Sons celestiais saídos diretamente de seus corpos

“(…) – eu pensava que a música que ouvia vinha das pedras da ospedale. Sempre havia música, então concluí, com a lógica das crianças, que as pedras cantavam. Mais tarde, quando vi a orquestra, pensei que os corpos das meninas faziam parte dos instrumentos que tocavam. Afinal de contas, eles faziam parte de seus nomes: Beatrice dal Violin, Maria dal Flauto, Paola dal Mandolin. Havia também garotas que não tinham instrumentos ligados a seus nomes, mas sons celestiais saídos diretamente de seus corpos: Prudenza dal Soprano, Anastasia dal Contralto, Michielina d’Alto. Lembro-me do momento em que alguém me disse que não, elas não eram anjos. Eram meninas feitas de carne e osso como eu.”

— Barbara Quick: A Virgens de Vivaldi

musica das pedras

pensava que a música que ouvia vinha das pedras da ospedale

Commemorative plaque beside the Ospedale della Pietà.

Commemorative plaque beside the Ospedale della Pietà.

Ritratto presunto di Antonio Vivaldi (anonimo, XVIII sec.) conservato nel Museo internazionale e biblioteca della musica di Bologna

Ritratto presunto di Antonio Vivaldi (anonimo, XVIII sec.) conservato nel Museo internazionale e biblioteca della musica di Bologna

Música dos Anjos

Música dos Anjos

época de Vivaldi

Patti and her kids

Antes de ir embora, contei que havia feito uma musiquinha para ela, e cantei.

I was working real hard

To show the world what I could do

Oh I guess I never dreamed

I’d have to

World spins some photographs

How I love to laugh when the crowd laughs

While love slips through

A theather that is full

But oh baby

When the crowd goes home

And I turn in and I realize I’m alone

I can’t believe

I had to scrifice you

Ela disse: “Essa sou eu, cara. É a minha música”. Quando eu estava saindo, olhou-se no espelo, ajeitando os boás. “Como estou, cara?”

“Parece uma pérola”, respondi. “Uma pérola de menina.”

Janis Joplin

Janis Joplin

Entrei no quarto. Em uma cama simples de ferro, havia um menino dormindo. Ele era pálido e magro com massas de cachos castanhos, deitado sem camisa com um colar de miçangas no pescoço. Fiquei ali parada. Ele abriu os olhos e sorriu.

Robert Mapplethorpe

Robert Mapplethorpe

O Chelsea parecia uma casa de bonecas de Além da imaginação, com uma centena de quartos, sendo cada um deles um pequeno universo. Eu vagava pelos corredores tentando encontrar seus espíritos, mortos ou vivos. Minhas aventuras eram algo sorrateiras, como entrabrir uma porta e ver de relance o piano de cauda de Virgil Thomson, ou ficar parada diante da porta de Arthur C. Clarke, torcendo para que ele talvez surgisse de repente.

Hotel Chelsea

Hotel Chelsea

 

— Patti Smith: Só Garotos

 

Vida de Artista

Vida de Artista

 

Storm Thorgerson

1944 – 2013

Pink Floyd: The Dark Side of The Moon

Pink Floyd: The Dark Side of The Moon

Led Zeppelin: The Houses of The Holy

Led Zeppelin: The Houses of The Holy

Genesis: The Lamb Lies Down on Broadway

Genesis: The Lamb Lies Down on Broadway

Só por essas três capas formou-se uma dívida impagável. Storm está no coração da memória coletiva-afetiva de capas de discos. Mais do que ampliar a experiência da música, suas imagens capturam, intrigam e perturbam como sonhos que nos acompanham por toda a vida.

