Tradição, família e propriedade


Da série de posts ridiculamente atrasados…

O Ministério Fictício da Liberdade de Expressão adverte:

Esse post não pretende desrespeitar a opção sexual de ninguém. Seja hetero, homo, bi, tri ou multi-sexual. Não pretende afirmar que gays são caretas. Essa é apenas a expressão de uma rabugenta, que até entende a angústia da vida contemporânea cheia de escolhas, mas não se conforma com a noção de que sempre se acaba escolhendo as mesmas coisas.

The_Kids_Are_All_Right_(2010)

Is there any straight way to be gay?

Ai! Os clichês! As mesmas escolhas de sempre. Não importa a sua faixa etária, classe sócio-econômica, nível de escolaridade ou orientação sexual. Geral quer algo que dificilmente é o que se imagina: casar , ter filhos, ter família, um emprego estável, casa, carro, cachorro… Digo dificilmente porque não é o mesmo para todos e porque nem sempre é como se imagina. É bom para uma parte. Para a outra é só o que lhe restou. Ou é um estorvo. Estou falando sobre The Kids Are Alright  ou Minhas Mães e Meu Pai (???).

O filme me incomodou, mas não porque achei que assume um tom moralista, tipo “olha só como os homossexuais têm valores tão importantes quanto os dos héteros.” O que incomoda é a naturalidade com que retrata que tanto gays quanto straights podem se agarrar a valores convencionais. E o filme, não necessariamente critica ou enaltece os personagens por isso. Apenas conta a história.

Mas o que eu esperava, também, tola que sou? Que os gays fossem retratados como os supra sumos do “prafrentex”, revolucionários, transgressores, líderes de uma nova ordem de comportamento social? Olha aí a minha expectativa-clichê se manifestando…

Mas porque é tão comum na ficção que um casal de lésbicas seja necessariamente formado por uma figura masculina e outra feminina? Uma mulher se sente atraída por outra porque é uma mulher que gosta de mulher ou porque assume um papel de homem? Pode ser tanto um quanto outro caso, né? Mas porque se retrata tanto o clichê, ou seja, “a mulher + a marida da relação”? Seria porque a maioria opta por fazer tudo com a mesma forma de pão? Será mesmo??? Sei não… Mas que tédio, heim?

Sexualidade é uma coisa complexa. Mesmo para os tidos como “tão normaizinhos”. Imagine que você tem um amigo de infância, que namorou a garota mais bonita da escola. Com uma história pitoresca do primeiro beijo, das técnicas mirabolantes para criar as cantadas. Que casou apaixonado pela mulher. Como é que você pode ter certeza de que ele não gosta que ela pratique dominação violenta com ele? Ou de que ele não pensa em convidar a sogra para um ménage com a mulher? Ou que ele, no fundo, só goste de ver a mulher em ação com outro cara ou com outra mulher ou de vê-la se satisfazendo sozinha? Não existem fatos sobre sexualidade, porque não é possível abarcar tudo o que é possível nela. Então alguém pensa:  meus pais são um casal “normal” formado por um homem e uma mulher. Mas quais são as fantasias deles? Pode ser um fato que alguém ouviu seus pais gemendo e rangendo as molas da cama do outro lado da parede, mas no que eles estavam pensando? Estavam vivendo plenamente a experiência física ou fantasiavam estar com outros parceiros, em outro lugar, com outra idade? As possibilidades são infinitas. Mas a capacidade das pessoas escolherem ou aceitarem as opções dos outros parece ridiculamente limitada.

Julianne Moore e Anette Benning formam um casal. Elas têm dois filhos concebidos por inseminação artificial. Não entendi bem se a Moore pariu os dois ou se cada uma deu à luz um filho diferente. A filha toma a iniciativa de procurar o pai biológico ou doador, que também é pai do irmão. Esse cara é o Mark Rufallo. Benning é a figura paterna da família. Médica ginecologista e obstetra, sustenta a casa e tem cabelos curtos. Moore é arquiteta e paisagista muito frustrada que optou por ficar em casa cuidando das crianças. As mães ficam incomodadas com o interesse dos filhos por conhecer o pai. E são duas chatas em relação ao filho, que suspeitam ser gay. É uma contradição. Mamãe e mamãe gostam de trepar assistindo filmes pornôs gays masculinos. As duas têm alta escolaridade. Mas tudo isso não impede que tenham dificuldade de conversar sobre sexo com o filho. Tudo se complica, porque Moore tem uma recaída hétero e pega Rufallo. Enfim, como um cônjuge convencional, Benning se desespera com a infidelidade da mulher. E todo o equilíbrio da família vai pro saco.

Você pode ler isso e pensar: “nossa, você odiou o filme.” Ou até estranhar e especular “mas esse roteiro é ridículo.” Não, pior que não. Não achei ruim. É bom e bem naturalista. É isso que acontece mesmo. O padrão que se observa na vida é justamente como a interpretação do Mark Rufallo. Ele faz com perfeição um personagem perdido na compreensão de papéis a desempenhar. Banalizando a própria liberdade. A mediocridade e a caretice estão à disposição de todos, de qualquer opção sexual.

Come And Buy My Toys
(David Bowie)

Smiling girls and rosy boys
Come and buy my little toys
Monkeys made of gingerbread
And sugar horses painted red
Rich men’s children running past
Their fathers dressed in hose
Golden hair and mud of many acres on their shoes
Gazing eyes and running wild
Past the stocks and over stiles
Kiss the window merry child
But come and buy my toys
You’ve watched your father plough the field with a ram’s horn
Sowed it wide with peppercorn and furrowed with a bramble thorn
Reaped it with a sharpened scyth, threshed it with a quill
The miller told your father that he’d work it with the greatest will
Now your watching’s over you must play with girls and boys
Leave the parsley on the stalls
Come and buy my toys
You shall own a cambric shirt
You shall work your father’s land
But now you shall play in the market square
Till you’ll be a man
Smiling girls and rosy boys
Come and buy my little toys
Monkeys made of gingerbread
And sugar horses painted red

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