reservava o fogo de seus olhos para ocultas contemplações


A marquesa, agora com trinta anos, era bela, se bem que de formas franzinas e excessivamente delicada. Seu maior encanto provinha do rosto, cuja calma traía uma surpreendente profundeza de alma. Seu olhar brilhante, mas que parecia velado por constante preocupação, acusava uma vida febril e a maior resignação. Suas pálpebras, quase sempre castamente voltadas para o chão, raramente se erguiam. Se lançava olhares ao seu redor, era com um movimento triste, e dir-se-ia que reservava o fogo de seus olhos para ocultas contemplações. Por isso, todo homem superior sentia-se curiosamente atraído por aquela mulher suave e silenciosa. Se a inteligência procurava sondar os mistérios da perpétua reação que se processava nela do presente sobre o passado, da sociedade sobre a sua solidão, a alma não tinha menos interesse em se iniciar nos segredos dum coração de certo modo orgulhoso de seus sofrimentos.

— Honoré de Balzac: A Mulher de Trinta Anos

 Jules-Élie Delaunay: Portrait de femme

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Experiência imperfeita do autor da Comédia Humana

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