A construção do humanismo


Ken Follett: Os Pilares da Terra - Volume 1

Ken Follett: Os Pilares da Terra - Volume 1

Demorei muito a escrever o post porque nem sabia por onde começar. São dois super calhamaços + 8 episódios da série de TV, que me tomaram conta da vida por cerca de um mês.

Nunca tinha lido nada do autor. Assisti ao filme de  “O Buraco da Agulha” e à mini-série de TV de “A Chave para Rebeca”. Mas, para falar a verdade, não lembro de quase nada. Ken Follett era reconhecido por seus romances sobre espionagem, guerra etc. Lembro quando “Os Pilares da Terra” foi lançado em 1989. Estava cursando a universidade e o livro recebeu um montão de reportagens e resenhas nos jornais e revistas. Era o primeiro trabalho de Follett sem espiões, nazistas etc. E, depois de Pilares, não parou mais. O livro ficou anotado como uma futura aquisição, pois sempre me interessei por romances sobre a Idade Média. E a questão da medievalização do mundo estava muito em voga naquela época. Tinha lido recentemente “O Nome da Rosa” (um dos romances mais lindos do mundo), de Humberto Eco, e estudava autores como Bodrillard, Barthes e o próprio Eco.

“A proporção é a essência da beleza”, diz Tom o construtor. Jack ouve isso e reflete: “A noção de que os princípios da regularidade e da repetição podiam simplificar a construção e resultar numa obra harmoniosa era sedutora. Mas não estava convicto de que a proporção fosse a essência da beleza. Gostava de coisas selvagens , que se espalhassem, desordenadas: altas montanhas, velhos carvalhos, e o cabelo de Aliena.”

Seria harmonia sinônimo de beleza? Seria a dinâmica harmonia X caos uma condição para a melhoria e o crescimento? A dita Idade das Trevas é mais familiar à idéia de caos ou ordem? Será que a trajetória humana é feita de voltas sobre um eixo equilibrado entre forças opostas como caos e ordem? Feito subir uma escada em caracol de um campanário muito alto?

Sou libriana, portanto, totalmente pastel, ou seja, detesto o conflito. Odeio o caos, a feiúra, a injustiça, a falta de equilíbrio das coisas, quem fala alto demais, fala demais, faz tudo demais. Meu ascendente é Leão e tenho a Lua em Virgem. Acho inaceitável que uma cidade tenha bairros como o Leblon tão opostos a outros como Pavuna. Por que um lugar tem que ser feio, sujo e  esculhambado? Como ser indiferente a isso? Como não curtir jogar o jogo do equlíbrio da luz e das sombras em busca da beleza e da harmonia?

Ken Follett: Os Pilares da Terra - Volume 2

Ken Follett: Os Pilares da Terra - Volume 2

Os Pilares em livro

Descrevo somente alguns personagens para tentar me deter em alguns conceitos. É uma obra de 1000 páginas cheia de tramas individuais muito interessantes e ricas, mas aí começo a me dispersar e levaria 100 posts divagando.

O Prior Philip é um bom homem de Deus. Ambicioso em conquistar coisas em nome da fé, porém realmente fervoroso. Ganha e perde inúmeras batalhas com os poderosos da nobreza e do clero. Mas é firme e convicto. Um Jó em sua perseverança.

Tom, o Construtor, é um bom homem de Deus. Sonhador. Deseja construir uma catedral que tenha a beleza e grandeza de uma alta floresta.

Waleran Bigod é um homem da Igreja. Ambicioso e sem escrúpulos no comércio de indulgências. Contanto que o ajudem a se manter no caminho do arcebispado, ele vai favorecendo príncipes e monstros.

Ellen é uma boa mulher livre. Feiticeira dos destinos.

Jack de Cherbourg é um bom artista. Filho do amor de Ellen. Apaixonado pelo sonho de construir a mais bela catedral e por Aliena.

Aliena é a jovem filha do conde de Shiring, que é pisoteada pelo destino, mas toma as rédeas deste para reconquistar o que sua família perdeu.

William Hamleigh é um homem covarde e psicopata que tem uma obsessão doentia por Aliena.

Alfred é um homem covarde e idiota, que também deseja Aliena, só que para sacanear Jack.

E ainda:

Estevão o rei paranóico.