O rap do caubói bléque

Django Unchained

que não é o samba do crazy nigger

Só o Tarantino mesmo para mixar faroeste espaguete com black exploitation. Só em um western desse cara para você ter certeza de que vai começar a tocar um rap a qualquer momento desde que a cena de tiroteio começou.  Podia ser uma ideia banal…. afinal, porque não colocar na tela de cinema um escravo fugido que vira pistoleiro e se vinga de brancos opressores em plena era pré Guerra de Secessão? Talvez porque poucos queiram mexer no modelo dos clássicos do gênero de John Wayne e Clint Eastwood. Tem herói negro policial e até superherói. Já os black cowboys passaram quase despercebidos para a história do cinema. E olha que Cowboys & Aliens, na minha super bocó opinião, é um clássico. Mas além de modelar sinistramente a figura emblemática do ex-escravo  afro-americano justiceiro, o diretor ainda junta um caçador de recompensas alemão que compra e liberta o escravo, cuja mulher, negra e escrava como ele, se chama Broomhilda (correspondente a Brünhilde, nome de personagem lendária germânica) e fala a língua de Goethe e Schiller.

Todo filme do Tarantino tem uma história assim: que começa sem dar a mínima ideia de como poderá terminar (ou que usa truques para nos enganar sobre o fim). Mas, para nossa garantia de diversão, alguns ingredientes que são marca das jornadas cinematográficas do cineasta sempre voltam. Como se fossem objetos valiosos deixados em penhor pelo caminho. A trilha sonora, por exemplo. É sair da sala de cinema e correr para baixar no iTunes imediatamente. Temas familiares do mestre Ennio Morricone (de filmes como “Os Abutres Têm Fome”)  se juntam a John Legend, que canta “Who Did That to You?”, e Jim Croce, com seu country manjado “I Got a Name”. E ainda mixaram James Brown com 2Pac. Enfim… muito f*d@!

Tem os longos e mirabolantes discursos de mentores e vilões, desta vez pelas vozes de Christopher Waltz (o caçador de recompensas que inicia Django na atividade) e Leonardo DiCaprio (o senhor de escravos em defesa de ridículas teorias novecentista sobre anatomias dos crânios). E tem a fagulha de genialidade que surge de estalo tanto nos heróis quanto nos vilões ou em quem não é uma coisa nem outra e faz a gente adorar cada segundo de realização da vingança: a personagem principal.

Uma sequência para não esquecer jamais: quando Django (Jamie Foxx) e Dr. Schultz (Christopher Waltz) chegam à propriedade de Calvin Candie (Leonardo DiCapprio), e são recebidos pelo olhar fuzilante do velho Stephen (Samuel L. Jackson, que demorei vários segundos para reconhecer). Tipo: Uncle Ben é o c@#****!!!! Pai Tomás vai se f*#@#!!!

 

A eternidade e os mistérios de Chanel

Coco Chanel clicada por Man Ray
Coco Chanel clicada por Man Ray

Marguerite Duras certa vez disse que estava preocupada com as mulheres. “Elas estão perdendo seu mistério”, disse a autora de “O Amante”, alguns anos antes de morrer. Um dos símbolos mais evidentes do mistério da feminilidade chama-se Gabrielle Chanel. Assim como Duras, Chanel era uma criadora, era francesa e representava o próprio século 20. O século que mudou as mulheres. Uma das maiores estilistas e criadoras da moda, Chanel inventou um universo próprio e o deu de presente quase em sua integridade para todo o mundo,  mulheres ou homens.

Pensando sob esse aspecto, sou obrigada a fazer uma exceção ao valor das biografias. Há uns bons anos atrás, ouvi do escritor Victor Giudice uma frase que nunca esqueci. “Não importa o Wagner. O que importa é o Parsifal.” Wagner podia ser o canalha, anti-semita, desleal que fosse. No final das contas, o que interessa à humanidade é sua música. O que fica é o Funeral de Ziegfried ou a “Morte de amor de Isolda” cantada pela Jessie Norman ou Gundula Janowitz. Presenciei também outra escritora, Adélia Prado, contando um episódio de sua vida doméstica que contribuiu mais ainda para essa idéia. Ela estava numa discussão tensa com a filha adolescente e esta de repente apontou para a contra-capa do livro que Adélia segurava e que tinha sua foto e disparou ” eu prefiro essa Adélia e não você!”. Ao que a mãe respondeu: “Graças a Deus!”. A escritora comentou algo como: ainda bem que o que escrevo é maior do que eu. Então é isso. De uma maneira geral, as criações são maiores, mias longevas e melhores que seus criadores. A diferença é que a vida de Chanel é uma grande obra inspiradora. Com todos as suas perfeições, imperfeições, mistérios e incertezas.
O mistério da criação, da capacidade de solucionar e inventar coisas, confunde-se com o próprio mistério da feminilidade X masculinidade. Acho que eram os pensadores gregos que diziam que, como o homem não podia parir filhos, começou a parir pensamentos.  Mas que tal  se pensarmos que a própria vida de um homem ou de uma mulher for não apenas produto da genética, da espiritualidade e do mundo em que nasceu e viveu, mas também uma misteriosa invenção de si mesmo?

