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Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.

Aqui está um resumo:

A sala de concertos da Ópera de Sydney tem uma capacidade de 2.700 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 18.000 vezes em 2011. Se fosse a sala de concertos, eram precisos 7 concertos egostados para sentar essas pessoas todas.

Clique aqui para ver o relatório completo

De arrepiar a canção dos anões.

Ai… falta 1 ano inteiro ainda…

Histórias de espiões, assim como as de máfia, são quase sempre alimentadas por vinganças pessoais. James Bond só volta ao serviço de sua Majestade depois que vinga a morte de Vesper. Em Spooks, Sir Harry Pearce sempre tem uma bala na pistola ou um copinho de whisky envenenado para aqueles que causam a morte de um de seus espiões. Que o digam o chefe da FSB (antiga KGB) que foi responsável pela explosão do carro do agente Adam Carter ou o ex-secretário do Interior, que autorizou outra explosão que matou a ótima Ros Meyers. Quando o Harry aparecer de luvas num recinto, prepare-se. Uma vingança pode estar em andamento.

Spooks

Vingança é um prato que se come com luvas pretas

Parece que a vida necessariamente esquizofrênica dos espiões, pelo menos no universo ficcional, conta com compensações como essa. Ninguém nessa situção consegue ter uma vida pessoal livre das ameaças da vida profissional. E todos eles abrem mão desse privilégio para servirem seu país. Então a identidade do grupo e o senso corporativo falam mais alto. Eles têm que zelar uns pelos outros. Formam uma confraria e vingam a morte de seus companheiros.

A série da BBC chegou ao fim em 23 de outubro deste ano, quando foi ao ar o sexto e último episódio de sua décima temporada. Spooks (já comentada aqui)  foi marcada por desapontamentos. Não é que a série desaponte o tempo todo. É que as histórias têm reviravoltas e desfechos que podem causar frustração para quem assiste. Frustração, desapontamento, decepção como acontecem na vida. Os roteiristas não têm pudor algum ao matar os heróis da série com poucas linhas, economizando na emoção do texto. Mas ainda assim, a ação é suficiente para causar uma reação emocional no espectador. Para mim, a pior morte ou a mais difícil de aceitar é a do personagem Colin. A decepção é meio que uma marca da série. Tem episódios, inclusive, em que a BBC coloca um aviso na abertura com um texto do tipo “esse episódio poderá desapontar alguns telespectadores”.

Spooks

Ruth, Harry, Adam, Ros, Zafar e Jo na 6ª temporada de Spooks

Então, ao longo das dez temporadas, aprendemos a gostar (ou não) do Harry, do Tom, da Cloe, do Daniel, do Colin, do Malcolm, da Ruth, do Adam, da Ros, da Jo,  do Lucas, do Tariq, do Dmitri, entre outros. E vamos dizendo adeus a quase todos eles, ou porque morrem ou porque saem da história. Muitas vezes essas mortes são vingadas. Poucas saídas de personagens são razoavelmente “felizes”, como a da Chloe ou do Malcolm. O último capítulo de Spooks trouxe o desfecho de uma história dentro da história. Um final muito aguardado que, para não variar, resultou em um último desapontamento. E, mantendo a tradição até o fim, a vingança é a personagem mais aguardada da série.

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Guia Webdebee de Spooks

A série produzida pela Kudos para a BBC teve 10 temporadas e seu primeiro episódio foi ao ar em 2002. Em Portugal, a série se chama Dupla Identidade. No Brasil, que eu saiba, não passa em canal algum.

Spooks Temporada 1

Chloe, Tom, Tessa, Harry, Daniel e Helen. Equipe original

Spooks é uma gíria para denominar espiões. Na série da BBC eles são agentes do MI5, serviço de segurança e inteligência que é ligado ao gabinete do sercretário do interior e atua dentro do território inglês. Fora das terras britânicas, quem atua é o MI6, um outro órgão que também atua com o MI-5 e o Ministério da Defesa inglês. Dizem que os agentes do MI5, na verdade, passam a maior parte do tempo ouvindo escutas telefônicas, monitorando imagens de satélites e de câmeras de segurança e analisando todo esse material, chamado de “intel”. Então, na realidade, a inteligência da informação é a principal arma dos MI5. Mas, na ficção de Spooks, os agentes partem da inteligência para a ação em todos os episódios. Harry Pearce é o chefe da chamada Section D, divisão com foco principal na prevenção de ações terroristas. Harry é um veterano do serviço de espionagem inglês. Sobreviveu às transformações do mundo, desde o fim da Guerra Fria. É o único personagem permanente por toda série.

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Melhores temporadas

Assisti às 10 temporadas em ordem meio aleatória. Tentei manter um distanciamento crítico, mas ainda assim, foi uma coisa muito muito viciante.

Spooks Temporada 9

Revelando Lucas North

9ª temporada – 2010

Peguei o bonde de Spooks andando no início de 2011. Acho que foi porque na época eu assistia tudo que tivesse o Richard Armitage (na verdade, continuo fazendo isso… hehe) e falava-se muito da atuação dele em Spooks. Nessa nona temporada (que era, então, a mais recente) os Spooks tinham acabado de perder a valorosa Ros Meyers. Claro que, como era a primeira vez que assistia à série, não entendi coisa nenhuma. Mesmo assim, o primeiro capítulo da temporada já parte para a ação, introduzindo dois personagens novos (Dimitri e Beth) e a substituição da Ros pelo Lucas North (Armitage) no comando das operações da equipe em campo. São oito episódios muito tensos em que são revelados segredos (decepcionantes, é claro) sobre um dos principais personagens.

