Mansfield Park ou o laboratório de Jane Austen


Mansfield Park, de Jane Austen

Mansfield Park, de Jane Austen

Não é a história mais apaixonante de Austen. Tem um começo meio chato e confuso. Li recentemente essa edição bilingue da Landmark. Tive que reler vários parágrafos para entender quem era mesmo a Mrs. Norris e quem era a Mrs. Grant. Avancei lentamente pelos capítulos iniciais, que invariavelmente me lançavam num sono reconfortante toda noite por cerca de duas semanas. Mas finalmente cheguei na parte em que os personagens se preparam para encenar uma peça de teatro, e a leitura, desde esse ponto, começou a acelerar.

Para mim, é o romance mais representativo da escrita da autora inglesa. Em toda sua obra, Jane Austen desenha e emoldura os personagens de forma indireta. Não vai simplesmente descrevendo detalhadamente cada um. É um estilo muito especial que, em Mansfield Park, ela exercita prodigiosamente.

Numa partida de uiste na mansão da família Bertram, ela extrai o que todos escondem ou não nos corações. Mary Crawford, ao comentar algo sobre a condição feminina e o mérito de ganhar ou perder um jogo, deixa muito clara uma mensagem sobre quem ela é, o que pensa e o que deseja. Bastava ao apaixonado Edmund Bertram prestar atenção para entender o que estava em jogo. Lady Bertram expõe suas indecisões e a preguiça e desinteresse em relação a tudo. Henry Crawford pratica sua magia manipuladora de ensinar a jogar e controlar o próprio jogo simultaneamente. E as ávidas aves de rapina Sir Thomas e Mrs.  Norris – respectivamente, o aventureiro homem de negócios, e a tia sovina e neurótica – são as grandes forças opositoras, que fazem as apostas mais altas, nesse microcosmo de Austen.

Em outro momento, Mr. Crawford devaneia por minutos, se perguntando se sentia inveja do jovem William Price e sua vida heróica de empregado da Marinha, onde tenta conquistar com muito esforço seu lugar no mundo. Crawford é um cavalheiro, não precisa trabalhar. Não precisa, na opinião de muitos, de esforço algum para conquistar coisa alguma. No entanto, ele se entrega ao delírio momentâneo de uma vida de conquistas feitas pelo esforço pessoal. Uma grandeza diferente e digna da afeição de seus queridos e admiração de seus pares. Como a jornada de um Capitão Wentworth, de Persuasão. Mas, logo em seguida, Crawford aterrissa em seu velho e confortável mundo de diversões e vaidades.

Filme de 1999

Filme de 1999

A escritora faz uma cirurgia cerebral em seus personagens e o leitor assiste a tudo com lentes de aumento. Somos cúmplices das desventuras de Edmund, iludido por Mary Crawford, de Henry Crawford e seus planos sofisticados e perigosos de conquista amorosa, da crueldade e arrogância obsessivas da tia Norris, ou da torturante má sorte de Fanny Price.

Tenho curiosidade de saber se Jane leu Abade Prévost  e sua “Manon Lescaut”, além de Choderlos Laclos e suas “Ligações Perigosas”. Há uma leve dose de libertinagem nos irmãos Crawford, meio semelhante à do visconde Valmont e da marquesa Merteil. Mas só um pouco, bem leve.

Assisti a duas adaptações do livro para o cinema/TV. Aquele filme de 1999 com a Frances O’Connor (Fanny) e Johnny Lee Miller (Edmund) e outro mais recente (2007), da ITV inglesa. Vi os filmes antes de ler o livro e sempre fiquei intrigada com o teor anti-escravagismo incluído nos roteiros das duas produções. No romance, a questão é abordada bem sutilmente, quando Fanny lembra num diálogo com Edmund que havia perguntado ao tio algo sobre o avanço das leis inglesas que pretendiam combater a escravidão. E há evidências históricas de que Austen era uma apaixonada da causa, tendo batizado o romance como Mansfield Park, segundo o texto da contracapa da edição que li, em uma referência a Lord Mansfield, que liderou as discussões que levaram a justiça inglesa a começar a banir a escravidão. E, vamos combinar que, de certa forma, Fanny é quase uma escrava Isaura. De longe, a heroína mais sofrida de Austen. Sempre estapeada pela condição de “prima pobre”, que deve todo o conforto e boa educação graças à magnânima generosidade dos tios. Seria Fanny um símbolo da opressão dos mais fracos e, em última análise, da escravidão?

Filme da ITV de 2007

Filme da ITV de 2007

Mas no filme de 99, a abordagem do assunto é mais agressiva. Quando vi pela primeira vez, considerei exagerado, mas assistindo novamente, percebi que havia até algum mérito. Uma contribuição relevante do roteirista. Por razões que explico a seguir. No livro, o herdeiro Tom Bertram é retratado com muita parcimônia, não tem muita participação na história. E não fica muito explícito o envolvimento de Sir Thomas com o comércio de escravos. Ele apenas possui negócios nas colônias americanas. Os dois filmes procuram reforçar um pouco mais as cores de Tom Bertram. Mas, especialmente, no primeiro, o personagem ganha uma chance de revelar os motivos de uma vida tão desligada, irresponsável, boêmia. Nessa versão, Sir Thomas (vivido pelo ator e dramaturgo Harold Pinter) claramente é um dono de escravos. Quando Fanny  retorna da casa dos pais para reencontrar Tom (James Purefoy, o Marco Antonio, da série Roma, da HBO) doente e delirante de febre, sem querer se depara com um caderno de desenhos do rapaz, onde ele retrata os horrores da vida dos escravos. Cenas de açoites, estupros e flagelos terríveis, como um pesadelo a la Goya. Tudo forte demais para uma obra de Austen. Mas, na concepção do filme, esse elemento acabou dando sentido (ou a falta dele) à vida do desvairado Tom. Sempre de porre e alheio a tudo, já que odiava a outra vida na America para onde deveria sempre ir com o pai, já que herdará os negócios da família. Enfim, às vezes, uma forte licença poética ou mesmo acréscimos inimagináveis a uma história podem até fazer bem.

E, de uma maneira geral, as adaptações de Jane Austen para meios audiovisuais têm sempre um tempero a mais no que diz respeito ao amor. Afinal de contas, as histórias têm sempre final feliz. E se é pra ser feliz, como pode não ter beijo? Depois dos filmes, não dá mais pra ler Orgulho e Preconceito sem ver o rosto febril do Colin Firth ou do Mathew McFadyen se declarando ardentemente e descontroladamente apaixonado por Lizzie Bennet. Não mais. É inconcebível que Anne Elliott não ganhe o merecido beijo de Wentworth ou que a pobre Fanny espere a vida toda pelo olhar amoroso de Edmund e não possa se atirar nos braços dele no final. No way, wanderley.

Achei engraçado que existe um livro chamado Jane Austen ruined my life, ou algo assim. Acho que os filmes “estragam” a gente mais ainda.

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