Na vertigem de Karenina

Anna Karenina

Karenina por Stoppard e Wright

A vida é um teatro de variedades. Intrigas, cortina que sobe e desce, divas que fazem entradas dramáticas, cenários que mudam, heróis ingênuos e vilões espertos, gente na  solidão dos holofotes, traições, platéia que observa e reage, ilusões, luzes que acendem e apagam, amores, figurinos que reforçam personalidades, vaias, maquiagens e máscaras, aplausos, risos e lágrimas. 

Não levava muita fé nesse filme porque achava a escolha de elenco equivocada. Pra falar a verdade, a implicância foi especificamente com o ator selecionado para fazer o Conde Vronski, já personificado por monumentos extraordinários da espécie humana tipo Sean Bean, Christopher Reeve e Kevin McKidd. Nessa produção, Vronski é defendido pelo moleque que fez o jovem  John Lennon em Nowhere Boy. Pensei: afff!

Mas, no final das contas, foi legal porque, como não dei bola para o filme, não li mais nada a respeito, e quando resolvi assistir, me surpreendi, pois é muito bom. E mesmo o Vronski ninfeto (Aaron Taylor-Johnson) acabou sendo consistente, porque a meninice e frescor do personagem pode ser algo que faltava na vida de Anna (Keira Knightley) ao lado de seu sério e caretão marido Karenin (Jude Law).

O roteiro é do Tom Stoppard (Shakespeare Apaixonado e Rosencrantz and Guildenstern Are Dead), que, junto com o diretor Joe Wright, criou um híbrido surpreendentemente interessante e original de teatro e cinema. A ambientação cenográfica é quase sempre em um teatro, com os atores circulando pelo palco, coxias, varandas. A história se desenvolve num ritmo meio delirante em que os personagens entram e saem de cena e os cenários mudam sem a proteção da cortina. Todos se movimentam quase o tempo todo e dançam coreografias complicadas sem perder a fluidez dos diálogos (dançam somente nas cenas de baile, não é um musical, ok?).  É meio doido e vertiginoso mesmo… Mas achei muito bom. 

Ana Karênina, de Leon Tolstói

Ana Karênina, de Leon Tolstói

O romance de Tolstoi sempre me pareceu mais sobre o personagem Levin (ou Lievin), do que sobre a protagonista. Lievin é uma espécie de âncora do autor. Um porto seguro de onde ele conjura a tempestade que arrasta Anna e Vronski.

“Quando se aproximaram as cantadeiras, Liêvin, deitado em cima da meda, julgou ver cair sobre ele uma alegre nuvem carregada de trovões. As medas, os carros, os prados, os campos distantes, tudo se lhe afigurou embalado ao ritmo dessa canção louca, acompanhada de assobios e de gritos estridentes. Essa alegria sã, essa bela alegria de viver causou-lhe inveja, pois ele nada podia fazer e tinha de limitar-se a continua ali deitado, contemplando e escutando. Quando os camponeses desapareceram no horizonte e deixou de ouví-los, tomou-o um sentimento de tristeza motivado pela solidão em que vivia, o ócio físico em que estava e a posição hostil que tinha para com o mundo.” (Ana Karênina, capítulo XII)

Anna e Lievin são forças opostas/complementares de uma visão da vida como produto da vontade (desejo, fé, personalidade, valores) e das circunstâncias (natureza, sociedade, cultura, política). O romance avassalador da esposa de um alto funcionário do império russo com um aristrocrático oficial do exército entrou para a coleção de grandes clássicos literários de heroínas adúlteras, como a Madame Bovary e Effi Briest.

Antes de ler a Karenina, infelizmente li A insustentável leveza do ser. Digo infelizmente porque, além de não ter gostado da obra  de Milan Kundera, ela guarda um spoiler do livro de Tolstoi.  O romance faz referência à paranóia da Anna com trens… Enfim… Não que já não tivesse assistido adaptações da obra para o cinema e TV. Mas quando assisti ao filme com a Greta Garbo numa “sessão coruja”, faltou luz e não vi o final. E a minissérie da BBC também não consegui ver até o fim. Teve também um texto sobre linguística que li na universidade que tratava de metonímias e se referia à forma como Tolstoi narra uma passagem do livro do ponto de vista da bolsa de Anna, que balança para frente e para trás, como um pêndulo. Então, a Karenina até hoje tem presença  forte no imaginário e na curiosidade artística e intelectual e comporta até visões belas e estranhas como a desse filme.

