A transgenia dos sonhos

Inception (A Origem)

Inception (A Origem)

Da série de posts ridiculamente atrasados…

Como a vida, tudo começa numa medida pequena, invisível, imperceptível, insignificante. Um peteleco num cisco preso na lã do casaco ou uma piscada de olho de um piolho e voilà! Algo começa. As idéias podem estar dormindo como sementes microscópicas na memória. Mas quando ganham corpo, quem sabe até onde irão ou qual dimensão irão alcançar?

Esta semana fiquei lendo um daqueles adoráveis forros de bandeja do McDonald’s. Coisas simples como uma gota d’água dão origem a algo simplesmente fantástico como ondas no oceano. Achei uma das melhores campanhas da rede de fast-food. O ilustrador chama-se Hiro Kawahara. Tirando o item da ostra e o colar de pérolas (pois a ostra, sim é fantástica e não o colar), simplesmente adorei.

Simples e Simplesmente. Campanhad as bandejas do McDonald's

Simples e Simplesmente. Campanha das bandejas do McDonald's.

Christopher Nolan é conhecido por seus filmes quebra-cabeça, como Amnesia e The Prestige (O Grande Truque). Também, é claro, é o realizador dos dois filmes do Batman mais inteligentes já feitos. Então, depois de uma coisa como o Cavaleiro das Trevas, a expectativa em relação ao Inception (A Origem) era enorme.

Vejo a idéia central de Inception como um jogo que se passa no outro plano da vida. O plano que se dá nos sonhos.

Os sonhos ocupam boas horas de quem vive. Se vive nos sonhos. Há vida neles. Às vezes resolvo problemas num sonho, para acordar depois e perceber que não resolvi coisa alguma. Mas às vezes os sonhos realmente ajudam a resolver os problemas. Um sonho pode cansar. Como quando estudava dança e fazia exercícios na barra dos sonhos e acordava com a sensação de que não precisava ir à academia naquele dia. Podemos sonhar com algo que estamos esperando para acontecer e acordar achando que já fizemos, para depois descobrirmos que temos que fazer tudo de novo.

Inception

a anti-lógica dos sonhos

Minha irmã sonha frequentemente que pode voar. Eu sonho que posso flutuar. Que a gravidade é fraca e posso me desolcar sem precisar pisar no chão. Então, se nos sonhos podemos eliminar paradigmas como a gravidade, estaríamos falando de um lugar para testes? Seria o sonho um louco laboratório da vida desperta? Uma experiência alternativa da vida? Plantar uma idéia em um universo com outra lógica (ou sem ela) poderia ser um experimento controlável? Será que, como em Matrix, em que as personagens fazem download de habilidades, como pilotar helicópteros, podemos experimentar coisas ou aprendê-las sonhando? Será que veremos o dia da manipulação da vida sonhada? O surgimento da biotecnologia dos sonhos. Se, nos sonhos, podemos tudo, mas não podemos manipulá-lo, e se na vida acordada, não podemos tudo, mas temos mais chances de controlar o caminho, haveria um jeito de inverter os parâmetros? Imagino poder encomendar sonhos bons. Pego o cartão de crédito e pago por uma pílula dos sonhos programados.

Inception (A Origem)

Dream designers. Dream hackers.

Mas somos nós, os seres despertos, os mesmos que vivem nos próprios sonhos?

Tem um filme com a Demi Moore chamado Passion Mind (Paixões Paralelas), de Alain Berliner, em que ela vive uma vida desperta e outra dormindo. Acordada, ela é Marty, uma executiva solteira e rica de Nova York. Dormindo, é Marie, uma dona de casa viúva com filhos no interior da França. Ou pode ser o contrário. As duas Demi Moores anseiam pelo adormecer-despertar para a vida uma da outra. Não é grande coisa o filme, mas o conceito é interessante. Lembra um pouco o “A Dupla Vida de Veronique”, do Kieslowski. Mas este último não é exatamente sobre sonhos.

