Até que os cordeiros se tornem leões


Robin Hood

Robin Hood

Esse blog é cheio de menções à Inglaterra medieval, guerra dos cem anos, arco e flecha e tal. Logo, assisti ao Robin Hood, do Ridley Scott, de queixo caído por quase 3 horas.

O mundo do Bernard Cornwell se materializou na tela do cinema, como se estivesse num parque temático 3D. O som das flechas aterrissando sobre o exército inimigo tranportava para a linha de batalha.

Com todo respeito pela deliciosa versão dos anos 30, com Errol Flynn e seu colante verde, esse novo filme é o melhor Robin Hood de todos. Bom por causa do diretor (de Blade Runner e Gladiador), dos atores e, principalmente, do roteiro.

Dois filmes foram fundamentais para turbinar esse arrastão de filmes sobre guerreiros, espadas, arcos, flechas e cia. Gladiador, de 1999, e a trilogia O Senhor dos Anéis (2001-2003). Desde então, cresceu o entusiasmo pela criação e adaptação de roteiros, aperfeiçoou-se  o design de efeitos especiais, cenários e figurinos, sofisticou-se a pesquisa de época e as técnicas de filmagem de batalhas monumentais. Uma indústria gigante de especialistas,  pesquisadores, consultores e treinadores, que apóia a produção cinematográfica, se fortaleceu. Sempre tem emprego para os chamados coaches, que ajudam atores a falar com sotaque de época, a lutar com espadas ou ficar com um abdomen autêntico de um deus grego. Sem falar nos profissionais que ensinam idiomas esquecidos e pesquisam o comportamento e os costumes de épocas.

Deixando de lado os exageros, essa onda de espadas, machados, escudos e cotas de malha é muito bem-vinda. Aventuras ambientadas na Roma antiga ou na Idade Média sempre arrastam fãs aos cinemas e torrents da vida. Dois filmes recentes já estão na minha fila de espera: Centurion e Black Death. Oba! E tomara que alguém se anime e filme o Ivanhoe e a Lady Godiva, por exemplo.

Mas voltando ao Robin Hood. Cate Blanchett e Russel Crowe, dois belos quarentaços vivem os personagens principais, Marian e Robin. E ainda tem Max Von Sidow, o próprio deus Odin do cinema sueco, fazendo o Sir Walter Loxley. Enfim… ainda bem que alguém sabe que não são apenas adolescentes que vão ao cinema.

Grades, muros, blindagens, coletes a prova de balas. Medo de sair na rua. Numa época como a nossa, que está cada vez mais se medievalizando, lembrar de marcos históricos como a magna carta é bom. Para vivermos como uma sociedade dita civilizada, fazemos pactos. Contratos tangíveis ou não, que limitam poderes de alguns e garantem liberdades a outros. A liberdade tem preço e pode ser uma escolha. O ator e diretor Antônio Abujamra tem uma frase célebre que repete para os entrevistados em seu programa Provocações, da TV Cultura. É algo como “Olhe para aquela câmara e diga o que quiser. Enforque-se com a corda da liberdade!”  Poder ir e vir. Dizer o que quiser. Fazer escolhas. É tudo que se deseja, mas também pode ser amedrontador.

Robin Hood é um personagem enigmático, meio história e meio mito. A versão mais famosa de sua suposta existência situa o herói fora-da-lei na época da morte de Ricardo Coração de Leão nas Cruzadas e a ascensão de seu irmão João Sem Terra (assim chamado porque não era o filho mais velho do rei e não herdava terras). O filme de Scott não cobre a lenda completa de Robin. Se detém em contar a história de como o homem se tornou a lenda, desde as lutas nas Cruzadas ao lado do rei Ricardo até se tornar o líder proscrito da floresta de Sherwood. É uma visão diferente da adotada em outros filmes, mas muito interessante e possibilitando uma sequencia (quem sabe?).

No tempo de João Sem Terra surgiu o embrião do regime constitucional inglês. A magna carta selava um pacto entre o rei de um lado e os barões e a igreja, de outro. Os barões representam a baixa nobreza. Barão é um título conquistado por feitos militares. Uma recompensa dada a cavalheiros pelas vitórias em guerras. E a igreja… bem a igreja sempre teve conflitos com os reis ingleses até Henrique VIII dar um beiço no Papa. Havia também uma tensão de classes. Os velhos donos de terras de origem anglo-saxã nunca engoliram direito o domínio normando da Inglatera pós-Guilherme, o Conquistador.