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Spooks Temporada 7

Adam meets Lucas

7ª temporada – 2008

Essa tem um fio condutor dos epsódios e começa com a chegada do personagem Lucas North e o adeus a Adam Carter logo no primeiro capítulo. Há uma conspiração envolvendo o serviço de espionagem russa, que tinha motivado a captura e tortura de North por longos 8 anos. A temporada avança desvendando a conspiração e tem um daqueles finais desesperadores. Ainda bem que já tinha a 8ª temporada pronta para assistir e não fiquei no suspense mortal dos britânicos, que tiveram de esperar até o outono de 2009 para saber o que tinha acontecido com o Harry. Destaque para a memorável cena do primeiro episódio, em que somos apresentados às tatuagens de Lucas…

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Spooks

Spooks Series 1

1ª temporada – 2002

Na ordem maluca em que assisti, essa foi a minha 2ª temporada de Spooks. Não tem uma apresentação, digamos, didática do contexto ou dos personagens. O espectador meio que cai no mundo dos espiões. Aliás devo admitir que, apesar de ter assistido à série numa frequencia diária e quase ininterrupta, não quer dizer que eu entendia tudo o que estava acontecendo. Tem momentos em que as reuniões de debrief no grid concentram tanta intel e tão rápido que eu me perdia facil. Ainda assim, é possível deixar rolar e entender o “todo” até o final do episódio. Na primeira temporada, a equipe é liderada por Tom Quinn (o bonitão Matthew MacFadyen, que faz o Mr. Darcy do filme Orgulho e Preconceito). E conhecemos também os outros agentes Chloe, Daniel, Malcolm e, claro, o chefe Harry Pearce. Num dos primeiros episódios da temporada, ocorre uma morte horrível de uma personagem, fato esse que gerou muitas reclamações de  telespectadores da BBC. Acho que é nessa 1ª temporada que o Hugh Laurie (House) aparece como um agente do MI-6. As participações dele são poucas, mas excelentes.

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Melhores personagens

Spooks - Harry Pearce

Sir Harry Pearce (Peter Firth)

Harry Pearce  – o chefe da Section D é uma velha raposa do serviço secreto inglês, tendo atuado durante a Guerra Fria, medindo forças, ao lado da CIA, com a KGB. Ganha o título de cavaleiro, tornando-se Sir Harry na sexta temporada (se não me engano). O humor “mal humorado” dele é uma das melhores coisas da série.

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Spooks - Ruth Evershed

Ruth Evershed (Nicola Walker)

Ruth Evershed  – a super nerd do grupo aparece a partir da 2ª temporada. Antes de chegar à section D, trabalhava no GCHQ (ver abaixo no glossário).  Ruth, em geral, é quem depeja toda “intel” sobre os casos nas reuniões de debrief. Tem uma história de amor semi-platônica com o Harry. Na quinta temporada, desaparece para retornar na oitava.

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Spooks - Ros Meyers

Ros Meyers (Hermione Norris)

Ros Meyers – aquele jeito da atriz Hermione Norris de quase não abrir a boca para falar confere um não-sei-que-lá de esnobismo e calma tão chiques. Adoro as frases dela como numa cena em que Ben e Lucas saem correndo para socorrê-la. Ela estava sozinha e desarmada com o  inimigo. Quando eles chegam e tudo se resolve ela sai do local, não sem antes dizer bem ácida “you should work out more”.

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Glossário Spooks

São tantas siglas e termos próprios de espionagem que demora um pouco para se acostumar. Aí vão alguns termos mais citados.

Alfa 1, do you copy? – Alfa 1, Alfa 2 etc. são os codinomes dos agentes líderes em uma operação de campo. Tem uma hierarquia de responsabilidades e comando. Se não me engano, Omega são os agentes da equipe de apoio que fica no Grid.

Alfa, Bravo, Charlie, Delta… – Alfabeto internacional fonético. Usado pelos agentes para informar senhas de acesso por telefone. Neste blog tem o alfabeto completo.

Black Op – Operação realizada por um agente sem autorização de seus superiores.

CCTV – Closed-circuit Television. É o circuito de câmeras de vigilância de locais públicos e privados. No mundo de Spooks, não há uma imagem registrada por essas câmeras que não possam ser facilmente acessadas pela equipe da Section D.

Debrief – Entrevisa ou reunião em que membros da equipe ficam a par das informações e discutem sua próxima missão.

FCO – Foreign & Commonwealth Office. Espécie de Ministério das Relações Exteriores, o FCO é um departamento do governo inglês responsável pela promoção dos interesses britânicos fora do território nacional.

FSB – Sigla nova da antiga KGB. É o serviço secreto russo.

GCHQ – Government Communications Headquarters. Outra agência de inteligência que coleta e arquiva informações para o governo e forças armadas britânicas. Colabora com outros órgãos de inteligência e segurança. Sua origem remonta à Primeira Guerra Mundial, quando decifrava códigos das comunicações dos inimigos.

Grid – Nome dado às instalações da equipe de Harry Pearce

Grosvenor Square – praça em Londres onde fica a embaixada americana. O nome é usado como um sinônimo da própria embaixada e, consequentemente, da filial da CIA na capital britânica.

Home Secretary – Cargo equivalente ao de Ministro do Interior. Trata de assuntos de ordem política, diplomática, econômica e de segurança interna do Reino Unido. O MI-5 está sob a pasta do secretário.

Intel -  Não, não é o fabricante de chips. É um termo que designa toda a informação coletada para apoiar as ações do serviço secreto. Tipo: escutas telefônicas, rastreamento de uso do cartão de crédito, imagens de câmeras de segurança e de satélites e por aí vai.

JIC – Joint Intelligence Committee. Enfim… é uma nação que valoriza a inteligência. Fazer o que? Mais uma entidade ligada à inteligência britânica. O JIC congrega todo esse pessoal do MI-5, MI-6, GCHQ e outros para decisões estratégicas de segurança nacional.

MI5 – De acordo com o site oficial do órgão, o MI-5 é o serviço de segurança responsável pela proteção do Reino Unido contra ameaças à sergurança nacional.

MI6 – Ou Secret Intelligent Service. Serviço de inteligência que atua para além das fronteiras da Inglaterra na defesa do país. É o órgão para o qual trabalha o mítico agente  James Bond, o 007.

MOD – Ministry of Defense. Ministério da defesa britânico.

PM – Prime Minister. Primeiro ministro britânico.

Rogue agent – Agent que opera fora do radar. Sem autorização do MI-5 ou outro órgão de inteligência.

Section D – Nome da divisão da equipe de Harry Pearce no MI5.

Thames House – Edifício em Londres onde funciona a sede do MI5.

Vauxhall  Cross – Sede do MI6 na outra margem do Tâmisa.

Vet – Todos os agentes e pessoas com quem eles se relacionam ou colaboram devem ser investigados e aprovados pelo MI-5.

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Links recomendados

Site Oficial na BBC  -  Tem guia dos episódios, elenco, vídeos etc. Entre em “see all series for spooks” para navegar por todas as temporadas.

Wikipedia – Verbete sobre a série é legal com dados de audiência e dá uma geral na história da série. Mas tem muitos spoilers!!!

