Lugar de gênios

O maior recurso – desmedidamente abundante e do qual Atenas soube fazer um uso louvável – foi a criatividade genial dos artistas, dos pensadores e dos políticos que confluíram naquele que talvez permaneça até hoje como o mais denso aglomerado de gênios de todos os tempos. Basta uma olhada nas datas: em 500 nasce Anaxágoras; em 499, Ésquilo estréia em Atenas; em 496 nasce Sófocles; em 495, Péricles; em 484 nasce Heródoto; Eurípedes nasce no ano 480; Sócrates, em 469, e em 460 nascem Demócrito e Tucídides; Aristófanes vem ao mundo em 450 e Píndaro parte dele em 438; Xenofonte nasce me 430; Platão, em 427; Diógenes, em 413, e em 384 nascem Demóstenes e Aristóteles; Teofrasto nasce em 372. Se a esses personagens se somam Fídias, Lísipo, Policleto e Zeusi, todos eles ativos em Atenas no mesmo período de tempo, e caso se levem em conta que até esse período, conforme já vimos, as ondas do progresso humano haviam procedido em ritmo muito lento, de milênios ou de milhares de milênios, damo-nos conta da grandeza da aceleração que os gregos souberam imprimir à história da criatividade.
— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 6: O homem descobre a sabedoria e inventa o ócio

Heródoto

Heródoto

Ésquilo

Ésquilo

 

Aristóteles

Aristóteles

Péricles

Péricles

Cópia romana da cabeça de Alexandre Magno de Lisipo no Museu Arqueológico de Istambul.

Cópia romana da cabeça de Alexandre Magno de Lisipo no Museu Arqueológico de Istambul.

 

 

 

 

Resistência à mudança

Todas as descobertas e todas as invenções implicam uma transferência de poder e uma mudança de hábitos, despertando, portanto, medo, desconfiança, resistência e atraso. Fernando IV dos Bourbons dizia que “é mais fácil perder um reino do que um hábito”.
— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 5: O homem descobre o ferro e inventa o cansaço

Retrato de Fernando IV

Retrato de Fernando IV

 

A revolução do ferro

A vicissitude histórica do ferro, a longa incubação dos métodos para forjá-lo, a dimensão mágica que assumiu a transformação desse maleável metal incandescente em armas e utensílios: a resistência de alguns povos ao seu uso e a rapidez com que outros souberam colher as oportunidades e construir, com base nelas, a sua fortuna, assim como as consequências catastróficas para algumas classes sociais e para alguns regimes de governo e o impulso que resultou disso para a criação de novas formas de comunidade civil e de constituição política, todas essas desordens e agitações – das quais a tecnologia tirou a psicologia, a sociologia e a política – oferecem a ocasião para refletir sobre o destino e sobre o temor às novidades, sobre a resistência às mudanças, sobre o cultural gap e sobre o recalque do declínio: todos fenômenos que pontualmente se repetem a cada etapa do progresso, da aurora da nossa história até os casos atuais a respeito da energia nuclear, da informática e das biotecnologias.
— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 5: O homem descobre o ferro e inventa o cansaço

maleável metal incandescente

maleável metal incandescente

Velazquez: A Forja de Vulcano (Museo Del Prado, Madrid)

Velazquez: A Forja de Vulcano (Museo Del Prado, Madrid)

 

E o cérebro enriqueceu-se

Do ponto de vista morfológico, o cérebro foi gradualmente enriquecendo-se. O sistema neo-mamífero reúne características do paleo-mamífero e do proto-réptil (se quisermos adotar a subdivisão proposta por MacLean). O proto-réptil limita-se a gerir os comportamentos estereotipados e predeterminados, que não exigem flexibilidade com respeito aos estímulos ambientais. O paleo-mamífero, que está na base das emoções e das sensações prazerosas ou desprazerosas, molda o comportamento humano a partir dos estímulos ambientais. O neo-mamífero é capaz de analisar e transformar os sinais, sistematizando-os em coordenadas espaço-temporais, elaborando conceitos e projetos e compondo sínteses entre a fantasia e a concretude, isto é, criando.

—  Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 2: O Homem Descobre a Imperfeição e Inventa a Palavra

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o cérebro foi gradualmente enriquecendo-se

 

 

Origens neolíticas das ciências organizacionais

É surpreendente descobrir que muitos conceitos destinados a se tornar básicos nas business schools do século XX foram pela primeira vez formulados no período neolítico. A divisão do trabalho, a criteriosa combinação da força de trabalho abstrata com a força de trabalho concreta, a solução dos conflitos, o controle e a motivação dos homens, a valorização do trabalho intelectual, a estrutura hierárquica, a rede de organizações interligadas, a interação entre sistema e ambiente, o relacionamento entre staff e line, a planificação estratégica, o controle financeiro da gestão, o cuidado com a imagem e, de certa forma, a publicidade são todos invenções sociológicas realizadas entre os anos 3500 e 2500 a.C., ou conduzidas naquele período até formas de surpreendente sofisticação.

— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 4: O homem descobre a semente e inventa o Estado

Divisão do trabalho

Invenções sociológicas dos anos 3500 e 2500 a.C

Conceitos básicos do século XX

 

gestão de pessoas

 

Invenções coletivas

Grande parte das invenções humanas mais surpreendentes – do alfabeto ao Estado, dos veleiros à piadas, das festas ao arado, da tesoura à Magna Carta – não possui um “alguém que as imaginou”, pois elas são frutos de progressivos ajustes e colaborações coletivas, seja nas suas criações, nas suas realizações, nos seus aperfeiçoamentos, na sua difusão, assim como nas suas aplicações.

— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 4: O homem descobre a semente e inventa o Estado

Do alfabeto

Do alfabeto ao Estado

A Magna Carta

Da tesoura à Magna Carta

Paraíso, trabalho e ócio

As figurações do paraíso, portanto, e a inexaurível criatividade que as coloriram constituem outras tantas fontes copiosas de informações sobre como o homem teria desejado viver sobre esta terra e sobre o que ele entendia por felicidade. Naquilo que nos diz respeito de forma específica, elas nos oferecem testemunhos indiretos originais para reconstruir não só as formas de criatividade que o homem produziu, mas também a relação ambígua de ódio e amor que ele manteve seja com o trabalho (em relação às suas causas, ao trabalho em seu conjunto, como fonte de sustento e de fadiga), seja com o ócio (suas causas, o ócio como um todo, como fonte de gozo e de vício).

— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 3: O Homem descobre os símbolos e inventa o além

"O Jardim das Delícias Terrenas" de Hieronymus Bosch (cerca de 1450–1516) - Museo del Prado, Madrid

“O Jardim das Delícias Terrenas” de Hieronymus Bosch (cerca de 1450–1516) – Museo del Prado, Madrid