U2 360º: a terceira dimensão da música


U2 360º At the Rosebowl DVD

U2 360º At the Rosebowl DVD

Sinto uma invejinha de ver e ouvir os violinistas das orquestras. Ficam ali nadando submersos na massa sonora do Verão das Quatro estações de Vivaldi. O executante é a própria música. Sempre ouvi músicos dizerem: vamos “fazer” o concerto x ou o quarteto y. Eles “fazem” a música.

Bono sorri, deliciado, cantando Magnificent. “My first cry it was a joyful noise.” A mesma expressão facial aparece quando canta “In God’s Country” no filme/álbum Rattle and Hum. Me dá um arrepio de ver e ouvir e me dá a velha invejinha.

Tenho uma história mal resolvida com a banda. O show-fiasco de 1998 no Autódromo de Jacarepaguá foi uma experiência meio traumática. Naquela época, eu estava de férias da música pop. Só ouvia Bach, Beethoven, Mozart, Villa-Lobos & Co. Mas resolvi sair um pouco da viagem pelos clássicos e, que coincidência feliz, o U2 vinha ao Rio! Porém,  foi uma das maiores merdas do universo…

Gosto do U2 desde os tempos da FM Maldita, onde ouvi “I will follow” pela primeira vez, lá pelos anos 1982-3. Boy, October, War, Under a Blood Red Sky, The Unforgettable Fire e Wide Awake in America formavam a trilha sonora da minha vida, junto com os discos do Legião Urbana, Pink Floyd e Led Zeppelin, para citar só alguns. O auge da banda para mim – e para muita gente – veio com o álbum The Joshua Tree, de 1987. Quando escutei o lado A, virei pro lado B, voltei ao A e ao B e ao A e ao B…. Eu estava perplexa com aquelas canções. Os quatro irlandeses estavam bem longe do som de Boy. E ao mesmo tempo, eles mantinham algo da espontaneidade do primeiro álbum.  Mesmo com toda aquela carga de maravilhamento com as raízes da música americana e os recursos de produção de estúdio, uma integridade sonora ficou ali bem firme e heróica. No mais, era só beleza, amor e paz.

Congelada na fase do vinil

Congelada na fase do vinil

Depois eles meio que sumiram e voltaram com Achtung Baby. Para mim, passou praticamente despercebido. Eu tava ligada em Vivaldi e Schubert. Não queria saber do Bono com pinta de cluber atrás daqueles óculos de mosca.  E eles foram ficando mega, giga, tera, peta… E um tempo depois eles desembarcam pela primeira vez no Brasil com a turnê de Pop. Aquele show do limão. E aí eu resgatei o amor pelos vinis empoeirados da banda. Comprei o Joshua Tree em CD, junto com o Achtung Baby e o Zooropa, para tirar o atraso geral. Mas eles não eram mais nada do que eu cultuava. Não se tratava mais de quatro caras, a música, os instrumentos e o palco. Eram as luzes, o limão, o telão, as roupas, os vídeos, a imagem, a imagem, a imagem. E a música ficou em último lugar. Uma merda astronômica. O show no Rio foi mesmo toda aquela absurda confusão e desorganização completas. Mas nada me abalaria se a música fosse boa. Só que eu não ouvi nada de bom. Fiquei meses sem querer saber deles. E conclui que não valia mais a pena esperar por outro show. Melhor ficar com meus discos e nada mais….

Só em 2000 voltei a ver a luz azul. Veio o All That You Can’t Leave Behind. Mais um disco para ouvir até rachar. E os caras voltam ao Brasil, mas para gravar um show na TV… Enfim, aos poucos fiz as pazes com o U2 num longo processo em que passei a amar Achtung, Zooropa e até o Pop. Mas dos shows, até hoje tenho medo. Não tive coragem de ir para São Paulo conferir a Vertigo Tour. Vi pela TV com uma ponta de arrependimento. Mas comprei todos os DVDs disponíveis e assisto de vez em quando. Aquele do show em Slane Castle na Irlanda é absolutamente maravilhoso. Bom… daí veio No Line on the Horizon. Desse já falei em detalhes. Acho melhor que o anterior, How to dismantle an atomic bomb. Apesar de eu adorar mortalmente “Original of the species” e “Love and Peace or Else”.

E agora chegamos ao DVD que é o assunto do post. Confesso que fiquei me mordendo de curiosidade com aquela estrutura em forma de aranha meio Louise Bourgeoise. Um show em 360°… será que vale a pena abandonar a implicância de vez? Mas essa coisa da mega tecnologia, de falar ao vivo via satélite com o astronauta no espaço sideral, sei lá… Acho que vou me contentar com o DVD mesmo. Que é muito bom. É uma prova renovada do amor por fazer música ao vivo. Eles podem falar a vontade da emoção de estar junto à platéia, bla bla bla. É um prazer egoísta. Eles “fazendo” a música e os outros assistindo. Mas eu só quero ouvir a música. A música em suas três dimensões me basta.

O set list inclui algumas canções que me surpreenderam como “Ultra Violet” e “The Unforgettable Fire” (que adoro de paixão).  Só faltou “Your blue room”. Eles tocam ela na turnê americana, mas não entrou no DVD. Que pena. Aquela guitarra do The Edge hurts so bad… “(…) And Time is a string of pearls. Your blue room (…).” Eu totalmente derreteria se ouvisse isso ao vivo.

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