E afinal, um dos baratos da vida não é ter a porção sonhada compartilhando o corpo e a mente da porção consciente? Uma porção pode ajudar a outra, mas também podem destruir-se mutuamente?

cinema, literatura, imaginário dos sonhos

cinema, literatura, imaginário dos sonhos

Ontem, conversando com minha irmã sobre o rascunho deste post, ela mencionou um conto de Julio Cortázar que leu há muito tempo, sobre uma mulher que sonha com a vida de outra e as duas trocam de lugar. Acabamos encontrando o conto na coletânea Bestiário. Chama-se Lejana e é narrado em forma de diário escrito por Alina Reyes. Alina tem dificuldade para dormir e inventa anagramas e palíndromos para cair no sono. Mas sonhar significa viver como sua parte distante, la lejana: a outra mulher que vive mendigando pelas ruas geladas de Budapeste. Alina odeia a outra porque sente seu sofrimento, mas ao mesmo tempo, vê-se culpada e preocupada. Quando escreve no diário, usa a primeira pessoa, mas confunde-se entre o que acontece a ela e o que sofre a outra. Sonha com a outra ao dormir e também acordada enquanto ouve concertos de Fauré, Mozart e Chopin. Nesses momentos torna-se la lejana. E tem uma ponte sobre o Danúbio. A fronteira, o ponto de encontro entre as mulheres distantes. Alina é consciente dessa ponte em Budapeste, do frio e de sua porção  distante que deve encontrar lá. Deseja irresistivelmente chegar à ponte para o abraço com a outra. ” Ceñía a la mujer delgadísima, sintiéndola entera y absoluta dentro de su abrazo, con un crecer de felicidad igual a un himno, a un soltarse de palomas, al río cantando. “

Nos volumes da HQ Sandman, de Neil Gaiman, há uma exploração vastíssima do universo e das possibilidades e concepções do sonho. Lugares sonhados (como Fidler’s Green, o lugar-sonho). Guardiões de livros que só existem em sonhos. Pessos que sofrem de insônia ou que não conseguem acordar. Pesadelos. Gente que entra nos sonhos dos outros, que rouba sonhos, que não consegue sonhar, que controla sonhos alheios, que se refugia em sonhos, que aprisiona outros em sonhos. Além da antropomorfização do sonho. O sonho é um moreno esguio e alto, cujos olhos são como uma noite estrelada. Sonho (ou Sandman ou Morfeu) é irmão de Morte, de Destino, de Desejo, de Desespero, de Delírio e de Destruição. Quando Sonho é aprisionado por um bruxo (evento que acontece no primeiro volume da série, Prelúdios e Noturnos), a humanidade enfrenta anos de distúrbios e privações dos sonhos. O grande príncipe tecedor dos sonhos fica fora de combate por várias décadas até se libertar e iniciar a jornada de restauração de seu reino.

Inception (A Origem)

a arquitetura dos sonhos

Inception conta uma história um tanto apressada de pessoas que se infiltram em sonhos. E sobre as tecnologias e estratégias que as ajudam a invadir sonhos para alterar o curso “natural” da vida desperta. Alguns personagens criam lugares secretos nos sonhos para onde desejam voltar. Outros querem convencer pessoas a decidir por algo que irá trazer vantagens na vida acordada. Uns querem viver só nos sonhos. Outros podem matar outros nos sonhos. Morrer nos sonhos. Será possível?

Ariadne (Ellen Page) é uma arquiteta contratada por Cobb (Leonardo di Caprio), um dos dream hackers, para criar cenários dos sonhos. Como Teseu, que precisa de Ariadne para sair do labirinto, sem os designers de sonhos, fica difícil sair deles ou se proteger das armadilhas.  Exatamente como um jogo, mas em que as regras evoluem num universo de anti-lógica. Outro personagem interessante é Eames (Tom Hardy), o enganador, que se faz passar por outras pessoas nos sonhos para iludir os sonhadores. Como uma Mística (a mutante azul dos X-Men) do mundo dos sonhos.

Inception (A Origem)

a semente que gira invisível nos sonhos

Na vespera da estréia do filme nos cinemas, li esse texto muito bom da Ana Maria Bahiana. Mas não sei se ocorreu comigo o mesmo de quando vi O Cavaleiro das Trevas (do qual tive grandes expectativas, mas precisei ver de novo para apreciar como se deve), ou se realmente ficou faltando algo na história de Inception. Não é um conceito simples. Uma idéia tão grandiosa, que talvez tenha faltado sonhar mais com ela. Seria este um filme para completar a experiência sonhando? Uma semente para germinar no rascunho e na edição de um post? Food for thought? Food for Dreams?

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