Depois de ler o livro anos atrás, assisti ao filme com a Sophie Marceau (que é bonitona, mas um tanto preguiçosa como atriz). E agora assisti esse da Keira (não muito melhor que a Sophie). Ambos têm lá suas virtudes, mas não cheguei a uma conclusão de qual é melhor. Abaixo, segue uma lista de versões para cinema, TV e ballet. Quem sabe um dia consigo assistir tudo e escolher o melhor.

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Outras Kareninas

Tatyana Drubich (2009)

Anna Karenina., com Tatyana Dubrich

Anna Karenina., com Tatyana Dubrich

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Helen McCroy (2000)

Anna Karenina, com Helen McCroy (a mãe do Malfoy) e Kevin McKidd (o Dr. Hunt)

Anna Karenina, com Helen McCroy (a mãe do Malfoy) e Kevin McKidd (o Dr. Hunt)

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Sophie Marceau (1997)

Com Sophie Marceau e Sean Bean

Com Sophie Marceau e Sean Bean

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Jackeline Bisset (1985)

Anna Karenina, com Jacqueline Bisset e Christopher Reeve

Anna Karenina, com Jacqueline Bisset e Christopher Reeve

 

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Nicola Pagett (1977)

Anna Karenina (minissérie da BBC), com Nicola Pagett

Anna Karenina (minissérie da BBC), com Nicola Pagett

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Maya Plisetskaya (1976)

Anna Karenina, com Maya Plisetskaya e o Ballet Bolshoi

Anna Karenina, com Maya Plisetskaya e o Ballet Bolshoi

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Tatyana Samoylova (1967)

Anna Karenina com Tatyana Samoylova

Anna Karenina com Tatyana Samoylova

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Vivian Leigh (1948)

Anna Karenina com Vivian Leigh

Anna Karenina com Vivian Leigh

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Greta Garbo (1935)

Anna Karenina com Greta Garbo

Anna Karenina com Greta Garbo

O rap do caubói bléque

Django Unchained

que não é o samba do crazy nigger

Só o Tarantino mesmo para mixar faroeste espaguete com black exploitation. Só em um western desse cara para você ter certeza de que vai começar a tocar um rap a qualquer momento desde que a cena de tiroteio começou.  Podia ser uma ideia banal…. afinal, porque não colocar na tela de cinema um escravo fugido que vira pistoleiro e se vinga de brancos opressores em plena era pré Guerra de Secessão? Talvez porque poucos queiram mexer no modelo dos clássicos do gênero de John Wayne e Clint Eastwood. Tem herói negro policial e até superherói. Já os black cowboys passaram quase despercebidos para a história do cinema. E olha que Cowboys & Aliens, na minha super bocó opinião, é um clássico. Mas além de modelar sinistramente a figura emblemática do ex-escravo  afro-americano justiceiro, o diretor ainda junta um caçador de recompensas alemão que compra e liberta o escravo, cuja mulher, negra e escrava como ele, se chama Broomhilda (correspondente a Brünhilde, nome de personagem lendária germânica) e fala a língua de Goethe e Schiller.

Todo filme do Tarantino tem uma história assim: que começa sem dar a mínima ideia de como poderá terminar (ou que usa truques para nos enganar sobre o fim). Mas, para nossa garantia de diversão, alguns ingredientes que são marca das jornadas cinematográficas do cineasta sempre voltam. Como se fossem objetos valiosos deixados em penhor pelo caminho. A trilha sonora, por exemplo. É sair da sala de cinema e correr para baixar no iTunes imediatamente. Temas familiares do mestre Ennio Morricone (de filmes como “Os Abutres Têm Fome”)  se juntam a John Legend, que canta “Who Did That to You?”, e Jim Croce, com seu country manjado “I Got a Name”. E ainda mixaram James Brown com 2Pac. Enfim… muito f*d@!

Tem os longos e mirabolantes discursos de mentores e vilões, desta vez pelas vozes de Christopher Waltz (o caçador de recompensas que inicia Django na atividade) e Leonardo DiCaprio (o senhor de escravos em defesa de ridículas teorias novecentista sobre anatomias dos crânios). E tem a fagulha de genialidade que surge de estalo tanto nos heróis quanto nos vilões ou em quem não é uma coisa nem outra e faz a gente adorar cada segundo de realização da vingança: a personagem principal.

