Basta estar vivo


Tracy Chevalier: Falling Angels

Tracy Chevalier: Falling Angels

O mundo pirou de vez  mais ou menos depois que a rainha Vitória morreu. Com ela foi-se também, oficialmente, o século 19. A era da revolução industrial, que mudou radicalmente as sociedades, deu lugar ao tempo das vanguardas das artes, das grandes guerras que exterminavam em massa, do voto feminino, da “ascenção do proletariado”. Todas as coisas que causariam um ataque na rainha, deram as mãos e varreram o mundo.

Em 1901, a Inglaterra guardava ainda um clima de velório, um perfume mórbido do passado que dissipou-se lentamente. Tracy Chevalier recriou essa atmosfera no romance Anjos Caídos (Falling Angels) em que descreve o choque cultural entre duas famílias que se conhecem em um cemitério.

De um lado, Kitty e Richard Coleman e sua filha Maude formam uma família intelectualizada, moderna, curiosa e triste. De outro, estão os conservadores e saudosistas Waterhouse, a família da insuportável Lavínia, filha de Gertrude e Albert, e irmã da personagem mais intrigante:  Ivy May.

As famílias são arrastadas uma para a outra em função das meninas, que se conhecem brincando no cemitério entre as lápides, túmulos e esculturas de anjos. Elas juntam-se ainda a Simon, o menino coveiro, com quem selam uma inesperada amizade.

Pensei que seria um livro sobre as mudanças dos tempos afetando as famílias. Mas não é exatamente isso. Tem um retrato caprichado da época, com direito a menções a elixires e pastilhas da farmacopéia do início do século. Tem a passagem do cometa Halley, o movimento sufragista feminino inglês, a chegada do automóvel às ruas de Londres, além de um incrível manual de etiqueta do luto (!). Mas a história se concentra mesmo em alguns anos das vidas dessas famílias e sua forma de lidar com a vida e aceitar a morte, algumas alegrias e inevitáveis tragédias.

É o terceiro livro da autora, lançado depois de Azul da Virgem e Moça com brinco de pérola. Tracy faz um exercício literário diferente dos outros romances, ao estruturar a história em capítulos narrados pelos próprios personagens, como se escrevessem em um diário. Ouvimos os pontos de vista de cada um sobre os eventos que formam a trama. A morte lança sombras sobre os diálogos, os gestos e os sentimentos dos personagens, o tempo todo. Mesmo quando não estão no cemitério, que é o cenário mais detalhadamente descrito no livro, a morte é o fator de motivação e de letargia daquelas almas tão tristes. No cemitério, trabalha outro grupo de personagens centrais da história. Simon é o menino coveiro, filho de um coveiro e de uma parteira, que também faz abortos…

É… é muito papo caveira + capuz preto + foice… Mesmo assim é um livro belo sobre o que se pode fazer da vida.

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delícias e venenos

Lavínia é uma espécie de migucha pós-vitoriana. Se tivesse Twitter na época ia dar conselhos de etiqueta e ter uma legião de miguchas seguidoras.

A pequena Ivy May… cortou meu coração sabê-la assim tão calada e grave. Sua resposta para a mãe, quando esta pergunta porque é tão calada e diferente da irmã, é uma das melhores falas do livro: “quando eu falo, você me ouve.” Econômica e assertiva. Em oposição à irmã Lavínia, que chora, grita e desmaia por nada, o que leva os outros a não a levarem a sério.

Kitty Coleman é um ser simbólico. Tristonha na cama depois de uma noite de swing em 1901. Insatisfeitíssima. Vida e liberdade são duas amigas que se merecem sempre juntas.  A velha rainha Vitória morreu como a mulher mais poderosa de seu tempo. Teve suas satisfações, mas será que gozou tal liberdade?

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