Mas foi com a conquista dos normandos que a Inglaterra adquiriu valores ocidentais perdidos desde a derrocada do império romano. Ironicamente, foi com os franceses que os ingleses se tornaram realmente uma nação unificada em torno de um rei. Guilherme trouxe novidades como o feudalismo, as cerimônias de investidura, sagração de cavaleiros, sirs. Os títulos de barão, conde, duque, marquês etc. E com todos esses babados novos, vieram também leis que descendiam do Direito Romano. Começava a germinar uma semente de novos valores no coração do povo inglês. Lógico que ainda estavam longe de acabar, por exemplo, com o regime de escravidão ou de servidão. Mas os figurões da alta nobreza e clero, descendentes dos conquistadores normandos, saborearam o próprio veneno quando os barões, lordes, sirs, cavalheiros e outros membros da baixa nobreza se uniram pela necessidade de defender suas propriedades e o direito de lutarem por elas. A formulação da Magna Carta e toda a briga para que o rei cumprisse a nova lei, faz parte da trama desse novo Robin Hood, que está la entre os carneiros que tornam-se leões. Tomara que eles façam uma sequência para retratar o herói fora-da-lei que, em nosso imaginário romântico, roubava dos ricos para dar aos pobres, tentando compensar a injustiça e crueldade dos senhores fidalgos e religiosos.  Idéias que inspiram até os dias de hoje.

E as amenidades?

Achei ótima a Eleonor de Aquitânia, mãe dos irmão Ricardo e João. Ela é retratada com elegância e inteligênica, pratica falcoaria e deveria ter sido rainha, pois dava um banho de esperteza política nos filhos.

A cena da Marian tirando a cota de malha do Robin parece uma anedota erótica de Chaucer. Sacana mas plausível. E enfim.. ele pediu gentilmente…

O trio formado pelo ruivo do ER, João Pequeno e o trovador é muito bom. E ainda tem o frei, que fornece o melhor hidromel. As sequências de músicas e danças são excelentes. E ainda tem o interessante Matthew Macfaydien fazendo o xerife de Nottingham.

Nos tempos das dinastias normanda e plantageneta a corte inglesa falava francês. Era a língua dos poderosos e os distinguia da “ralé” falante do inglês. Mas parece difícil fazer filmes para o mercado norte-americano com um tratamento tão autenticista assim.

Mas tem o documentário do History Channel  The Real Robin Hood que complementa com perfeição o filme. Tão rico em detalhes da época que tem que assistir várias vezes para absorver o conteúdo como se deve. É uma aula impressionante sobre a história, os costumes, armas, táticas de guerra e tudo mais.

Robin Hood

Robin Hood

Robin Hood

Ricardo Coração de Leão

Robin Hood

Eleonor de Aquitânia

Robin Hood

João Sem Terra

Robin Hood

Sir Walter Loxley

A Magna Carta

A Magna Carta

Robin Hood

If you ask nicelly...

5 pensamentos sobre “Até que os cordeiros se tornem leões

  1. tesão
    russel crowe é td
    cara, debs, adoro seus posts aulas de história.
    queria re-ver um filme q vi meio aos pedaços, do paul verhoeven.
    o rutger hauer era um cavaleiro medieval e raptava lá uma donzela, e a estuprava. e no final ela se apaixonava por ele.
    como é o nome desse filme, vc viu??

  2. sim juls. russel é puro rock’n´roll na veia.

    Puttzzzzz. Bem lembrado! Conquista Sangrenta com Rutger Hauer e a Jennifer Jason Leigh. Lógico que vi e que vou procurar no kickasstorrents imediatamenteeee.
    É duca. No século 14, da Peste Negra e tal.
    Bjs

  3. tem um outro filme tb, chamado a amante do rei. com o timothy dalton e a valeria golino.
    ele é o rei e seduz a mulher de um nobre da corte.
    lógico q ela o odeia, mas ele fica com ela durante a peste, e cuida desveladamente dela para q ela não fique com nenhuma marca.
    mto lindo o filme.
    tb não me lembro direito de tudo.
    vamo fazer uma sessão de filme velho?
    medieval?

    • Oba! Vamos sim. E não podem ficar de fora: Monty Python e o Cálice Sagrado, O Incrível Exército de Brancaleone e Brancaleone nas Cruzadas.

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