Uma sequência para não esquecer jamais: quando Django (Jamie Foxx) e Dr. Schultz (Christopher Waltz) chegam à propriedade de Calvin Candie (Leonardo DiCapprio), e são recebidos pelo olhar fuzilante do velho Stephen (Samuel L. Jackson, que demorei vários segundos para reconhecer). Tipo: Uncle Ben é o c@#****!!!! Pai Tomás vai se f*#@#!!!

 

Voltando à jornada de Bilbo

Como disse antes, comecei a jornada de leituras de Tolkien em 2012 com a revisita ao O Hobbit. Pareceu até que nunca tinha lido antes. E, a princípio, até achei melhor escrito do que O Senhor dos Anéis. Talvez porque tenha sido pensado como um volume único. Sem maiores pretensões para o anel que faz Bilbo desaparecer ou para o universo complexo da Terra Média. É realmente um livro mais enxuto. Mas alguns meses depois, reli a trilogia e mudei de ideia. Gosto dos dois de maneiras distintas.

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Para além das montanhas nebulosas, frias,

Adentrando cavernas, calabouços perdidos

Devemos partir antes de o sol surgir,

Buscando tesouros há muito esquecidos.

Capítulo I – Uma festa inesperada – J.R.R. Tolkien: O Hobbit

Tradução: Lenita Maria Rímoli Esteves e Almiro Pisetta

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O Hobbit

O Hobbit: a aventura que antecedeu outra

Achei estranho como o filho, Christopher Tolkien, quase não cita O Hobbit como referência em seus comentários sobre as narrativas inacabadas do pai. Fiquei com a impressão de que O Hobbit não era muito levado a sério dentro do contexto das obras sobre a Terra Média. Dizem que Tolkien criou o livro para seus filhos, mas acho que tem passagens um tanto sombrias e não deveria ser tratado especificamente como infantil ou ser considerado  menor que os outros livros do autor. Sim, há muitos recursos formais que direcionam a narrativa para crianças, tipo: “Aranhoca, aranhoca, você é uma boboca! ” Mas, ainda assim, o herói Bilbo enfrenta umas barras bem pesadas e toma decisões difíceis e maduras para manter o grupo de 13 anões na trilha da aventura. Sua malandragem também vai ajudar em planos complicados e negociações entre elfos, homens e anões, o que o torna um espião bem astuto. Sem falar no super marrento anão Thorin, Escudo de Carvalho, e o tormento que divide seu coração entre o desejo ardente de reconquistar o reino perdido e o dever de liderar o grupo.

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– Fui olhar à frente – disse ele.

– E o que o trouxe de volta bem na hora?

– O olhar para trás – disse ele.

Capítulo II – Carneiro assado – J.R.R. Tolkien: O Hobbit

Tradução: Lenita Maria Rímoli Esteves e Almito Pisetta

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Reler O Hobbit também foi bom para rever o papel dos 13 anões. Mais um elemento de identificação com narrativas infantis. E é uma das coisas que tornam o livro um clássico. É… São muitos anões. E muitos tipos.  Thorin é o líder durão. Balin, o mais velho e experiente. Fili e Kili são os jovens encrenqueiros, como Merry e Pippin de O Senhor dos Anéis. Mas vou destacar o fofíssimo Bombur, que sonha com comida e sofre ao despertar para a jornada de fome que o grupo enfrenta em muitos momentos.

The Hobbit (ilustração de Sam Bosma)

The Hobbit (ilustração de Sam Bosma)

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Ali no fundo, na beira da água escura, vivia o velho Gollum, uma pequena criatura viscosa. Não sei de onde veio, nem quem ou o que ele era. Era um Gollum – escuro como a escuridão, exceto por dois grandes olhos redondos e pálidos no rosto magro.

Capítulo V – Advinhas no escuro – J.R.R. Tolkien: O Hobbit

Tradução: Lenita Maria Rímoli Esteves e Almiro Pisetta

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O Hobbit é uma pílula ultra concentrada de aventuras. Acontece tanta coisa que a gente até se esquece. Relembrando a história ao assistir a primeira parte da trilogia do Peter Jackson, fiquei pensando no tantão de encrenca que ainda vai rolar. O salão de Beorn, a fuga nos barris, a Cidade do Lago, o Dragão Smaug e a Batalha dos Cinco Exércitos.

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As águias desceram rápidas para o topo da rocha, uma a uma, e apearam seus passageiros.

– Boa viagem! – gritaram elas -, por onde quer que viajem antes que seus ninhos os recebam no fim do caminho! – É a coisa educada que se deve dizer entre águias.