O Livro

Olhar além do momento

Olhar além do momento

Na biografia “Chanel, a woman of her own”, de Axel Madsen, descobrimos que ela adorava mentir sobre seu passado. Mas ao mentir, talvez inventasse histórias “de pescador”. Versões melhores do que a “verdadeira”. Algumas coerentes com seu modo de ver o mundo, outras simples bobagens. Dizia que fora criada por tias muito sérias e rigorosas, ao invés de admitir que fora deixada num internato de freiras. O irônico é que a experiência da infância e da adolescência passadas com as freiras influenciou claramente seu senso de ordem, limpeza e economia. O que transparece em seu estilo limpo, simples quase monástico de idealizar a moda. A austeridade e o preto e branco dos hábitos das freiras, as roupas dos jóqueis, dos marinheiros da Normandia, os trajes desportivos usados pela elite inglesa quando vai à caça. Elementos com poucas chances de servir como inspiração a uma costureira no final do século 19, foram os materiais intelectuais de Chanel.

Ler sobre a trajetória de Chanel é como um passeio pela história do século 20. Começando pela cena da Belle Époque francesa com a incrível Misia, Colette (autora de “Chéri“, que virou filme de Stephen Frears, com Michelle Pfeiffer) e Marcel Proust, entre vários outros personagens que marcaram esse período. Mísia foi uma divina musa da época. Pianista, filha de artistas, ex-aluna de Gabriel Fauré, Misia Sert foi eternizada em retratos pintados por Toulouse Lautrec e Jean Renoir. Espero que sejam feitos muitos livros e filmes sobre essa mulher. Misia foi muito próxima de Chanel. Não sei dizer se eram amigas. Se admiravam e queriam bem uma a outra, creio. Mas tinham temperamentos explosivos e atitudes agressivas demais para conviverem.
A jovem Coco

A jovem Coco

Em seguida, vêm os loucos anos pós Primeira Guerra, quando vivia cercada por figuras como Cocteau, Picasso, Diaghilev, Stravinsky, Darius Milhaud, Poulenc, Dalí, os Surrealistas, os Cubistas e todos os istas possíveis e imagináveis. Chanel patrocinou produções de Sergei Diaghilev e seus Ballets Russes, além de ter criado figurinos para espetáculos da companhia. No cenário da moda, foi contemporânea e concorrente de Paul Poiret, Jeanne Lanvin, Madeleine Vionnet e aquela que era sua pedra no sapato, Elsa Schiaparelli, a designer italiana que se identificava com o  surrealistas. Chanel a chamava de “aquela artista italiana que faz roupas.