Maude ou Matilde, a princesa-rainha chatona, cujo filho, Henry, iniciará a dinastia Plantageneta.

Regan Hamleign,  mãe de Alfred e uma espécie de Lady McBeth.

Richard, o irmão bundão de Aliena que vira um cavaleiro.

Remigius, o monge traíra e miserável.

Todos os personagens são materiais de construção da catedral de Follett. Vidas desambam e se reerguem como abóbadas mal projetadas. Alguns ídolos se partem em pedaços. Outras partes do edifício são cheias de falhas e vazamentos. Ameaçam ruir, mas são ancoradas no último momento por novos elementos surpresa no plano arquitetônico.

A vida, como uma construção hercúlea, que desafia a miséria humana, é o coração pulsante do livro. A energia que move essas vidas pode estar na fé mais íntegra de Phillip, nas paixões de Tom, Ellen e Jack, na sede de poder de Walleran, no desejo de superação de Aliena ou na combinação de ódio-inveja-covardia de William.

A idade média na Europa ocidental foi um tempo de ignorância e selvageria, sob a sombra da Igreja. Atos de fé podiam ser movidos pelo mais luminoso amor ou o mais ardente ódio. Porque atos de fé são atos humanos. Muitas águas passaram até que um inglês mediano se familiarizasse com a palavra humanity.

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O Pilares na TV

Produzida pelos irmãos Ridley e Tony Scott, a série de TV The Pillars of The Earth tem um super elenco, incluindo Ian McShane (Walleran), Rufus Sewell (Tom), Donald Sutherland (conde de Shiring)  e Matthew Macfadyen (o Mr. Darcy, do Orgulho e Preconceito com a Keira Knightly, que vive o Prior Phillip).

Youtube Preview

Youtube Trailler

Obviamente, ela resume bem o catatau de páginas do livro e reduz o número de personagens. Mas é uma produção cuidadosa. E é muito bom ver transformadas em imagens a construção da catedral, a vila de Kingsbridge e tantas outras coisas. No site oficial tem um diário interessantíssimo do Ken Follet sobre a concepção da série, na qual ele foi consultor do roteiro e fez uma ponta num dos últimos capítulos.

The Pillars of The Earth

O Prior Phillip (Mathew McFadyen)

The Pillars of The Earth

Ellen (Natalia Worener) e Tom, o construtor (Rufus Sewell)

The Pillars of The Earth

O conde de Shiring (Donald Sutherland) e seus filhos Richard e Aliena

The Pillars of The Earth

O rei Estevão (Tony Curran) e o bispo Walleran (Ian McShane)

The Pillars of The Earth

O mercado de Kingsbridge

The Pillars of The Earth

Jack, o artista (Eddie Redmayne)

The Pillars of The Earth

Aliena (Hayley Atwell)

The Pillars of The Earth

O medonho William Hamleigh (David Oakes)

Guia webdebee para Os Pilares da Terra

* Glossário

(Fontes: Wikipedia e dicionário Aurélio online )

Cabido – O conjunto dos cônegos forma o Cabido (do latim Capitulus) ou seja o colégio reunido sob uma mesma cabeça, um chefe ou superior. O Cabido, seja catedralício ou colegial, é obrigado a ter seus estatutos próprios estabelecidos por legítimo acto capitular e aprovados pelo bispo diocesano.

Simonia – venda de “favores divinos”, bençãos, cargos eclesiásticos, promessa de prosperidade material, bens espirituais, coisas sagradas, etc. em troca de dinheiro.

Bico-de-viúva (widow’s peak) – Implantação natural do cabelo que avança em forma de bico pelo meio da testa (iDicionário Aulete).

Arcobotante – (ou botaréu) é uma construção em forma de meio arco, erguida na parte exterior dos edifícios românicosgóticos para apoiar as paredes e repartir o peso das paredes e colunas só assim se conseguiu aumentar as alturas das edificações dando forma (beleza), função (estrutura) com a técnica da época.

Clerestório – nome que se dá à parte da parede de uma nave, iluminada naturalmente por um conjunto de janelas laterais do andar superior das igrejas medievais do estilo gótico. De uma forma geral, refere-se à fiada de janelas altas, dispostas sobre um telhado adjacente. O seu uso remonta às basílicas romanas.