– Que o vento sob suas asas possa levá-las para onde o sol navega e a lua caminha – respondeu Gandalf, que sabia a resposta correta.

Capítulo VII – Estranhos alojamentos – J.R.R. Tolkien: O Hobbit

Tradução: Lenita Maria Rímoli Esteves e Almiro Pisetta

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O filme

É meio que um chavão dizer que assistir ao filme é como voltar para um lugar que se ama. Mas, fazer o que? É isso mesmo. Logo que começam a exibir as vinhetas dos estúdios produtores ao som do tema de Howard Shore, você lembra porque ama aquilo tudo. E pode-se amar tanto que nem incomoda as licenças artísticas. O Radagast e seus bichinhos bizarros tem algo de Guillermo Del Toro, que colaborou no roteiro. Aquela narrativa da queda de Erebor também parece cheia de impressões digitais do cineasta mexicano. Mesmo espremendo para a tela personagens e situações que não aparecem no livro (Galadriel, Elrond e outros), continuo achando que o filme reverencia a obra mais do que exagera nas “viagens”.

Primeira parte da jornada

Primeira parte da jornada

Não estranhei os 48 quadros por segundo. Só me causou a impressão de estar diante de uma tela gigantesca de TV HD. Mas a textura me pareceu mais para vídeo do que película.  Realmente a alta definição da imagem possibilita uma riqueza maior de detalhes que revelam mais de um filme acontecendo em planos diferentes. Na cena da perseguição dos goblins aos anões, que buscam a entrada para Valfenda, isso fica bem evidente. Cada warg era um personagem único, com movimentos e trejeitos próprios.

Ainda não sei dizer se foi uma boa escolha contar tudo em 3 partes e não 2. Mas, concordo que é um filme feito mais para fãs de Tolkien e da trilogia anterior do que para quem não é muito ligado no universo da Terra Média. Acho que os fãs irão curtir melhor as quase 3 horas de projeção e aguardar as próximas partes da aventura com mais ansiedade. Vem aí Beorn, o troca-peles. E a sensacional conversa de Bilbo com Smaug.

Longa jornada pela Terra Média: O Senhor dos Anéis

Cheguei ao fim de uma viagem. Sem planejar, 2012 tornou-se o meu Ano Tolkien. Foram mais de 2.500 páginas desde a releitura de O Hobbit, passando pelas primeiras incursões por O Silmarillion e os Contos Inacabados, terminando com mais 2 meses de um novo mergulho na trilogia O Senhor dos Anéis, incluindo os Apêndices.

Na primeira vez em que li O Senhor dos Anéis, me impressionei com a imaginação do autor. Curti demais os personagens, a riqueza de descrição da Terra Média, a originalidade e até mesmo uma certa excentricidade de coisas como seres que têm pés peludos. Mas confesso que não gostei tanto do texto em si. Achei meio chato. Talvez seja por ser monumentalmente detalhado. Páginas e mais páginas para narrar o percurso da Torre Cirith Ungol até a Montanha da Perdição. Mas acontece que releituras podem ser experiências inéditas. Ainda mais depois da passagem de mais de 10 anos. Caminhar carregando um anel mágico de poder em uma terra sem sol ou lua, com vapores escuros e sufocantes, sem água ou comida, reflete um pouco a vida, quando enfrentamos, por exemplo, épocas de vacas magras. Sacrifícios, privações, desconfortos. Demora a passar, parece uma eternidade, mas depois descobrimos que trata-se de uma jornada de transformação. Cada um tem a sua. Acho que a compreensão dessas coisas enriquece a experiência com as histórias.

A Sociedade do Anel

A Sociedade do Anel

Diz-se muito sobre a coisa do Tolkien ser maniqueísta. Elfos são bons, orcs são maus e homens e anões se orientam de um lado ou outro da cerca. Mas não é possível ser totalmente maniqueísta. As tradições de contar histórias já mostraram isso. Sejam as lendas e mitos dos povos, os contos de fadas e fábulas, os escritos religiosos, os clássicos da literatura ou mesmo os filmes, séries e novelas. A magia que inspira pessoas a construir narrativas ou transmitir o que outro criou é um processo de ruptura, de transformação. Não somos mais os mesmos depois de atravessarmos a história. E quem escreve ou inventa uma história acaba mudando no processo. A trama e os personagens se inflam de uma vida própria e o autor não tem mais tanto controle. A narrativa acaba sendo resultado desse confronto entre a vontade de quem digita ou rabisca no caderno e o “monstro” que já foi inventado e se impõe. E quando essas criaturas se projetam para além da superfície do papel ou da tela, ficam sujeitas às forças dinâmicas da vida, onde o Bem e o Mal não conseguem ficar muito juntos ou separados, por muito tempo…

