O dom da empatia

Perguntara-se, como, aliás, fizera a maioria das pessoas uma vez ou outra, precisamente por que um androide saltava impotente, de um lado para outro, quando submetido a um teste de medição de empatia. Empatia, evidentemente, existia apenas na comunidade humana, ao passo que inteligência em algum grau podia ser encontrada em todas as filas e ordens, incluindo os aracnídeos. Pelo menos, a faculdade de empatia provavelmente requeria um instinto grupal intacto; um organismo solitário, como uma aranha, não teria utilidade para ela; na verdade, tenderia abortar a capacidade da aranha de sobreviver. Torná-la-ia consciente do desejo de viver de sua presa. Daí, se a possuíssem, todos os predadores, mesmo os mamíferos altamente desenvolvidos, como os gatos, morreriam de fome.

A empatia, chegara ele certa vez à conclusão, forçosamente devia limitar-se a herbívoros ou, de qualquer maneira, a onívoros que podiam abster-se de uma dieta de carne. Isto porque, em última análise, o dom da empatia tornava indistintas a fronteira entre caçador e vítima, entre os bem-sucedidos e os derrotados.

— Philip K. Dick: O Caçador de Androides (Do Androids Dream of Electric Sheep?)

o dom da empatia

Desejo de viver

A identidade e o prejuízo da morte

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