EVA YERBABUENA. O arrebatamento em gestos mínimos

Eva Yerbabuena

Eva Yerbabuena

 

Dança flamenca pode ser uma parada extremamente cafona. Aqueles vestidos cheios de babados estampados de preto com bolinhas vermelhas ou branco com bolinhas laranjas… Minha viagem à Espanha em 98 teve uma baita frustração com a apresentação de um suposto espetáculo de flamenco numa casa de shows no Parque del Retiro, em Madri. O que assisti foi um horrendo show tipo “Plataforma”, com dançarinos atuando sobre um palco com linóleo e música pré-gravada. Enfim… falta uma viagem a Sevilha para ver flamenco de verdade. 

O fato é que se estabeleceu um clichê sobre o gênero no imaginário da humanidade. Tem um balé do grupo francês Montalvo-Hervieu que apresenta um quadro muito engraçado com uma bailarina de flamenco e um outro carinha tentando acompanhá-la. Ela sapateia com raiva gritando “- Baila, hombre! Baila Baila!” Como se no universo da dança, as bailarinas de flamenco representassem a mulher temperamental, sempre com a sombrancelha erguida, a testa franzida, esperneando de raiva.

Mas eu acho uma das formas de arte mais refinadas que uma civilização pode produzir. Para começar, é resultado de manifestações culturais de diversas etnias. E ainda aglutina outras modalidades artísticas, pois conta com o som dos cantantes, guitarristas, palmas… Aliás os bailarinos flamencos também são músicos. Não só dançam como também “fazem” a música com o próprio corpo. Uma amiga bailarina me disse uma vez que dançar é “ser” música. E no flamenco, isso é mais extremo que no balé clássico. O sujeito dança ao sabor da música (assim como nos silêncios também…) e ainda usa as palmas, estala os dedos, bate as castanholas e os pés para produzir música.

E ainda tem a arte da confecção do vestuário. Os vestidos (nem sempre com babados…), acessórios de cabeça, sapatos, tudo compõe a cultura flamenca.

“Lo mejor de la noche es el silencio, porque en él se descubre, o que la luz no tiene la importancia que creemos, o que en la oscuridad la vida es más intensa. ”

Essa frase, retirada do site de Eva Yerbabuena, é parte do texto que sumariza o espetáculo Santo y Seña, que sua companhia de dança apresentou no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em maio deste ano. Eva é uma artista arrebatadora. Com movimentos mínimos e sob um feixe suave de luz, despeja toda uma tradição de séculos da rica cultura espanhola. Uma linhagem ancestral de grandes bailarinos, coreógrafos e músicos “fala” através de cada gesto de Eva. Ela dança nos sons e nos silêncios. Como se ouvisse algo vindo de um outro mundo ou um outro tempo. Seu corpo é o veículo mágico que nos transporta, através de sombras elegantes e misteriosas, à totalidade, à profundidade de uma cultura.

 

Eva Yerbabuena. Mistério dos gestos no silêncio.

Eva Yerbabuena. Mistério dos gestos no silêncio.

 

No programa do espetáculo, há um texto que ressalta o mistério da origem do flamenco. De fato, é uma prática misteriosa. Um dia desses, vou tomar coragem e me matricular numa aula para aprender um pouco dessa arte. É que tenho um certo medo… Tenho a impressão de que, quando ouvir a guitarra e as palmas tomando conta do ambiente, algum antepassado vai querer baixar por aqui… sei lá… É uma dança que compactua com os batimentos cardíacos e com o ritmo da respiração, e, ao mesmo tempo, subverte a ordem interna e externa do corpo. 

 

 

 

*LINKS PARA SABER MAIS 

Site Oficial de Eva Yerbabuena 

Site da companhia de dança Montalvo-Hervieu

Sobre a arte flamenca

 

 

*RECOMENDAÇÕES TOP3

1 – Dança – Companhia de Ballet Flamenco Eva Yerbabuena (vamos torcer para ela voltar sempre ao Brasil)

2 – Filmes – Trilogia Flamenca do diretor Carlos Saura (Amor Brujo, Bodas de Sangue e Carmen) com dois ícones da arte: Antonio Gades e Cristina Hoyos

3 – Dança – Falta assistir à Sara Baras. Essa é outra poderosa que aguardo ansiosamente! Veja no Youtube e no site oficial.