Spooks Fan Blog – MI-5, not 9 to 5 – blog de uma fã australiana cheio de fotos e comentários sobre os episódios

MI-5: The Security Service – Site oficial do serviço secreto

Da série TV, livros, chá e broa de milho

Episódio 1 – North and South, de Elizabeth Gaskell

North and South

BBC North and South

Uma recomendação aqui e outra ali em blogs sobre séries e livros me levaram a North and South. A série de 2004 da BBC é uma adaptação em 4 partes do romance de Elizabeth Gaskell. Nunca tinha ouvido falar da autora… Enfim, pode-se gostar tanto de livros e continuar ignorante para sempre. Mas isso é até bom. Depois de já ter visto a série, não resisti e procurei numa livraria de onde saí sem desgrudar os olhos do livro.

Gaskell foi contemporânea e do mesmo círculo literário de Charles Dickens. Ela escreveu uma biografia de Charlotte Brontë. A admiração pela autora de Jane Eyre motivou homenagens como o nome Thornton (personagem masculino principal de North and South) que também nomeia a localidade em que Charlotte nasceu, em Yorkshire.

Há elementos evidentes de Orgulho e Preconceito em Norte e Sul. A sociedade inglesa mudara bastante desde os tempos de Jane Austen até a era vitoriana de Gaskell. Mas a dinâmica do romance marcado pelas primeiras impressões negativas entre uma dama e um cavalheiro, e que vão se resolver com o tempo, é eterna e recorrente. A ascenção de uma nova classe de ricos industriais na região norte da Inglaterra modificou o cenário social do país e novas modalidades de orgulho e preconceito surgiram.

Tanto Austen quanto as irmãs Brontë e Gaskell foram filhas de párocos e refletiram em suas obras sobre questões de suas épocas, como a condição feminina e as distinções de classe. Mas Gaskell vivenciou em especial uma nova realidade inglesa. A autora viveu em Manchester para onde mudou-se depois do casamento com William Gaskell. A próspera metrópole industrial do norte da Inglaterra é retratada em Norte e Sul sob o nome fictício de Milton. O conflito cultural entre os ingleses do sul e do norte tempera a trama do livro, em que a heroína Margareth Hale muda-se com sua família da idílica aldeia Helstone para a cinzenta Milton. O pai, um ex-pároco da igreja anglicana renuncia ao cargo confortável para tentar a vida, em condições bem mais modestas, como tutor em Milton. Nesse cenário, os valores tradicionais da família Hale contrastam com os novos modos da ascendente classe de industriais ingleses. Para Margareth, criada entre a agrária Helstone e a aristocrática Londres, um industrial não passa de um novo comerciante.

North and South

Elizabeth Gaskell: Norte e Sul

Margareth é apresentada a John Thornton, aluno de seu pai e proprietário do moinho de algodão Marlborough. John é um empreendedor orgulhoso e agressivo, que construiu sua fábrica do zero e tornou-se um dos cidadãos mais ricos e respeitados de Milton. Além de ser um partidão. Mas sua mãe, a senhora Hannah Thornton (vivida na série pela ma-ra-vi-lho-sa Sinèad Cusak), não vai facilitar para qualquer sulista esnobe se tornar sua nora.

A outra face de Milton, que se opõe à da prosperidade de seus industriais, é a da miséria de seus operários (outra nova classe social). Gaskell transporta para o romance sua experiência como esposa de um pastor em Manchester, onde conviveu com membros de todas as classes da congregação local. As condições insalubres das fábricas e das habitações dos operários, as greves, a fome e as doenças. Tudo faz parte da nova vida de Margareth em Milton. E esse lado sombrio do norte alimenta a péssima impressão de Margareth em relação a Thornton. Como um cavalheiro pode aceitar esse estado de coisas?

Após uma vida tranquila em uma paróquia do campo por mais de vinte anos, Mr. Hale via algo de fascinante naquela energia que vencia dificuldades enormes com facilidade. O poder das máquinas de Milton, o poder dos homens de Milton, impressionavam-no  por sua grandeza, à qual ele se rendia, sem ter a preocupação de inquirir sobre os detalhes do seu funcionamento. Mas Margareth saía menos, não conhecia tanto sobre as máquinas e os homens, via menos daquele poder de uso público. Quando isso aconteceu, ficou impressionada com um ou dois que, além de atingirem multidões de pessoas, podiam sofrer intensamente pelo bem de muitos. A questão sempre é: será que fora feito todo o possível para minorar os sofrimentos daqueles poucos? Ou, no triunfo da multidão, seriam os fracos pisoteados , ao invés de serem gentilmente afastados do caminho do vencedor, a quem não tinham condições de acompanhar na sua marcha? - Elizabeth Gaskell: Norte e Sul, capítulo 8, Saudade de Casa, página 56, edição bilíngue da Landmark.

Elizabeth Gaskell

Elizabeth Gaskell retratada por George Richmond (1851)

Além do diferente contexto histórico, as tendências artísticas de época também distanciam as obras de Jane Austen e Elizabeth Gaskell. Norte e Sul tem a marca do romantismo, tão forte nas décadas centrais do século 19. A experiência do leitor é um mergulho nas  emoções  mais íntimas e intensas dos personagens. Os sonhos delirantes de John Thornton com Margareth e quando ele observa fascinado a pulseira da moça escorregando do braço para o punho são leves sopros de erotismo entre as asperezas da história. E a rendenção do humano através das dores, renúncias, sacrifícios e atitudes heróicas expandem os ideais românticos da escritora. O tempo de Gaskell era um pouco mais favorável que o de Austen para uma mulher se revelar como escritora, apesar de Elizabeth ter assinado por muito tempo seus livros como “da Sra. Gaskell” (sempre é necessária a identidade de casada, ou seja, ser respaldada por um Sr. alguma coisa). Mas seu texto, assim como o de Austen, possui uma fluência muito livre e inteligente. Me deixou muito curiosa para algum dia ler George Ellliot (Middlemarch) e Charlotte Brontë (Jane Eyre).

E agora ouso expor uma idéia que alimento desde quando terminei de ler Norte e Sul. Não resisti ao projeto de construir esse quadro comparativo entre esse dois grandes romances. Desculpe a minha pretensão. Então, lá vai. Mas cuidado, pois tem spoilers!

Quadro comparativo de Orgulho e Preconceito X Norte e Sul

A série de TV faz uma reconstituição caprichada da época. As sequências no moinho de Malrborough foram filmadas em um museu da indústria textil. São belas imagens de teares e operários trabalhando envolvidos pelos flocos flutuantes de algodão. Numa cena em que Margareth escreve uma carta para a prima Edith, vemos o interior da fábrica e ouvimos a personagem confessar que tinha visto o inferno e ele era branco como a neve. As ruas de Milton são cenários, se não me engano, e reconstroem em detalhes o mobiliário urbano, becos, sujeira e barulhos de uma metrópole industrial vitoriana.

