O mundo é uma parte inseparável do indivíduo

Referindo-se à criatividade individual, Rollo May escreveu: “Entre o mundo e o ego e entre o ego e o mundo desenvolve-se um processo dialético ininterrupto; um subentende o outro, e nenhum dos dois pode ser definido omitindo o outro. É por isso que não podemos nunca localizar a criatividade como um fenômeno subjetivo; não a podemos estudar, nunca, simplesmente nos termos do quanto se desenvolve no íntimo do indivíduo. O pólo do mundo é uma parte inseparável do indivíduo em questão… Não podemos falar da ‘pessoa criativa’; podemos falar apenas do ‘ato criativo’, porque o que ocorre é sempre um processo, uma ação; especificamente, um processo que põe em relação a pessoa e o seu mundo.”

— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 12 – A Contribuição da Psicologia

Processo criativo

Processo dialético ininterrupto

 

Podemos gerar alma em nós

Se o instinto criativo é dado a cada um de nós, e com ele, também, a sua modificação pela psique, não podemos mais manter cisões e fendas entre o homem e o gênio… Mesmo sem talento artístico, mesmo privado da força egóica da grande vontade, mesmo sem a boa sorte, pelo menos uma forma do criativo está continuamente disponível para cada um de nós: a criatividade psicológica. Criar alma: podemos gerar alma em nós. Ou, como diz Jung: “Mas quem, eventualmente, poeta não é, cria o quê? Se alguém não tem mesmo nada para criar, pode talvez criar a si mesmo.”
Também John Keats, a quem talvez devamos a mais bela definição de obra de arte, tinha escrito: “Aquilo que é criativo deve criar a si mesmo.”

— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 11 – A Contribuição da Psicanálise, citando James Hillman (que cita Jung) e Keats.

podemos gerar alma em nós

Carl Gustav Jung

Portrait of John Keats by William Hilton. National Portrait Gallery, London

Portrait of John Keats by William Hilton. National Portrait Gallery, London

 

Circuitos criativos

(…) cada indivíduo difere de todos os outros, mas ao mesmo tempo, todos trazem a sua origem de uma propriedade criativa comum a todo o gênero humano, porque cada um de nós é possuidor de circuitos cerebrais fundamentalmente iguais e elabora a informação que chega ao mundo exterior mediante os mesmos processos (…).

— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 10 – A Contribuição das Neurociências, citando Rita Levi-Montalcini

propriedade criativa comum a todo o gênero humano

propriedade criativa comum a todo o gênero humano

 

O ícone da criatividade

Já estamos distantes dos tempos em que Newton trabalhava sozinho. A Internet, resultado de tantas contribuições e sínteses sublimes de ciência e estética, da subjetividade e do convívio, de business e de no profit, representa agora a metáfora mais eloquente, o próprio ícone da criatividade pós industrial.

– Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 9: O homem descobre a criatividade e inventa o futuro

internet

contribuições e sínteses sublimes

 

O salto pós-industrial

No seu texto que ser tornou um clássico, The Coming of Post-Industrial Society (…), Daniel Bell sustenta que um sistema social não pode galgar o dispositivo pós-industrial se antes não passou pelo industrial. Porém, a história não aconteceu assim: áreas como Detroit e Turim, completamente industrializadas, não foram capazes de realizar o salto pós industrial que, contrariamente, foi muito bem-sucedido em zonas rurais como o Vale do Silício ou em zonas urbanas pouco industrializadas como a região de Boston. O fato é que é preciso ser criativo para se tornar campeão de criatividade, e nem sempre a experiência industrial, com a padronização, a divisão de tarefas, a repetitividade e a linha de montagem mantêm o verniz da imaginação e da fantasia.

– Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 9: O homem descobre a criatividade e inventa o futuro

Detroit

Detroit

 

Vale do silício

Vale do Silício

 

As pulsações do progresso

Hoje a ciência e a técnica desenvolvem-se segundo um ritmo mais uniformemente acelerado, mas não foi sempre assim. As carruagens nas quais os nossos bisavós viajavam tinham uma velocidade mais ou menos igual à das carroças assírias e das bigas romanas. Já os automóveis duplicaram de velocidade no decorrer de 70 anos. Os microprocessadores, fiéis à lei de Moore, dobraram de potência a cada 18 meses. E as fibras óticas, a cada nove meses.

– Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 9: O homem descobre a criatividade e inventa o futuro

carroça tração animal

carroça tração animal

28º Salão Internacional do Automóvel de São Paulo

28º Salão Internacional do Automóvel de São Paulo

Seis bilhões de cérebros

Como já recordamos, quando teve início a revolução agrícola, cerca de 10.000 anos atrás, toda a população mundial não superava os cinco milhões de habitantes. Hoje somos seis bilhões e, quando lembramos disso, a primeira coisa que pensamos é que se trata de seis bilhões de barrigas para encher. Mas a questão pode ser vista também de outro ângulo: todas as noites seis bilhões de cérebros adormecem e começam a sonhar formas, objetos, ideias, cores, sons, jogos, negócios, sociedade, convivências e conflitos inéditos, boas ações, torturas e iniquidades de tudo que é tipo; e todas as manhãs seis bilhões de cérebros acordam e começam a pensar em como traduzir na prática esses sonhos. E às vezes conseguem.

– Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 9: O homem descobre a criatividade e inventa o futuro

máquinas de sonhos

máquinas de sonhos