As Duas Torres

As Duas Torres

Imagine Tolkien nas trincheiras da 1ª Guerra. O que vivenciou para entender quando dizem sobre os pecados de guerra. Imagine um escritor passar tipo 10 anos escrevendo um romance. Convivendo com os conflitos e as provações dos personagens. Se fosse tão maniqueísta, não seria um livro tão orgânico, tangível nem tão belo e amado. Em outra ocasião, poderei escrever sobre Túrin, personagem cheio de contradições e um dos melhores de Tolkien.  Mas vou deixar para falar dele nos posts sobre O Silmarillion e os Contos Inacabados. Na trilogia do Anel, quase todos revelam fraquezas, pequenas crueldades, covardias e egoísmos.

Outra revisão foi a importância do mestre Samwise Gamgi. Tem uma verdade reconfortante na chatice e na ingenuidade compensadas pela coragem e integridade dele. Sabe que tem gente que coloca o chapéu do Sam? É. Tem sim. Faz toda a diferença na “dura caminhada pela estrada escura”.

O Retorno do Rei

O Retorno do Rei

Estou começando a relatar a viagem pelo trecho final (O Senhor dos Anéis). Para dizer a verdade, ter lido O Hobbit, O Silmarillion e os Contos Inacabados pavimentou a estrada com outras cores. E por isso, sei que o mestre Tolkien escrevia muito bem, se quer saber. Melhor a cada relida.

Agora, falta só uma nova passeada pelos filmes, para depois cair na estrada de O Hobbit em 3D a 48 quadros por segundo.

E daqui a alguns anos, quem sabe, vou reler tudo e ainda acrescentar As Aventuras de Tom Bombadil.

É bom sonhar com a Terra Média.

Reconstrução da aura

Copie Conforme

Cópia Fiel

“Mesmo a reprodução mais perfeita não possui o “aqui e agora da obra de arte”, sua existência única que contém em si a história da obra. Isso é a autenticidade que classifica o objeto como aquele objeto. A autenticidade escapa da reprodutibilidade.”  – Walter Benjamin, em “A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica”.)

Nos filmes americanos vê-se muitas personagens expressando coisas como: “quero algo real na minha vida” ou “pela primeira vez estou vivendo algo real”. Como se real mesmo fosse aquilo que é único, inédito e com algum frescor de experiência nova. Em Cópia Fiel (Copie Conforme), o iraniano Abbas Kiarostami descasca a superfície turva dessa noção e provoca um monte de perguntas. Então, desculpe pelo monte de perguntas espalhadas pelo post. É que o filme provoca isso. A culpa é do filme, que propõe um exercício sobre dicotomias entre conceitos difíceis de precisar. Real e imaginário. Autêntico ou cópia. Natural ou artificial. Verdadeiro ou falso.

A versão “natural” das pessoas é mais autêntica? Tem mais valor? Como é aquela boca sob o batom vermelho? Ela é mesmo morena ou loura? Fez escova marroquina? E aquele peito de silicone? Quantos mililitros turbinam o traseiro intrépido da popozuda? Que pele se esconde por baixo das tatuagens tribais?

William Shimell (aclamado cantor de opera inglês) interpreta James Miller, autor de um livro sobre autenticidade e falsificação de obras de arte. Elle é sua leitora e comparece a uma palestra do autor em uma cidade na Toscana. Ela se oferece para guiá-lo por um passeio pela região e os dois acabam passando um dia inteiro discutindo exaustivamente questões sobre arte e relações amorosas, e embaralhando identidades.

Elle, personagem de Juliette Binoche, se debate para não morrer nas águas agitadas – onde fez questão de mergulhar – que dividem sua vida original e a vida desejada. O que é mais original? Sua autêntica vida atordoada pela  dificuldade de diálogo com o filho e o marido ou a tarde na bela cidade de  Lucignano, onde quebra o pau em francês e inglês com o escritor? E aliás, será que somos mais verdadeiros quando nos expressamos em nossa própria língua?