Chanel foi amiga íntima de duas figuras que não podiam ser mais opostas: Jean Cocteau e Winston Churchill. Para Cocteau foi o lastro que o salvava das pirações com o ópio e os casos amoroso, para que pudesse escrever e encenar suas obras. Já Churchill, o grande estadista que liderou a Inglaterra na Segunda Guerra, tinha em Chanel uma confidente com quem partilhou momentos difíceis, como a crise em que o rei Eduardo VIII renunciou ao trono para casar-se com a norte-americana Wallis Simpson.
elegância simples

elegância simples

Essa biografia é tão densamente recheada de pequenas histórias de Chanel e de fatos marcantes das várias épocas históricas, que fica difícil se deter em um único tópico. Pode-se caminhar, por exemplo, guiado pelo tema dos homens da vida de Chanel. Começando por Etienne Balsan, o militar de família rica e tradicional, com quem aprendeu a amar cavalos e corridas e que talvez tenha iniciado Coco na vida sexual. Foi Balsan quem a apresentou aos artistas, intelectuais e ricaços, que se tornariam seus primeiros clientes.  E foi através de Balsan, que ela conheceu Boy Capel. O empresário inglês não chegou a se casar com Chanel, mas marcou sua vida, incentivando sua carreira e tornando-se o seu insubstituível grande amor. Mais tarde se envolveu com o Grão-Duque Dimitri, da Rússia, e quase tornou-se uma aristocrata ao manter um longo romance com Bendor, o Duque de Westminster, que lhe apresentou Churchill e o modo de vida da nobreza britânica, uma experiência que influenciou notadamente suas criações. E ainda passaram por sua vida o compositor Igor Stravinsky, o poeta Pierre Reverdy e o artista gráfico Paul Iribe. Cada um, co-adjuvante de um capítulo valoroso da vida de Chanel. Quando a França estava ocupada pelos nazistas, teve um caso com o oficial alemão Hans Gunther von Dincklage ou Spatz. Por mais que fosse justificado pelo fato que conhecia Spatz desde antes da guerra e, realmente, Chanel não dava a mínima para os rumos da política e das guerras mundiais, o romance colocou-a em uma posição ambígua para os franceses que aguentaram os anos de chumbo da ocupação. Tinha atitudes nada convencionais. Para o bem ou para o mal.

Chanel e suas pérolas

Chanel e suas pérolas

Outras figuras relevantes em sua trajetória são os irmãos Paul e Pierre Wertheimer, de quem foi sócia na construção da grande marca Chanel que nomeava roupas, acessórios e perfumes. Com o tempo, as relações de Chanel e os Wertheimer tornaram-se nada agradáveis. O livro aborda também a aventura de Chanel em Hollywood, as estrelas do cinema, princesas e celebridades que tornaram-se suas clientes. Além de sua relação com os grandes editores e críticos de moda das principais publicações especializadas, como Vogue e Elle. Numa de suas visitas a Nova York, conhece Helena Rubinstein e as duas passam horas sem fim conversando.  Enfim, são tantos acontecimentos num vida, que valeriam dezenas de posts.

Ficaram famosos seus aforismos publicados na revista Vogue. O meu favorito é: “Aos quarenta, as mulheres trocavam a juventude pela elegância, pela postura e pelo mistério.; uma evolução que as deixava incólumes. Agora elas medem forças com as jovens, usando defesas que só podem ser descritas como ridículas.”

Nos anos 30, o jovem Luchino Visconti frequentou sua casa em Roquebrune e cunhou o apelido de “La belle dame sans merci”. Não esqueceu de “seus sofrimentos, seu prazer em ferir, sua necessidade de punir, seu orgulho, seu rigor, seu sarcasmo, sua raiva destrutiva, seu gênio criativo, a franqueza de uma personalidade que passar rapidamente do ardor  à indiferença.”
O apartamento de Chanel e seus painéis de Coromandel

O apartamento de Chanel e seus painéis de Coromandel

Seu olhar estava apontado e ajustado para alcançar certas nuances que passavam despercebidas. Nas corridas de cavalos, uma de suas paixões, observava as linhas das trajetórias dos cavaleiros e via “elegantes arabescos.” Interessou-se pelo hinduísmo e conheceu o Bhagavad Gita, que Boy Capel lia para ela. “Gosto muito de tudo o que garanta que nada jamais desapareça.” Apesar de viver em meio ao furacão das superficialidades da moda, manteve sempre o que o autor da biografia chamou de uma “veia de puritanismo”. No fundo, Chanel desejava criar algo que fosse perene. “Não posso aceitar que se jogue fora uma roupa porque é primavera. Adoro as roupas porque, como os livros, posso sentí-las, tocá-las. As mulheres querem mudar; elas estão erradas. Sou a favor da felicidade, e a felicidade consiste em não mudar.”

