Asas para andar de rastros

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Quem fez ao sapo o leito carmesim

De rosas desfolhadas à noitinha?

E quem vestiu de monja a andorinha,

E perfumou as sombras do jardim?

 

Quem cinzelou estrelas no jasmim?

Que deu esse cabelos de rainha

Ao girassol? Quem fez o mar? E a minha

Alma a sangrar? Quem me criou a mim?

 

Quem fez os homens e deu vida aos lobos?

Santa Teresa em místicos arroubos?

Os monstros? E os profetas? E o luar?

 

Quem nos deu asas para andar de rastros?

Quem nos deu olhos para ver os astros

– Sem nos dar braços para os alcançar?!…

 

–  Florbela Espanca: Charneca em Flor (Poesia de Florbela Espanca – Volume 2)

creation. by indiae DeviantArt.com

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by indiae
DeviantArt.com

Coração ardente

Coração ardente

Processos da experiência musical

Ouvir ou tocar uma peça de Brahms é também invocar um conhecimento prévio de, digamos, Beethoven e Schumann, bem como uma experiência com baladas, variações, rondós e rapsódias em geral, assim como outras formas musicais. Nesta “audição” de um compositor entram muitos componentes, todos eles comunicados e mantidos como um tipo de erudição que, afinal, é internalizado pelo músico que toca, e também pelo ouvinte de uma obra de um dado compositor.

– Edward W. Said: Elaborações Musicais – Capíulo 3: Melodia, Solidão e Afirmação

A riqueza da erudição musical

A riqueza da erudição musical

Carlyle

A casa é iluminada e espaçosa; mas é um lugar silencioso, que demanda muita imaginação para que se possa vê-lo com vida novamente – para isso, deve-se mostrá-lo com todas as pequenas e astutas “artimanhas” de que ela fazia uso; e ver, de alguma forma, a figura comprida e lúgubre dele, inclinando-se ou recostando-se, com o cachimbo na mão, e escutar conversas irrompendo, tudo com o sotaque escocês; e a profunda gargalhada. Mrs. Carlyle, suponho eu, sentava-se ereta, mas muito frágil, divertida, mas crítica também – narrando o seu dia, e sendo agradável com alguma “admiradora” em uma ou duas frases. – Virginia Woolf: A Casa de Carlyle e Outros Esboços (organização, introdução e notas de David Bradshaw)

Helen Allingham's 1879 painting of Carlyle

Helen Allingham’s 1879 painting of Carlyle

Esboços do noviciado de Woolf

Esboços do noviciado de uma escritora

uma revolução

A Assembléia só foi informada da Queda da Bastilha no dia 14 à noite. Imediatamente, avisou o Castelo. O duque de Liancourt, camareiro-mor, tentou tirar o rei de sua apatia. Quando Luís XVI lhe perguntou: “É uma revolta?”, ele respondeu: “Não, Majestade, é uma revolução.”

– Guy Chaussinand-Nogaret: A Queda da Bastilha

mudar ou ser levado pela mudança

mudar ou ser levado pela mudança

Tomar as rédeas da mudança

Tomar as rédeas da mudança

Weirwoods

The gods the children worshipped were the nameless ones that would one day become the gods of the First Men – the innumerable gods of the streams and forests and stones. It was the children who carved the weirwoods with faces, perhaps to give eyes to their gods so that they might watch their worshippers at their devotions.

– George R. R. Martin, E. M. García Jr. & L. Antonsson: The World of Ice and Fire – Ancient History – The Dawn Age

Weirwood Tree: Game of Thrones digital fan art by Benco42

Weirwood Tree: Game of Thrones digital fan art by Benco42

 

Dolce far niente ou é preciso saber viver

Invenção e evolução humana

Invenção e evolução humana

ócio substantivo masculino 1 cessação do trabalho; folga, repouso, quietação, vagar 2 espaço de tempo em que se descansa 3 falta de ocupação; inação, ociosidade 4 falta de disposição física; preguiça, moleza, mandriice, ociosidade 5 fig. trabalho leve, agradável (Dicionário Houaiss)