CopieConforme

William Shimell e Juliette Binoche. Arte e vida real

As experiências com o real podem colidir de forma inesperada. O escritor conta um episódio que presenciou numa rua de Florença e que o inspirou a escrever o livro sobre a questão das cópias e os originais. Para sua surpresa e desconforto,  esse episódio é mais do que uma impressão da realidade. Ali, diante dele, estava a mulher (Elle) que, naquela outra ocasão, discutia com o filho na rua.

Para Elle, a realidade muitas vezes é só sobre dor e sacrifício. O prazer e a alegria são sonhos. Sonhos não são reais. Por essa via, pais vivem o mundo real enquanto os filhos, com sua natural rebeldia, ainda não despertaram.

Vale arriscar e forçar uma conversa sobre coisas que sua vida frustrada não propiciou? Seria melhor flertar com o que gostaria que fosse o real do que com o que sei que é? E aí me pergunto: o que desejo viver?

Elle e o escritor passeiam aleatoriamente pela cidade, entrando e saindo de museus, igrejas, restaurantes e dos diferentes papéis que assumem, ora de estranhos no parque, ora de marido e mulher. A artificialidade esperada do comportamento dos personagens é quase nula.  São verdadeiros na realidade e na imaginação.

No passeio, os dois conhecem um casal de noivos posando para o álbum de casamento. Os rituais como o do casamento, com suas alianças, tradições e supertições simulam uma vida sonhada pelos noivos e pelas famílias, comunidade, amigos. A cópia ou o objeto simbólico que representa uma coisa pode ser a salvação de quem deseja essa coisa. Como os ex-votos depositados em santuários da Bahia como pagamento de promessa ou agradecimento por uma graça.

“Com sua propensão para criar símbolos, o homem transforma insconscientemente objetos ou formas em símbolos (conferindo-lhes assim enorme importância psicológia) e lhes dá exoressão, tanto na religião quanto nas artes visuais.” – Aniella Jaffé, em O Simbolismo nas artes plásticas, capítulo de O Homem e seus Símbolos (organização de Carl G. Jung).

Copie Conforme

Experiência e Identidade

E tem Marie, irmã de Elle. Esta pede ao escritor que autografe um exemplar do livro com dedicatória para Marie. Elle trabalha numa galeria de arte, mas despreza as cópias que comercializa de grandes obras de arte. Esse desprezo alimenta mais ainda as discussões com o escritor. Devemos desprezar os pássaros que pousam e cantam sobre as esculturas do jardim do Museu Rodin só porque elas são cópias? Porque será que incomoda e até frustra tanto saber que aquele objeto é uma cópia?

Na obra citada no início do post, Walter Benjamin examina o fenômeno da “destruição da aura”. Uma percepção de perda de valor que as obras de arte sofreram com o advento das técnicas industriais de reprodução ou representação do real, como a fotografia, o cinema e as modernas formas de impressão.

Nesse cenário, Marie é que é mulher de verdade. Com seu genuíno marido gago que tem um jeitinho todo seu de pronunciar o nome da esposa. Marie não tem a menor vaidade. Ou pelo menos não a de exigir somente coisas originais, autênticas. Ela se contenta com a cópia. Não conheceu o escritor pessoalmente, mas vai ficar feliz com o livro autografado. Marie é ignorante? Tá feliz na caverna de Platão assistindo Domingão do Faustão e sonhando com o carro chinês que tem 7 lugares mas é mais barato que um utilitário coreano ou um sedan francês?

Daí, vislumbro que cobiçar o que é exclusivo, único, original  pode ser um traço de elitismo. Uma pequena (ou grande) ilusão de grandeza. O sentido de posse exclusiva permeia os delírios de consumo. Vamos patentear a beleza! Registrar o domínio universal http://www.originalidade.com.

Soube que, recentemente, uma charmosa e tradicional grife italiana fechou suas fábricas na Ásia e voltou ao modelo de produção artesanal em sua cidade de origem. É isso. Afinal, ostentar um “made in Italy” confere muito mais valor.

Nesse filme-jogo, Abbas Kiarostami coloca uns espelhos aqui e ali. Estamos na cena principal, mas podemos espiar o que acontece do lado de fora. O ator diz sua fala, mas também reflete o que seu interlocutor está “dizendo” quando não  o vemos. Os sons são captados com detalhes que invadem os diálogos. E os silêncios, como em outros filmes do diretor, falam alto.

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Para ler Walter Benjamin: A obra de arte na era da usa repodutibilidade técnica

Mais sobe os ex-votos

Para ler Jung: O Homem e Seus Símbolos

De Abbas Kiarostami, recomendo “Através das Oliveiras” e “Gosto de Cereja.