A alma animada de Michel Ocelot


Abriu uma sacola e de lá retirou suas criaturas. Silhuetas e figuras pretas e brancas. Coisas pequenas e delicadas que o sujeito manipula com um amor indisfarçável.

Michel Ocelot: mestre francês da animação

Michel Ocelot: mestre francês da animação

Sabe uma daquelas ocasiões em que você não teve um dia muito bom e é inesperadamente salvo por um filme, um livro ou qualquer outra experiência? Pois é. Tinha programado de assistir ao bate-papo animado (evento do Anima Mundi) com o Michel Ocelot e, depois de um dia chatão, fui salva por sua obra mágica e delicada.

Ocelot me faz acreditar, com alívio, que o trabalho artístico zeloso e sincero é possível. Mesmo num planeta do espetáculo em que o horror virou regra. A exceção é essa rara delicadeza. Chega dói…

Conhecia, até então, apenas dois longas dele: “Kiriku e a Feiticeira” e “Azur e Asmar“. No evento, foram exibidos trechos de várias obras, percorrendo um longo período desde o início da carreira. Técnicas diversas de animação. E sempre as histórias de maravilhas, princesas, príncipes, crianças, magia, transformações.

Les Trois Inventeurs: pequena obra-prima de papel

Les Trois Inventeurs: pequena obra-prima de papel

Em “Os Inventores” (Les Trois Inventeurs), pai, mãe e filha passam os dias em casa inventando coisas. Máquinas, veículos e engenhocas variadas. Mas a mania de invenção não agrada à comunidade a sua volta.

A capacidade de imaginação assusta mesmo as pessoas. É uma excentricidade desagradável pensar e ser de um jeito diferente…

Ocelot criou um conto alegórico sobre isso, com personagens, cenários e objetos de papel recortados como renda sobre um fundo azul. Não é lindo. É esplêndido e singelo. Uma jóia de invenção. O próprio criador considera, sem modéstia, sua obra-prima e, durante o bate-papo, retirou da sacola os pequenos personagens de papel, suas criaturas tão queridas. Feitos daquele papel rendado de forrar bolo, disse ele.

Assista um trechinho de Les Trois Inventeurs.

Lembrei imediatamente da minha infância em frente à TV assistindo o programa Globinho, com a Paula Saldanha, que apresentava séries de animação com massinha, papel etc. Alguns que lembro são “A Linha“, “Mio e Mao” e “O Patinho Quá Quá” (originalmente QuaqQuao), que era feito de papel tipo origami. Me recuso a esquecer essas coisas…

La Legende du Pauvre Bossu
Icare
La Belle Fille et le Sorcier
Bergère qui Danse
Le Prince des Joyaux

La Legende du Pauvre Bossu

lalegendedupauvrebossu

O pobre corcunda: animação sem animar

A história do pobre corcunda. O desenho tem um estilo que lembra o das cartas do tarô de Marselha. Ocelot descreve como uma animação que não é animada. O negócio é que os desenhos são enquadrados em zoom ins,  zoom outs e travellings. A câmera é que se anima para contar a história catártica de um corcunda que se revela um anjo. O áudio também ajuda a animar as imagens.

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Os quatro desejos. Raridade.

Les quatre voeux du vilain et de sa femme

Saint Martin, me dá um cérebro! Esse é difícil de achar nos youtubes da vida. “Les quatre voeux du vilain e de sa femme” é um dos mais antigos trabalhos de Ocelot e a cópia recuperada e exibida por ele no festival está bem precária. Mas é genial a história dos quatro desejos concedidos por Saint Martin a um camponês e sua esposa. O santo aparece para seu fervoroso devoto que chama por ele todos os dias. Este e sua mulher têm direito a quatro pedidos. Ela pede muitos muitos paus e o santo distribui inúmeros pelo corpo do marido. Para se vingar, ele pede muitas muitas xotas, que então, salpicam pelo corpo da mulher. De tão violentamente bizarro e inesperado, não chega a ser pornográfico. A obscenidade é sobrepujada pelo absurdo. Mas a piada é boa. No final, o santo desfaz os pedidos e recomenda: que peçam cérebros na próxima oportunidade.  Será exibido num festival de animação em Zagreb, em junho de 2010, onde haverá uma programação especial dedicada ao realizador francês.


Ocelot também exibiu outros curtas que eram apresentados numa série da TV francesa. São contos de fadas e histórias mitológicas, como Icare (sobre a lenda de Ícaro e o labirinto), La Belle Fille et le Sorcier, Bergère qui Danse e  Le Prince des Joyaux. Todos exploram a estética das silhuetas pretas e são preciosos.

Icare

Icare

Bergère qui danse

Bergère qui danse

La Belle Fille et le Sorcier

La Belle Fille et le Sorcier

Le Prince des Joyaux

Le Prince des Joyaux

“Earth Intruders”, da Bjork. É uma concessão, um arriscado ato de redenção à divindade artística. Ocelot conta que nem gostava da música, mas como era a Bjork…. Ele criou um presente para a cantora islandesa. Com prazo apertado que a gravadora impôs e tudo. Aproveitou para se propor um desafio de técnica e concepção artística. No evento, contou como foi aplicado o efeito dos líquidos móveis sobre o rosto da Bjork. É a velha técnica usada para estampar capas de livros, que mistura tinta óleo de diversas cores numa bacia com água.

Detalhe bacana no início do bate-papo foi quando Ocelot recebeu o prêmio especial do Anima Mundi. Ficou encantado com troféu animado. “Il marche!”, exclamou, ao descobrir que a uma manivela na base do boneco fazia ele andar. Lembro que o John Lesseter, da Pixar, também ficou amarradão quando ganhou o dele, e guarda numa estante ao lado dos Oscar. Trés chic!

Ocelot fala sobre seus filmes ao lado do prêmio especial do Anima Mundi

Ocelot fala sobre seus filmes ao lado do prêmio especial do Anima Mundi

Hiperpalavras!

Ocelot no Anima Mudi

Ocelot na Croácia

Anima Mundi

Michel Ocelot

Ocelot, a jaguatirica

2 pensamentos sobre “A alma animada de Michel Ocelot

  1. Eu fui nesse evento no anima-mundi e foi muito bom mesmo… estou seca atrás do conto Bergère qui danse… queria tanto reassistir mas é impossível de encontrar .-. … no mais ficam as boas lembranças : )

    • e eu ainda não vi o segundo filme do Kiriku. Se eu descobrir como conseguir o Bergère qui danse, te mando um email. Obrigada pelo comentário. Abração! Webdebee

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