Como é que diz o ditado popular mesmo? Mente vazia é oficina do diabo? E quem faz meditação? Não esvazia a mente? Minha formação metodista propiciou muitos valores que considero positivos. Um certo pragmatismo aqui, uma noção de meritocracia ali e uma certeza na realização pessoal e na liberdade conquistáveis através do trabalho. “A mulher virtuosa jamais come o pão da preguiça”, diz o rei Salomão no Eclesiastes… (ou seria nos Provérbios…). Mas também esse, digamos, modelo mental protestante-germânico/anglo-saxão-burguês me levou, quando xóvem, a detestar hare krishnas (*). Achava um bando de inúteis que arrecadavam dinheiro para poder ficar o resto do dia rezando e cantando no templo, sem acrescentar nada à coletividade. Enfim… uma noção originada na ignorância e no preconceito. O mesmo tipo de leviandade, acho eu, embora nunca tenha mirado minha idiotice nessa direção, move pessoas que acham que os índios brasileiros são preguiçosos e que herdamos a preguiça deles. O problema com modelos é esse. Precisamos de modelos para decodificar o mundo, mas eles nos limitam. Modelos são como veículos automotores, armas ou qualquer equipamento de alta ou baixa tecnologia: temos que usar com bom-senso.

A ociosidade é a estupidez do corpo e a estupidez é a ociosidade da mente. Johann G. Seume

Mas voltando ao dilema do honrado trabalho X maldito ócio. É um mito. Sinto muito. Passar oito horas por dia, cinco dias por semana em um escritório ou atrás de um balcão não garante jornadas de trabalho produtivo, de qualidade e que impulsione a inovação e a sobrevivência de um negócio. Nem a satisfação e crescimento de quem trabalha. No primeiro capítulo de Criatividade e Grupos Criativos, Domenico de Masi evoca o Gênesis para lembrar que até papai do céu descansou. Veja bem: o Criador trabalhou por seis dias e curtiu um bem merecido sabbath. Afinal, todo aquele trabalho tinha um propósito e ele contemplou sua obra. Acho que as sagradas escrituras, quem diria, base da fé de judeus, cristão e muçulmanos, mandam um recado bem claro sobre coisas simples e fundamentais para qualquer cultura. Precisamos agir (sair da inércia, trabalhar, empregar tempo e esforço) para construir coisas, solucionar problemas, criar, inventar. Mas esse agir tem um propósito. Portanto, precisamos contemplar, usufruir e compartilhar o que construímos. Até para entendermos se é necessário repetir a dose ou mudar de direção. E também é importante observar as consequências, a famosa dinâmica da vida (a fila anda, a Terra não gira  à sua volta, baby etc.). O ciclo se fundamenta em criar, usufruir e aprender.

trabalhado e criatividade

trabalho como usina de ideias

(…) a organização cria barreiras à criatividade justamente agora, quando tem mais necessidade de ser criativa, voltando-se assim ao seu próprio insucesso. — Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 18 – Cultivar a Criatividade

Trabalhar, aprender e se divertir. Tudo ao mesmo tempo e no mesmo lugar. É uma proposta ousada, diriam alguns. Mas misturar trabalho, aprendizado e lazer não é exatamente uma “novidade”. Sempre teve gente que fez isso. Pessoas que construíam o novo, inventavam o futuro, que expandiam as fronteiras do saber, da técnica, dos mercados. Grupos como a Estação Zoológica de Nápolis, a escola Bauhaus ou o Círculo Matemático de Palermo, entre outros estudados por De Masi no mesmo livro. Nessa conjuntura, foi possível extrapolar paradigmas, transgredir modelos, derrubar as divisórias que separam  compartimentos tais como trabalho, estudo e lazer. Mas já não existe a prática de, em festas e jantares, misturando negócios e descontração, fechar acordos, vender ideias, conseguir investidores, criar sociedades? Claro que sim. O difícil é aceitar explicitamente essa receita, livrando-se da doutrina industrial marretada nas mentes humanas desde o século XIX. Difícil é focar no que realmente importa.

Selo do Círculo Matemático de Palermo e seu fundador Giovan Battista Guccia

Selo do Círculo Matemático de Palermo e seu fundador Giovan Battista Guccia

Seja no executivo de uma grande empresa, no governante, no pai ou mãe chefe de família ou mesmo em um jovem recém formado, podemos observar um modelo de comportamento que parece inevitável: foco em problemas do dia-a-dia (imediatos, que desperdiçam energia, tempo e talento) e não na invenção do futuro (criatividade, planos, imaginação, sonho, grandes mudanças, reflexões, a afetividade etc.). Mesmo quem está entre os privilegiados do planeta, que podem fazer três ou mais refeições ao dia, continua se comportando como nos tempos das sociedades pré-agrícolas, quando não podia se preocupar com mais nada, a não ser o agora. Conseguir alimento e não morrer tentando. É claro que não se pode esquecer de quem tem pouca ou nenhuma opção, a não ser, se esfolar para sobreviver. Mas isso indica o quanto é grave o desperdício de vida de quem tem esse privilégio. E não buscar essa mudança do modelo significa reduzir as perspectivas para todos.

