A cosmogonia da Terra Média

Ler O Silmarillion e Contos Inacabados não é para preguiçosos como eu. Não que seja difícil de entender ou que o texto seja rebuscado ou que a narrativa seja tediosa. Mas não pode ser feita uma leitura vaga e informal. Tem que se dedicar a formar um mapa mental do universo criado pelo autor. E tem que amar esse universo. Um mundo que se originou da música. Os sons produzidos por seres divinos e ancestrais nutriram as sementes que formaram o universo de Gandalf, Bilbo, Sauron, Aragorn e Galadriel.

O Silmarillion

Um universo nascido da música

Entretanto, quando eles entraram no Vazio, Ilúvatar lhes disse – Contemplem sua Música! – E lhes mostrou uma visão, dando-lhes uma imagem onde antes havia somente o som. E eles viram um novo Mundo tornar-se visível aos seus olhos; e ele formava um globo no meio do Vazio, e se mantinha ali, mas não pertencia ao Vazio.

Do Ainulindalë de O Silmarillion

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Já pensou se ninguém desse a mínima para o que Tolkien fazia? A vida toda colocando um tijolinho aqui e outro ornamento ali nas tramas da Terra Média. Desde as trincheiras da Primeira Guerra Mundial ao campus de Oxford, o exercício do filólogo e linguista se misturava ao  do ficcionista cheio de imaginação. A empreitada do autor para construir um universo autônomo, que inclui uma origem mítica, geografia (tem capítulo inteiro dedicado a descrever a geografia de um segmento da Terra Média, que acabara de nascer), botânica, geologia, astronomia, culturas, línguas (Sindarin, Telerin, Quenya, Westron etc.) e tudo o mais próprios, permaneceu parcialmente em seus sonhos.  A vida de John Ronald Reuel Tolkien não foi suficiente para elaborar todas as histórias que sonhou. Mas, que importa isso? Mesmo as lacunas e incoerências (algumas são comentadas nos livros pelo filho, Christopher Tolkien) não tiram o fascínio pela obra.

“- Mas quantas léguas separam Edoras de Minas Tirith?”  “- Sr. Tolkien, como surgiram os beornings?”  “- Prof. Tolkien, que língua falavam os druedain?” O inventor da Terra Média, dos valar, das silmarills e dos anéis de poder, criou uma espécie de monstro gigante. Uma criatura incontrolável, imprevisível e insaciável feita de admiradores e estudiosos de sua obra, que não param de questionar até hoje a respeito dos personagens, histórias, paisagens , línguas, aspectos etnográficos dos povos, entre os mais diversos assuntos. Leitores, alunos e amigos enviavam cartas e interrogavam o autor, como se ele tivesse respostas para tudo. É como quando perguntamos a uma avó ou aos pais como era mesmo aquela história ou porque o personagem agiu assim. “- Mas vovó, o que o gigante, que morava no alto do pé de feijão plantado pelo João, comeu para ficar tão grande???”

É bom ler Contos Inacabados com O Silmarillion do lado. Tem muitos nomes e genealogias dos valar, elfos, anões e homens. Lá pelas tantas, perdi a noção de quem eram Manwë e Nienna, Gil-Galad, Tuor e Túrin ou de onde fica Dol Guldur. O glossário, os mapas e as genealogias no final de O Silmarillion ajudam e os apêndices do TLOTR também. Bom também seria ter um compêndio. Mas imagino que o melhor mesmo seria ler uma edição para tablet. A edição viria com um aplicativo trazendo referências ilustradas e fáceis de consultar, tipo um guia automático nas palavras-chaves. Uma sugestão de projeto coletivo para  os fãs de Tolkien.

Contos Inacabados

A historiografia das histórias. A arqueologia do processo criativo de Tolkien.

E certo dia, quando Tuor estava sentado à praia, ouviu a batida e o uivo de grandes asas, e, erguendo os olhos, viu sete cisnes brancos voando velozes para o sul, em formação de cunha. Quando passaram acima dele, porém, fizeram uma curva e mergulharam repentinamente, pousando com grande impacto e redemoinho na água.

