Atrozes inimigos de sempre

A sociedade industrial não deu uma importância excessiva à estética, preferindo a prática; nem sacrificou o utilitarismo à ética, preferindo os negócios. Mas combateu o analfabetismo, considerando-o inimigo da eficiência, e combateu a fatiga, considerando-a inimiga da produtividade. Contudo, talvez os seus maiores sucessos tenham sido conquistados contra a morte, que foi adiada; contra as muitas doenças que foram debeladas; e contra a dor, que foi derrotada em muitos casos. Em toda a pré-história e durante a longa época rural, contra a morte, as doenças e os traumas, a dor física e moral, nossos atrozes inimigos de sempre, lá onde os medicamentos e os cuidados médicos nos abandonavam, recorríamos aos antídotos espirituais constituídos pela esperança religiosa na imortalidade, pela consolação estética, pela doçura da amizade e pela paixão amorosa.

— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 8: O homem descobre a precisão e inventa a indústria

Bruno Marshall: Pain (Solitude) 1998

Bruno Marshall: Pain (Solitude) 1998

Iluminar as consciências

(…) o Iluminismo é o primado da autodeterminação, mas é também o primado da razão sobre a emoção (ou da linha reta sobre a linha curva, para retomar a nossa metáfora), da igualdade sobre a hierarquia, da tolerância sobre a perseguição, do laicismo sobre a religião e da especulação científica sobre a revelação divina. Com Voltaire e Rousseau, com Diderot e d’Alembert o termo Iluminismo indicou “o uso leigo da razão na pesquisa filosófica e científica, até tornar-se a palavra de ordem de uma elite de intelectuais que se sentiu investida de uma missão comum: promover o saber antimetafísico, fundado no sucesso do método experimental, banir os preconceitos e as superstições , fazer triunfar o espírito de tolerância, iluminar as consciências, difundir em todos os estratos sociais a edução e a cultura, reformar as instituições e limitar a influência das Igrejas nos Estados e na educação”.

— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 8: O homem descobre a precisão e inventa a indústria (com citação de “Ciência, utopia e progresso. Perfil do Iluminismo”, de P. Casini)

Filósofos Iluministas reunidos no salão de madame Geoffrin. Óleo sobre tela de Anicet-Charles Lemonnier, 1812. clique aqui

Filósofos Iluministas reunidos no salão de madame Geoffrin. Óleo sobre tela de Anicet-Charles Lemonnier, 1812.

 

A trajetória do sol

Se a trajetória geográfica da pré-industrialização parte de Londres para a Filadélfia e Detroit, e a da era pós-industrial irá de Boston a Stanford, a Seattle e a Tóquio, segundo o cinturão solar, caro a Daniel Bell, que relacionou a trajetória da civilização, sempre mais coerente com o percurso do Sol: da Europa à Costa Leste americana, da Costa Leste à Costa Oeste e, finalmente, da Costa Oeste americana à Ásia. A China, portanto, aproxima-se.

— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 8: O homem descobre a precisão e inventa a indústria

 

The Great Wall Of China Sunrise

The Great Wall Of China Sunrise

 

Sobre a ignorância

“Todos desejam conhecer as propostas, o culto e o ignorante. O culto compreende o trabalho proposto – ou pelo menos compreende alguma coisa, uma parte ou tudo -, mas o ignorante e o despreparado não compreendem nada, nem mesmo quando se tenta explicar-lhes o trabalho. A ignorância deles os conduz rapidamente à raiva. Permanecem ignorantes porque desejam, a todo custo, parecer sábios, coisa que não são, e atraem uma profusão de ignorantes para concordar com eles e desprezar aqueles que compreendem.”

— Filippo Brunelleschi, citado em Criatividade e Grupos Criativos, de Domenico de Masi, capítulo 7: O homem descobre o purgatório e reinventa a si mesmo

Willful Ignorance by phaedrustc

Willful Ignorance
by phaedrustc

johannek_ignorance

johannek_ignorance

De Brunelleschi, Domo da Catedral de Santa Maria del Fiore, Florença

De Brunelleschi, Domo da Catedral de Santa Maria del Fiore, Florença

As trevas preparam a luz

Talvez o exagero dos teólogos e dos religiosos em mortificar o homem e a terra em favor de Deus e do paraíso de um certo ponto revelou-se sufocante demais e provocou uma reação. As mesmas catedrais góticas, pensadas em louvor do Senhor, acabaram sobretudo por fazer florescer uma demonstração das capacidades humanas e dos resultados  magníficos que o homem é capaz de obter sobre esta terra, quando apela às suas geniais habilidades de artista e de engenheiro.

— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – capítulo 7: O homem descobre o purgatório e reinventa a si mesmo

Catedral gótica abandonada

Catedral gótica abandonada

O homem vitruviano de Leonardo da Vinci

O homem vitruviano de Leonardo da Vinci

 

 

 

O que devemos à Idade Média

“Tento enumerar alguns elementos: os óculos, o papel, a filigrana, o livro, a imprensa com caracteres móveis, a universidade, os algarismos indo-arábicos, o zero, a data de nascimento de Cristo, bancos, tabeliães e casa de penhores, a árvore genealógica, o nome das notas musicais, assim como a escala musical. A Idade Média nos doa ainda os botões, as roupas íntimas e as calças compridas; nos diverte com os baralhos de vários tipos, com o jogo de xadrez e o tarô, e ainda com o carnaval; alivia a dor com a anestesia, nos ilude com os amuletos (mas o coral, que protege as crianças dos raios, ajuda também a repassar o rosário). Trouxe o gato para dentro de casa, o vidro para as janelas, assim como a lareira; fez com que nos sentássemos à mesa (os romanos comiam deitados) e passássemos a comer com o garfo, e trouxe a massa – tão amada pelos italianos, mas não somente por eles -, exatamente os maccheroni e os vermicelli, cuja farinha era incessantemente moída pelos moinhos movidos a água e a vento. Soube usufruir a força motriz da água ativando a espremedura do óleo e as serralherias, batedores para os panos, moinhos de papel e de farinha. Descobriu uma extraordinária força motriz: o cavalo, dotando de ferro suas patas, além de estribo, rédeas rígidas, de modo que o animal pudesse puxar sem ser sufocado pelo peso; aliviou o cansaço humano com o carrinho de mão e tornou mais seguro o caminho dos navegantes com a bússola e o timão. Nas batalhas desfraldou bandeiras com brasões coloridos, assim como ressoou o fragor da pólvora disparada por fuzis e por canhões. Mudou o sentido que tempos do tempo, sobre a face da Terra, com um relógio que introduzia as horas de igual duração e não mais dependentes das estações; e mudou nosso sentido de tempo também no mundo do além, fazendo emergir um terceiro reino, o purgatório, que rompe os destinos imutáveis da eternidade. Por fim, fez as crianças sonharem com Papai Noel.”

— Chiara Frugoni em “O Que Devemos à Idade Média?”, citada em Criatividade e Grupos Criativos, de Domenico de Masi, capítulo 7: O homem descobre o purgatório e reinventa a si mesmo

invenções da idade das trevas: óculos

invenções da idade das trevas: óculos

 

Universidade de Oxford, Inglaterra

Universidade de Oxford, Inglaterra

Invenções da chamadaidade das trevas: moinho de pedra

Invenções da chamadaidade das trevas: moinho de pedra

Invenções da chamada idade das trevas: pólvora aplicada a armamentos

Invenções da chamada idade das trevas: pólvora aplicada a armamentos

 

Emoção poética

O teatro de Atenas possuía 15.000 assentos, e a participação nas representações era obrigatória: nos únicos quatro dias das Grandes Dionísias, todos os cidadãos participavam da procissão dionisíaca, assistiam aos concursos líricos dos corais e escutavam pelo menos 20.000 versos das 15 ou 17 obras teatrais que o programa incluía. Um ateniense de quarenta anos já havia assistido a pelo menos 300 encenações teatrais de dramas e comédias de nível tão elevado, que são estudadas e recitadas até hoje no mundo inteiro. (A comoção dramática, a leveza de espírito e a emoção poética condizem com o ócio criativo.)
— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 6: O homem descobre a sabedoria e inventa o ócio

O Teatro de Dionísio em reconstituição do século XIX.

O Teatro de Dionísio em reconstituição do século XIX.

O Teatro de Dioniso, visto do alto da Acrópole, com parte da moderna Atenas ao fundo

O Teatro de Dioniso, visto do alto da Acrópole, com parte da moderna Atenas ao fundo

As ruínas do Teatro de Mileto.

As ruínas do Teatro de Mileto.

 

Lugar de gênios

O maior recurso – desmedidamente abundante e do qual Atenas soube fazer um uso louvável – foi a criatividade genial dos artistas, dos pensadores e dos políticos que confluíram naquele que talvez permaneça até hoje como o mais denso aglomerado de gênios de todos os tempos. Basta uma olhada nas datas: em 500 nasce Anaxágoras; em 499, Ésquilo estréia em Atenas; em 496 nasce Sófocles; em 495, Péricles; em 484 nasce Heródoto; Eurípedes nasce no ano 480; Sócrates, em 469, e em 460 nascem Demócrito e Tucídides; Aristófanes vem ao mundo em 450 e Píndaro parte dele em 438; Xenofonte nasce me 430; Platão, em 427; Diógenes, em 413, e em 384 nascem Demóstenes e Aristóteles; Teofrasto nasce em 372. Se a esses personagens se somam Fídias, Lísipo, Policleto e Zeusi, todos eles ativos em Atenas no mesmo período de tempo, e caso se levem em conta que até esse período, conforme já vimos, as ondas do progresso humano haviam procedido em ritmo muito lento, de milênios ou de milhares de milênios, damo-nos conta da grandeza da aceleração que os gregos souberam imprimir à história da criatividade.
— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 6: O homem descobre a sabedoria e inventa o ócio

Heródoto

Heródoto

Ésquilo

Ésquilo

 

Aristóteles

Aristóteles

Péricles

Péricles

Cópia romana da cabeça de Alexandre Magno de Lisipo no Museu Arqueológico de Istambul.

Cópia romana da cabeça de Alexandre Magno de Lisipo no Museu Arqueológico de Istambul.

 

 

 

 

Resistência à mudança

Todas as descobertas e todas as invenções implicam uma transferência de poder e uma mudança de hábitos, despertando, portanto, medo, desconfiança, resistência e atraso. Fernando IV dos Bourbons dizia que “é mais fácil perder um reino do que um hábito”.
— Domenico de Masi: Criatividade e Grupos Criativos – Capítulo 5: O homem descobre o ferro e inventa o cansaço

Retrato de Fernando IV

Retrato de Fernando IV