Torreão – Torre larga, com ameias, que constitui o reduto defensivo de um castelo. Torre no alto de um edifício.

Ressaltos – Saliência, proeminência de coisa que se destaca da superfície de que faz parte; relevo.

Arcada – Uma arcada (ou arcaria) é formada por uma seqüência de arcos, em geral formando um plano divisor de espaços, os quais assentam-se em colunas. São, por exemplo, encontradas em claustros

Transeptos – parte de um edifício de uma ou mais naves que atravessa perpendicularmente o seu corpo principal perto do coro e dá ao edifício a sua planta em cruz. O cruzeiro é a área de intersecção dos dois eixos.

Passadiço – Passagem, corredor de comunicação.

Plinto – Na arquiteturaplinto é o elemento que fica diretamente sob a base de um pilarpedestalestátua ou monumento.

Intercolúnio – Espaço entre duas colunas.

* Sobre a dinastia Normanda

http://pt.wikipedia.org/wiki/Conquista_normanda_da_Inglaterra

* Sobre os Plantagenetas

http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/RBDPlant.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Plantageneta

* Sobre Arquitetura Gótica

http://pt.wikipedia.org/wiki/Arcobotante

http://pt.wikilingue.com/gl/Arcobotante

http://www.google.com.br/images?hl=pt-BR&q=arcobotante&um=1&ie=UTF-8&source=univ&ei=SPKETMXIH4P-8AbbjaGKBQ&sa=X&oi=image_result_group&ct=title&resnum=4&ved=0CDEQsAQwAw&biw=1024&bih=675

http://pt.wikipedia.org/wiki/Clerestório

Elementos da arquitetura gótica

Elementos da arquitetura gótica

* Milho na Inglaterra medieval? Na-na-ni-na-não!

Um equívoco engraçado de tradução de certos romances de época como esse é citar alimentos que ainda não existiam ou não tinham sido descobertos. O milho é o mais comum e é citado no casamento de Aliena, que recebe uma chuva de milho ao invés de arroz. No romance Alexandros, de Valerio Massimo Manfredi, ele descreve Alexandre, o Grande, cavalgando por paisagens cheias de plantações de milho. Mas nem na Europa do século 12, e muito menos na dos tempos de Alexandre, havia milho, pois era um alimento original das Américas. Então, se liga porque, na Inglaterra, corn não é necessariamente milho, como ocorre na América do Norte.

Dicionário Oxford – corn: British the chief cereal crop of a district, especially (in England) wheat or (in Scotland) oats

Dicionário Michaelis – cornn 1 cereal. 2 Amer milho. 3 Brit trigo. 4 aveia.

“Quando os europeus chegaram ao continente americano, o milho era cultivado do leste do Canadá até as proximidades da Terra do Fogo, na América do Sul. Os marinheiros de Cristóvão Colombo o conheceram em 1492, de acordo com o relato de um deles. Esse navegante descreve a planta em seu diário como um “trigo gigante”, com um caule elegante e grãos dourados. Depois da conquista, espigas de algumas espécies foram levadas para a Espanha. Em 1494, pela primeira vez, o milho foi semeado em Sevilha. A partir daí, ele se propagou por todo o continente europeu, embora durante muitos anos tenha sido utilizado unicamente como alimento para animais.” (leia artigo completo na Revista Planeta)

2 pensamentos sobre “A construção do humanismo

  1. Que causalidade! =:o) Cai na sua página e… a minha história com Os pilares da Terra é incrivelmente parecida com a sua! Adorei ler o seu post, completo – inclusive comentando sobre a tradução da palavra ‘corn’. Já engatou a sequência com Mundo sem fim!? Bárbaro, e uma oportunidade de reencontrar os descendentes das personagens!! Mas meu favorito sobre esse período, sem sobra de dúvida, continua sendo La catedral del mar, de Idelfonso Falconés!!!

    Ah, hoje, ganhei dois novos livros: Tratado geral de semiótica, de Umberto Eco e 2666, de Roberto Bolaño – pareço uma menina com sapatos novos. Há uns três meses, comecei a registrar o que estou lendo em aNobii. Conhece!? http://www.anobii.com/kukarosello

    • Muito obrigada.
      Vou conferir seu blog e os posts no aNobii.
      Fiquei muito curiosa com o La catedral del mar.
      Abs,
      Débora

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