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BBC North and South 2004

O roteiro é de Sandy Welch, que também escreveu as adaptações de Jane Eyre (2006) e Emma (2009) para a BBC. Sandy inventa algumas situações que não constam no romance, mas são eficientes para condensar a trama em 4 partes de uma hora. A sequência em que Margareth conhece Thornton, quando este repreende violentamente um empregado do moinho, não existe na obra original, mas funciona como um choque fulminante de culturas. As liberdades da roteirista não ferem a bela história de Gaskell. E até contribuem com ornamentos sutis como a cena do adeus de Thornton na janela. A neve cai e ele mormura: “look back at me…”

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BBC North and South 2004

O elenco é excelente, com destaque para os belíssimos Daniela Denby-Ashe (Margareth) e Richard Armitage (John Thornton) – os dois protagonizam o que para mim é um dos beijos mais bonitos da história do audiovisual – , Sinèad Cusak (Sra. Thornton) e Brendan Coyle (Nicholas Higgins, o operário grevista). Existe uma edição em DVD lançada no Brasil pela LogOn e que pode ser encontrada no site da Livraria Cultura. Mas já vi em algumas livrarias no Rio.

Richard Armitage, que vive John Thornton, tornou-se um novo mito da TV inglesa desde Colin Firth (para muitos, o Mr. Darcy definitivo). Quando North and South estreou, os acessos ao message board da série derrubaram o site da BBC. Uma multidão queria saber quem era aquele homem.Existe até um termo para a legião de fãs de do ator:  Armitage Army. Bom… se você aprecia belos seres humanos do gênero masculino e ainda não sabe quem é ele, poderá entender quando assistir North and South. Ou as temporadas 7, 8 e 9 de Spooks. Mas depois não diga que não te avisaram: vai se perder para sempre…

Outras séries da BBC sobre obras de Elizabeth Gaskell são “Wives and Daughters” (de 1999), com Keeley Hawes (a Zoe da série Spooks) e “Cranford” (de 2007 e 2009) com Judi Dench. Um dia, quem sabe, também aparecem por aqui dentro da série TV, livros, chá e broa de milho.

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+ Referências

Site da série na BBC.

Para saber mais sobre a autora e o romance.

Para ler North and South no Project Gutemberg

Site da Gaskell Society.

Copie Conforme

Cópia Fiel

“Mesmo a reprodução mais perfeita não possui o “aqui e agora da obra de arte”, sua existência única que contém em si a história da obra. Isso é a autenticidade que classifica o objeto como aquele objeto. A autenticidade escapa da reprodutibilidade.”  - Walter Benjamin, em “A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica”.)

Nos filmes americanos vê-se muitas personagens expressando coisas como: “quero algo real na minha vida” ou “pela primeira vez estou vivendo algo real”. Como se real mesmo fosse aquilo que é único, inédito e com algum frescor de experiência nova. Em Cópia Fiel (Copie Conforme), o iraniano Abbas Kiarostami descasca a superfície turva dessa noção e provoca um monte de perguntas. Então, desculpe pelo monte de perguntas espalhadas pelo post. É que o filme provoca isso. A culpa é do filme, que propõe um exercício sobre dicotomias entre conceitos difíceis de precisar. Real e imaginário. Autêntico ou cópia. Natural ou artificial. Verdadeiro ou falso.

A versão “natural” das pessoas é mais autêntica? Tem mais valor? Como é aquela boca sob o batom vermelho? Ela é mesmo morena ou loura? Fez escova marroquina? E aquele peito de silicone? Quantos mililitros turbinam o traseiro intrépido da popozuda? Que pele se esconde por baixo das tatuagens tribais?

William Shimell (aclamado cantor de opera inglês) interpreta James Miller, autor de um livro sobre autenticidade e falsificação de obras de arte. Elle é sua leitora e comparece a uma palestra do autor em uma cidade na Toscana. Ela se oferece para guiá-lo por um passeio pela região e os dois acabam passando um dia inteiro discutindo exaustivamente questões sobre arte e relações amorosas, e embaralhando identidades.

Elle, personagem de Juliette Binoche, se debate para não morrer nas águas agitadas – onde fez questão de mergulhar – que dividem sua vida original e a vida desejada. O que é mais original? Sua autêntica vida atordoada pela  dificuldade de diálogo com o filho e o marido ou a tarde na bela cidade de  Lucignano, onde quebra o pau em francês e inglês com o escritor? E aliás, será que somos mais verdadeiros quando nos expressamos em nossa própria língua?

CopieConforme

William Shimell e Juliette Binoche. Arte e vida real

As experiências com o real podem colidir de forma inesperada. O escritor conta um episódio que presenciou numa rua de Florença e que o inspirou a escrever o livro sobre a questão das cópias e os originais. Para sua surpresa e desconforto,  esse episódio é mais do que uma impressão da realidade. Ali, diante dele, estava a mulher (Elle) que, naquela outra ocasão, discutia com o filho na rua.

Para Elle, a realidade muitas vezes é só sobre dor e sacrifício. O prazer e a alegria são sonhos. Sonhos não são reais. Por essa via, pais vivem o mundo real enquanto os filhos, com sua natural rebeldia, ainda não despertaram.

Vale arriscar e forçar uma conversa sobre coisas que sua vida frustrada não propiciou? Seria melhor flertar com o que gostaria que fosse o real do que com o que sei que é? E aí me pergunto: o que desejo viver?

Elle e o escritor passeiam aleatoriamente pela cidade, entrando e saindo de museus, igrejas, restaurantes e dos diferentes papéis que assumem, ora de estranhos no parque, ora de marido e mulher. A artificialidade esperada do comportamento dos personagens é quase nula.  São verdadeiros na realidade e na imaginação.

No passeio, os dois conhecem um casal de noivos posando para o álbum de casamento. Os rituais como o do casamento, com suas alianças, tradições e supertições simulam uma vida sonhada pelos noivos e pelas famílias, comunidade, amigos. A cópia ou o objeto simbólico que representa uma coisa pode ser a salvação de quem deseja essa coisa. Como os ex-votos depositados em santuários da Bahia como pagamento de promessa ou agradecimento por uma graça.

