Dom Casmurro ou o livro-segredo de Bentinho



quem é o camurro que amou e devorou os olhos de ressaca?

Definitivamente, não me arrependo de não ter lido nos tempos de colégio ou de faculdade. Não tinha quilometragem para apreciar totalmente. Como já comentei por aí, quero voltar a ler daqui a alguns anos. Pois acho que ainda existem segredos escondidos pelo romance, que só vou encontrar as chaves para entender com a passagem dos anos. Veja, por exemplo, o sarcasmo de Machado quando compara as promessas feitas a Deus às dívidas com bancos. Deus como uma espécie de Rothschild, porém mais humano.

“Jeová, posto que divino, ou por isso mesmo, é um Rothschild muito mais humano, e não faz moratórias, perdoa as dívidas integralmente, uma vez que o devedor queira deveras emendar a vida e cortar nas despesas. “

Se lesse isso aos 18 não ia saber quem diabos é Rothchild nem o que representam as corporações religiosas e bancárias no tempo de Machado e também hoje. Nem ia perceber alguma insinuação anti-semita. Ou pelo menos, ia ter uma noção tão superficial que não permitiria encaixar as peças.

Outra coisa estranha é que acontece com Dom Casmurro o mesmo que vivenciei  com Ana Karenina. A mulher trágica de Tolstói que dá nome ao romance não é tão interessante quanto Lievin, o personagem que encarna as idéias do próprio autor no meio da trama. Ele, sim, muito mais atraente e simbólico. Para Ana eu não dei quase a mínima. O mesmo se repetiu com aquilo que eu julgava ser o coração da obra de Machado: a pergunta sobre o que houve realmente entre Capitu e Escobar. Mas, sinceramente, as páginas que consolidam uma das dúvidas mais citadas da literatura brasileira ficam tão concentradas na parte final, que perderam um tanto de relevância para mim. A aventura do Bentinho pela vida é que me intrigou muito mais. Simplesmente, ele é a coisa mais ordinária e extraordinária imaginável. A história do menino que escapa de ser padre, alcança a prosperidade e casa-se com a namorada de infância poderia ser contada meio assim como o fiz, da forma mais banal e pobre possível.  O que fez ele, afinal, para render um romance inteiro, que é considerado um dos maiores do mundo?

Bentinho queimou a vida, como uma chama que come a vela. Sai incorporando tudo. Se cansa e depois recomeça a corrida. Ele é o narrador e pode ser que, nesse tom confessional em que o romance se sustenta, faça com que o leitor se sinta envolvido pela conversa. Como se encontrássemos  um estranho no trem e ele começasse a contar sua vida. Por mais banal que a vida dele seja, se for um bom contador, nos ganha. A tradução do mundo aos olhos de Bentinho é que intriga. Suas observações sobre a mãe (tão santa santíssima), a prima solteirona, o agregado bicão (que semeia o conceito dos “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, com que Bentinho forja a famosa metonímia  “olhos de ressaca” para se referir a Capitu) e tudo o mais que ele confessa é o que injeta cimento na construção da história. Como o capítulo XVII, intitulado Os Vermes, em que dialoga com os vermes que devoram livros.

“- Meu senhor – respondeu-me um longo verme gordo – nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.”

Acompanhamos Bentinho desde a infância-adolescência e partilhamos sua perplexidade com a descoberta do significado de uma palavras ou decifrando livros. Machado se refestela em versar sobre as palavras, personagens históricas, mas sem levar a sério a estranheza sentida pelo personagem ou, possivelmente, pelo leitor.

Mas o que é relevante num romance? As incríveis peripécias do personagem? A cumplicidade entre autor e leitor? As emoções, o humor, a ironia, o texto inteligente, a riqueza da elaboração das palavras, a originalidade da estrutura narrativa, as diversas possibilidades de leitura, os segredos guardados entre frases que descrevem um jardim e um poço e, ao mesmo tempo, revelam um diálogo secreto entre namorados? Tudo pode ser relevante num livro e a força pode estar nos segredos que guarda.

Então, é um romance que possibilita diversas leituras para as várias idades e temperamentos de leitor. Além de permitir novas descobertas a cada releitura. Daqui a alguns anos vou reler e, certamente, escrever algo totalmente diferente…

Lembro de um professor contar que Dom Casmurro está na lista do 100 maiores romances da literatura universal. Mas que só entrou na lista porque “Memórias Póstumas de Brás Cubas” foi considerado um volume anterior ao “Quincas Borba”, cujo personagem principal aparece no Memórias. Se os dois romances fossem considerados obras independentes, Memórias ocuparia o lugar de Casmurro. Pois li Quincas Borba aos 16 e foi difícil. Toda uma discussão em sala de aula sobre o que representa a frase “ao vencedor, as batatas” era uma coisa mega chata. Parecia óbvio, mas obviamente não é. Mais um que terei de reler.

Li do autor: Quincas Borba, O Alienista, uma coletânea de contos (incluindo A Cartomante), Helena e Dom Casmurro.

Próximo Machado para ler: Memórias Póstumas de Brás Cubas.

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Guia Webdebee para Dom Casmurro

Machado de Assis – site oficial da Academia Brasileira de Letras

Rua de Mata Cavalos – atual rua do Riachuelo, no centro do Rio.

Panegírico – discurso que exalta as qualidades de uma pessoa recentemente falecida.

Protonotário – Outra palavra estranha para Bentinho. Acepções: ■ substantivo masculino 1    primeiro ou principal notário dos imperadores romanos 2    oficial da cúria romana hierarquicamente superior a todos os notários 3    m.q. arquinotário.  Etimologia: lat.ecl. protonotarìus; ver prot(o)- e 1not-; f.hist. sXV prothonotario, 1720 protonotario. (Fonte: Dicionário Huaiss).

Rothschild – família européia de origem germânica e judaica que fundou no século 18  um dos maiores impérios financeiros do mundo e tornou-se sinônimo de riqueza, como os Rockfellers no século XX . Site oficial.


4 pensamentos sobre “Dom Casmurro ou o livro-segredo de Bentinho

  1. Adoro Machado!!! =:o) E minha obra preferida é Dom Casmurro. Li você com os olhos da adolescência e me apaixonei pela (auto-) clareza, franqueza e nobreza de Dom Casmurro. É uma obra que leio e releio em cada uma das fases da minha vida. A última foi há poucos meses, quando cumpri 40. Bárbara: as good as it gets!

  2. Não estou de forma alguma criticando o conteúdo do seu Blog ─ que entendo ser um trabalho do que se diz da obra Dom Casmurro. Entretanto, estou sim (usando este seu Blog como veículo, e me perdoe por isto) dizendo da minha grande tristeza em contatar que a maioria dos leitores de Dom Casmurro tem reduzido a obra à indevida obliqüidade e ao falso adultério de Capitu; também outras coisas do contemporâneo que decididamente não cabe na obra; diferentemente, esses dois pontos (da primeira ponderação) são elementos de intencional contradição para pegar e brincar com acadêmicos e muitos leigos como eu, que as entendi plenamente, e em nenhum momento caí nessas e em outras peraltices da genialidade de Machado, e pelo contrário, as reproduzo no trabalho citado. Senão, você e seus leitores visitem os meus Blogs sobre o assunto: REAL EVOLUÇÃO DA FEITURA DA OBRA DOM CASMURRO ─ http://www.verdadedomcasmurro.blogspot.com e constatem o que tenho ponderado neste pequeno comentário. Também o Blog SÓCRATES VERSUS PLATÃO VERSUS MACHADO ─ http://www.socratesplataomachado.blogspot.com .
    Atenciosamente JORGE VIDAL

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