Acquario Della Stazione Zoologica Di Napoli

Acquario Della Stazione Zoologica Di Napoli

A dor e o sacrifício continuam sendo valores ostentados por alguns (ou muitos acho eu) como se fossem a finalidade da vida. Isso vale tanto para a fantasia ideológica do bom trabalhador quanto para a neurose contemporânea do indivíduo cativo da mediocridade. Algumas vezes é mais fácil (ou talvez seja mais prazeroso) ser o tipo sofredor: reclamar que se mata de trabalhar, que vive apagando incêndios e não tem tempo para planejar nada… Tem duas historinhas genéricas que ilustram esse paradoxo. Sobre um executivo e sobre um aposentado. Uma mudança estratégica da empresa retirou da alçada de um executivo as atividades mais operacionais e repetitivas que faziam parte do dia-a-dia da área que ele gerenciava e transferiu-as para outro setor especializado ou terceirizou-as. Eram justamente essas rotinas que traziam mais dor de cabeça e consumiam mais tempo de trabalho do executivo. Ou seja, ele vai ter que focar nas atividades mais criativas, nas soluções e projetos que vão melhorar a empresa. Finalmente, ele vai ter tempo para pensar, planejar, criar, construir e fortalecer relacionamentos na empresa. Mas ele se pergunta: e agora? Nunca tive como fazer isso… Só era cobrado. Agora que minha missão exclusiva é essa, como é que se faz mesmo?

Inside the Bauhaus school of design, Staatliches Bauhaus, at the staircase, in Dessau, Germany. by ClockWithNoHands (Deviantart.com)

Inside the Bauhaus school of design, Staatliches Bauhaus, at the staircase, in Dessau, Germany.
by ClockWithNoHands (Deviantart.com)

E tem o aposentado, que trabalhava 12 horas por dia, comprou casa, carro, educou filhos até a faculdade. Agora, sem trabalho, viúvo, sem amigos (nunca teve tempo para fazer amizades nem com os próprios filhos), sem atividades de interesse (nenhum hobby, área de estudo ou nova profissão). E agora, zé? Vai contar as mesmas velhas piadas que ninguém quer ouvir? Não gostar de nada (de televisão, cinema ou futebol), pois nada mais é feito como antes e não tem ninguém com quem dividir o passado, as lembranças? Como é que se vive, mesmo? Trabalhar, se divertir e aprender são atividades que têm que caminhar juntas a vida toda. Nessa receita, cabe especificar ainda ingredientes importantes como cultivar as afetividades e a beleza, exercitar a criatividade e compartilhar conhecimento. Precisamos construir grupos criativos em casa, no trabalho, na escola, na faculdade. Pepinos do dia-a-dia são fatores relevantes e inevitáveis, mas não são as verdadeiras prioridades. Nas administrações públicas, precisamos de foco no que realmente importa: educação, saúde e segurança (e não nos escândalos, crises hídricas, energéticas e econômicas). Para que todos possam focar na vida. É simples assim. Mas só que na-ão!

(*) Que fique claro: acho muito legais hare krishnas, monges budistas ou católicos e qualquer comunidade que congregue trabalho, estudo e contemplação da vida material ou espiritual. Eu só era muito idiota quando xóvem para compreender isso  (não que eu não o seja mais… acho que sou um pouco menos…).

Um círculo vicioso

O abismo entre as novas exigências e as velhas regras organizacionais, de fato, desconta-se em termos de desmotivação, dando vida a um círculo vicioso: quanto mais a organização tem necessidade de criatividade difundida, para responder com presteza às necessidades e aos valores emergentes do mercado e do sistema social, mais deve dispor de pessoal motivado. Porém, quanto mais a organização fica ligada aos velhos métodos baseados no controle, na vigilância e na disciplina, mais provoca efeitos desmotivadores nos seus “dependentes”. A tudo isso acrescente-se que a flutuação cada vez mais caprichosa dos mercados globais reduz, dia-a-dia, a segurança ocupacional dos trabalhadores, atirando-os ao pânico. Em outras palavras, a organização cria barreiras à criatividade justamente agora, quando tem mais necessidade de ser criativa, voltando-se assim ao seu próprio insucesso.

— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 18 – Cultivar a Criatividade

barreiras à criatividade

barreiras à criatividade