“Com sua propensão para criar símbolos, o homem transforma insconscientemente objetos ou formas em símbolos (conferindo-lhes assim enorme importância psicológia) e lhes dá exoressão, tanto na religião quanto nas artes visuais.” – Aniella Jaffé, em O Simbolismo nas artes plásticas, capítulo de O Homem e seus Símbolos (organização de Carl G. Jung).

Copie Conforme

Experiência e Identidade

E tem Marie, irmã de Elle. Esta pede ao escritor que autografe um exemplar do livro com dedicatória para Marie. Elle trabalha numa galeria de arte, mas despreza as cópias que comercializa de grandes obras de arte. Esse desprezo alimenta mais ainda as discussões com o escritor. Devemos desprezar os pássaros que pousam e cantam sobre as esculturas do jardim do Museu Rodin só porque elas são cópias? Porque será que incomoda e até frustra tanto saber que aquele objeto é uma cópia?

Na obra citada no início do post, Walter Benjamin examina o fenômeno da “destruição da aura”. Uma percepção de perda de valor que as obras de arte sofreram com o advento das técnicas industriais de reprodução ou representação do real, como a fotografia, o cinema e as modernas formas de impressão.

Nesse cenário, Marie é que é mulher de verdade. Com seu genuíno marido gago que tem um jeitinho todo seu de pronunciar o nome da esposa. Marie não tem a menor vaidade. Ou pelo menos não a de exigir somente coisas originais, autênticas. Ela se contenta com a cópia. Não conheceu o escritor pessoalmente, mas vai ficar feliz com o livro autografado. Marie é ignorante? Tá feliz na caverna de Platão assistindo Domingão do Faustão e sonhando com o carro chinês que tem 7 lugares mas é mais barato que um utilitário coreano ou um sedan francês?

Daí, vislumbro que cobiçar o que é exclusivo, único, original  pode ser um traço de elitismo. Uma pequena (ou grande) ilusão de grandeza. O sentido de posse exclusiva permeia os delírios de consumo. Vamos patentear a beleza! Registrar o domínio universal www.originalidade.com.

Soube que, recentemente, uma charmosa e tradicional grife italiana fechou suas fábricas na Ásia e voltou ao modelo de produção artesanal em sua cidade de origem. É isso. Afinal, ostentar um “made in Italy” confere muito mais valor.

Nesse filme-jogo, Abbas Kiarostami coloca uns espelhos aqui e ali. Estamos na cena principal, mas podemos espiar o que acontece do lado de fora. O ator diz sua fala, mas também reflete o que seu interlocutor está “dizendo” quando não  o vemos. Os sons são captados com detalhes que invadem os diálogos. E os silêncios, como em outros filmes do diretor, falam alto.

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Para ler Walter Benjamin: A obra de arte na era da usa repodutibilidade técnica

Mais sobe os ex-votos

Para ler Jung: O Homem e Seus Símbolos

De Abbas Kiarostami, recomendo “Através das Oliveiras” e “Gosto de Cereja.

Pessoa

Pessoa

Pessoa

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

Que Pessoa levar para uma ilha deserta? Para sempre a sós com que Pessoa?

Com Pessoa, é claro. E com todas as Pessoas que se multiplicam nos versos dele.

Spooks

Spooks

Eu: – Oi. Meu nome é Débee e estou há 16 horas sem assistir Spooks.

SAG*: – Oooooooooi! Debee!

Eu: – Vou tentar assistir outras coisas hoje, quando chegar em casa. Tipo Bones ou The Mentalist. Será que consigo???

* Spooks Addicted Group

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Muito difícil… Debee vai ter que lutar muito para não ver mais uma história dos agentes do MI5. Para quem não conhece, Spooks é uma série dramática da BBC, que vai para a 10ª temporada este ano e conta histórias de agentes do Security Service inglês, também conhecido como MI5. Especificamente, da divisão contra-terrorista, que eles chamam The Grid.  Pelo que entendi, a diferença entre MI5 e MI6 é que o primeiro cuida da segurança doméstica do Reino Unido, enquanto que o segundo é o Serviço Secreto de contra-espionagem internacional (do lendário 007 e companhia).

Spooks é uma gíria inglesa para espiões, que é basicamente o que os personagens da série são. Nos EUA, é exibida com o nome MI5, talvez porque “spooks” pode ter significado pejorativo para os americanos. Para nós, o termo spooks seria mais ou menos tipo “arapongas” (na falta de algo melhor). Não conheço ninguém do nosso serviço secreto para me ajudar nessa. :)

Confesso que comecei a ver por causa do Richard Armitage (o mais belo exemplar da espécie humana), que faz parte do elenco das últimas temporadas. Mas fiquei viciada por tudo da série. Todos os personagens, as histórias super espertas, as locações de Londres, qualidade visual, tudo tudo tudo bom.

Estou acompanhando agora a segunda temporada (sem Armitage, mas com o  colirão Matthew MacFadyen para compensar). Mas eu e minha irmã (outra pobre viciada) decidimos seguir uma ordem maluca tipo: vimos a 9ª (que é a mais recente), a 1ª e agora estamos na 2ª.  Em seguida vamos pular para a 8ª e alternar: 3ª, 7ª, 4ª, 6ª e 5ª. Só para manter um desapego estratégico aos personagens… porque Spooks tem essa característica que é marca da série. Personagens importantes têm morte certa e trágica em cada temporada. Então, para quem quer assistir, é bom se preparar, porque seu personagem favorito pode muito bem morrer.

Fico imaginando como os ingleses aguentam esperar uma semana para ver o episódio seguinte. Ou 1 ano inteiro para saber como continua a série na temporada seguinte. Assisti a 9ª temporada quase numa maratona delirante. É simplesmente muito viciante. God help me.

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Guia WebDebee para Spooks

Site Oficial da BBC – tem um monte de informação, principalmente das temporadas antigas. Os vídeos de bastidores são legais.

Wikipedia – o verbete da série faz um resumão bom, mas é totalmente spoiler. Tem os índices de audiência e conta casos curiosos de reação do público inglês aos episódios. Em um deles, a morte de uma personagem provocou congestionamento das linhas de atendimento ao telespectador da BBC.

Youtube – Cuidado! Cheio de spoilers!