Adotou tecidos pouco nobres, como jersey e a malha como materiais básicos de suas criações pret-a-porter. Historiadores da moda diziam que seu estilo “tem tudo a ver com a elegância, mas baseia-se em elementos alheios à elegância – como conforto, bem-estar e bom senso.”  Como afirma Axel Madsen, Coco havia criado a elegância funcional. “Ela rejeitava a arrogância da riqueza e ensinou os ricos a misturarem o verdadeiro com o falso.” O estilo hi-lo, tão adotado nos últimos anos, deve ser um reflexo dessa visão de Chanel. Karl Lagerfeld,  atual diretor criativo da Maison Chanel,  disse recentemente o seguinte sobre o legado da estilista:  “Nenhuma outra casa tem o logo, a camélia, as pérolas, o sapato com a ponta preta, as jóias. Eu brinco com os elementos como um músico brinca com as notas.”
Chanel por Karl Lagerfeld

Chanel por Karl Lagerfeld


Os filmes


Coco Avant Chanel

Coco Avant Chanel

Coco Avant Chanel

O retrato da mulher que se inventou
Alguns torceram o nariz para a interpretação da Audrey. Mas acho que ela construiu com sinceridade uma Chanel. Bem longe da doce Amelie Poulain, Tautou encarna a teimosia, o sonho e a acidez da jovem Coco.
O filme limita-se a uma parte incial da história de Chanel. Uma vida que comporta vários filmes, com certeza. Da infância no internato de freiras, aos anos com a tia-irmã Adrienne, com quem se apresentava em cafés na cidade de Moulin. Lá conhece Balsan, que vai apresentá-la ao mundo. E, por intermédio de Balsan, conhece Boy Capel. Com seu espírito forte e o impulso dado por alguns homens, Coco saltou para o penhasco desconhecido da vida
Numa cena exemplar do filme, Capel flagra Gabrielle de pijamas listrados, deitada em um sofá com um livro. Diz, num quase suspiro, “você é muito elegante.” Boy entendeu Chanel. Considerando tudo que veio depois,  só ele entendeu.
Chanel (Audrey de pretinho básico) e Boy Capel (Alessandro Nivola)

Chanel (Audrey de pretinho básico) e Boy Capel (Alessandro Nivola)

Inspiração nas roupas masculinas

Inspiração nas roupas masculinas

listras dos marinheiros e ousados chapéus de palha

listras dos marinheiros e ousados chapéus de palha

Coco Chanel 2008

Coco Chanel 2008

Coco Chanel (2008)

As lembranças luxuosas de Chanel
Com Shirley McLane no papel de Gabrielle Chanel, o filme é exibido de vez em quando no canal GNT. Assisti bem depois do Coco Avant Chanel. É meio parecido com esse último. Mas abrange mais tempo da vida de Chanel. É narrado pelas memórias da estilista nos anos 50. Não é grandes coisas, mas é interessante por explorar um pouco mais a vida de Chanel dentro do atelier e sua relaçao com as clientes.
O ator que faz o Boy Capel não é tão bonito quanto o do filme com a Audrey.
Em compensação, o Balsan é bem mais interessante nesse.
Chanel (Shirley McLane) criando sobre o modelo

Chanel (Shirley McLane) criando sobre o modelo

paixão pela cavalaria

Com Balsan (Sagamore Stévenin), a jovem Coco (Barbora Bobulova) adquire a paixão pela cavalaria

Coco Chanel et Igor Stravinsky

Coco Chanel et Igor Stravinsky

Coco Chanel & Igor Stravinsky

O Nº 5 e a Sagração da Primavera
Esse ainda está em cartaz nos cinemas e trata de um provável romance de dois grandes ícones do século 20.