Capítulo 1 – De Tuor e sua chegada a Gondolin – Primeira Parte: A Primeira Era – Contos Inacabados

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Alguns eventos, que ficam atiçando a imaginação após a leitura dos volumes de O Senhor dos Anéis, são explorados em Contos Inacabados. Entre eles, a história do Pântano dos mortos e a Guerra da última aliança (entre homens e elfos). Mas também tem alguns pontos sem nó na construção da obra, como a história de Galadriel e Celeborn – este último não é citado na despedida dos viajantes que seguem para o Oeste no final de O Retorno do Rei (ele fica para trás na Terra Média? Mas porque?) -, e o mistério do Necromante – que, pelo que entendi, é o próprio Sauron, que permaneceu disfarçado como membro do Conselho Branco num período que se situa entre algum momento após a perda do dedo que trazia o Um Anel e sua expulsão do conselho no final de O Hobbit (a narrativa do que acontece com Sauron fica diluída em poucas pistas espalhadas pela obra inacabada).

É tão rico o material descritivo da Terra Média, que fiquei pensando em temas para exploração, como artigos sobre os portos, as flores e árvores ou a astronomia da Terra Média. Mas é bem capaz de já terem escrito. Algumas das histórias e personagens mais legais são  A Música dos Ainur (o primeiro capítulo do Gênesis da Terra Média, em O Silmarillion), Melkor- o mentor de Sauron, Fëanor e a revolta dos noldor, a viagem de Tuor e seu encontro com Ulmo, Senhor das Águas, a tragédia de Túrin, o amargo anão Nîm, o dragão Glaurung, a vida de Galadriel, o romance de Beren e Lúthien, o desastre dos campos de Lis, Cirion e Eorl (a origem dos rohirrim), Isildur, Gandalf e os Istari (os magos branco, cinza, marrom e azul) e os curiosos Drúedain.

Sobre Túrin, pode-se escrever um post inteiro. É a demonstração de que, ao criar histórias cheias de força criativa, não dá para ser maniqueísta. Como poderia Tolkien viver a experiência da guerra e manter uma visão muito preta ou branca da vida? Pode ter sido inconsciente, mas já que, evidentemente, bebeu da fonte das sagas escandinavas e lendas germânicas, como poderia construir somente personagens de contornos perfeitos? Ainda em Fëanor, o noldor que cria as jóias das Silmarills, já havia uma sombra se insinuando. Mas é com Túrin, também chamado em certo trecho da vida Turambar, que Tolkien aprofunda a concepção complexa, intensa e plena de um personagem. A trajetória de Túrin é feita de sucessivos desencontros, que resultam em várias tragédias, com direito a  assassinatos, traições e até incesto. Destino sangrento e brutal como as vidas de deuses e heróis das tradições de diversos povos.

E tem Beren e Lúthien. A história mítica de amor de uma elfa e um homem que reencarnou em Aragorn e Arwen. Tolkien tem até na própria vida uma história romântica. Casou-se uma única vez e com a mulher por quem era ardentemente apaixonado. No túmulo da esposa, abaixo do nome Edith Tolkien está escrito Lúthien. Embora suas principais obras – O Hobbit e O Senhor dos Anéis – sejam romances com pouco espaço para personagens femininas ou histórias de amor, o autor reverenciava um dos aspectos clássicos das narrativas épicas: o amor cavalheiresco. O quase triângulo amoroso de Aragorn, Arwen e Eowyn deve ter alguma inspiração em Sir Walter Scott, pois lembra levemente o impasse de Ivanhoé entre Lady Rowena e a bela judia Rebecca.

Tolkien conta histórias e constrói imagens que têm a força de contos de fadas, passagens bíblicas, lendas, mitos, sonhos. Como quando Tuor encontra Ulmo, o Senhor das Águas. Conjurador de cisnes e gaivotas. A barba branca com as espumas das ondas. O coração do mar. Seu manto era como uma nuvem cinzenta de partículas da maré que se desfaz ao por do sol. Ou quando mais de uma vez descreve prados floridos que lembram céus estrelados. É belo sonhar assim.

Visite o Valinor e mergulhe no universo de J.R.R. Tolkien.

Para ouvir a pronúncia de Silmarillion, acesse o termo no Google Tradutor e clique no botão de áudio.

PS: pra quem não sabe, a banda inglesa Marillion tirou o nome de Silmarillion. Aliás, o fato do Fish não ter participado da trilha dos filmes do Peter Jackson é uma coisa que me frustrou um pouco. Sem falar na Kate Bush. Mas, não se pode ter tudo…

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