Vou começar uma série de posts sobre as séries e filmes de TV feitos a partir de livros. Tenho uma inveja mortal dos ingleses por causa da BBC. Pena que a gente não tenha nada comparável. Ok, ok. A TV brasileira tem seus méritos indiscutíveis de qualidade e quantidade de produções. Posso enumerar muitos exemplos. Mas não leve a mal quando digo que, quando se trata de adaptações literárias, não chegamos perto da riqueza das séries e filmes produzidos pelos ingleses. E eles ainda contam com a ITV, concorrente da BBC, que possui ótimas adaptações de livros. O Tempo e o Vento, Grande Sertão: Veredas, A Muralha, O Auto da Compadecida e Os Maias são alguns exemplos preciosos da TV Globo. Mas acho que devíamos nos permitir desejar uma produção muito maior nesse gênero.

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Clássicos em Séries: A Muralha, O Tempo e o Vento, Grande Sertão e Os Maias

Acompanhei novelas desde a infância. As lembranças mais caras são das adaptações literárias como A MoreninhaA SenhoraEscrava IsauraHelenaA Sucessora.  Podíamos ter um projeto de transformar toda a obra de Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar, Bernardo Guimarães, Machado de Assis e por aí vai, em mini-séries ou longas-metragens de TV. Sem querer soar chatamente nacionalista, temos tantas ou mais obras literárias para explorar em audiovisual quanto os ingleses. Enfim.. it’s a long way… Mas agora que somos BRICS, desejados, imitados e líderes dos emergentes, quem sabe? Não é doido termos tão poucas adaptações do Machado e do Jorge Amado?

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Folhetins clássicos das seis da tarde: acima à esquerda, cena de A Morenina; à direita, Rubens de Falco e Lucélia Santos em A Escrava Isaura; e embaixo à esquerda, Carlos Marzo e Norma Bloom em A Senhora

Esses dias, notei um comercial de TV sobre os sistemas ferroviários do país, com um lema tipo: “o Brasil vai bem de trem.” É… mas nossa malha ferroviária é tão modestinha. Falta muuuito para se afirmar que temos algo substancial. O Brasil tem a cabeça no século 21, mas o pescoço, o tronco e as pernas estão esticados ao limite, pois os pés acabaram de pisar no século 19. Foi nessa época que países como Inglaterra e EUA começaram a acelerar sua industrialização e a construção de ferrovias por todo seu território. E é a época em que ambos  países, que estavam entre os mais ricos do mundo,  mesmo assim tinham níveis de pobreza altíssimos. Mais ou menos como o Brasil é hoje. No século 19, o gênero literário chamado romance se estabeleceu e se popularizou. Foi a era que viu surgirem Charles Dickens, Victor Hugo, Leon Tolstoi, Eça de Queiroz e Machado de Assis.

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Adaptações inglesas: South Riding, Zen, Lark Rise to Candleford e North and South.

Então… vamos à lista de alguns posts da série TV e Livros.
Não estão na ordem de publicação, porque não faço a mínima idéia de como ou quando vou escrevê-los. :) E a lista deverá aumentar com o tempo. Por enquanto são só as produções inglesas, pois andei assistindo várias. Mas vou pensar nas séries nacionais para listar em breve.

South Riding – 2011, BBC. Mini-série com 3 episódios baseada em livro de Winifred Holtby.

Lark Rise to Candleford – 2088-2011, BBC. Série que teve 4 temporadas e uns 40 episódios, baseada na obra de Flora Thompson.

Downtown Abbey – 2010, ITV. Série já teve 7 episódios e continua este ano em nova temporada no segundo semestre. Autor:  Julian Fellowes.

The Turn of The Screw – 2099, BBC. Longa-metragem baseado no livro A Volta do Parafuso, de Henry James.

Zen – 2010-2011, BBC. Até agora, a BBC produziu 3 episódios dessa ótima série baseada nos livros de Michael Dibdin.

Sherlock – 2010, BBC. Uma visão mudernosa e curiosíssima do personagem de Arthur Conan Doyle. Até agora foram 3 episódios.

Cranford – 2007, BBC. Mini-série em 5 episódios + 2 (especiais de Natal), baseados em 3 livros de Elizabeth Gaskell.

North and South – 2004, BBC. Essa é das mais cultuadas. Quase alcança a fama de Orgulho e Preconceito de 1995. Também é inspirada por um romance de Elizabeth Gaskell.

Wives and Daughters – 1999, BBC. Mais uma série sobre obra de Elizabeth Gaskell. Tem 4 episódios.

The Ruby in The Smoke (2006) e The Shadow in The North (2007), BBC – Dois longas-metragens baseados em livros de Philip Pullman.

Philip K. Dick: O Homem do Castelo Alto

Philip K. Dick: O Homem do Castelo Alto

Quando terminei de ler O Homem do Castelo Alto, pensei: é isso mesmo? Não entendi nada? E tive que recapitular vários trechos para prestar atenção nas chaves escondidas que abriam portas secretas. Engraçado como estava com as idéias do post anterior sobre sonhos e realidades na cabeça, mas não entrei na onda do livro. Parecia somente um romance que imagina o mundo em 1962, tendo as forças do Eixo ganhado a Segunda Guerra Mundial. E imersa nessa idéia – que combinei comigo mesma e mais ninguém -  li todo o livro, mas derrapei nas implicações metafísicas plantadas ao longo das páginas.  Pois não é somente isso. Não apenas sobre possíveis desdobramentos históricos. É um tanto mais profundo e ousado.

Pesquisando por aí, descobri que o autor, Philip K. Dick, inspirou-se em diversas fontes clássicas para construir o romance. Inclusive um livro que imagina como seriam os EUA se os Confederados do sul tivessem vencido a Guerra Civil Americana. Mas o que me deixou curiosa é que o escritor não costuma ser comparado a nenhum outro autor do gênero ficção científica, embora eu tenha lembrado um pouco de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, em algumas passagens. O legal é que tanto Dick quanto Huxley foram escritores apaixonados por literatura, mas não somente ou especificamente a da tradição de Julio Verne. Dick lia Joyce, Kafka, Steinbeck, Proust, Dos Passos e Ibsen.

James Joyce é uma referência bem evidente em O Homem do Castelo Alto. Parte da narrativa do romance de Dick transcorre no universo íntimo de cada personagem, como os acontecimentos da vida de Stephen Dedalus, em Retrato do Artista Quando Jovem. Os conflitos extremamente profundos entre o mundo real e os valores pessoais, vividos por Robert Childan,  Mr. Tagomi, Frank Frink e Juliana Frink, estão em coerência com a trama complexa e cheia de jogos de ilusões, falsificações, disfarces, duplas identidades, em meio ao  terrível cenário distópico criado pelo autor.

