A culpa é do Fidel – Como a pequena Anna aprende e ensina os barbudos a serem adultos


Anna e a vida ridícula dos adultos

Anna e a vida ridícula dos adultos

Quem mais viu esse filme no mundo foram os brasileiros, dos quais, boa parte, são cariocas. Num circuito que não ultrapassou as fronteiras da zona sul do Rio, mais pessoas viram A Culpa é do Fidel do que em toda a França – país de origem do longa dirigido por Julie Gravas. Seu próximo filme já pode estrear no Festival do Rio com sucesso garantido. Chique, né? Eu acho.

Mas vamos à história da pequena menina revoltada com Fidel Castro. Assim como a Coraline do post abaixo, Anna é um exemplo de coragem. Crianças são mais firmemente corajosas, determinadas e responsáveis que adultos. E, em geral, sem precisar que os adultos cobrem isso delas. Pois é… Olha a enrascada que é ser mãe ou pai e ver-se diante de uma miniatura de si que é mais esperta e contorna obstáculos com mais desenvoltura que qualquer marmanjo.

Anna de La Mesa é uma garotinha francesa adorável de 9 anos. Estuda num colégio de freiras e tem uma babá cubana que odeia os “barbudos comunistas” de sua terra natal. Mas de uma hora para outra, sua família começa a se comportar de um jeito estranho. Mudam da casa onde viviam para um apartamento.  Resolvem suspender as aulas de catecismo de Anna. Tudo isso acontece porque se envolvem com a situação política da América Latina, apoiando Salvador Allende (a história se passa no início da década de 70), Castro e todo o supra-sumo da esquerda de então.

E é um tal de mudar de babá (porque a cubana não tolera comunistas e é substituída por uma grega, seguida de uma vietnamita), um entra e sai de “barbudôs” no apartamento, festa para comemorar a eleição do Allende, um pandemônio que angustia a pequena Ana e seu irmãozinho. 

 

Abaixo "Les Barboudaux"

Abaixo "Les Barboudaux"

 

No princípio, reage mal à mudança da babá por detestar sair da rotina. Ela gosta e leva a sério o banho depois da escola, os horários para comer, fazer a lição e dormir. Quase morre de vergonha por ser a única aluna a não assistir às aulas de catecismo, pois os pais decidiram que ela não deveria se expor aos “burguesismos” de uma doutrina cristã. 

Mas ela peita legal a família. Não hesita em protestar contra as mudanças. O negócio é que, apesar de parecer um enredo do tipo “crianças caretas e pais porras-loucas”, Ana é o ser mais coerente do filme. Mais madura que os adultos a sua volta. O que é assustador, porém um dos mais óbvios fatos da vida. As pessoas pequenas crescem,  perdem a inocência, deixam de ser “infantis”, acumulam medos e seguem uma trajetória torta até resgatarem a maturidade. Veja bem! Eu escrevi RESGATAR a maturidade. Porque só nos tornamos maduros na medida em que descascamos a crosta dos medos. É quando voltamos a ser crianças, descomplicando as coisas e aproveitando o melhor de tudo.

quem é o careta e quem é o porra-louca?

quem é o careta e quem é o porra-louca?

 

Fui aluna de um grande professor de Usabilidade e Acessibilidade na Web. Ele contou uma vez que existem executivos (e profissionais em geral)  fazendo treinamentos especiais, em que “brincam de ser criança”. É uma tentativa de resgatar uma confiança perdida. Uma coragem e espontaneidade que foram tolhidas pela educação escolar e os dogmas de comportamento familiar/social. Vale tentar visualizar uma criança e um sujeito na faixa dos 50 anos experimentando manusear um mouse de computador pela primeira vez. Quem ficou cheio de medo, o moleque ou o cinquentão?

Muito bem. Mas voltando à Anna, toda essa situação a deixa numa posição frágil, mas privilegiada. Frágil porque fica desamparada. Os adultos perderam seu respeito com suas atitudes infantis. Como diabos Anna vai adquirir sua noção de integridade, honestidade e ética? Por outro lado, ela cresce e aprende com as mudanças e os conflitos. Observa incrédula as contradições do pai, que, apesar de ser filho de uma família aristocrata espanhola, apóia Allende, mas briga com a mulher quando esta defende o direito ao aborto para as mulheres. Anna não entende bem porque isso acontece, mas sabe que algo vai errado. Rejeita as novas babás, mas depois cria laços de respeito ao ouvir suas lendas e histórias. Anna sofre com as perdas e reviravoltas, mas, com elas, encontra o caminho para construir sua identidade.

A família medrosa de Ana

A família medrosa de Ana

 

 

Já os avós... É nós!

Já os avós... É nós!

 

 

Trailer do filme

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