Tem um momento do filme em que Igor explica a Coco sobre seu processo de compor. E ela, com expressão muito curiosa, observa: mas é como quando eu crio meus modelos, corto, costuro, bla bla bla. E Igor responde algo como: mas isso não é arte. Estou falando de arte. E Coco dá de ombros, tipo pensando: não estou falando de arte, sua mula, mas de criação, invenção.

Os dois são grandes inventores da história recente da modernidade. Pode não ser arte o que Chanel fazia (ela mesma dizia que moda não se trata de arte, mas de negócio), mas Einstein também não era artista e seu poder de invenção não poderia ser colocado abaixo de Stravinsky.

O que acho curioso, e que, possivelmente é a fagulha que resultou no encontro de Chanel e Stravinsky, é a visão de dois estranhos ao mundo. Chanel até o fim da vida foi fiel ao princípio da simplicidade. No último instante, antes da modelo entrar no salão para desfilar uma de suas criações, Chanel intervinha e arrancava um detalhe, um ornamento ou acessório. Limpava os excessos sempre que possível. E de Stravinsky, outro ser econômico, dizem que ao final da vida cobrava sua música pela nota. Quanto vale um punhado de notas de Stravinsky ou meio metro quadrado de debruns de Chanel?

Além do caso com Igor, o filme também se preocupa em mostrar o modo de vida da estilista. O dia-a-dia da maison em Paris, a mansão no subúrbio, onde abrigou Stravinsky e sua família, jantares com artistas e intelectuais. Mostra também as viagens à Provence, onde ajudou a elaborar um de seus símbolos mais eternos: o perfume Chanel Nº 5. A atriz Anna Mouglalis vive a Chanel dos anos pós-Boy Capel, que encontra em Stravinsky (Mads Mikkelsen) uma fonte de adrenalina criativa. Chanel estava no Théatre Champs Elyseé, na tumultuada noite em que Stravinsky, Nijinsky, Diaghilev e os Ballets Russes, apresentaram pela primeira vez A Sagração da Primavera. Na temporada 89/90, Karl Lagerfeld lançou uma coleção em um desfile no mesmo Champs Elyseé, ao som da mesma Sagração. Foi considerada uma de suas melhores coleções.
Em busca do Nº 5

Em busca do Nº 5

Dois criadores

Dois criadores

A Sagração

A Sagração

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Guia Chanel, by Webdebee

A Belle Époque

Emilienne D'Alençon, Colette, Marcel Proust e Misia (por Renoir)

Emilienne D'Alençon, Colette, Marcel Proust e Misia (por Renoir)


Emilienne D’Alençon

Mísia

Colette

Marcel Proust

A Cena Fashion

Poiret, Lanvin, Vionnet e Schiaparelli

Poiret, Lanvin, Vionnet e Schiaparelli

Paul Poiret

Madeleine Vionnet

Elsa Schiaparelli

Maison Chanel

Os Clássicos de Chanel

pretinho, tailleur, Nº 5, sapato aberto atrás, camelha, bolsa matelassé com alça de corrente, pérolas, sapato bicolor

vestido pretinho básico, tailleur, Nº 5, sapato aberto atrás, camélia, bolsa de matelassé com alça de corrente metálica, colar de pérolas, sapato bicolor

Máquina do Rock

Em 2002, realizei um sonho de adolescente: assisti ao Rush no Maracanã. Estava lá entre milhares de fãs felizes, cujos gritos e pulos foram registrados no DVD Rush in Rio. Caraaaaaaaaaaaca! Lá estava o próprio monstro Neil Peart fazendo seu lendário solo de bateria. Lá estavam Geddy Lee e Alex Lifeson.

Mas não deu pra resistir de novo. Lá fui eu para a Apoteose no domingo. O som tava uma droga, como acontece frequentemente no local. Mas a qualidade da música venceu toda a adversidade.  Eles são impecáveis.

 

 

Foto: Bruna Prado/Futura Press publicada no Terra

Lenda do rock'n'roll Neil Peart, do Rush. Rio, outubro 2010.

