coisa que parecia bastante com uma realidade.

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Guia Webdebee para O Homem do Castelo Alto

O Livro – leia ou baixe a obra nessa página do Scribd. A edição que li é 1987, pela Circo de Letras. A desse link é outra edição de 1971, quando o autor ainda era vivo. Tem uma introdução maior e conta que Philip gostava de Ibsen, de gatos e ouvia Monteverdi e Buxtehude. Jóia rara.

Philip K. Dicksite oficial do escritor. Parece bem completo, mas não naveguei muito.

The Man in the High Castle (a big fat spoiler) – esse verbete da Wikipedia é um total estraga prazer da leitura, mas lança algumas luzes interessantes. É como discutir episódios de Lost ou Fringe com amigos e ficar pensando: “putz… é mesmo. Porque não notei isso?” Tem até o mapa mundi com a divisão territorial do Eixo. As informações sobre o autor também são legais. As idéias de O Homem do Castelo Alto voltam em outros romances como Do Androids Dream of Electric Ship (que inpirou o filme Blade Runner), que vou começar a ler em seguida (pelo menos, acho que não vou resistir…).

I Ching ou O Livro das Transmutações – está entre muitas coisas que adoraria aprender como piano, cabala, yoga, dança flamenca, tai-chi, violão e kung fu. Já tentei a versão virtual do UOL, mas achei tão, tão difícil…  Mais sobre o Oráculo.

Mini-Série da BBCRidley Scott está produzindo para a BBC1. Oba oba oba!  Prometida para 2011. Não sei como ainda não filmaram isso, mas será que conseguem chegar no mesmo nível do filme Blade Runner?

capas e o autor (à direita)

capas e o autor (à direita)

Infelizmente não pude ler fazendo anotações e tags com post-it amarelo como gosto de fazer. Então, fico devendo um glossário. O livro tem um monte de expressões em alemão. Mas nada que o oráculo Google não ajude. 🙂