Outras capas de The Man in The High Castle

Outras capas de The Man in The High Castle

Então,  o mundo em 1962 é dominado pelos alemães e japoneses, que são os grandes vencedores da Segunda Guerra Mundial. Os italianos não são muito expressivos em sua partilha da vitória sobre os aliados, mas dominam territórios do norte da África e oriente médio. O regime nazista exterminou praticamente todos os judeus da face da terra e promoveu o massacre da população africana também quase por completo. Os poucos africanos que sobreviveram foram submetidos à condição de escravos. Outro tanto de judeus conseguiu escapar dos campos de extermínio vivendo sob disfarce. A cultura norte-americana foi subjugada. Estrelas de Hollywood deram lugar aos astros dos estudios da UFA. A bomba de hidrogênio foi uma conquista alemã, assim como as viagens espaciais e a colonização de outros planetas. O mar Mediterrâneo foi drenado e transformado em campos agrícolas. O território norte-americano foi dividido em Estados Unidos (de influência alemã), Estados Americanos do Pacífico (território onde se passa o romance inclui toda a costa oeste americana e é dominado pelos japoneses) e a zona neutra das Montanhas Rochosas.

mapa alternativo

mapa alternativo

Mais capas

Mais capas

E tem o livro dentro do livro. The Grasshopper Lies Heavy (O Gafanhoto pousa pesado) é uma obra proibida pelos alemães, porém tolerada nos territórios do império nipônico. O livro, lido por alguns personagens, conta outra história alternativa do mundo em que os Aliados (Inglaterra, EUA, França e Rússia) ganham a guerra. Mas, de acordo com o livro, essa também não é uma alternativa, digamos, exatamente feliz… O autor do livro é Hawthorne Abendsen, o tal homem do castelo alto.

A destruição das culturas dos povos subjugados e a delirante noção de superioridade nipo-germânica conduzem a uma sensação generalizada de paranóia. Os personagens vivem dilemas constantes sobre sua própria identidade, seu lugar no mundo, seu destino. Mas é como se essa dicotomia fosse uma idéia frágil, ilusória. Os próprios nazistas hesitam em acreditar em Hitler, Goebbels ou Göring. Alguns personagens recorrem ao I Ching ou O Livro das Transmutações para decidir que rumo tomar na vida. E esse Oráculo da sabedoria milenar chinesa vai revelar muito mais que o futuro ou o destino daquela realidade.

e mais capas

e mais capas

Acho que caí na armadilha virtual de Philip K. Dick. Li o livro sem decifrar direito as charadas do I Ching, as entrelinhas de The Grasshopper lies heavy ou os diálogos enigmáticos entre Mr Childan e Mr. Kassoura. Passei pelas páginas como os personagens do livro. Com um olhar iludido por uma coisa que parecia bastante com uma realidade.

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Guia Webdebee para O Homem do Castelo Alto

O Livro – leia ou baixe a obra nessa página do Scribd. A edição que li é 1987, pela Circo de Letras. A desse link é outra edição de 1971, quando o autor ainda era vivo. Tem uma introdução maior e conta que Philip gostava de Ibsen, de gatos e ouvia Monteverdi e Buxtehude. Jóia rara.

Philip K. Dicksite oficial do escritor. Parece bem completo, mas não naveguei muito.

The Man in the High Castle (a big fat spoiler) – esse verbete da Wikipedia é um total estraga prazer da leitura, mas lança algumas luzes interessantes. É como discutir episódios de Lost ou Fringe com amigos e ficar pensando: “putz… é mesmo. Porque não notei isso?” Tem até o mapa mundi com a divisão territorial do Eixo. As informações sobre o autor também são legais. As idéias de O Homem do Castelo Alto voltam em outros romances como Do Androids Dream of Electric Ship (que inpirou o filme Blade Runner), que vou começar a ler em seguida (pelo menos, acho que não vou resistir…).

I Ching ou O Livro das Transmutações – está entre muitas coisas que adoraria aprender como piano, cabala, yoga, dança flamenca, tai-chi, violão e kung fu. Já tentei a versão virtual do UOL, mas achei tão, tão difícil…  Mais sobre o Oráculo.

Mini-Série da BBCRidley Scott está produzindo para a BBC1. Oba oba oba!  Prometida para 2011. Não sei como ainda não filmaram isso, mas será que conseguem chegar no mesmo nível do filme Blade Runner?

capas e o autor (à direita)

capas e o autor (à direita)

Infelizmente não pude ler fazendo anotações e tags com post-it amarelo como gosto de fazer. Então, fico devendo um glossário. O livro tem um monte de expressões em alemão. Mas nada que o oráculo Google não ajude. :)

Inception (A Origem)

Inception (A Origem)

Da série de posts ridiculamente atrasados…

Como a vida, tudo começa numa medida pequena, invisível, imperceptível, insignificante. Um peteleco num cisco preso na lã do casaco ou uma piscada de olho de um piolho e voilà! Algo começa. As idéias podem estar dormindo como sementes microscópicas na memória. Mas quando ganham corpo, quem sabe até onde irão ou qual dimensão irão alcançar?

Esta semana fiquei lendo um daqueles adoráveis forros de bandeja do McDonald’s. Coisas simples como uma gota d’água dão origem a algo simplesmente fantástico como ondas no oceano. Achei uma das melhores campanhas da rede de fast-food. O ilustrador chama-se Hiro Kawahara. Tirando o item da ostra e o colar de pérolas (pois a ostra, sim é fantástica e não o colar), simplesmente adorei.

Simples e Simplesmente. Campanhad as bandejas do McDonald's

Simples e Simplesmente. Campanha das bandejas do McDonald's.

Christopher Nolan é conhecido por seus filmes quebra-cabeça, como Amnesia e The Prestige (O Grande Truque). Também, é claro, é o realizador dos dois filmes do Batman mais inteligentes já feitos. Então, depois de uma coisa como o Cavaleiro das Trevas, a expectativa em relação ao Inception (A Origem) era enorme.

Vejo a idéia central de Inception como um jogo que se passa no outro plano da vida. O plano que se dá nos sonhos.

Os sonhos ocupam boas horas de quem vive. Se vive nos sonhos. Há vida neles. Às vezes resolvo problemas num sonho, para acordar depois e perceber que não resolvi coisa alguma. Mas às vezes os sonhos realmente ajudam a resolver os problemas. Um sonho pode cansar. Como quando estudava dança e fazia exercícios na barra dos sonhos e acordava com a sensação de que não precisava ir à academia naquele dia. Podemos sonhar com algo que estamos esperando para acontecer e acordar achando que já fizemos, para depois descobrirmos que temos que fazer tudo de novo.