 

Descobri o mundo basicamente com livros, filmes e discos. Me pergunto onde iria parar sem os versos de Fernando Pessoa, os filmes do George Lucas e as bandas de rock como Rush. Fly By Night, Moving Pictures, Signals, Permanent Waves, Hemispheres, Caress of Steel. Nem lembro de tudo que ouvi, pois conheci o Rush em meio a uma enxurrada de bandas como Pink Floyd, Yes, Genesis, Led Zeppelin, Deep Purple, Renaissance, Jethro Tull, Marillion, Iron Maiden, Black Sabbath, AC/DC, Scorpions, Dire Straits,The Police, Kiss, Def Leppard, The Who e um bocadão de muitas outras. Mas lembro claramente de acompanhar o som dos discos de vinil com os olhos fixos nas letras que vinham encartadas nos álbuns. As palavras de um inglês dificílimo de Moving PicturesSignalssobreviveram nas prateleiras empoeiradas da memória.

Naqueles tempos, as bandas ganhavam dinheiro vendendo discos. Discos de vinil e, depois, CDs. Shows? Só na Europa e America do Norte. Aos poucos, isso mudou, claro. Do primeiro Rock in Rio em 1985 até o cenário atual, muita água rolou.  Músicos não vendem mais discos. Ganham dinheiro com shows. Agora, o Brasil é mercado emergente de um monte de coisas. Inclusive de shows. A prova disso é que tive de escolher entre ver Rush ou Dave Matthews Band, que se apresentaram num mesmo dia no Rio.

 

Alex Lifeson e Geddy Lee

Os monstros Alex Lifeson e Geddy Lee, do Rush, Rio, Outubro 2010

 

Fico impressionada com a disposição do trio. Mandam ver com a mesma energia dos anos 70. São sofisticados pra burro. O som seriamente pesado, tem uma corzinha de jazz e folk. Ninguém soa como eles. É muito forte a idolatria pelos talentos individuais de Lee, Lifeson e Peart. Mas é clara a marca sonora da banda como um todo.

Para um repertório monstruoso como o do Rush, fica difícil tocar tudo que todos os fãs mais gostam. Não rolou New World Man nem Fly By Night. Mas, no geral, foi um set list justo. Gostei até das músicas novas, do álbum que ainda vai ser lançado depois da turnê. Enfim… Foi uma noite  feliz de domingo. Quero mais. Quero Robert Plant, David Gilmour e outros bons e velhos monstros de quem ninguém mais compra discos, mas que podem nos fazer felizes com shows como esse aqui mesmo no Rio.

 

Não tenho camisa oficial... Mas eu fui!

 

U2 360º: a terceira dimensão da música

U2 360º At the Rosebowl DVD

U2 360º At the Rosebowl DVD

Sinto uma invejinha de ver e ouvir os violinistas das orquestras. Ficam ali nadando submersos na massa sonora do Verão das Quatro estações de Vivaldi. O executante é a própria música. Sempre ouvi músicos dizerem: vamos “fazer” o concerto x ou o quarteto y. Eles “fazem” a música.

Bono sorri, deliciado, cantando Magnificent. “My first cry it was a joyful noise.” A mesma expressão facial aparece quando canta “In God’s Country” no filme/álbum Rattle and Hum. Me dá um arrepio de ver e ouvir e me dá a velha invejinha.

Tenho uma história mal resolvida com a banda. O show-fiasco de 1998 no Autódromo de Jacarepaguá foi uma experiência meio traumática. Naquela época, eu estava de férias da música pop. Só ouvia Bach, Beethoven, Mozart, Villa-Lobos & Co. Mas resolvi sair um pouco da viagem pelos clássicos e, que coincidência feliz, o U2 vinha ao Rio! Porém,  foi uma das maiores merdas do universo…

