A Abadia de Northanger e a vaidade dos outros

A Abadia de Northanger, de Jane Austen

A Abadia de Northanger, de Jane Austen

Terei sempre em mente que na página 123 dessa edição, que acabei de ler, de A Abadia de Northanger (Ed. Landmark) encontra-se uma das passagens mais célebres de Jane Austen. “Quando as pessoas querem se ligar, devem ser sempre ignorantes. Chegar com uma mente bem informada é chegar com uma inabilidade de administrar a vaidade dos outros, o que uma pessoa sensível quer sempre evitar. Uma mulher, especialmente se ela tem o infortúnio de saber tudo, deve ocultar seus conhecimentos o melhor que puder.”

Cronologicamente, Northanger Abbey, é o mais antigo dos seus romances publicados. Foi escrito antes de Razão e Sensibilidade, mas foi publicado por último, postumamente, junto com Persuasão. No livro, a heroína é Catherine Morland. Uma adolescente bem bobinha do interior da Inglaterra, que adora romances góticos e se aventura na cidade grande de Bath. Jane narra a história evocando a personagem como “a heroína”. Nossa heroína isso, nossa heroína aquilo. Ela também utilizou esse recurso em outros livros, mas nunca tanto quanto na Abadia. É uma forma de criar um distanciamento crítico, já que faz uma gozação com a mania dos romances góticos, muito em voga na época. A autora mais citada do gênero é Ann Radcliffe que escreveu “Os Mistérios de Udolfo”, livro lido pela “nossa heroína” e que coloca a coitada em constante vigilância. Ela sonha dormindo e acordada com vampiros e  fantasmas. Naturalmente, suas peripécias ficam mais emocionantes quando é convidada a conhecer a misteriosa propriedade que intitula o livro e que pertence à família Tilney.

Essa afirmação da autora, que reproduzi no primeiro parágrafo do post, ficou martelando minha cabeça por toda a leitura do livro e ainda reverbera bastante. Tem um contexto importante para compreender mais amplamente o que ela expressa naquelas linhas, mas deve-se ler o romance, é claro. Suspeito que Austen acrescentou essa e outras pérolas ao texto quando fez a última revisão da obra antes de morrer. Mas na minha opinião ela coloca em termos bem irônicos uma constatação sobre as complicadas regras de comportamento social que regem nossas vidas até hoje, eu diria. A gravidade da situação quando se trata de mulheres pode ser até persistente hoje em dia. Mas acho que diante da acelerada consolidação de uma civilização de imbecis em que o mundo está se tornando, talvez esse fenômeno não possa mais distinguir sexos. A inteligência e o conhecimento como valores humanos estão definhando. Ninguém quer pensar porque é um esforço e quando o faz, sente vergonha porque é uma atitude esquisita, que constrange seus pares.

Northanger Abbey (produção de 2007 da ITV)

Henry Tillney (JJ Feild) e a nossa heroína Cahterine Morland (Felicity Jones) em Northanger Abbey (produção de 2007 da ITV)

Por outro lado, Austen explora também bem ironicamente, através de Catherine, o mico pessoal que pelo menos uma vez na vida quase todas as mulheres pagam com suas neuroses. Sempre tem uma antecipação dos acontecimentos. Uma fantasia maluca que cola como chiclete. Um estado constante e ridículo de expectativa em relação à vida amorosa. Talvez fosse mais difícil de superar essa neura na época da escritora, pela falta de opções na vida, mesmo. Mas é uma condição de patetice que nunca nos abandonou totalmente.

Acho estranho que ninguém ainda tenha feito (pelo menos, nunca ouvi falar) uma adaptação modernizada do livro para o cinema.  A história é um prato cheio para um filme sobre adolescentes. Todos os passeios, bailes e outros eventos em que Catherine encontra seus jovens amigos de Bath mostram que a mentalidade e o comportamento dos adolescentes da Inglaterra do início do século 19 ainda possui muita familiaridade com o que se vê hoje. O chatíssimo John Thorpe fala de sua carruagem e dos cavalos como um jovem cavalheiro de 2010 se gaba de seu novo modelo Honda ou Ford. Enquanto que sua irmã, Isabella, a fêmea alfa da patota, é uma espécie de slutty highschool cheerleader.

Há uma produção da BBC (1987) e outra da ITV (2007) baseadas no romance. Esta última me pareceu bem fiel ao livro. O trailer é da PBS americana.

Naquele filme Becoming Jane (cinebio fictícia de Jane Austen com a atriz Anne Hathaway), ela é apresentada a Ann Radcliffe (aquela autora favorita da nossa heroína Catherine), que era uma das poucas mulheres em sua época a assinar suas obras literárias. Austen lançou os primeiros livros assinando com algo como “written by a lady”. Só mais tarde passou a assinar com seu nome.

Dizem que a personagem principal dos livros da série Crepúsculo lê Jane Austen. Com isso, além de ser o fenômeno editorial e de bilheteria, a série contribui também para despertar o interesse de jovens leitoras pela autora de Orgulho e Preconceito. Então, temos mais uma onda mundial de austenmaníacas se erguendo. Jane é uma instituição nacional inglesa. Na literatura, só perde em popularidade para Shakespeare. Pena que só deixou 6 romances e algumas obras inacabadas, manuscritos e cartas.

Recomendo alguns sites para quem gosta e/ou quer saber mais sobre Jane Austen.

Jane Austen em Português

Jane Austen Sociedade do Brasil

Jane Austen’s World