Inception

a anti-lógica dos sonhos

Minha irmã sonha frequentemente que pode voar. Eu sonho que posso flutuar. Que a gravidade é fraca e posso me desolcar sem precisar pisar no chão. Então, se nos sonhos podemos eliminar paradigmas como a gravidade, estaríamos falando de um lugar para testes? Seria o sonho um louco laboratório da vida desperta? Uma experiência alternativa da vida? Plantar uma idéia em um universo com outra lógica (ou sem ela) poderia ser um experimento controlável? Será que, como em Matrix, em que as personagens fazem download de habilidades, como pilotar helicópteros, podemos experimentar coisas ou aprendê-las sonhando? Será que veremos o dia da manipulação da vida sonhada? O surgimento da biotecnologia dos sonhos. Se, nos sonhos, podemos tudo, mas não podemos manipulá-lo, e se na vida acordada, não podemos tudo, mas temos mais chances de controlar o caminho, haveria um jeito de inverter os parâmetros? Imagino poder encomendar sonhos bons. Pego o cartão de crédito e pago por uma pílula dos sonhos programados.

Inception (A Origem)

Dream designers. Dream hackers.

Mas somos nós, os seres despertos, os mesmos que vivem nos próprios sonhos?

Tem um filme com a Demi Moore chamado Passion Mind (Paixões Paralelas), de Alain Berliner, em que ela vive uma vida desperta e outra dormindo. Acordada, ela é Marty, uma executiva solteira e rica de Nova York. Dormindo, é Marie, uma dona de casa viúva com filhos no interior da França. Ou pode ser o contrário. As duas Demi Moores anseiam pelo adormecer-despertar para a vida uma da outra. Não é grande coisa o filme, mas o conceito é interessante. Lembra um pouco o “A Dupla Vida de Veronique”, do Kieslowski. Mas este último não é exatamente sobre sonhos.

E afinal, um dos baratos da vida não é ter a porção sonhada compartilhando o corpo e a mente da porção consciente? Uma porção pode ajudar a outra, mas também podem destruir-se mutuamente?

cinema, literatura, imaginário dos sonhos

cinema, literatura, imaginário dos sonhos

Ontem, conversando com minha irmã sobre o rascunho deste post, ela mencionou um conto de Julio Cortázar que leu há muito tempo, sobre uma mulher que sonha com a vida de outra e as duas trocam de lugar. Acabamos encontrando o conto na coletânea Bestiário. Chama-se Lejana e é narrado em forma de diário escrito por Alina Reyes. Alina tem dificuldade para dormir e inventa anagramas e palíndromos para cair no sono. Mas sonhar significa viver como sua parte distante, la lejana: a outra mulher que vive mendigando pelas ruas geladas de Budapeste. Alina odeia a outra porque sente seu sofrimento, mas ao mesmo tempo, vê-se culpada e preocupada. Quando escreve no diário, usa a primeira pessoa, mas confunde-se entre o que acontece a ela e o que sofre a outra. Sonha com a outra ao dormir e também acordada enquanto ouve concertos de Fauré, Mozart e Chopin. Nesses momentos torna-se la lejana. E tem uma ponte sobre o Danúbio. A fronteira, o ponto de encontro entre as mulheres distantes. Alina é consciente dessa ponte em Budapeste, do frio e de sua porção  distante que deve encontrar lá. Deseja irresistivelmente chegar à ponte para o abraço com a outra. ” Ceñía a la mujer delgadísima, sintiéndola entera y absoluta dentro de su abrazo, con un crecer de felicidad igual a un himno, a un soltarse de palomas, al río cantando. “

Nos volumes da HQ Sandman, de Neil Gaiman, há uma exploração vastíssima do universo e das possibilidades e concepções do sonho. Lugares sonhados (como Fidler’s Green, o lugar-sonho). Guardiões de livros que só existem em sonhos. Pessos que sofrem de insônia ou que não conseguem acordar. Pesadelos. Gente que entra nos sonhos dos outros, que rouba sonhos, que não consegue sonhar, que controla sonhos alheios, que se refugia em sonhos, que aprisiona outros em sonhos. Além da antropomorfização do sonho. O sonho é um moreno esguio e alto, cujos olhos são como uma noite estrelada. Sonho (ou Sandman ou Morfeu) é irmão de Morte, de Destino, de Desejo, de Desespero, de Delírio e de Destruição. Quando Sonho é aprisionado por um bruxo (evento que acontece no primeiro volume da série, Prelúdios e Noturnos), a humanidade enfrenta anos de distúrbios e privações dos sonhos. O grande príncipe tecedor dos sonhos fica fora de combate por várias décadas até se libertar e iniciar a jornada de restauração de seu reino.

Inception (A Origem)

a arquitetura dos sonhos

Inception conta uma história um tanto apressada de pessoas que se infiltram em sonhos. E sobre as tecnologias e estratégias que as ajudam a invadir sonhos para alterar o curso “natural” da vida desperta. Alguns personagens criam lugares secretos nos sonhos para onde desejam voltar. Outros querem convencer pessoas a decidir por algo que irá trazer vantagens na vida acordada. Uns querem viver só nos sonhos. Outros podem matar outros nos sonhos. Morrer nos sonhos. Será possível?

Ariadne (Ellen Page) é uma arquiteta contratada por Cobb (Leonardo di Caprio), um dos dream hackers, para criar cenários dos sonhos. Como Teseu, que precisa de Ariadne para sair do labirinto, sem os designers de sonhos, fica difícil sair deles ou se proteger das armadilhas.  Exatamente como um jogo, mas em que as regras evoluem num universo de anti-lógica. Outro personagem interessante é Eames (Tom Hardy), o enganador, que se faz passar por outras pessoas nos sonhos para iludir os sonhadores. Como uma Mística (a mutante azul dos X-Men) do mundo dos sonhos.

Inception (A Origem)

a semente que gira invisível nos sonhos

Na vespera da estréia do filme nos cinemas, li esse texto muito bom da Ana Maria Bahiana. Mas não sei se ocorreu comigo o mesmo de quando vi O Cavaleiro das Trevas (do qual tive grandes expectativas, mas precisei ver de novo para apreciar como se deve), ou se realmente ficou faltando algo na história de Inception. Não é um conceito simples. Uma idéia tão grandiosa, que talvez tenha faltado sonhar mais com ela. Seria este um filme para completar a experiência sonhando? Uma semente para germinar no rascunho e na edição de um post? Food for thought? Food for Dreams?

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