Gosto do U2 desde os tempos da FM Maldita, onde ouvi “I will follow” pela primeira vez, lá pelos anos 1982-3. Boy, October, War, Under a Blood Red Sky, The Unforgettable Fire e Wide Awake in America formavam a trilha sonora da minha vida, junto com os discos do Legião Urbana, Pink Floyd e Led Zeppelin, para citar só alguns. O auge da banda para mim – e para muita gente – veio com o álbum The Joshua Tree, de 1987. Quando escutei o lado A, virei pro lado B, voltei ao A e ao B e ao A e ao B…. Eu estava perplexa com aquelas canções. Os quatro irlandeses estavam bem longe do som de Boy. E ao mesmo tempo, eles mantinham algo da espontaneidade do primeiro álbum.  Mesmo com toda aquela carga de maravilhamento com as raízes da música americana e os recursos de produção de estúdio, uma integridade sonora ficou ali bem firme e heróica. No mais, era só beleza, amor e paz.

Congelada na fase do vinil

Congelada na fase do vinil

Depois eles meio que sumiram e voltaram com Achtung Baby. Para mim, passou praticamente despercebido. Eu tava ligada em Vivaldi e Schubert. Não queria saber do Bono com pinta de cluber atrás daqueles óculos de mosca.  E eles foram ficando mega, giga, tera, peta… E um tempo depois eles desembarcam pela primeira vez no Brasil com a turnê de Pop. Aquele show do limão. E aí eu resgatei o amor pelos vinis empoeirados da banda. Comprei o Joshua Tree em CD, junto com o Achtung Baby e o Zooropa, para tirar o atraso geral. Mas eles não eram mais nada do que eu cultuava. Não se tratava mais de quatro caras, a música, os instrumentos e o palco. Eram as luzes, o limão, o telão, as roupas, os vídeos, a imagem, a imagem, a imagem. E a música ficou em último lugar. Uma merda astronômica. O show no Rio foi mesmo toda aquela absurda confusão e desorganização completas. Mas nada me abalaria se a música fosse boa. Só que eu não ouvi nada de bom. Fiquei meses sem querer saber deles. E conclui que não valia mais a pena esperar por outro show. Melhor ficar com meus discos e nada mais….

Só em 2000 voltei a ver a luz azul. Veio o All That You Can’t Leave Behind. Mais um disco para ouvir até rachar. E os caras voltam ao Brasil, mas para gravar um show na TV… Enfim, aos poucos fiz as pazes com o U2 num longo processo em que passei a amar Achtung, Zooropa e até o Pop. Mas dos shows, até hoje tenho medo. Não tive coragem de ir para São Paulo conferir a Vertigo Tour. Vi pela TV com uma ponta de arrependimento. Mas comprei todos os DVDs disponíveis e assisto de vez em quando. Aquele do show em Slane Castle na Irlanda é absolutamente maravilhoso. Bom… daí veio No Line on the Horizon. Desse já falei em detalhes. Acho melhor que o anterior, How to dismantle an atomic bomb. Apesar de eu adorar mortalmente “Original of the species” e “Love and Peace or Else”.

E agora chegamos ao DVD que é o assunto do post. Confesso que fiquei me mordendo de curiosidade com aquela estrutura em forma de aranha meio Louise Bourgeoise. Um show em 360°… será que vale a pena abandonar a implicância de vez? Mas essa coisa da mega tecnologia, de falar ao vivo via satélite com o astronauta no espaço sideral, sei lá… Acho que vou me contentar com o DVD mesmo. Que é muito bom. É uma prova renovada do amor por fazer música ao vivo. Eles podem falar a vontade da emoção de estar junto à platéia, bla bla bla. É um prazer egoísta. Eles “fazendo” a música e os outros assistindo. Mas eu só quero ouvir a música. A música em suas três dimensões me basta.

O set list inclui algumas canções que me surpreenderam como “Ultra Violet” e “The Unforgettable Fire” (que adoro de paixão).  Só faltou “Your blue room”. Eles tocam ela na turnê americana, mas não entrou no DVD. Que pena. Aquela guitarra do The Edge hurts so bad… “(…) And Time is a string of pearls. Your blue room (…).” Eu totalmente derreteria se ouvisse isso ao vivo.